O Segredo de Sarah
Capítulo Dois
Chegamos bem atrasados ao convento. Antes de descer do carro, meu pai ainda me olhou com piedade, ele não perguntou por que eu chorava, ele simplesmente me ouviu chorar, segurou por dois minutos ou menos a minha mão, e se trancou no seu mundo sereno e frio. Seguimos viagem assim, querendo dizer algo um para outro, mas não existia nada para falar, então respeitamos o silêncio.
A Madre nos esperava na entrada e, pelo seu olhar, ela não havia gostado nem um pouco do nosso pequeno atraso, eu escolhi ignorá-la, e fingi não perceber. Ela e meu pai se envolveram em uma conversa, porém eu não me concentrei no assunto, eu tinha mais o que ver. O lugar era lindo, havia grama a perder de vista, como o mar que a Lidia me dizia. Se algum dia eu fosse desenhar o paraíso, seria aquela a imagem em que eu me basearia. Havia árvores frutíferas e muitas flores, canteiros gigantescos de rosas de cores chamativas e vivas que iam até os imensos portões que o separavam do mundo. Era lindo como os portões do céu, a única coisa que faltava ali eram pessoas. Senti alguém segurar em minhas mãos, era meu pai; seu olhar estava triste, ele parecia que havia desistido de algo. Chamou-me a um canto e, numa voz baixa e rouca, disse sem rodeios:
— Você tem certeza que quer ficar? Posso levar você pra casa agora, não vou ficar bravo e nem decepcionado, só quero que você saiba que não precisa ficar aqui.
Eu confesso que até hoje ainda me sinto surpresa com aquelas palavras. Não esperava ouvi-las, nem ver a tristeza nos olhos do meu pai, eu quis voltar com ele, ficar em casa; eu tinha tudo, não precisava lutar por nada, duas pessoas já haviam lutado por mim, eu apenas precisava relaxar e ter o que o dinheiro poderia comprar, mas para dividir com quem? Eu não estava certa de tudo o que eu iria fazer, mas eu estava certa que deveria ser feito, então eu iria fazer. Abracei meu pai — o que o pegou de surpresa —, fiquei o máximo que pude abraçada a ele, pois eu não sabia quando o veria de novo, ele correspondeu ao meu abraço, mas não por muito tempo. Respirei fundo antes de olhar para ele de novo, e lhe disse com a voz mais firme que consegui:
— É meu destino, pai, e eu vou segui-lo, eu tenho medo, mas o senhor me ensinou a ser forte, eu vou ficar porque quero algo que, ficando em casa, eu nunca poderei ter. Uma vida. Vá em paz, meu pai, em breve nos veremos.
Assim, sem mais, eu segui rumo às escuras portas do lugar que passaria a ser minha casa
A Madre estava parada a poucos metros da porta, acho que ela havia escutado o que eu disse ao meu pai, porque ela estava sorrindo como quem havia vencido uma dura batalha, eu fiquei com medo dela; sem dizer nada, ela seguiu corredor adentro, e eu fui logo atrás. Eu admito que a ideia do convento, no início, não me assustou, no entanto, quando entrei naquele imenso lugar, senti um calafrio percorrer meu corpo, o gelo daquele corredor conseguiu esfriar meu espírito. Acho que, no mundo, não deve existir outro lugar tão vazio de pessoas e tão cheio de sensações. Apelidei de castelo, e nunca chamei de outro nome.
O castelo era enorme, tinha vários quartos, salas e capelas, e mais uma vez, só não tinha vida. A Irmã Gloria me disse que tinha que ser solitário mesmo, porque quando você está sozinha, é quando você consegue encontrar a sua alma, e elas queriam a minha alma. Os inúmeros corredores daquele lugar, além de frios eram escuros. As imagens pareciam me acompanhar com os olhos, me olhavam fixamente, me analisando, me julgando, me culpando.
Não avistei nenhuma freira quando cheguei, éramos somente eu e a Madre. Eu nunca soube o nome da Madre, sempre foi Madre. Às vezes, quando penso nela, fico imaginado o que leva uma pessoa a ter uma vida vazia, solitária e esquecida, escuto ela me dizer que é isso que Deus quer de nós, e me pergunto se isso é verdade. Qual a verdade de todas essas religiões e crenças, qual a certa? Qual a errada? O que Deus quer de nós? Acredito que não terei essas respostas agora e, para falar a verdade, espero não ter tão cedo, espero.
Mas voltando ao castelo, andamos bastante até chegar ao que parecia ser um escritório. A porta, como todas as outras daquele lugar, era de um marrom-escuro sujo, de madeira, grande, e quando a Madre a abriu, ela rangeu como um porco ferido no matadouro; a sala era grande e fria como os demais lugares, os poucos quadros na parede eram de santos, todos muito bem emoldurados e pendurados, a mesa era da cor das portas e sobre ela, havia uma grande bíblia, alguns livros e um jarro com margaridas amarelas. O que mais chamou minha atenção naquela sala, foi a imensa janela de vidro atrás da velha mesa. Da janela, era possível ver o imenso jardim, os muros e um bom pedaço da estrada, era um lugar para se passar horas.
A Madre apontou uma cadeira para que eu me sentasse, eu a obedeci imediatamente, e me dei conta, naquele momento, que dali por diante, obedecê-la seria uma das minhas obrigações.
— Bem, menina, a vida aqui é mais exclusa mesmo, mas pelo o que seu pai me contou ao seu respeito, não será muito diferente da vida que você leva em sua casa. Você terá obrigações e regras como em todos os lugares, nosso regime aqui não é uns dos mais fechados, mas fazemos certas exigências, como, por exemplo, você só terá permissão para ter visitas uma vez a cada quatro meses. Pode ser aqui ou você pode ir até seus pais, um dia apenas. Temos um correio que funciona todos os dias, mas suas correspondências passarão por mim antes de ir ou vir; dentro do convento, as freiras falam umas com as outras apenas o necessário; não existem amizades aqui, somos irmãs que necessitam do silêncio para cumprir nossas tarefas. O dia aqui começa às cinco horas da manhã, o café será servido às seis, depois terá tarefas a realizar. Meio-dia, pontualmente, o almoço será servido, depois mais tarefas; a janta é servida às seis, e às sete horas você se recolhe em seu quarto. Haverá noites que passaremos em claro rezando e jejuando, mas isso não é sempre. As irmãs aqui fazem a limpeza, a comida, lavam e passam as roupas, cuidam do jardim e, durante as tardes, fazemos artesanato para vender na cidade. Esse dinheiro, usamos para pagar contas do convento e em obras de caridade. O mais difícil aqui é o começo, mas com o tempo, você vai se acostumar, e então tudo se tornará mais fácil. A igreja do convento tem missas abertas ao público todo domingo, você poderá participar, mas não poderá falar com as pessoas. Com o tempo você poderá interagir com elas, ir pra cidade vender artesanato com as demais freiras e participar de obras de caridade, só mais tarde, quando seus sentimentos estiverem claros sobre suas escolhas, quando não se ouvir lamúrias de sua boca, quando você só tiver paz a transmitir. Você agora é uma noviça, vestirá um hábito branco e participará de algumas iniciações. Lembre-se, isso não é uma prisão, você não é obrigada a ficar aqui, é?
—Não, madre, eu quero muito estar aqui — respondi aérea
—Quero que você lembre todos os dias que tem o direito de escolher se quer ficar aqui ou não, ser uma esposa de Deus é algo que você tem que querer, pois ninguém pode escolher isso por você.
Eu ouvi tudo que a Madre disse e, naquele momento, tive vontade de sair correndo gritando “pai, me espera por favor”, mas eu sabia que seria a escolha errada, então continuei a ouvir e me desliguei do medo. Ela ainda falou muito sobre escolhas, levou mais uma hora para ela acabar de falar; segundo ela, não seria falando que eu aprenderia, e sim, vendo, então ela pediu para que eu a seguisse para aquele que seria meu quarto. Passamos pelo o que parecia ser os mesmos corredores. Com o tempo eu descobri que todos os corredores pareciam iguais, assim como todos os quartos e todas as capelas e todos os banheiros enfim, quase tudo ali era igual, a Madre abriu a porta dos meus aposentos, como ela disse, e ela foi a primeira a entrar. O quarto era pequeno, tinha tons de cinza e branco, havia uma cama de solteiro de ferro gradeada que mais parecia um catre de penitenciária, uma pequena cômoda cor de madeira, uma mesa pequena com uma Santa Maria, algumas flores e umas velas acesas. O lugar, assim como todo o castelo, cheirava a velas. Havia uma janela também, bem pequena, no alto da parede, inatingível, (não, madre, eu não vou fugir por ali), enfim, um quarto simples.
— Você vai passar o resto da tarde rezando o terço. Reze ele inteiro por dez vezes. Ao término, você descerá para se banhar e jantar — disse, e saiu do quarto
Ajoelhei-me perto da santa e, de todo meu coração, rezei com fé e, durante aquela tarde, nada mais havia em minha mente, que não minha própria voz falando com Deus.
Como se pode imaginar, não havia relógios lá, eu soube que era noite apenas pelo escuro que entrava pela janela do quarto. Quando terminei minha reza, eu me levantei do meu canto de orações e só então me dei conta da dor insuportável dos meus joelhos e costas. Quando me virei, quase morri do coração, a Irmã Gloria estava sentada, serena, em minha cama, ela olhava fixamente para mim, parecia uma aparição. Dei dois passos para trás e ela sorriu. Não fazia ideia de quanto tempo aquela mulher estava ali, ela permaneceu serena e falou suavemente:
— Não se assuste, menina, vim buscá-la para um banho, e para você fazer seu desjejum.
Eu a segui pelos corredores, entramos em um lugar grande, branco com inúmeros chuveiros e pias. Um gigantesco banheiro comunitário cujos sanitários estavam separados por portas de plástico. Assim como os demais lugares, estava vazio. A irmã deixou sobre uma mesa as roupas que passariam a cobrir meu corpo dali por diante, e saiu. Junto com a roupa tinha um pedaço de sabão, uma toalha fina e uma touca para os cabelos, havia também uma escova e creme dental, nada ali era meu. Retirei minhas roupas e deixei na sacola que a irmã havia deixado para mim. Entrei no banho e, qual não foi nenhuma surpresa ao descobrir que a água era fria, ainda bem que o clima era quente. Demorei mais que o necessário, vesti a túnica e arrumei meus cabelos, não havia espelhos para olhar minha imagem e ver como o hábito me caía, então desisti de tentar ficar bela e resolvi procurar a Irmã Gloria.
Pela primeira vez, desde que havia chegado, eu estava tentando me achar naquele lugar. O refeitório era dois quartos depois do banheiro, e para minha surpresa, havia muitas freiras ali se alimentando, elas não falavam, mas sorriam generosamente umas para as outras. Quando me viram, direcionaram-me um bonito sorriso, Irmã Gloria surgiu do nada de novo — aquela mulher tinha o hábito de aparecer do nada parecendo uma assombração —, pegou a sacola das minhas mãos e sumiu nos corredores. Fiquei por um tempo tentando visualizar todo o lugar para me sentir um pouco em casa, não demorou muito para uma outra irmã ir até onde eu estava e me entregar uma bandeja grande de metal, ela me conduziu até uma fila onde fui servida com arroz branco, verduras cozidas no vapor, feijão e meio pedaço de bife de frango. Antes de chegar na mesa, ganhei um copo de suco quente e aguado, mas para minha surpresa, descobri-me com fome e não demorei para limpar todo o meu prato, em silêncio, como todas ali.
Entreguei minha bandeja na cantina, então percebi que as freiras começaram a desaparecer no escuro dos corredores, e eu ali sem saber para que rumo seguir, em segundos a sala havia ficado vazia, e eu me vi sozinha imaginando o que fazer. A Irmã Gloria foi ao meu socorro segundo depois, ela sorria, eu acho que ainda não havia visto aquela mulher sem um sorriso no rosto bochechudo. Era confortante, tenho que admitir. Ela me levou até meu quarto e, antes que eu entrasse, ela falou:
— A partir de amanhã, você fará esse e todos os outros trajetos sozinha.
E assim foi todos os dias seguintes.
Um mês se arrastou naquele lugar. Se não fosse a outra vida que me esperava, eu teria enlouquecido. Tudo ali era de uma pontualidade inacreditável, parecia que o relógio trabalha para elas, não havia atrasos em nada, banhos e refeições tinham hora pra começar e hora pra terminar. A refeição não variava muito, ou era um pequeno bife de frango ou de carne, as verduras era plantadas no jardim, assim como as raras frutas que comíamos no café, pois geralmente era um pão e café com leite, o almoço era a mesma coisa do jantar, não tínhamos permissão para comer fora isso, mesmo com árvores de frutas no jardim, se comêssemos seríamos castigadas. As tarefas eram bem divididas, em alguns dias trabalhávamos na cozinha, não cozinhávamos pois tinha uma freira só para isso, mas limpávamos o chão e lavávamos os pratos; em outros dias limpávamos os banheiros ou os enormes corredores, cada freira, sendo noviça ou não, tinha que manter seu quarto limpo; capinávamos a grama e plantávamos na horta; durante as tardes, fazíamos artesanato de palha de coqueiro ou gesso. No começo, sofri bastante, mas me acostumei rápido, e as tarefas de chatas passaram a ser as únicas coisas capazes de matar o tempo naquele lugar.
O que mais senti foram os jejuns. eram dias complicados. Nas semanas de jejum, as noviças, por falta de experiência, desmaiavam em cantos dos corredores e nos banheiros, e isso deixava aquele lugar ainda mais sombrio. Os longos períodos começaram sendo um dia, depois dois, assim, cada nova semana aumentava um dia. A Madre dizia que era para nos tornar fortes, no entanto, eu me sentia muito fraca com aqueles longos períodos sem comer. Aos domingos, podíamos assistir à missa à distância dos fiéis, por dois domingos, vi meus pais, Minha mãe olhava para mim por toda a missa, estava ainda mais triste; meu pai evitava olhar, porém foi no último domingo que completava um mês que me surpreendi com a Lidia sentada no último banco da igreja. Antes do final da missa, ela conseguiu se aproximar de mim. Não demonstrou me conhecer, apenas ficou perto. Uma grade de ferro nos separava, ela chegava cada vez mais perto, eu sentia tanta vontade de gritar, de abraçá-la, eu sentia falta dela. As outras feiras não se importaram com a aproximação, afinal, quase todo domingo uma ou duas moças ficavam a nos observar, geralmente eram aquelas que tinham interesse de seguir o caminho que seguíamos. Lidia estendeu as mãos tão rapidamente que a freira que nos vigiava não foi capaz de ver o bilhete que ela pôs em minhas mãos junto a um pequeno anel com um minúsculo relógio fixo nele. Fiquei assustada, imóvel, com medo do que poderia acontecer se a Madre descobrisse tal desobediência.
Naquela noite, na luz da vela no meu quarto, eu li o bilhete.
Existe um muro nos fundos, logo após as hortas, por trás de todas aquelas macieiras, o muro ali é mais baixo, terá uma cadeira de montar perto, seu trabalho será pular, vou te esperar do outro lado na segunda...
P.S.: Uma das freiras fica acordada até mais tarde, tipo meia hora, uma irmã rebelde, saia as sete e trinta e cinco, aguardo você.
Lidia
Eu comi o bilhete depois de ler e reler.
Aquela noite de domingo eu não dormi. Sentia-me ansiosa e tinha medo ao mesmo tempo. Vi o dia amanhecer e me levantei antes das irmãs, caminhei até a capela e me ajoelhei, eu sabia que teria que conversar seriamente com Deus em algum momento, mas não sabia bem como começar, eu não sabia bem o que falar. Como pedir perdão por algo que não pretendemos parar de fazer? E como seguir sem a proteção dele? Sem querer, passei as mãos na pequena cicatriz no canto do meu dedo mindinho e as lembranças me levaram de volta àquele dia.
Era tardinha de sábado, um sábado qualquer, em que não se faz nada, apenas se fica em casa. Lá em casa tinha muitos desses sábados. Minha mãe estava fazendo panquecas, e ela sabia que cozinha não havia sido seu forte (nem o fraco, cozinhar nem deveria existir no vocabulário da minha mãe), ela fez aquela massa grudenta e jogou para cima, foi uma catástrofe.
Ela brigou, gritou, jogou tudo na pia e saiu chorando para o quarto, minha mãe sempre foi muito dramática.
Peguei o livro de receitas e fiz as panquecas, não ficou a melhor do mundo, mas dava para comer e estava no prato e não grudada no teto da cozinha — Maria levou três dias para arrancar aquilo. Levei para minha mãe no quarto, ela sorriu, feliz e preocupada ao mesmo tempo, segurou a minha mão e viu o corte pequeno feito por um prato que eu havia quebrado durante o processo. — Mamãe, eu fiz as panquecas, você não briga comigo, eu quebrei seu prato mais bonito, mas eu fiz, olha.
Ela me abraçou.
— O que mais imposta disso tudo, não são os pratos quebrados, ou as panquecas feitas, ou mesmo o motivo. Por falar nisso, obrigada pelas panquecas, filha, o que importa para mim é o quanto você se machucou. — Ela beijou o machucado. — Eu não quero que você se machuque.
Então eu soube o que conversar com Deus.
“Pai, me ilumina para que eu não me perca na escuridão, nessa jornada que eu vou fazer, independentemente dos pratos que eu possa quebrar ao longo do caminho, peço que o Senhor não permita que eu machuque as pessoas que amo, e que se, por acaso, eu não Lhe der orgulho, que meu fracasso seja digno de Seu perdão, e como eu sei que o Senhor me ama, prometo não me ferir, mas se acontecer, prometo aguentar firme sem chorar. Amém”.
Me levantei e comecei meu dia, mais forte.
As meninas já estavam no refeitório, e eu estava atrasada, portanto, eu não iria comer. Nem uma delas se compadeceu da minha fome, continuaram a comer enquanto Irmã Graça me colocava na fila que se formava para ir trabalhar no jardim. No começo, quando eu imaginei ir para aquele lugar, eu li muito sobre conventos, então eu já sabia o que me esperava, mas eu sempre imaginei que, de tantas mulheres ali enclausuradas, pelo menos uma delas seria minha amiga, mas eu havia me enganado drasticamente. As moças ali presentes não queriam amizades, mesmo que fosse permitido. Elas eram frias e duras, algumas tinham a minha idade, outras já estavam bem velhas. Mesmo quando ninguém as olhava, elas continuavam automaticamente a fazer as mesmas coisas, elas pareciam muito mais sofridas que eu, estavam presas dentro delas mesmo e ninguém poderia mudar isso.
“De longe é ruim, de perto é pior”, deveriam escrever isso na frente de todos os conventos. Eu estava exausta e com fome e o tempo não passava, cada passo que eu dava embaixo daquele sol escaldante me matava um pouco, já era quase a hora do almoço e havia muita grama para arrancar, eu me concentrava muito para continuar em pé. Eu já estava acostumada com jejuns, mas talvez a noite sem sono ou a adrenalina pelo o que estava por vir estivessem fazendo aquelas horas muito difíceis.
— Almoço, menos você, irmã — disse apontando para mim.
Aquela foi a segunda vez que eu quis morrer.
Terminei meus afazeres às cinco da tarde, só então elas me permitiram tomar banho e comer. Foi um castigo doloroso e severo, mas eu aguentei, sem cair, sem reclamar, sem chorar.
***
Senti meu estômago revirar o pequeno pão que eu havia comido na janta. Era a terceira vez que eu abria e fechava a porta do meu quarto, pelo anel-relógio eram sete e trinta e três, faltava pouco para eu pôr em risco toda a minha credibilidade com meus pais, com as freiras e, mais importante, com Deus. Eu sabia que ele estava vendo o que eu estava fazendo, mas tinha certeza que ele queria que eu fizesse direito. Mesmo com toda aquela náusea, eu resolvi tentar. Se desse certo, seria Deus dando seu okay para aquele sonho maluco; caso alguém me apanhasse, seria um sonoro não para toda aquela loucura, e eu ficaria no convento e seguiria a vida que estava predestinada a viver, sem grandes aventuras.
Sentei um pouco na cama e me vi rezando baixinho para que tudo corresse bem, eu não me via fazendo outra coisa a não ser dançar. Por noites, no quarto mal iluminado do convento, eu dançava como se eu tivesse em um palco, como se aquilo fosse a minha fonte de vida, meu caminho. Aquele sonho estava dentro de mim, e eu me alimentava dele, eu estava disposta a ir atrás dele, e que Deus tivesse piedade da minha alma e perdoasse os erros que seriam cometidos para alcançá-lo.
Abri a porta do quarto mais uma vez. Dessa vez eu saí, segui o corredor que levava para o jardim, minhas pernas tremiam e minhas mãos suavam frio, a náusea aumentou consideravelmente, precisei parar e respirar e o cheiro de velas não ajudou muito, mas consegui seguir o caminho. A noite e o dia naqueles corredores não faziam muita diferença, eles sempre seriam frios e mal iluminados, não importava a hora do dia ou a estação do ano.
O caminho até a saída para o jardim não foi rápido, primeiro porque o lugar era enorme e escuro (velas? Fala sério!); segundo, porque eu andava muito devagar; e terceiro, porque o medo parecia que puxava minhas pernas me fazendo tropeçar, mas eu consegui chegar aos fundos do convento e, sem nenhum problema, passei pelas portas que davam acesso ao jardim. Como a Madre havia dito, ali não era uma prisão, não haviam portas trancadas ou guardas vigiando.
A noite estava clareada pela lua, o ar era leve e fresco, a noite estava espetacular.
Caminhei sorrateiramente até as macieiras, a impressão que eu tinha era de que a Irmã Gloria iria se materializar de algum buraco a qualquer momento. Acho que foi isso que fez minhas pernas tremerem, encontrei uma cadeira dobrável jogada de qualquer jeito perto do muro. Não foi difícil subir, e a Lidia me esperava do outro lado com um sorriso lindo que hoje eu sei que era de deboche. Ela vestia preto como uma ladra, tinha os cabelos presos em um rabo de cavalo e olhava desconfiada para os lados a todo segundo.
O muro não era tão baixo quando eu desejaria, e eu quase morri de medo, mas ela já tinha colocado o carro perto, então eu só passei a perna e desci. Sei que, assim, descrevendo, parece que foi fácil, mas não foi. A primeira vez foi aterrorizante, mas da segunda em diante, foi moleza.
Abracei Lidia com saudades, parecia que fazia um século que eu não abraçava ninguém, era bom sentir o calor humano de novo.
Saímos correndo de perto dos muros do convento, entrei no carro tão rápido que nem notei a velharia que a Lidia tinha comprado com todas as minha economias, um opala branco-encardido tão velho que deve ter sido o primeiro feito pela Chevrolet, e fazia um barulho estranho, tipo pou-pou-pou-pou, olhei para o carro e olhei para a Lidia, ela levantou as mãos e em forma de desaprovação e reclamou:
— Foi o que deu pra comprar com o dinheiro que tínhamos, ainda tive que comprar roupas e sapatos para você, além de material para as aulas, então contente-se com o opalão.
Não falamos mais sobre o carro, eu não me importava nem um pouco com aquilo, mas achei interessante a escolha; também fiquei com medo que as freiras ouvissem aquele barulho todo, mas isso nunca aconteceu, e o opalão superou todas as expectativas.
Lidia estava diferente. Da última vez que havíamos nos encontrado, ela estava ansiosa e preocupada e não parava de roer aqueles cotocos que ela chamava de unhas; daquela vez ela estava feliz e falante, uma onda de adrenalina e felicidade emanava dela, os olhos brilhavam, eu sabia que assim como eu, a Lidia sonhava com tudo aquilo, estávamos dividindo um sonho juntas, e isso era tudo que eu poderia pedir em uma amiga.
Por toda a minha vida, eu tive uma única amiga, e ela me bastou.