O Telefone Preto e Outras Histórias

Joe Hill · Capítulo 16 de 16 · parte 2/3

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O Telefone Preto e Outras Histórias

Internação voluntária

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

— Você precisa entrar para ter o efeito completo. É sempre mais legal do lado de dentro do que do lado de fora.

E, sem olhar para ver se ele me seguiria, entrei.

Eu era um garoto de quatorze anos grande, atrapalhado, de ombros largos, com talvez 55 quilos… mas ainda era um moleque, e não um adulto, com as proporções e a flexibilidade de um menino.

Mas, em geral, não entrava nos fortes de Morris. Tinha descoberto bem cedo, ao me arrastar para dentro de um dos seus primeiros projetos, que não gostava muito deles, sentia um toque de claustrofobia. Agora, no entanto, com Eddie atrás de mim, fui em frente, como se engatinhar em um dos esconderijos de papelão de Morris fosse meu passatempo favorito.

Passei por um túnel serpenteante atrás do outro. Em uma das caixas havia uma prateleira com um pote de geleia; moscas zumbiam dentro dele, batendo contra o vidro de leve e de forma um pouco frenética. A acústica fechada da caixa ampliava e distorcia o som dos insetos, de forma que, às vezes, o zumbido parecia estar dentro da minha cabeça. Eu as analisei por um instante, de sobrancelhas franzidas, um pouco perturbado por aquela visão —

Morris ia deixá-las morrerem ali? — e então continuei. Atravessei uma passagem larga na qual as paredes foram cobertas por estrelas, luas e gatos de Cheshire que brilhavam no escuro — uma galáxia de neon inteira me cercava. As paredes tinham sido pintadas de preto e, a princípio, eu não conseguia vê-las. Por um segundo rápido e nauseante, tive a impressão de que não havia parede alguma, como se eu estivesse engatinhando pelo espaço vazio sobre uma rampa apertada e invisível, nada acima ou abaixo de mim sabe-se lá por qual distância, e, se eu caísse da rampa, não haveria nada para impedir a minha queda. Ainda era possível ouvir as moscas zumbindo no pote de geleia, embora eu as tivesse

deixado para trás há um bom tempo. Fiquei tonto, estiquei a mão e os meus dedos encostaram na lateral da caixa. Logo, a impressão de estar rastejando por um espaço vazio infinito acabou, embora ainda sentisse um pouco de vertigem. A próxima caixa era a menor e mais escura de todas, e conforme eu a atravessava, minhas costas rasparam em uma série de sininhos pendurados no teto. O som das badaladas baixas e rápidas me assustaram tanto que quase gritei.

Mas consegui ver uma abertura circular adiante, que dava em um lugar iluminado por luzes inquietas em tom pastel. Entrei.

A caixa no centro do kraken de papelão de Morris era grande o suficiente para abrigar uma família de cinco pessoas e um cachorro.

Uma lava lamp que funcionava a pilhas criava bolhas em um canto, bolas vermelhas de plasma se levantando e mergulhando pelo fluido laranja viscoso. Morris tinha coberto a parte de dentro da caixa gigantesca com papel de embrulho brilhante. Faíscas e filamentos de luz corriam de lá para cá em ondas frágeis, folhas douradas, magentas e verdes se encontrando e desaparecendo. Era como se, no longo percurso engatinhado até o centro do forte, eu tivesse diminuído aos poucos, até ficar do tamanho de um rato, e tivesse chegado a um pequeno cômodo suspenso dentro de um globo de discoteca. Aquela visão me fez tremer de espanto. Minhas têmporas latejaram, e aquelas luzes estranhas que não paravam quietas começaram a incomodar os meus olhos.

Não tinha visto Morris desde que chegara em casa e pensei que ele estivera fazendo alguma coisa com a minha mãe. Mas ele estava esperando lá na caixa central enorme, de joelhos e de costas para mim. Do lado dele havia um gibi e uma tesoura. Ele tinha cortado a contracapa e a colocado em uma moldura branca de papelão, e agora estava grudando a moldura na parede com pedaços de fita adesiva. Ele me ouviu entrar e olhou rápido para mim, mas não me deu oi e logo voltou a pendurar a foto.

Ouvi barulhos de alguém se arrastando na passagem atrás de mim e cheguei para o lado para abrir caminho. Um segundo depois, Eddie passou a cabeça pela abertura circular e observou a caixa com cobertura metálica. Seu rosto estava vermelho, e ele sorria daquela maneira que formava covinhas nas bochechas.

— Puta merda — falou. — Olha só para esse lugar. Quero comer uma garota aqui.

Ele passou o restante do corpo para dentro da caixa e se ajoelhou.

— Que forte do caralho — disse Eddie para as costas de Morris.

— Eu morreria por um forte assim, na sua idade. — Ele ignorara o fato de que, aos onze anos, Morris era velho demais para continuar brincando em caixas de papelão.

Meu irmão não respondeu. Eddie me lançou um olhar de soslaio e dei de ombros. Meu amigo continuou olhando ao redor, absorvendo tudo, o queixo caído em uma expressão óbvia de prazer, enquanto a tempestade de luzes douradas e prateadas se erguia em silêncio ao nosso redor.

— Engatinhar até aqui foi louco — falou Eddie. — Nolan, o que achou do túnel revestido de pelos pretos? Pensei que, quando chegasse no final, ia sair da boceta de uma gorila.

Eu ri, mas olhei para ele confuso e sem entender. Não me lembrava de um túnel coberto de pelos — e Eddie estava bem atrás de mim, seguira pelo mesmo caminho que eu.

— E tinha também os mensageiros do vento — disse ele.

— Eram sinos — falei, corrigindo-o.

— Ah, é?

Morris terminou de pendurar a foto e, sem falar com a gente, engatinhou até uma saída triangular. Antes de seguir adiante, no entanto, olhou para a gente uma última vez. Quando falou, dirigiu-se a mim.

— Não me siga. Volte pelo caminho que veio. — E então: —

Esse caminho não faz o que deveria fazer. Tenho que trabalhar mais nele. Ainda não está pronto.

Olhei para Eddie para pedir desculpas, estava preparando uma declaração que fosse algo como Desculpa, meu irmão às vezes é meio bizarro mesmo. Mas Eddie dera a volta por mim e analisava a foto que Morris tinha pendurado na parede. Ela mostrava uma família de Sea Monkeys juntos e bem próximos — criaturas peladas e barrigudinhas com antenas longas da cor de carne e rostos humanos.

— Olha — falou Eddie. — Morris pendurou uma foto da família verdadeira dele.

Eu ri. Eddie não levava ética pessoal muito a sério, mas nunca teve dificuldade em me fazer rir.

EU ESTAVA SAINDO DE casa — era sexta-feira, no início de fevereiro —, quando Eddie me ligou e disse para não ir na casa dele, para, em vez disso, encontrá-lo na passarela em cima da 111.

Alguma coisa na sua voz, uma rouquidão, um tom lento, chamou a minha atenção. Ele não falou nada de estranho, mas, de vez em quando, sua voz me pareceu prestes a se quebrar, e fiquei com a impressão de que se esforçava para reprimir um surto de tristeza.

A passarela ficava a vinte minutos a pé da minha casa, descendo a Christobel Avenue, atravessando o parque e depois pegando a trilha pelo bosque. A trilha era um caminho decorado com pedras azuis trituradas, que subia pelas encostas sob os galhos nus de bétulas e bordos. Depois de mais ou menos quinhentos metros, o caminho acabava na passarela. Eddie estava debruçado no peitoril, observando os carros abaixo, acelerando na pista que seguia para leste.

Ele não olhou para mim quando me aproximei. Alinhados na parede de proteção estavam três tijolos farelentos e, assim que cheguei ao lado do meu amigo, ele empurrou um bem devagar. Por um instante, senti um choque nervoso, mas o tijolo atingiu o final de um caminhão de nove eixos que seguia abaixo, sem danificar nada.

O veículo transportava uma carga de canos de aço. O tijolo caiu sobre o cano mais acima, que estalou alto, depois foi descendo pela lateral, dando início a uma série de batidas melódicas e gongos vibrantes, um martelo atirado nos tubos de metal de um gigantesco órgão. Eddie abriu a boca em um sorriso enorme, acolhedor e impossivelmente simpático que deixava o espaço entre os seus dentes da frente à mostra. Ele olhou para mim para ver se eu tinha gostado da musicalidade inesperada produzida pelo bombardeio ao caminhão. Foi aí que vi o olho esquerdo dele, cercado por um anel roxo com manchas amareladas.

Quando falei, mal reconheci a minha voz, que estava aguda e falhando.

— O que aconteceu?

— Olha isso — disse ele, pegando uma polaroide do bolso do casaco. Ainda sorria, mas, quando me passou a fotografia, não olhou para mim. — Delicie-se. — Foi como se eu não tivesse dito nada.

A imagem mostrava dois dedos de uma garota, as unhas pintadas de um prateado suave. Eles pressionavam um pedaço de tecido xadrez vermelho e preto na fissura entre as suas pernas.

Dava para ver as coxas nas laterais da foto, borrada, a pele branca demais.

— Apostei dez jogos seguidos com Ackers — falou ele. — Se ela perdesse o décimo jogo, teria que tirar uma foto batendo siririca. Ela foi para o quarto, então não cheguei a ver ela tirando a foto. Mas Ackers quer repetir a dose para recuperar a foto. Se eu apostar outros dez jogos seguidos, vou fazer ela bater siririca bem na minha frente.

Eu me virei, de forma a ficarmos lado a lado debruçados no parapeito, de frente para o tráfego. Observei a foto sem muita atenção por mais um segundo, sem pensar em nada, sem saber como reagir ou o que dizer. Mindy Ackers era uma garota normal com cabelo ruivo frisado, muita acne e uma paixonite enorme por Eddie. Se ela perdesse os próximos dez jogos de damas para ele, seria de propósito.

Naquele momento, no entanto, o que ela tinha feito ou não para diverti-lo era bem menos interessante do que como Eddie acabara com o olho esquerdo daquele jeito… algo que, aparentemente, ele não queria discutir.

— Doideira — falei, por fim, e coloquei a foto no pé do parapeito de cimento. Sem pensar, uma das minhas mãos foi parar em cima de um dos tijolos.

Um semirreboque passou a toda debaixo da gente, o motor latindo conforme o motorista mudava para uma marcha menor e mais barulhenta. A fumaça preta de diesel rodopiava pela neve, que estava caindo em flocos grandes e ondulados. Quando tinha começado a nevar? Eu não sabia ao certo.

— O que aconteceu com o seu olho? — perguntei, tentando de novo, surpreso com a minha coragem.

Ele limpou o nariz com as costas da mão. Ainda sorria.

— Aquele monte de bosta com quem minha mãe está saindo me pegou dando uma olhada na carteira dele. Como se eu fosse roubar o vale-refeição. Ele vai se deitar cedo, precisa ir para o Kentucky antes do sol nascer, então vou ficar na rua até… ah, espera. Tem um caminhão-tanque vindo.

Olhei para baixo e vi outro semirreboque acelerando na nossa direção, puxando um enorme reservatório de combustível.

— Temos uma chance de explodir aquilo — falou Eddie. —

Cento e vinte mililitros de C-4. Se acertarmos esse filho da puta no lugar certo, podemos acabar com a estrada inteira.

Havia um tijolo no parapeito bem na frente dele, e esperei Eddie empurrá-lo para acertar o caminhão-tanque quando passasse por baixo. No entanto, ele colocou a mão sobre a minha, que ainda repousava em cima do outro tijolo. Senti uma pontada de alarme, mas não tentei tirar a mão dali. Provavelmente, esse é um fato que vale a pena ser apontado. O que aconteceu a seguir foi porque eu deixei.

— Espera — falou ele. — Calma. Sem errar. Agora.

Assim que o caminhão entrou embaixo da passarela, Eddie empurrou a minha mão. O tijolo acertou o caminhão-tanque abaixo com um tunk sonoro, atingindo-o com força e desviando para a pista da esquerda, onde, naquele momento, um Volvo vermelho acabava de emparelhar com o caminhão. O tijolo acertou o para-brisa — tive tempo de ver uma teia de aranha de estilhaços se espalhar pelo vidro —, e então o carro desapareceu embaixo da passarela.

Nós dois demos meia-volta e corremos para o parapeito do outro lado. Meus pulmões pararam de funcionar e, por um segundo, não consegui forçar ar nenhum para dentro do peito. Quando o Volvo atravessou por baixo da passarela, já estava virado para a esquerda, na direção do acostamento. O automóvel saiu da estrada um instante depois e desceu a rampa nevada a mais ou menos cinquenta quilômetros por hora. No fundo do vale formado pela rampa da estrada, havia alguns bordos jovens. O Volvo acertou um, e o para-brisa inteiro voou em uma única peça rachada, passando por cima do capô e aterrissando na neve.

Eu ainda me esforçava para puxar o ar quando a porta do passageiro se escancarou. Uma mulher loura e matrona usando um sobretudo vermelho preso na cintura saiu. Ela cobria um olho com uma luva e gritava, puxando a porta detrás.

— Amy! — berrava. — Meu Deus, Amy!

Então Eddie agarrou o meu cotovelo. Ele me fez virar e me empurrou na direção da trilha, chiando:

— Vamos sair daqui, porra!

Ele me empurrou de novo conforme saíamos da passarela e entrávamos na trilha do bosque, me empurrou com tanta força que caí com um joelho nas pedras azuis trituradas — agulhas finas de dor pulsaram pela minha rótula —, mas Eddie logo me puxou pelo cotovelo e me apressou. Não pensei. Só corri. Com a pulsação trovejando nas têmporas e o rosto queimando no ar frio, eu corri.

SÓ VOLTEI A PENSAR quando chegamos no parque e diminuímos a velocidade. Estávamos indo, sem nem termos conversado nem nada, para a minha casa. Meus pulmões doíam com o esforço de ter corrido usando as botas de neve e por ter respirado ar frio.

Ela foi até a porta traseira gritando Meu Deus, Amy! Uma pessoa no banco de trás, uma garotinha. A loura alta e corpulenta tinha uma luva sobre o olho. Será que um caco de vidro entrara ali? Nós tínhamos cegado ela? Além disso: a mulher saiu do banco do passageiro. Por que o motorista não saiu? Ele estava consciente?

Estava morto? Minhas pernas não paravam de tremer. Eu me lembrei de Eddie empurrando a minha mão, me lembrei do tijolo escorregando sob a minha palma de uma ponta à outra e me lembrei da maneira como ele bateu na lateral do caminhão-tanque e desviou para o para-brisa do Volvo. Não dava para voltar atrás.

Percebi aquilo e o pensamento me atingiu como uma revelação.

Olhei para a mão que empurrara o tijolo e vi uma foto nela, Mindy Ackers tocando o triângulo de algodão entre as pernas. Não me lembrava de ter pego a fotografia de volta. Mostrei-a para Eddie sem dizer nada. Ele olhou para a foto com os olhos confusos, perplexos.

— Pode ficar — disse ele. Essas eram as primeiras palavras ditas por qualquer um de nós desde que ele berrara Vamos sair daqui, porra!

Passamos pela minha mãe quando chegamos em casa. Ela estava parada ao lado da caixa de correio, batendo papo com o nosso vizinho, e, sem pensar, encostou na minha nuca quando passamos, um roçar de dedos leve e íntimo que me fez tremer.

Não falei nada até entrarmos, tirando as botas e o casaco no hall. Meu pai estava no trabalho. Eu não sabia onde Morris estava e não me importava. A casa, escura e silenciosa, tinha a placidez de um lugar vazio.

Enquanto desabotoava a jaqueta de veludo cotelê, falei:

— Deveríamos ligar para alguém. — Parecia que a minha voz vinha de outro lugar, não do meu peito e da minha garganta, mas do canto do cômodo, de baixo da pilha de chapéus que havia ali.

— Ligar para quem?

— Para a polícia. Para ver se estão bem.

Eddie parou de tirar a jaqueta jeans e olhou para mim. Com aquela luz fraca, seu olho roxo parecia um trágico acidente de maquiagem.

Por alguma razão, continuei falando.

— Podemos dizer que estávamos na passarela e vimos o acidente. Não precisamos falar que nós que fizemos aquilo.

— Nós não causamos ele.

— Bem… — falei, mas não sabia o que dizer em seguida. Era uma declaração tão ousadamente falsa que não consegui pensar em nenhuma resposta que não parecesse uma provocação.

— O tijolo desviou — disse Eddie. — Como isso pode ser culpa nossa?

— Eu só quero saber se todo mundo está bem. Tinha uma garotinha no banco de trás…

— Porra nenhuma.

— Bem… — Minha voz vacilou de novo, mas me forcei a continuar. — Tinha, Eddie. A mãe estava gritando o nome dela.

Ele parou por um instante e me analisou com cuidado, com uma expressão infeliz e de avaliação truculenta. Então, deu de ombros de uma forma rígida e voltou a tirar as botas de qualquer jeito.

— Se você chamar a polícia, eu me mato — falou. — E aí vai ter que viver com isso também.

Senti como se tivesse um grande peso sobre o meu peito, comprimindo os pulmões. Tentei falar. Minha voz saiu em um sussurro falho.

— Estou falando sério.

— Eu também — respondeu Eddie. — Eu me mato. — Parou outra vez, então falou: — Sabe quando eu disse que o meu irmão me ligou na época em que estava nadando em dinheiro por causa dos carros que roubava em Detroit?

Assenti.

— Era mentira. Lembra quando falei que ele me ligou para dizer que comeu gêmeas ruivas enquanto estava no Minnesota?

Depois de um segundo, voltei a assentir.

— Era mentira também. Sempre foi mentira. Ele nunca me ligou.

— Eddie respirou fundo, tremendo um pouco ao inalar. — Não sei onde ele está ou o que anda fazendo. Ele só me telefonou uma vez, enquanto ainda estava no centro de detenção. Dois dias antes de fugir. Estava estranho. Tentava não chorar. Disse para eu nunca fazer qualquer coisa que me fizesse acabar lá. Me obrigou a prometer. Disse que te faziam de bicha lá dentro. Que tinha um monte de negões bichas de Boston, que se juntavam para comer você. E aí ele desapareceu e ninguém sabe o que aconteceu com ele. Mas acho que se o meu irmão estivesse bem em algum lugar, já teria me ligado. Eu e ele, a gente era unha e carne. Ele não ia me deixar com essa dúvida. Eu conheço o meu irmão, e ele não ia querer ser a puta de ninguém. — Eddie chorava agora, sem fazer barulho. Enxugou as bochechas com a manga comprida da camisa e então me encarou com aquele olhar firme e marejado. — E eu não vou parar em um centro de detenção juvenil por causa de um acidente idiota que nem foi culpa minha. Ninguém vai me transformar em uma bicha. Já aconteceu uma coisa assim comigo uma vez. Aquele merda, filho da puta do Tennessee da minha mãe… — A voz falhou, e ele desviou o olhar, um pouco ofegante.

Não falei nada. A visão de Eddie Prior com lágrimas correndo pelo rosto afastou todos os argumentos que eu poderia dar para a polícia e me deixou completamente mudo.

Com a voz baixa e trêmula, ele continuou:

— Não dá para desfazer aquilo. Aconteceu. Foi um acidente idiota. O tijolo desviou. Não é culpa de ninguém. Não importa quem se machucou, a gente vai ter que viver com isso, agora. Temos que ficar quietos. Ninguém nunca pensaria que tivemos qualquer coisa a ver com aquilo. Peguei os tijolos debaixo da ponte. Tem um monte deles se soltando. A não ser que alguém tenha visto a gente, todo mundo vai pensar que ele simplesmente caiu. Mas, se quiser ligar mesmo para alguém, só me avisa antes, porque não vou deixar fazerem comigo o que fizeram com o meu irmão.

Demorou alguns segundos para eu conseguir juntar ar suficiente para falar.

— Esquece — respondi. — Vamos ver um pouco de TV e nos acalmar.

Terminamos de tirar as roupas de inverno e fomos para a cozinha… e quase tive um encontrão com Morris, que estava parado sob o batente da porta aberta do porão, segurando um rolo de fita adesiva marrom. A cabeça estava inclinada, em uma pose de quem ouvia os segredos do universo, os olhos arregalados com a curiosidade de cabeça-oca de sempre.

Eddie me empurrou para o lado com o cotovelo, agarrou a gola alta da camisa preta de Morris e o jogou na parede. Os olhos esbugalhados do meu irmão ficaram ainda maiores. Ele olhou para o rosto vermelho de Eddie com uma confusão vazia idiota. Agarrei o pulso de Eddie, tentei fazê-lo soltar a gola, mas não consegui.

— Estava escutando a gente, retardadinho? — perguntou Eddie.

— Eddie, Eddie, não importa o que ele ouviu. Esquece isso. Ele não vai contar para ninguém. Solta ele.

Então Eddie o soltou. Morris encarou o rosto dele, piscando, a boca mole aberta. Olhou de soslaio para mim — o que foi isso? — e aí deu de ombros.

— Tive que desmontar o polvo — falou. — Eu gostava de todos aqueles membros indo para o centro. A forma como pareciam os raios de uma roda. Mas não importa por onde você entra, sempre sabe para onde está indo, e não saber é melhor. Não é tão fácil de ser feito, mas é melhor. Tenho ideias novas, agora. Dessa vez, vou começar do meio e ir para as bordas, do jeito que as aranhas fazem as teias.

— Incrível — falei. — Vai nessa.

— Meu novo projeto vai precisar do maior número de caixas que já usei. Espera só para ver.

— Mal podemos esperar, não é, Eddie?

— É — disse ele.

— Estarei lá embaixo trabalhando se alguém precisar de mim —

informou Morris, e passou pelo espaço apertado entre Eddie e eu, pisando forte na escada do porão.

Fomos até a sala. Liguei a TV, mas não conseguia me concentrar na programação. Eu me sentia fora de mim, como se estivesse no fim de um longo corredor e, na outra ponta, conseguisse ver Eddie e eu sentados no sofá, só que não era eu, era uma figura de cera oca feita conforme a minha imagem.

Eddie falou:

— Desculpa por eu ter pegado pesado com o seu irmão.

Eu queria que Eddie fosse embora, queria ficar sozinho, deitado na minha cama, na escuridão silenciosa e sossegada do meu quarto. Mas não sabia como pedir para ele ir embora.

Em vez disso, com os lábios um pouco dormentes, falei:

— Se o Morris contar… e ele não vai contar, juro… mesmo que tenha escutado a gente, ele não entenderia sobre o que estávamos falando… mas se ele contar para alguém… você não… você…

— Se eu me mataria? — perguntou Eddie. Ele deu um ronco zombeteiro com a garganta. — Porra, não. Eu mataria ele. Mas ele não vai contar para ninguém, né?

— Não — falei. Minha barriga doía.

— E você não vai contar para ninguém — disse ele alguns minutos depois. Já estava ficando tarde, a luz começava a minguar à nossa volta.

— Não — respondi.

Ele ficou de pé e deu um tapinha na minha perna enquanto saía.

— Preciso ir. Vou jantar na casa do meu primo. Vejo você amanhã.

Esperei até ouvir a porta se fechar no hall. Então, foi a minha vez de ficar de pé, a cabeça tonta e aturdida. Fui até o hall e comecei a subir a escada. Quase atropelei Morris. Ele estava sentado no sexto degrau, as mãos sobre os joelhos, o rosto de um vazio tranquilo.

Com as roupas escuras, apenas a sua face branca de cera era visível nas sombras do cômodo. Meu coração parou quando o vi ali.

Por um momento, fiquei acima dele, observando-o. Meu irmão me encarou de volta, sua expressão bizarra e indecifrável como sempre.

Então ele tinha escutado o resto, incluindo o que Eddie disse sobre matá-lo se Morris contasse para alguém. Mas eu achava mesmo que ele não conseguia entender a gente.

Desviei e segui para o meu quarto. Fechei a porta e entrei embaixo das cobertas ainda usando as mesmas roupas, exatamente como me imaginara fazendo. O cômodo girou e rodopiou à minha volta até eu quase ficar enjoado, e tive que puxar o cobertor por cima da cabeça para bloquear aquele movimento sem sentido e desorientador do mundo.

***

NA MANHÃ SEGUINTE, PROCUREI no jornal por alguma informação do acidente — garotinha em coma depois de emboscada na passarela —, mas não havia nada.

NAQUELA TARDE, LIGUEI PARA o hospital, falei que estava me perguntando sobre o acidente na 111 do outro dia, o carro que saiu da estrada, cujo para-brisa caiu e no qual algumas pessoas se machucaram. Minha voz não estava firme, era nervosa, e a recepcionista do outro lado da linha começou a me interrogar — por que eu precisava saber? Com quem ela estava falando? —, e desliguei.

DEPOIS DE ALGUNS DIAS, eu estava no meu quarto, procurando por um pacote de chiclete nos bolsos do meu casaco de inverno, quando encontrei um quadrado de pontas afiadas feito de algum material escorregadio parecido com plástico. Tirei-o do bolso e vi a polaroide de Mindy Ackers batendo siririca. Aquela visão revirou o meu estômago. Abri uma gaveta e joguei a foto lá dentro. Só olhar aquilo me deixou sem ar, lembrando-me do Volvo batendo na árvore, a mulher saindo, a luva sobre o olho, Meu Deus, Amy!

Àquela altura, minha memória sobre o acidente estava ficando mais

incerta. Às vezes, eu imaginava que vira sangue manchando o para-brisa rachado na neve. Outras vezes, pensava ter ouvido o grito agudo de uma criancinha em sofrimento. Essa era uma impressão bem difícil de esquecer, pois alguém gritara durante o acidente, disso eu tinha certeza, alguém além da mulher. Talvez eu.

DEPOIS DAQUILO, EU NÃO queria mais andar com Eddie, mas era impossível ignorá-lo. Ele se sentava do meu lado durante as aulas e me passava recados. Eu tinha que responder esses recados para que não pensasse que estava me afastando dele. Ele aparecia na minha casa depois da escola sem avisar e assistíamos à TV juntos.

Eddie trouxe o tabuleiro de damas e preparava jogos enquanto Guerra, sombra e água fresca passava na televisão. Hoje vejo — e talvez visse na época — que ele estava fazendo um esforço constante para se manter por perto, para ficar de olho em mim. Ele sabia que não poderia permitir que eu me afastasse, que se não fôssemos mais amigos, eu poderia fazer qualquer coisa, até confessar. E sabia também que eu não tinha culhões para acabar a amizade, que eu não conseguiria deixar de atendê-lo se ele tocasse a campainha. Que era da minha natureza seguir com aquela situação, não importando quão desconfortável fosse, em vez de tentar mudar as coisas e arriscar um confronto direto.

Então, certa tarde, mais ou menos três semanas depois do acidente na Rota 111, encontrei Morris no meu quarto, ao lado da cômoda. A gaveta de cima estava aberta. Ele segurava uma caixa de lâminas de estiletes em uma das mãos; tinha um monte de porcarias como aquela lá, barbante, grampeadores, um rolo de fita adesiva e, às vezes, quando Morris precisava de algo para o seu forte sem fim, ele atacava os meus suprimentos. Na outra mão estava a polaroide da virilha de Mindy Ackers. Ele a segurava bem perto do nariz, encarando-a com os olhos redondos e confusos.

— Não mexe nas minhas coisas — falei.

— Não é uma pena que não dê para ver o rosto dela? —

perguntou ele.

Arranquei a foto da mão de Morris e a joguei na cômoda.

— Mexe nas minhas coisas de novo e eu te mato.

— Você está parecendo o Eddie — disse Morris, virando o rosto e me encarando. Já fazia alguns dias que eu não via o meu irmão com frequência. Ele passava ainda mais tempo no porão do que o normal. Seu rosto fino e delicado estava mais magro do que eu me lembrava e, naquele momento, percebi quão pequeno e frágil, quão infantil o seu corpo era. Ele já tinha quase doze anos, mas podia passar fácil por uma criança de oito. — Vocês ainda são amigos?

Eu estava cansado de me preocupar o tempo todo, então falei sem pensar.

— Não sei.

— Por que não manda ele ir embora? Por que não faz ele ir embora? — Morris estava quase perto demais de mim, olhando para a minha cara com os olhos redondos como pratos.

— Não consigo — falei, e virei o rosto, porque não podia mais encarar o seu olhar preocupado e perplexo. Senti que aquilo era o máximo que conseguia aguentar, meus nervos em farrapos. — Gostaria de conseguir. Mas não dá para fazê-lo se afastar. — Eu me debrucei sobre a cômoda e coloquei a testa na borda dela por um momento. Com um suspiro mais rouco do que costumava ouvir, falei: — Ele não pode me deixar escapar.

— Por causa do que aconteceu?

Olhei para ele. Morris estava do meu lado, as mãos juntas sobre o peito, as pontas dos dedos se movendo nervosamente. Então ele entendia… talvez não tudo, mas um pouco. O suficiente. Ele sabia que a gente tinha feito uma coisa horrível. Sabia que a tensão daquilo estava acabando comigo.

— Vê se esquece o que aconteceu — falei com a voz mais forte agora, chegando perto do ponto de ameaça. — Vê se esquece o que ouviu. Se alguém descobrir… Morris, você não pode contar para ninguém. Nunca.

— Eu quero ajudar.

— Não dá — falei, e a verdade dessa declaração, dita de maneira simples, me pegou em cheio. Com um tom de voz infeliz e fraco, acrescentei, por fim: — Vá embora. Por favor.

O rosto de Morris se fechou um pouco e ele baixou a cabeça, parecendo magoado por um segundo. Mas então disse:

— Estou quase terminando o novo forte. Agora já consigo ver como ele vai ficar. — Então, fixou o olhar cativante e esbugalhado em mim de novo. — Estou construindo para você, Nolan. Porque quero que se sinta melhor.

Deixei escapar um suspiro leve que era quase uma risada. Por um instante, chegamos perto de conversar como irmãos que se amavam e se preocupavam um com o outro, como quase iguais; por alguns segundos, me esqueci dos delírios e das fantasias de Morris. Eu me esqueci que a realidade, para o meu irmão, era uma coisa vislumbrada apenas de vez em quando através dos vapores que impulsionavam os seus sonhos acordado. Para Morris, a única resposta possível para a infelicidade era construir um arranha-céu de caixas de ovo.

— Valeu, Morris — falei. — Você é legal. Só precisa sair do meu quarto.

Ele assentiu, mas ainda estava com o rosto fechado quando passou por mim e foi na direção do hall. Eu o observei descendo a escada, sua sombra de espantalho subindo e descendo na parede, aumentando a cada passo que ele dava na direção da luz abaixo e de algum futuro que ele construiria uma caixa por vez.

MORRIS FICOU NO PORÃO até a hora da janta — minha mãe precisou gritar três vezes até ele subir —, e, quando se sentou à mesa, suas mãos estavam cobertas de um pó branco parecido com gesso. Ele voltou para o porão assim que os pratos foram colocados de molho na pia. Ficou lá até quase nove da noite, e só parou quando a minha mãe berrou dizendo que era hora de dormir.

Passei pela porta do porão aberta uma vez, pouco antes de me deitar, e parei. Senti o cheiro de algo que, a princípio, não consegui identificar — era como cola, ou tinta fresca, ou gesso, ou uma combinação dos três.

Meu pai entrou em casa batendo os pés. Nevara um pouco, e ele fora limpar os degraus.

— O que é isso? — perguntei, enrugando o nariz.

Ele parou à porta do porão e cheirou profundamente.

— Ah — respondeu o meu pai. — Morris mencionou que ia fazer algo com papel machê. Não tem como saber o que aquele menino

vai inventar para se divertir, né?

MINHA MÃE ERA VOLUNTÁRIA em um asilo de idosos, então toda quinta ela ia até lá para ler as cartas dos velhinhos que já não enxergavam tão bem e tocava piano, martelando as teclas para que até o pessoal meio surdo pudesse ouvir, e, durante aquelas tardes, eu era deixado como único responsável pela casa e pelo meu irmão mais novo. Quando a quinta seguinte chegou, não deu nem dez minutos após ela ter saído de casa, Eddie bateu na porta.

— Ei, parceiro — disse ele. — Adivinha só. Mindy Ackers acabou de me dar uma lavada em cinco jogos. Tenho que devolver a foto para ela. Está com você, não é? Espero que tenha cuidado bem dela para mim.

— Pode ficar com aquela coisa nojenta — falei, um pouco aliviado por ser uma visita rápida. Era raro conseguir me livrar de Eddie em tão pouco tempo. Ele arrancou as botas e me seguiu até a cozinha. — Vou pegar a foto, está lá no quarto.

— Provavelmente, na mesa de cabeceira, seu pervertido —

disse Eddie, rindo.

— Estão falando da fotografia de Eddie? — perguntou Morris, a voz flutuando do fundo da escada do porão. — Está comigo. Queria dar uma olhada nela. Está aqui embaixo.

Devo ter ficado mais surpreso do que Eddie por aquelas palavras. Tinha deixado claro para Morris que não queria que ele ficasse mexendo nas minhas coisas, e não era do feitio dele desobedecer a uma ordem.

— Morris, eu mandei você não mexer nas minhas coisas!

Eddie parou em cima da escada, olhando para o porão.

— O que está fazendo com ela, seu punheteirozinho? — berrou ele para Morris.

Meu irmão não respondeu, e Eddie desceu a escada comigo logo atrás.

Ele parou no terceiro degrau e colocou as mãos na cintura, observando todo o porão.

— Caramba — disse ele. — Que legal.

De uma parede à outra, o lugar era preenchido por um labirinto de caixas de papelão. Morris repintara todas elas. As caixas mais

perto do pé da escada eram do branco cremoso de leite integral, mas, conforme a rede de túneis se alongava pelo cômodo, as caixas assumiam um tom azul-claro, então violeta e depois cobalto. As caixas no canto mais distante eram completamente pretas, representando um horizonte noturno artificial.

Vi caixas menores com atalhos para todos os lados. Vi janelas, cortadas no formato de estrelas e sóis estilizados. A princípio, pensei que elas tinham folhas de um estranho plástico laranja grudadas com fita adesiva atrás. Mas então notei como pulsavam e brilhavam de leve e percebi que eram folhas de plástico transparente, iluminadas por uma fonte interna irregular de luz laranja — com certeza, a lava lamp de Morris. Mas a maioria das caixas não tinha janela, sobretudo conforme você se afastava da escada e seguia para os fundos do porão. Estaria escuro dentro do forte.

No canto a noroeste do porão, erguendo-se acima de todas as outras caixas, havia uma enorme lua crescente feita de papel machê e pintada de um branco céreo com um toque luminescente. A lua tinha lábios comprimidos e um único olho triste que parecia nos encarar com uma expressão desfocada de decepção. Eu estava tão despreparado para aquela visão tão incrível — era realmente imensa —, que levei um minuto para perceber que olhava para a caixa gigante que fora o centro do polvo de Morris. Na época, ela fora enrolada por uma malha de arame, moldada como chifres tortos. Eu me lembro de pensar que a gigantesca e deformada escultura de grade era prova irrefutável de que o miolo já mole do meu irmão estava se deteriorando. Agora, vi que sempre tinha sido uma lua, qualquer um com olhos poderia ter visto aquilo… menos eu. Acho que esse sempre foi um dos meus maiores defeitos. Se algo não fizesse sentido de imediato, eu nunca conseguia olhar além do que me deixara confuso para ver um padrão maior, fosse em uma escultura ou na forma da minha vida.

No pé da escada ficava a entrada para as catacumbas de papelão de Morris. Era uma caixa alta, com um metro e vinte de altura, de lado, as abas abertas como portas duplas. Uma cortina preta de musselina fora grampeada lá dentro, bloqueando a minha visão do interior do túnel que levava para dentro do labirinto. Ouvi

uma música distante, que ecoava de algum lugar, uma melodia hipnotizante que reverberava baixinho. As formigas vão marchando de uma em uma, viva! Viva! Levei um segundo para perceber que a música vinha de algum lugar de dentro dos túneis.

Fiquei tão impressionado que não consegui permanecer irritado com Morris por ter roubado a foto de Mindy Ackers. Fiquei tão impressionado, que não consegui nem falar. Foi Eddie quem quebrou o silêncio.

— Não dá para acreditar naquela lua — disse ele. Ele soava da mesma forma que eu me sentia: sem fôlego pela surpresa. —

Cacete, Morris, você é um gênio.

Morris foi para o lado, o rosto inexpressivo, o olhar sobre aquela vasta desordem.

— Sua foto está dentro do meu novo forte. Pendurei na minha galeria. Não sabia que você ia querer de volta. Mas pode pegar, se quiser.

Eddie olhou para Morris de soslaio e o sorriso dele ficou ainda maior.

— Você escondeu a foto lá e quer que eu encontre. Rapaz, você é um bostinha bizarro mesmo, sabia disso, Morrie? — Ele desceu os últimos três degraus quase fazendo uma dança à la Gene Kelly. —

Onde fica a galeria? Lá no fundo, dentro da lua?

— Não — respondeu Morris. — Não vá naquela direção.

— É — disse Eddie, e riu. — Tá certo. Que outras fotos pendurou lá? Um monte de pôsteres de mulher pelada? Tem um cantinho especial para bater uma?

— Não quero falar mais nada. Não quero estragar a surpresa.

Continuar: parte 3 de 3