O Segredo de Sarah
Capítulo Três
Instintivamente, eu não conseguia parar de olhar para trás. A cada centímetro que me distanciava do castelo, eu me sentia mais feliz, mais livre. De repente, tudo o que eu tinha vivido naqueles dias parecia ter acontecido em uma outra vida, com uma outra pessoa, eu era aquilo ali, a Sarah, com alegria e falante, eu era vida e eu amava ser aquilo. Aquela primeira fuga teve muitas revelações, a primeira, foi descobrir o que, de fato, eu queria; a segunda, foi o quanto eu era forte, ou pensava que era; a terceira, foi saber o quanto eu sentia saudade da Lidia.
Do momento que entramos no carro, ela não parou de falar. Tinha necessidade de falar e falar, acho que ela sentia falta de mim também, e um pouco de medo. Lidia sempre dedicou muito tempo a mim, ela sempre foi capaz de compreender todas as minhas fraquezas, ela sabia das minhas necessidades e, mesmo sendo tudo muito complicado, nunca deixou que aquilo nos atrapalhasse.
— Para de olhar pra trás, está me deixando nervosa — disse ela apertando o acelerador
— Desculpa, eu tô com muito medo Lidia.
— Medo? Você está no opalão, aqui é fuga garantida.
Às vezes a felicidade vem em forma de pessoa, e a minha era a Lidia.
O caminho até o campus não era dos mais longos. Quando o nervosismo inicial passou, Lidia quis escutar minha história, uma novidade para mim, pois era ela a cheia de histórias. Tenho que confessar, somente ao contar para ela foi que me dei conta de como estava fazendo minha vida ser emocionante, claro, ainda estava começando, muita coisa estava por vir, mas foi escutando a mim mesma naquela noite que pude acreditar que valeria a pena e que eu poderia ter as melhores duas vida do mundo.
Quando chegamos, de dentro do carro eu consegui ver o clarão dos refletores, havia pessoas por toda a parte. Abri a minha janela e senti leveza, foi a sensação mais descontrolada que já havia sentido, minha boca sorria sem meu consentimento, o coração batia tão rápido que eu tive que respirar fundo umas duas vezes para me controlar; naquele momento, nada mais importava, estar ali era uma vitória grandiosa, eu era aprendiz em uma das melhores escolas de dança do Brasil, eu, uma menina sem graça, presa em um mundo de dinheiro e proteção, estava ali, por mim mesma. E de repente, do nada, me lembrei da minha mãe.
Era uma manhã de terça-feira, feriado, eu sempre odiei os feriados, eles me impediam de ir à escola, em casa nenhum brinquedo tinha graça, mas eu tentava, e naquele dia eu estava brincando com um daqueles legos coloridos no canto do quarto da minha mãe. Ela ainda não tinha me encontrado ali. Eu gostava de me esconder em cantos da casa, sentia-me livre quando eles não sabiam onde eu estava; no entanto, eles me achavam tão rápido que me frustrava, e eu sempre tentava encontrar um lugar melhor. Ouvi a voz da minha mãe pelo corredor, e soube que ela estava se aproximando. Amontoei meus legos em minha blusa e me agachei para que a cortina me cobrisse. Ela entrou seguida por Maria, ela estava brava, e isso me assustou. Me encolhi ainda mais. Engraçado, ao lembrar da minha mãe, não consigo pensar nela jovem e diferente, seja qual for o pensamento que tenho, ela sempre está cansada e deprimida, sem falar daquela fragilidade toda que sempre a acompanhou.
— (...) Tá errado isso, Maria, ela não pode sumir assim! Eu quero que você a encontre agora! Ela não sabe se cuidar, ela é muito frágil, o mundo é ruim pra ela.
Minha mãe estava brava, e Maria estava assustada. Eu era criança, e despertar algum sentimento em minha mãe era algo emocionante, mesmo não sendo um sentimento bom, porque criança não sabe dessas coisas de sentimentos bons e ruins. Continuei ali quietinha, imóvel, respirando devagar.
Elas rodearam a casa, gritaram, fizeram ligações e perturbaram os vizinhos, foi um reboliço. Maria, vez ou outra entrava no quarto chamando meu nome, mas eu não me movia. Para mim, estava tudo muito emocionante e engraçado. Mas de repente, a voz grave do meu pai soou na casa, ele estava bravo, muito bravo, ele berrou com os empregados, me chamou algumas vezes, e como se ele tivesse dado conta das coisas, tudo silenciou. Foi quando ele entrou no quarto levando minha mãe em seus braços, falava coisas difíceis de se entender em seu ouvido, coisas gentis, então ele a deitou na cama gentilmente.
— Vai ficar tudo bem, minha querida, não tenha medo, você só não pode me deixar sozinho, nós superamos o primeiro momento porque estávamos juntos. Aconteça o que acontecer, não me deixe sozinho, eu não suportaria ficar sem as duas mulheres da minha vida.
Senti tanto medo que sai correndo do meu super esconderijo e me joguei sobre meus pais.
Meu pai se livrou de mim e segurou meu braço com força. Ele estava com raiva, minha mãe se pôs a chorar desesperadamente — parecia que tudo naquela casa era um eterno drama —, ele me olhou e falou: — Você não pode se esconder, você não pode fazer essas coisas! — Ele estava sofrendo
— A mamãe vai morrer, papai? Me desculpa...
Então ele percebeu que eu estava com medo, me abraçou e falou:
— Não, filha, estamos aqui firmes e fortes por você sempre, a mamãe não vai morrer, não importa o que você faça, estaremos aqui, só não deixa a gente.
Me coloquei a chorar dentro do carro, senti medo, muito medo, será que eu não estava sendo egoísta? Era o único pensamento que vinha em minha mente. Talvez se minha mãe soubesse onde eu estava, ela não tivesse mergulhado na depressão. Tranquei as portas do carro e fechei os vidros, Lidia já estava lá fora. Hoje, quando me lembro daquele dia, consigo sorrir, mas foi aterrorizante.
Lidia gritava do lado de fora e, quanto mais ela gritava, mas forte eu fechava os olhos; eu respirava baixinho ou nem respirava, eu estava me escondendo da Lidia, na verdade, eu estava escondendo de tudo aquilo, eu queria abrir os olhos e pular nos braços do meu pai de novo, ouvir ele dizendo que tudo estava bem, que eles estavam ali para mim sempre, talvez eu não estivesse preparada para o mundo. Me agachei no canto do banco e nem notei que estava tendo minha primeira crise de pânico. Ouvi ao longe um barulho de vidro se quebrando, a porta do carro se abriu, e mãos firmes seguraram minhas mãos.
— Respira devagar, pode ficar quietinha aí se quiser, mas respira, segura forte minhas mãos, e deixe o medo sair, se acalme.
Senti um corpo forte se juntar ao meu, e quando dei por mim estava abraçando um desconhecido. Ele era forte e alto, me abraçava com força, o cheiro dele era tão bom, que me acalmou instantaneamente. Em um momento eu estava tendo uma crise de pânico dentro de um carro velho no estacionamento da escola, no outro, eu estava agarrada a um cara com meu rosto escondido no peitoral dele com medo de abrir os olhos e ver o que de fato estava acontecendo e quem estava me segurando. Então devagar, com meu resto de coragem, eu me livrei dos braços dele e me recuperei do surto.
Ele vestia uma camisa preta e jeans, os cabelos negros estavam bagunçados, o rosto estava branco como uma vela, e os olhos verdes, posso afirmar hoje, estavam com tanto medo quanto os meus. Ele segurou meu rosto com as duas mãos, suas mãos estavam geladas, mas o toque era suave, então, em meio a todo aquele caos, com todas aquelas pessoas nos olhando, ele sorriu e eu sorri de volta. Ficamos ali por um ou dois segundos rindo um para o outro.
— Você está bem? — perguntou.
— Não sei, acho que sim. Olha! Eu tô rindo...
— Eu sou o Alexandro, pode me chamar de Lex.
— Eu não sei quem sou, mas pode me chamar de qualquer coisa.
As pessoas que ainda olhavam o que estava acontecendo riram alto da minha confusão mental, a Lidia apareceu do nada e segurou meus braços me arrancando das mãos daquele homem. Ele se afastou pedindo desculpas pelo vidro do carro estraçalhado, e Lidia deu com a mão agradecendo por ele ter me tirado do pânico. As pessoas saíram uma por uma ainda rindo da situação, e quando todos se foram, Lidia me abraçou. Como se a vida fosse um estalo, eu a abracei também, e pelo que pareceu uma eternidade, eu respirei de novo. Lidia balançava as mãos dizendo “você surtou, você surtou, cara”, e tudo o que eu queria era sorrir, porque de repente eu me sentia leve e pronta para tudo.
— Eu estou bem, foi só medo, eu tô vivendo muita coisa ao mesmo tempo. Já passou, tá! Não vai acontecer de novo.
Lidia acreditou, eu também acreditei, qualquer um está correndo risco de surtar em algum momento da vida, seja qual for o motivo. O importante é não entrar na neura de que está louca, porque você pode, realmente, ficar louca.
Andamos até o quarto que a Lidia dormia e, supostamente, eu também. Eu queria dormir lá, aquela cama sempre pareceu bem confortável, eu sempre tive meu quarto decorado por minha mãe, ter um decorado pela Lidia seria novidade. Não tinha rosa por todos os cantos nem bonecas, os lençóis eram simples e cheirosos, havia um ou dois porta-retratos dos pais estranhos dela, um mural com fotos da gente e, perto do que imaginei ser minha cama, havia uma foto dos meus pais. Foi um mimo muito legal da parte dela. Tinha um computador perto da janela em uma escrivaninha branca, alguns cactos dentro de xícaras amarelas, e uma cortina cor de nada — até hoje não sei que cor era aquela — na janela. No chão, não tinha tapetes, e o piso era branco-encardido. Eu amava tudo ali.
O prédio ficava dentro do campus, e todos que moravam ali eram alunos. Ajeitamos um o visual bagunçado e voltamos para a escola. Estava bem mais cheia e todos conversavam ao mesmo tempo, era um barulho gostoso. Naquele dia não haveria aula, apenas palestras. O auditório estava lotado de jovens de todas as etnias, costumes e jeitos misturados, alguns já se conhecia do ano anterior, outros estavam ali pela primeira vez. Conseguimos um canto perto do palco, desses cantos que ninguém quer e você sabe por quê, mas queríamos sentar. Do meu lado estava sentado um rapaz loiro que vestia roupas caras e balançava as pernas nervosamente; do lado da Lidia estava uma moça muito bonita, dessas que fazem clipes de rap estrangeiros, ou que vendem Mercedes em feiras de carros, mais tarde fui saber que eles se chamavam Allegra e Caíque e, podem acreditar, eles iam fazer muita diferença em minha vida.
As luzes do auditório piscaram e ouviu-se muita gritaria, palmas e gracinhas, uma mulher de aproximadamente cinquenta anos entrou no palco. Tinham um andar elegante, usava um terninho Chanel e scarpin nude, os cabelos eram vermelhos, tingidos e curtos, magra de dar inveja. Ela se apresentou como vice-diretora da escola, se chamava Silvana Ferreira, falou algumas palavras bonitas sobre sonhos, então mudou o tom de voz e ficou inquieta. Hoje sei que ela estava desconfortável e muito irritada.
— Durante anos, essa escola viveu sob o comando de nossos fundadores, os Lambertini. Nos últimos anos tivemos, na liderança, Erica Lambertini, mas por motivos pessoais familiares, esse ano nossa escola será comandada por Lex Lambertini.
Eu fiquei uns dez segundos sem ar, pensei na possibilidade de ter outra crise de pânico, dessa vez eu iria ficar me debatendo igual um peixe quando tiram da água, então eu seria internada e nunca mais teria que olhar para o diretor da escola. Ele parecia ainda mais bonito do que havia parecido no estacionamento. Os cabelos estavam arrumados, a palidez havia dado lugar um uma pele bonita, levemente bronzeada, naquele momento ele transmitia muita calma, trazia no rosto um sorriso invejável.
Caminhou seguro com um ar jovial.
— Boa noite — disse ele sorrindo. — Eu me sinto honrado em estar à frente dessa que hoje é, sem dúvidas, umas das maiores e mais renomadas escolas de dança, hoje temos os melhores profissionais de dança, também temos salas confortais e equipamentos de primeira qualidade, ao estudar aqui, você está se tornando parte da nossa família, quero que esse ano seja o melhor ano de todos.
Ele continuou com aquele discurso longo, e eu tinha certeza que estava ouvindo cada palavra, mas quando Lidia me cutucou, eu percebi que tinha dado uma cochilada. Acordar todos os dias às quatro da manhã é puxado. O Lex já havia saído do palco, e um grupo grande de professores estava sendo apresentado, já passava das dez da noite e eu me sentia muita cansada. Queria estar ali, fazer amizades, olhar cada cantinho do lugar, mas precisava de disposição e, com a rotina que eu tinha, isso era difícil. Precisava de algo que me desse ânimo, e aqueles discursos não estavam ajudando. Saí em busca de um banheiro, precisava molhar o rosto, caminhar um pouco para o sono passar.
Os corredores eram claros e cheios de quadros de grandes bailarinos, não tinha um cheiro especifico, mas era bom. Encontrei um banheiro do outro lado do auditório, distante da bagunça, lavei meu rosto e tomei um pouco de água, senti-me desperta. No caminho de volta, escutei uma voz e música vindo de uma das salas e, ao passar pela frente, não pude deixar de olhar o jovem que dançava ao som de uma música latina. Ele era muito bom, dançava de uma forma envolvente; era muito bonito também. Chamava-se Vicente, e sempre foi um dos garotos mais charmosos que já vi, alto, negro, magro, seus cabelos eram levemente clareados nas pontas, e os olhos, os mais lindos, tinham cor de mel. Não demorou muito para ele me notar. Com um sinal de cabeça, ele me chamou para me juntar a ele. Eu rejeitei, mas ele me puxou pelas mãos, então me entreguei àquele ritmo contagiante, afinal, eu estava ali para dançar. Naquele momento, tudo passou, sono, medo, cansaço, crises, nada mais importava, apenas estar ali dançando, deixando o ritmo me conduzir. Dançar era sempre uma primeira vez, era só fechar os olhos e me deixar levar.
O som foi interrompido abruptamente.
Lex estava parado perto do aparelho, o rosto sereno não transmitia nenhum sentimento, eu não sei por que, mas tive a certeza de que estava encrencada. O rapaz estranho do meu lado tinha um sorriso zombeteiro no rosto, ele deveria ser veterano. Hoje, pensando naquele dia, eu me pergunto: “Onde eu estava com a cabeça para encontrar um estranho e ir dançar sozinha com ele?”, ao mesmo tempo, eu penso: uma escola de dança, longe dos pais, dezoito anos, muita música. Quando se tem isso na vida? A gente tem é mais que se jogar mesmo. Mas naquele dia, não pensava assim e fiquei aterrorizada.
— Existe muita coisa nesta vida que eu não gosto — começou Lex, enquanto caminhava em nossa direção. — Entre elas, eu não gosto de quem faz regras, mas também não gosto de quem as quebra. Vocês?
— Vicente Aguiar.
— Eu sou Sarah Barelli.
Lex respirou fundo e voltou para seu discurso.
— Vicente é bem famoso, Erica já me falou muito de você, tenho certeza que você conhece as regras o grupo Lambertini. A Erica pode não ter tomado uma atitude sobre você, mas acredite, eu não terei esse problema. Ou você vira gente, ou será qualquer coisa bem longe daqui. E você é a aluna nova, bolsista, indicada por uma das nossas professoras. — Senti-me como em O Senhor dos Anéis aquele momento, Frodo bolseiro, Sarah bolseiro. Mas naquele dia, não pensei nisso também, estas idiotices estão vindo agora, enquanto relembro a história.
— Que professora? Você está enganado?
— Linda Rabelo.
— Ela está aqui? — perguntei berrando.
Eu nunca aprendi a comemorar igual a um adulto, sempre comemorei minhas vitórias e alegrias como uma criança, e naquele dia não foi diferente: dei gritinhos de alegria enquanto os dois me observavam sérios.
— Jura? — perguntei.
— Sim, se você tivesse ficado para ver o evento no auditório saberia. Mas quando estava lá, estava dormindo; e depois veio para a sala que deveria estar trancada, mal chegou e já está aprontando...
Ele virou as costas e saiu andando. Eu não era aquilo que ele estava falando, eu não sabia das regras, e não poderia ser culpada, e que regra estúpida. Quase corri para alcançá-lo, e quando o alcancei, segurei-o pelo braço. Ele me encarou surpreso. Vicente passou por nós segurando uma mochila preta jogada nas costas, segurou uma mecha dos meus cabelos e disse, “Tchau, Sarah”. Sorri em resposta e o observei sair. Ainda segurava o braço de Lex, que se soltou me trazendo de volta à realidade. Olhei para o homem em minha frente e fiz um comentário que eu, até hoje, não considero normal.
— Como ele é bonito! Vicente, muito gato...
— Você não consegue admirar outra coisa em homens?
— Talvez. Sabe, Lex, eu até hoje nunca quis beijar ninguém...
— Deveria ter uma regra para evitar desastres como este. Controle seus hormônios, garota, e tente não se meter em problemas. Lembre-se: você é bolsista. E, por favor, escolha um cara à sua altura pra beijar.
Ele saiu e fiquei parada sentindo aquela coisa estranha. Eram muitas emoções. Ele havia me chamado de desastre, e isso foi triste; por outro lado, eu sentia vontade de rir e gritar ao mesmo tempo, uma euforia. Eu estava feliz. Apesar de tudo, eu nunca havia me sentindo tão feliz. Tenho que confessar que estar naquela escola estava se mostrando uma das experiências mais excitantes da minha vida.
Na frente da escola, encontrei Lidia aflita à minha procura. Quando me viu, seu semblante mudou de preocupada para relaxada, depois nervosa.
— Aonde você estava, Sarah? Você perdeu tanta coisa...
— Você não pode imaginar o que aconteceu comigo...
— Eu conheci um cara maravilhoso! — interrompeu-me a Lidia. — Ele é alto e lindo, quis beijá-lo imediatamente. Vicente Aguiar o nome dele.
Eu tentei falar por mais umas duas vezes que o havia conhecido também, mas ela não me deixou. Tagarelou coisas sem parar como uma matraca por meia hora seguida. Eu a ouvi atenciosamente prestando atenção em cada detalhe. Ela só parou de falar quando chegamos ao convento.
A noite estava estrelada e quente, e o castelo estava em total silêncio.
— A Linda vai te ver amanhã. Hoje ela teve que voltar às pressas para Realengo.
— Tudo bem. Sabe, Lidia, eu senti muita vontade de beijar um cara hoje também.
— Sério, amiga? Só não fala que foi o Vicente, por favor...
— Lex Lambertini...
Saí do carro ainda escutando Lidia dizer por favor, mas já estava muito tarde, então fiz meu caminho de volta para o castelo. Não foi tão difícil, porque eu já não estava mais com tanto medo. No meu quarto, deitada na cama, fiquei pensando em Lex. Ele, com certeza, era diferente de todos os homens e garotos que eu já tinha visto, além de belo, ele era charmoso e seguro de si; passava autoridade sem alterar o tom de voz; era fascinante estar perto dele, seja sendo salva de uma crise de pânico ou levando uma bronca. Lex despertou em mim uma coisa que nunca antes eu tinha sentido, não era borboletas, nem tonturas ou sensação de voar, isso é fabula. Lex despertou em mim o desejo de tocá-lo, de saber como é beijar um homem, e o que vem depois do beijo; Lex era um caminho inteiro para a perdição, e eu tinha um corpo para manter puro, eu sabia que eu devia me manter longe dele. Então me lembrei de suas palavras: “Escolha um cara à sua altura pra beijar”.
Entendi que ele também queria ficar longe de mim.