Olhos de Mariana

Fred Elboni · Capítulo 9 de 14

Páginas do PDF

Olhos de Mariana

Capítulo 9

 

– É seu Jair, a situação está difícil mesmo. Por isso vim aqui avisar que não vou conseguir vir aqui por um tempo, para a gente acabar nossa pintura juntos.

– Puxa, Mariana, que pena. Estava tão bom nosso trabalho. Mas eu sinto muito por toda a sua situação. Acabou mesmo seu namoro com o Pedro?

– Acabou sim. Não consigo ficar com alguém que não me aceite do jeito que eu sou. Eu ainda gosto muito dele, mas não dava mais. – Entendo... E seus quadros? Está conseguindo vender?

– Esse é o outro problema, seu Jair. Eu estou praticamente sem dinheiro, e isso está me deixando péssima. Eu até abri um pequeno site pra vender as minhas obras e ganhar um trocado, mas ainda não vingou. Acho que preciso de um pouco mais de paciência…

– É filha, o Brasil não é um país que valoriza a arte, é uma pena. – disse ele tossindo muito. E engatou em um acesso de tosse que até me assustou. Fui buscar um copo de água para ver se ele acalmava. – Tudo bem, seu Jair?

– Ah, sim... Quer dizer, minha saúde não está muito boa, mas vamos levando...

– Mas o senhor foi ao médico?

– Ah, fui no posto de saúde, não tenho dinheiro para consulta particular, você sabe. Marcaram uns exames, mas ainda demora um pouco. Sabe como é né? Serviço público...

– Falta de dinheiro é uma droga! Parece que tudo gira em torno disso! O pior é que não vai ter jeito, eu vou ter que voltar para a casa dos meus pais, porque não acho certo ficar morando na casa da minha amiga e não contribuir com nada. Minha situação está horrível: voltar para casa dos pais com o rabo entre as pernas, por falta de opção, e ainda ter que dar razão a eles por eu não ter uma carreira “decente”. E ainda por cima com o coração totalmente destroçado.

Me despedi do seu Jair preocupada com a situação da saúde dele, e, por um momento me enxerguei em sua pele. Será que era esse o futuro reservado aos artistas mesmo? Não ter dinheiro nem para tratar da saúde decentemente? E saí me sentindo triste e solitária, observando que minha vida estava uma droga, minha carreira não tinha deslanchado, que a minha relação com Pedro não funcionava, e que a minha relação com a minha família nunca tinha saído da pista de decolagem.

Eu era um fracasso.

 

***

 

Voltei para casa dos meus pais e a verdade é que caí em depressão. Nos dias que se seguiram, eu só queria ficar sozinha, no silêncio do meu quarto, com a janela fechada, deitada na cama, olhando para o teto e chorando. Eu pensava nas coisas que aconteceram nas últimas semanas e sentia uma angústia que gritava dentro do meu corpo. Minha família, felizmente, me respeitou nesse momento. Na verdade, não sei se de fato eles me deixaram quieta por me respeitarem ou por não se importarem com o meu estado... enfim.

Deitada no meu quarto, entre os travesseiros, um deles, obviamente, entre as minhas pernas, e ouvindo música no último volume para não ouvir as conversas previsíveis dos meus pais na sala enquanto assistiam a algum programa também previsível, fiquei pensando o que fazer da vida. Mesmo tendo dito adeus ao Pedro, não estava sabendo muito bem o que fazer. Mas, pelo menos, nesse período, não queria pensar nele, e sim em mim. Aos poucos fui me afastando das minhas amigas, e ficando cada vez mais em silêncio, do meu recolhimento. Parecia que eu tinha voltado a ser como eu era quando criança, na solidão e quietude. Eu adorava brincar sozinha quando pequena, e passava horas dessa maneira.

Alguns meses haviam se passado, e o Pedro ainda continuava atrás de mim, como se voltar fosse uma opção para ambos. Me ligava, mandava mensagens longas e cheias de belas palavras, dizendo que gostaria de jantar comigo. Mas eu precisava ser forte e seguir em frente. Nosso relacionamento já não existiria mais.

A verdade é que eu não queria magoá-lo, pois tenho um enorme carinho por ele, mas tive de tomar uma decisão. Ele estava se tornando insistente e repetitivo, e ele precisava seguir a vida, levantar a cabeça. Correr atrás de mim dessa maneira não era justo conosco. Eu não iria voltar para ele, e vê-lo assim me dava uma sensação péssima.

Mas a verdade é que o silêncio é sempre uma conversa com a nossa parte mais madura, e, aos poucos, fui percebendo que eu devia estar fazendo algo muito errado na minha vida. Porque, na verdade, vi que era muito, mas muito parecida com a pessoa que eu mais criticava: meu pai! Eu queria as coisas do meu jeito na vida, e brigava sempre para elas serem como eu pensava. Se as coisas não aconteciam como eu queria, eu largava para trás como um solene “foda-se!”. Mas tudo estava dando muito errado.

Droga! Eu não queria ser como meu pai! Nunca! Eu precisava mudar tudo na minha vida. Eu precisava aprender a ceder. E para as coisas mudarem, eu precisava começar por mim. Resolvi sair da minha reclusão e conversar com quem estava perto de mim e era muito, mas muito diferente do meu pai. E que sabia ceder como ninguém.

Minha mãe.