O Telefone Preto e Outras Histórias

Joe Hill · Capítulo 16 de 16 · parte 3/3

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O Telefone Preto e Outras Histórias

Internação voluntária

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

Você deveria entrar e dar uma olhada.

Eddie olhou para mim. Eu não sabia o que dizer, mas fiquei surpreso ao sentir uma espécie de ansiedade trêmula com um toque de nervosismo. Queria e não queria ver Eddie desaparecer no forte brilhante e confuso de Morris. Eddie balançou a cabeça — Dá para acreditar nessa merda? — e se agachou. Começou a engatinhar para dentro, então olhou para mim de novo. Fiquei perplexo ao ver um afã quase infantil no rosto dele. Por alguma razão, aquele olhar me deixou preocupado. Eu mesmo não tinha um pingo de vontade

de me arrastar para o interior apertado e escuro do imenso labirinto de Morris.

— Você tem que vir comigo — falou Eddie. — A gente tem que ver isso junto.

Concordei, sentindo-me fraco — não havia palavras no vocabulário da nossa amizade para dizer não —, e desci os últimos degraus da escada do porão. Eddie afastou a cortina de musselina preta e a música ecoou de um grande túnel circular, um cano de papelão com quase noventa centímetros de diâmetro. “As formigas vão marchando de três em três, viva! Viva! ” Desci o último degrau, comecei a me abaixar para seguir Eddie… e Morris apareceu do meu lado e agarrou o meu braço, o punho bem apertado.

Eddie não olhou para trás, não viu nós dois daquela maneira. Ele falou:

— Ca- ralho . Tem alguma dica?

— Siga a música — disse Morris.

A cabeça de Eddie se moveu para cima e para baixo em compreensão, como se aquilo devesse ter sido óbvio. Ele encarou o longo e escuro túnel circular diante de si.

Com um tom de voz perfeitamente normal, Morris me falou:

— Não vá. Não o siga.

Eddie começou a rastejar para dentro do labirinto.

— Eddie! — falei, sentindo uma pontada repentina e inexplicável de alarme. — Eddie, espera! Volta para cá.

— Puta merda, está escuro aqui — disse ele, como se não tivesse me ouvido. Na verdade, tenho certeza de que não me ouviu, de que ele não conseguia mais me ouvir praticamente do momento em que entrou no labirinto.

— Eddie! — gritei. — Não entra aí!

— É melhor que tenha umas janelas mais à frente — murmurou Eddie… falando consigo mesmo. — Se eu começar a me sentir claustrofóbico, vou me levantar e destruir essa porra. — Ele respirou fundo. — Beleza. Vamos nessa.

Morris soltou o meu braço. Olhei para ele, mas o meu irmão encarava o forte vasto, o tubo de papelão pelo qual Eddie entrara. Dava para ouvir o meu amigo passando por ele, afastando-se da gente; eu o escutei chegando do outro lado, em uma caixa grande,

com mais ou menos um metro e vinte de altura e uns sessenta centímetros de comprimento. Ele bateu nela — encostou em uma das paredes com o ombro, talvez — e a caixa se moveu de leve.

Um túnel de papelão levava para a direita e outro para a esquerda.

Eddie escolheu o que ia em direção à lua. Do pé da escada do porão, eu conseguia ver o seu progresso, conseguia ver as caixas tremendo um pouco quando Eddie passava por elas, conseguia ouvir as batidas abafadas do corpo dele nas paredes, de vez em quando. Então, eu o perdi por um ou dois segundos, não pude localizá-lo até ouvir a sua voz.

— Estou vendo vocês — cantarolou ele, e eu o escutei batendo no plástico grosso.

Olhei em volta e vi o rosto dele atrás de uma janela em formato de estrela. Ele sorria daquele jeito que deixava o espaço de David Letterman entre os dentes à mostra. Eddie me mostrou o dedo do meio. A luz vermelha de fornalha que era a lava lamp de Morris surgia e desaparecia ao seu redor. Então, Eddie continuou. Nunca mais o vi.

Mas o escutei. Por mais um tempo, consegui ouvi-lo se movimentando pelo labirinto, indo mais ou menos na direção da lua, para os cantos mais distantes do porão. Por sobre o cantarolar abafado da música — embaixo, no chão, fugindo da chuva —, ainda dava para escutar Eddie encostando nas paredes do labirinto. Vi uma caixa tremer. Uma vez, ouvi ele atravessar uma folha de plástico-bolha que deveria estar presa no chão de um dos túneis.

Bolhas estouraram com um som agudo e seco, como um monte de estalinhos, e Eddie disse:

— Porra!

Depois disso, perdi outra vez a noção de onde ele estava. Então, sua voz surgiu novamente — longe, à minha direita, do outro lado de onde o ouvi pela última vez.

— Merda. — Foi tudo que ele disse. Naquele momento, pensei ter notado um toque de irritação, uma falta de ar.

Um segundo depois, Eddie voltou a falar, e senti uma onda de desorientação e tontura que me deixou com os joelhos tremendo.

Agora, a voz parecia vir da esquerda, o que era impossível, pois

teria sido como se ele tivesse viajado trinta metros no espaço de uma respiração.

— Sem saída — disse ele, e um túnel bem distante à esquerda tremeu enquanto Eddie o atravessava.

Então, perdi a localização do meu amigo de novo. Mais de um minuto se passou até eu notar que as minhas mãos se fecharam em punhos suados e que minha respiração estava praticamente parada.

— Ei — falou Eddie de algum lugar, e pensei ter ouvido um toque de inquietação na sua voz. — Tem mais alguém aqui dentro comigo? — Ele estava a uma boa distância de mim. Achei que a voz parecia vir de uma das caixas mais perto da lua.

Um longo silêncio se seguiu. Àquela altura, a música já tinha terminado e voltado a tocar do início. Pela primeira vez, parei para escutá-la, escutá-la de verdade. A letra não era igual à da música que eu me lembrava de ter cantado nos acampamentos. Em certo momento, uma voz baixa entoava:

As formigas vão marchando de duas em duas, viva! Viva!

As formigas vão marchando de duas em duas, viva! Viva!

As formigas vão marchando de duas em duas, Atravessando o planalto de Leng,

E todas acabam debaixo do chão!

Na versão que eu lembrava, aparentemente havia alguma coisa sobre uma formiguinha parar para tirar uma pedra do sapato. Aquilo estava me deixando nervoso, o jeito que a música tocava sem parar.

— Que fita é essa? — perguntei a Morris. — Por que só tem uma música?

— Não sei — respondeu ele. — A música começou hoje de manhã. Não parou desde então. Ficou tocando o dia inteiro.

Virei o rosto e o encarei, um formigamento gelado de medo se espalhando pelo meu peito.

— Como assim, não parou?

— Eu nem sei de onde ela está vindo — disse Morris. — Não fui eu que fiz isso.

— Não é de um toca-fitas?

Meu irmão balançou a cabeça e senti pânico pela primeira vez.

— Eddie! — gritei.

Não houve resposta.

— Eddie! — gritei de novo, e comecei a caminhar pelo porão, passando por cima das caixas, indo na direção da lua, onde ouvi a voz dele pela última vez. — Eddie, responda!

De um ponto impossivelmente distante, ouvi uma coisa, parte de uma frase:

— Trilha de migalha de pão.

Nem parecia a voz de Eddie — as palavras foram ditas em um tom recortado e desdenhoso, quase parecia uma daquelas vozes sobrepostas que você escuta naquela música louca e sem sentido dos Beatles, “Revolution 9” —, e eu não conseguia localizar de onde ela vinha, não sabia se estava na minha frente ou atrás de mim. Eu virava sem parar, tentando entender de onde a voz vinha, quando a música parou de repente, com as formigas marchando de nove em nove. Dei um grito de surpresa e olhei para Morris.

Ele segurava o estilete — usando com certeza uma das lâminas que pegou da minha cômoda — e estava de joelhos, cortando a fita adesiva que prendia a primeira caixa do labirinto à segunda.

— Pronto. Ele se foi — informou o meu irmão. — Acabou. — Ele puxou a entrada do labirinto, achatou a caixa e a colocou de lado.

— Do que está falando?

Ele não olhava para mim. Estava começando a desmontar metodicamente a sua obra, cortando fitas, achatando caixas e as empilhando perto da escada. Ele continuou:

— Eu queria ajudar. Você falou que Eddie não se afastaria, então o obriguei a fazer isso. — Morris ergueu o olhar por um segundo e me encarou com aqueles olhos que sempre pareciam ler os meus pensamentos. — Ele precisava sumir. Não ia deixar você em paz nunca.

— Meu Deus. — Respirei. — Eu sabia que você era louco, mas não tanto assim. Como assim, ele precisava sumir? Ele está aqui.

Tem que estar. Ainda está nas caixas. Eddie! — gritei com a voz um pouco histérica. — Eddie!

Mas ele tinha sumido, e eu sabia. Sabia que ele entrara nas caixas de Morris e engatinhara por elas até chegar em outro lugar, um lugar que não era o nosso porão. Comecei a andar ao longo do

forte, olhando nas janelas, chutando caixas. Comecei a desmontar as catacumbas, arrancando a fita adesiva com as mãos, revirando caixas para ver o que havia nelas. Ia rápido de lá para cá e tropecei uma vez, amassando um dos túneis.

As paredes de uma das caixas estavam cobertas por retratos de cegos: pessoas com os olhos brancos e leitosos e rostos enrugados, um homem negro com uma guitarra apoiada nos joelhos e óculos de sol redondos sobre o nariz, crianças cambojanas com pedaços de pano cobrindo os olhos. Como não havia janelas cortadas no papelão ali, as fotos não seriam vistas por ninguém que estivesse passando lá dentro. Em outra caixa, tiras de papel pega-moscas rosado — pareciam pedaços empoeirados de caramelo —

se penduravam do teto, mas não havia nenhuma mosca grudada nelas. Em vez disso, vários vaga-lumes estavam presos lá, ainda vivos, brilhando amarelo-esverdeado por um segundo e então se apagando. Na época, não pensei que estávamos em março e que teria sido impossível encontrar vaga-lumes. O interior de uma terceira caixa estava pintado com um azul-celeste pálido, com revoadas de melros desenhados de maneira infantil. No canto da caixa estava o que, a princípio, pensei ser um brinquedo de gato, um conjunto de penas escuras com bolinhas de poeira ao redor.

Quando inclinei a caixa, no entanto, um pássaro morto saiu de dentro dela. O bicho estava seco, os olhos desaparecidos, deixando apenas órbitas escuras que pareciam queimaduras de cigarro.

Quase gritei ao ver aquilo. Meu estômago se revirou e senti gosto de bile no fundo da garganta.

Então Morris pegou o meu cotovelo e olhou para a escada.

— Você não vai encontrar ele assim — falou. — Por favor, sente-se, Nolan.

Eu me sentei no último degrau. Àquela altura, estava me esforçando para não chorar. Continuava esperando que Eddie fosse aparecer de algum lugar, morrendo de rir — Caramba, cara, peguei você —, e, ao mesmo tempo, parte de mim sabia que ele nunca mais poderia fazer algo parecido.

Levei um tempo para perceber que Morris se ajoelhara na minha frente, como um homem prestes a pedir a noiva em casamento.

Meu irmão me olhou com atenção.

— Talvez, se eu montar tudo de novo, a música recomece. E aí você pode entrar e procurar por ele — falou. — Mas não acho que vai conseguir sair. Tem portas lá que só dão para um caminho.

Entende, Nolan? É maior do lado de dentro do que parece. — Ele não desviou o olhar, com aqueles olhos estranhamente brilhantes e redondos, e então se forçou a dizer: — Não quero que você entre, mas monto tudo outra vez se quiser.

Eu o encarei. Ele me encarou de volta, esperando, a cabeça inclinada naquele ângulo curioso, ouvindo, como um passarinho sobre um galho escutando o som das gotas de chuva caindo nas árvores. Eu o imaginei remontando com cuidado o que tinha acabado de desmontar nos últimos dez minutos… e então pensei na música ganhando vida em algum lugar dentro das caixas, dessa vez gritando: embaixo! no chão! fugindo! da chuva! Acho que, se aquela música começasse de novo, sem aviso, eu ia gritar, não seria capaz de me conter.

Balancei a cabeça. Morris se virou e voltou a desmontar a sua criação.

Fiquei sentado no último degrau por quase uma hora, observando Morris desmontar com cuidado o forte de papelão.

Eddie nunca saiu. Nenhum outro som veio lá de dentro. Ouvi a porta dos fundos se abrindo e a minha mãe entrando, pisando nas tábuas acima. Ela gritou o meu nome, mandando-me ajudá-la com as compras. Subi, trouxe as bolsas para dentro, guardei a comida na geladeira. Morris subiu para a janta e depois voltou para o porão. Destruir uma coisa é sempre mais rápido do que construir. Isso é verdade para tudo, menos para o casamento. Quando dei uma olhada rápida na escada do porão, às 19h45, vi três pilhas arrumadas de caixas achatadas, cada uma com mais ou menos um metro e vinte de altura, e uma vastidão de chão de concreto. Morris estava no pé da escada, varrendo. Ele parou e olhou para mim —

daquela maneira impenetrável e alienígena —, e tremi. Então, ele voltou a trabalhar, movimentando a vassoura em golpes compactos pelo chão, varrendo, varrendo, varrendo.

Morei naquela casa por outros quatro anos, mas nunca mais pisei no porão de Morris depois daquele dia, evitava completamente o lugar, da melhor forma que podia. Quando saí de casa para ir para

a faculdade, a cama de Morris ficava lá embaixo e ele quase nunca subia. Meu irmão dormia em uma cabaninha que construíra de garrafas vazias de Coca-Cola e pedaços de isopor azul cortados com muito esmero.

A lua foi a única parte do forte que Morris não desmontou.

Poucas semanas depois de Eddie desaparecer, meu pai a levou para a escola de deficientes mentais que o meu irmão frequentava, onde ela ganhou o terceiro prêmio — cinquenta dólares e uma medalha — em uma mostra de artes. Não sei o que aconteceu com a lua depois disso. Assim como Eddie Prior, ela nunca mais voltou.

EU ME LEMBRO DE três coisas das semanas que se seguiram ao desaparecimento de Eddie.

Eu me lembro da minha mãe abrindo a porta do meu quarto, pouco depois da meia-noite, no dia em que ele desapareceu. Eu estava enrolado na cama, sob a coberta, completamente desperto.

Minha mãe usava um roupão de chenile rosa com um nó frouxo na cintura. Apertei os olhos quando a vi parada no batente, iluminada pela luz do corredor.

— Nolan, a mãe de Ed Prior telefonou agora. Ela está ligando para os amigos dele. Não sabe onde o filho está. Não o viu desde que saiu para a escola. Falei que ia perguntar se você sabia de alguma coisa. Ele veio aqui hoje?

— Encontrei Eddie na escola — falei, e depois fiquei mudo, sem saber como prosseguir ou o que seria seguro admitir.

Minha mãe deve ter pensado que eu tinha acabado de acordar de um sono profundo e que estava grogue demais para pensar. Ela perguntou:

— Vocês conversaram?

— Não sei. Acho que só trocamos um alô. Não me lembro de mais nada. — Sentei na cama, piscando por causa da luz. — Na verdade, a gente não tem se falado muito nos últimos tempos.

Ela assentiu.

— Bem. Talvez seja melhor assim. Eddie é um bom garoto, mas é meio mandão, não acha? Ele não dá muito espaço para você ser você mesmo.

Quando voltei a falar, havia um leve toque de tensão na minha voz.

— A mãe dele chamou a polícia?

— Não se preocupe — respondeu a minha mãe interpretando o meu tom de forma errada, imaginando que eu estava preocupado com o bem-estar de Eddie, quando, na verdade, estava preocupado com o meu bem-estar. — Ela só acha que Eddie está em algum lugar com uns amigos. Acho que ele já deve ter feito isso antes. O

garoto discute muito com o namorado dela. Ela falou que uma vez, Eddie desapareceu por um fim de semana inteiro. — Minha mãe bocejou e cobriu a boca com as costas da mão. — Mas é normal que ela fique nervosa, depois do que aconteceu com o filho mais velho. Ele desaparecendo do centro de detenção e da face da Terra daquele jeito.

— Talvez seja uma tradição de família — falei, a voz embargada.

— Hum? O quê?

— Desaparecer — respondi.

— Desaparecer — disse ela, e então, após um segundo, voltou a assentir. — Acho que qualquer coisa pode ser tradição de família.

Até isso. Boa noite, Nolan.

— Boa noite, mãe.

Ela estava fechando a porta devagar, mas parou e colocou a cabeça para dentro do quarto.

— Te amo, filho. — Ela só dizia isso quando eu menos esperava e estava menos preparado. Senti uma pontada dolorida na parte detrás dos olhos. Tentei responder, mas, ao abrir a boca, percebi que a garganta estava com um nó tão grande, que não conseguia forçar o ar a sair. Quando enfim consegui desatar o nó, minha mãe já tinha ido embora.

ALGUNS DIAS DEPOIS, DURANTE a aula, fui chamado para a diretoria. Um detetive chamado Carnahan estava atrás da escrivaninha do vice-diretor. Não me lembro de muita coisa do que ele me perguntou ou como respondi. Lembro que os olhos de Carnahan eram da cor de gelo — um azul muito claro — e que ele nem olhou para mim durante o interrogatório de cinco minutos.

Lembro também que ele errou o sobrenome de Eddie duas vezes,

chamando-o de Edward Peers em vez de Edward Prior. Eu o corrigi na primeira vez, mas deixei passar na segunda. Durante aqueles cinco minutos, fiquei em um estado de tensão alta e vertiginosa; meu rosto parecia anestesiado por procaína e, quando falei, mal conseguia mexer os lábios. Tinha certeza de que Carnahan notaria aquilo e acharia peculiar, mas não aconteceu. Por fim, ele me aconselhou a dizer não às drogas, voltou o olhar para alguns papéis que tinha à sua frente e ficou em silêncio completo. Por quase um minuto, continuei sentado, sem saber o que fazer. Então ele olhou para cima e ficou surpreso por eu ainda estar lá. O detetive fez um gesto para me dispensar, disse que eu estava liberado e pediu para eu mandar a próxima pessoa entrar.

Quando me levantei, perguntei:

— Vocês têm alguma ideia do que aconteceu com ele?

— Eu não me preocuparia muito. O irmão mais velho do sr.

Peers fugiu do centro de detenção juvenil no verão passado e não foi visto desde então. Pelo que ouvi falar, os dois eram próximos. —

Carnahan encarou os documentos na mesa de novo, mudando-os de posição. — Ou talvez o seu amigo tenha decidido pegar a estrada sozinho. Ele já desapareceu algumas vezes antes. Você sabe o que dizem. A prática leva à perfeição.

Quando saí, Mindy Ackers estava sentada no banco encostado na parede da recepção. Ao me ver, ela logo ficou de pé, sorriu e mordeu o lábio inferior. Feia e usando aparelho, Mindy não tinha muitos amigos e sem dúvida sentia muita falta de Eddie. Eu não a conhecia tão bem, mas sabia que o maior desejo da garota era que Eddie gostasse dela, então Mindy ficava feliz com as gozações que Eddie fazia às custas dela, pois pelo menos era uma chance de ouvi-lo rir. Eu gostava dela e sentia pena da garota. Nós dois tínhamos muito em comum.

— Oi, Nolan — disse ela, com um olhar que era tão esperançoso quanto suplicante. — O que o policial falou? Eles sabem onde ele está?

Naquele momento, senti uma onda de algo que era quase raiva, não dela, mas de Eddie; um desdém profundo pela maneira como ele ria e fazia piadas às custas dela.

— Não — respondi. — Eu não me preocuparia com ele. Garanto que, onde quer que esteja, Eddie não está preocupado com você.

Vi a dor surgir nos seus olhos e então virei o rosto e segui em frente, sem olhar para trás, já desejando não ter dito nada. E daí se ela sentia falta dele? Nunca mais falei com Mindy depois daquilo.

Não sei o que aconteceu com ela depois da escola. Você conhece alguém por um tempo e aí, um dia, um buraco aparece embaixo da pessoa e ela desaparece para sempre.

TEM OUTRA COISA DE que me lembro pouco depois do desaparecimento de Eddie. Como disse, eu tentava não pensar no que tinha acontecido e evitava conversas sobre ele. Não era tão difícil quanto você pode imaginar. Com certeza, aqueles que se importavam estavam tentando me dar espaço, conscientes de que um amigo próximo sumira sem nem se despedir. No fim do mês, era quase como se eu não soubesse nada sobre o que acontecera com Edward Prior… ou talvez até como se eu nunca o tivesse conhecido.

Eu conseguia bloquear as memórias que tinha dele — a passarela, os jogos de damas com Mindy, as histórias sobre o irmão mais velho, Wayne — atrás de uma muralha com tijolos mentais cuidadosamente colocados. Estava pensando em outras coisas.

Queria arranjar um emprego e considerava entregar um currículo no supermercado. Queria gastar dinheiro, queria sair mais de casa. O

AC/DC iria para a cidade em junho, e queria ingressos para o show.

Tijolo depois de tijolo depois de tijolo.

Então, em uma tarde de domingo no início de abril, estávamos todos, a família inteira, nos preparando para ir comer carne assada com batatas na casa da minha tia Neddy. Eu estava no segundo andar, me vestindo para o jantar de domingo, e a minha mãe gritou me mandando procurar os sapatos bons de Morris no quarto dele.

Entrei no quartinho do meu irmão — a cama feita com muito esmero, uma folha branca de papel presa ao cavalete, os livros da estante arrumados em ordem alfabética — e abri a porta do armário.

Logo em frente estava uma fileira arrumada dos sapatos de Morris e, no final, vi as botas de neve de Eddie, aquelas que ele tinha tirado no hall antes de descer para o porão e desaparecer para sempre no enorme forte. Pela visão periférica, as paredes do quarto

pareceram se expandir e se retrair como um par de pulmões. Fiquei tonto e pensei que ia perder o equilíbrio e cair se largasse a maçaneta.

Então a minha mãe apareceu no corredor.

— Eu estava chamando você. Encontrou?

Girei a cabeça e olhei para ela por um segundo. Então, voltei a olhar para o armário. Eu me inclinei, peguei os mocassins de Morris e fechei a porta.

— Sim — falei. — Aqui. Desculpe. Apaguei por um minuto.

Ela balançou a cabeça.

— Os homens dessa família são exatamente iguais. Seu pai vive em outro planeta metade do tempo, você entra em transe e o seu irmão… Juro por Deus que qualquer dia desses, seu irmão vai entrar em um dos fortes para nunca mais sair.

MORRIS PASSOU NO TESTE de escolaridade de ensino médio pouco depois de completar vinte anos e ocupou diversos cargos em uma longa série de trabalhos braçais, morando por um tempo no porão dos meus pais e depois em um apartamento em New Hampshire. Ele fritou hambúrgueres no McDonald’s, empilhou engradados em uma fábrica de refrigerantes e limpou o chão de um shopping center antes de, por fim, se estabelecer como frentista.

Quando ele faltou ao trabalho no posto de gasolina por três dias seguidos, seu chefe ligou para os meus pais e eles foram visitar Morris. Meu irmão tinha se livrado de toda a mobília e pendurado lençóis brancos no teto de todos os cômodos, criando uma rede de passagens com paredes esvoaçantes. Meus pais o encontraram no fim de um desses corredores ondulantes, sentado nu em um colchão. Ele disse que, se seguisse o caminho certo pelo labirinto de lençóis, chegaria a uma janela que dava para uma videira enorme, e colinas distantes de pedra branca, e um oceano escuro.

Disse que havia borboletas, e uma cerca velha, e que queria ir para lá. Disse que tentou abrir a janela, mas que estava trancada.

No entanto, só havia uma janela no apartamento dele, que dava para o estacionamento dos fundos. Três dias depois, Morris assinou uma papelada que a minha mãe levou para ele e aceitou a

internação voluntária no Wellbrook Progressive Mental Health Center.

Meu pai e eu ajudamos Morris com a mudança. Era início de setembro, e a sensação era de que estávamos arrumando o dormitório de Morris na faculdade. O quarto dele ficava no terceiro andar e o meu pai insistiu em carregar sozinho o pesado baú com dobradiças de bronze. Quando ele o colocou aos pés da cama de Morris, seu rosto redondo e delicado estava desagradavelmente pálido e o corpo, coberto de suor. Ele ficou um tempo sentado, segurando o pulso. Quando perguntei se estava tudo bem, meu pai respondeu que tinha dobrado o pulso de mau jeito enquanto carregava o baú.

Exatamente uma semana depois, meu pai se levantou da cama de forma repentina o suficiente para acordar a minha mãe. Ela abriu os olhos e o encarou. Ele segurava o mesmo pulso e sibilava como se estivesse fingindo que era uma cobra, os olhos esbugalhados e as veias surgindo nas têmporas. Ele morreu uns bons dez minutos antes da ambulância chegar, de infarto fulminante. Minha mãe o seguiu um ano depois. Câncer uterino. Ela recusou qualquer tratamento agressivo. Um coração doente, um útero envenenado.

Eu moro em Boston, a quase uma hora do Wellbrook. Adquiri o hábito de visitar o meu irmão mais novo no terceiro sábado de todo mês. Morris gostava de ordem, de rotina, de hábitos. Ficava feliz de saber com exatidão quando eu iria. Caminhávamos juntos. Ele fez uma carteira de Silver Tape para mim, e um chapéu com um monte de tampinhas de garrafa raras. Não sei o que aconteceu com a carteira. O chapéu fica no arquivo do meu escritório, aqui na universidade. Às vezes, eu o pego e o encosto no rosto. Ele tem o cheiro de Morris, que, para ser sincero, é o odor da poeira seca do porão da casa dos meus pais.

Morris arranjou um emprego na zeladoria do Wellbrook e trabalhava, na última vez que o vi. Eu estava por perto e apareci em um dia útil, saindo da rotina para variar. Me mandaram procurar ele na área de carga, lá fora, logo atrás do refeitório.

Ele estava no estacionamento dos funcionários, perto de uma caçamba de lixo. O pessoal da cozinha tinha jogado caixas de papelão vazias ali, e agora havia uma montanha delas encostada na

parede. Pediram para Morris ir achatá-las e prendê-las com barbante para o caminhão de reciclagem.

Era início do outono, com um pouco de luz laranja começando a aparecer nas copas dos carvalhos enormes que havia atrás do prédio. Fiquei parado ao lado da caçamba, observando Morris trabalhar um pouco. Meu irmão não tinha notado que eu estava ali.

Ele segurava uma grande caixa branca, aberta de ambos os lados, com as duas mãos, virando-a para cá e para lá, encarando-a sem expressão. Seu cabelo castanho pálido se arrepiava na nuca por causa do seu redemoinho. Ele cantarolava para si mesmo, com a voz baixa e levemente desafinada. Quando ouvi a canção, fiquei de joelhos bambos, o mundo girando ao meu redor. Tive que me segurar no canto da caçamba para me firmar.

— As formigas vão marchando… de uma em uma… — entoava ele. Morris virou a caixa de um lado para outro em suas mãos. —

Viva. Viva.

— Pare com isso — mandei.

Ele virou a cabeça e olhou para mim — sem me reconhecer, no início, acho. Então, alguma coisa se esclareceu nos seus olhos, e os cantos da boca formaram um sorriso.

— Ah, oi, Nolan. Quer me ajudar a achatar umas caixas?

Andei com as pernas fracas até ele. Não pensava em Eddie Prior fazia sei lá quanto tempo. Meu rosto estava completamente suado. Peguei uma caixa, achatei-a e a coloquei na pequena pilha que Morris estava formando.

Conversamos por um tempo, mas não me lembro sobre o quê.

Como as coisas iam. Quanto dinheiro ele tinha economizado.

Então, ele falou:

— Você se lembra daqueles fortes que eu costumava construir?

No porão?

Senti uma pressão gelada, uma espécie de peso, afundando a parte de dentro do meu peito.

— Claro. Por quê?

Por um tempo, Morris não respondeu. Achatou outra caixa. Por fim, perguntou:

— Você acha que eu o matei?

Era difícil respirar.

— Eddie Prior? — O simples fato de dizer aquele nome me deixava zonzo, e uma tontura terrível se espalhou das minhas têmporas para a nuca.

Morris olhou para mim sem entender e crispou os lábios.

— Não. O papai. — Como se devesse ter sido óbvio. Naquele momento, ele me deu as costas, ergueu outra caixa grande e a encarou com os olhos pensativos. — O pai sempre trazia caixas como essa do trabalho. Ele sabia. Como é empolgante segurar uma caixa sem saber o que há dentro dela. O que pode haver dentro dela. Um mundo inteiro pode se esconder ali. Do lado de fora, quem poderia dizer? Do lado de fora sem graça.

Terminamos de empilhar a maioria das caixas. Eu queria acabar com o serviço, voltar para dentro, jogar um pouco de pingue-pongue no salão de jogos, deixar aquele lugar e aquela conversa para trás.

— Não vai amarrar as caixas? — questionei.

Morris olhou para a pilha de papelão e respondeu:

— Esqueci o barbante. Tudo bem. Deixe-as aqui. Resolvo isso depois.

Já estava anoitecendo quando saí, o céu acima do Wellbrook uma superfície lisa e sem nuvens de um violeta bem claro. Morris ficou na janela grande do salão de jogos e me deu tchau. Ergui a mão para me despedir e voltei para casa, e eles me ligaram três dias depois para dizer que ele tinha sumido. O detetive que me visitou em Boston para ver se eu sabia qualquer coisa que poderia ajudar a polícia a encontrá-lo deu um jeito de aprender o nome do meu irmão, mas a investigação do seu desaparecimento foi tão malsucedida quanto a busca do sr. Carnahan por Edward Prior.

Pouco depois de Morris ter sido declarado formalmente como pessoa desaparecida, Betty Millhauser, a coordenadora responsável pelo caso do meu irmão, telefonou para dizer que teriam que guardar os seus pertences até “ele voltar” — algo dito com um tom tão estridente de otimismo que achei doloroso —, e que se eu quisesse, poderia ir até lá pegar algumas coisas e levá-las para casa. Respondi que daria uma passada no Wellbrook assim que tivesse uma oportunidade, o que acabou acontecendo em um sábado, o mesmo dia em que eu visitaria Morris se ele ainda estivesse lá.

Um enfermeiro me deixou sozinho no pequeno quarto do terceiro andar. Paredes brancas, um colchonete sobre uma cama de metal.

Quatro pares de meia na cômoda, quatro calças de moletom, dois pacotes fechados de cuecas. Uma escova de dentes. Revistas: Popular Mechanics, Reader’s Digest e um exemplar de High Plains Literary Review, que publicara um ensaio meu sobre os versos cômicos de Edgar Allan Poe. No armário, encontrei um blazer azul que Morris modificara, colocando pisca-piscas em volta de toda a peça. Um fio elétrico estava enfiado em um dos bolsos. Ele usou o blazer na festa de Natal do Wellbrook. Era a única coisa no quarto que não parecia completamente anônimo, o único item que me fez pensar nele, então o guardei.

Parei na administração para agradecer Betty Millhauser por me deixar entrar no quarto de Morris e para informar que estava indo embora. Ela me perguntou se eu tinha dado uma olhada no armário dele na zeladoria. Falei que nem sabia que ele tinha um armário, onde ficava a zeladoria? No porão.

O porão era um espaço vasto com pé-direito alto, chão de cimento e paredes de tijolos beges. Aquele único cômodo enorme era dividido ao meio por uma grade de aço pintada de preto. Em um dos lados, ficava uma área pequena para os zeladores. Uma fileira de armários, uma mesa de cartas, banquinhos. Uma máquina de Coca-Cola zumbia encostada na parede. Não dava para ver o restante do porão — as luzes estavam apagadas do outro lado da grade divisória —, mas ouvi um aquecedor roncando baixinho em algum lugar da escuridão, ouvi água correndo pelos canos. O som me fez lembrar o que você escuta quando coloca uma concha na orelha.

No pé da escada havia uma pequena saleta. As janelas mostravam uma escrivaninha bagunçada, coberta de pilhas de papéis. Um homem negro parrudo usando macacão verde estava sentado atrás dela revirando as folhas do Wall Street Journal. Ele me viu perto dos armários, se levantou, saiu da saleta e trocamos um aperto de mão — suas mãos eram fortes e cheias de calos. O

nome dele era George Prine e era o zelador-chefe. Ele me indicou o armário de Morris e ficou um pouco atrás, braços cruzados sobre o peito, me vendo mexer nas coisas de Morris.

— Era bem fácil conviver com o seu garoto — disse Prine, como se Morris fosse meu filho e não o meu irmão. — De vez em quando, ele se perdia no próprio mundinho particular, mas é assim que as coisas são por aqui. Mas fazia bem o trabalho. Não batia o ponto e ficava de bobeira, amarrando os sapatos e batendo papo com os outros, que nem alguns fazem. Quando ele batia o cartão, estava pronto para o trabalho.

Não havia quase nada no armário de Morris. Seu macacão, suas botas, um guarda-chuva e um livro fino com a capa toda amassada chamado Planolândia.

— Claro que, depois que ele saía do trabalho, era outra história.

Ele passava horas aqui. Começou a construir alguma coisa com aquelas caixas dele e se desligava tanto que se esquecia da janta, se a gente não avisasse.

— O quê? — perguntei.

Prine sorriu, um pouco intrigado, como se eu devesse saber do que ele estava falando. O homem passou por mim e foi até a grade, ligando um interruptor. As luzes se acenderam no outro lado. Depois da divisória, havia uma vastidão de chão debaixo de um teto de tubos de canos. Essa área extensa estava coberta de caixas ligadas em um forte de criança enorme e confuso, com ao menos quatro entradas diferentes, túneis, tubos e janelas em formatos estranhos e deformados. O lado exterior das caixas foi decorado com pinturas de folhas e flores, com joaninhas do tamanho de pires.

— Gostaria de trazer os meus filhos aqui — disse Prine. —

Deixar se arrastarem aí dentro por um tempo. Ia ser uma diversão só.

Dei meia-volta e comecei a caminhar na direção da escada…

tremendo de frio, respirando com dificuldade. Mas então, conforme passei por George Prine, um impulso tomou conta de mim, agarrei o braço dele e apertei, talvez mais forte do que era a minha intenção.

— Não deixe os seus filhos chegarem perto disso — falei, a voz um sussurro estrangulado.

Ele colocou a mão sobre o meu pulso e, de forma gentil, mas também firme, tirou a minha mão do braço dele. Seus olhos me observaram com um ar calmo de uma análise cuidadosa, da

maneira que um homem olharia para uma cobra que retirou do mato, segurando-a pela cabeça para que não pudesse picá-lo.

— Você é tão doido quanto ele — falou. — Já pensou em se mudar para cá?

CONTEI ESSA HISTÓRIA COM a maior quantidade de detalhes que consegui, e agora vou esperar para ver se, com essa confissão, consigo fazer Eddie Prior voltar para o meu inconsciente.

Descobrirei se consigo retornar aos meus dias de hábitos seguros e repetição irrefletida: aulas, trabalhos, leituras, responsabilidades com o Departamento de Literatura. Reconstruir aquela muralha tijolo por tijolo.

Mas não sei com certeza se o que foi destruído pode ser reerguido. O cimento está velho demais, a muralha não foi erguida corretamente. Nunca fui o construtor que o meu irmão era. Nos últimos tempos, tenho ido muito à biblioteca da minha cidade natal, Pallow, para ler um monte de jornais antigos em microficha. Estou procurando um artigo, alguma nota, sobre um acidente na Rota 111, um tijolo que acertou um para-brisa, um Volvo que saiu da pista.

Quero descobrir se alguém se machucou seriamente. Se alguém morreu. A ignorância já foi o meu refúgio. Agora, acho impossível suportá-la.

Então, talvez, eu esteja escrevendo isso para outra pessoa, afinal. Passou pela minha cabeça que talvez George Prine tenha razão. Talvez a pessoa a quem devo mostrar isso é Betty Millhauser, a ex-coordenadora do meu irmão.

Se eu morasse no Wellbrook, pelo menos estaria em um lugar em que poderia sentir uma conexão com Morris. Gostaria de ter alguma conexão com alguém ou alguma coisa. Poderia ficar no antigo quarto dele. Poderia ficar com o antigo trabalho dele, o antigo armário.

E se isso não for suficiente — se as drogas, e as sessões de terapia, e o isolamento não puderem me salvar de mim mesmo —, sempre há outra possibilidade. Se George Prine ainda não tiver demolido o último labirinto de papelão de Morris, se o forte ainda estiver lá no porão, sempre posso rastejar para dentro dele qualquer

dia desses e fechar a cortina às minhas costas. Existe sempre essa opção. Tudo pode ser uma tradição de família. Até desaparecer.

Mas não vou fazer nada com essa história, ainda. Vou colocá-la em um envelope pardo e guardá-la no fundo da gaveta direita da minha escrivaninha. Vou deixá-la de lado e tentar recuperar a minha vida de onde ela parou, pouco antes do desaparecimento de Morris.

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Joe Hill

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