Olhos de Mariana
Capítulo 12
Saí da casa do Henrique e a primeira coisa que fiz quando entrei no táxi foi arrancar as lentes de contato dos meus olhos, jogar no lixo do carro (eram descartáveis, calma) e colocar meus óculos, que estavam descansando fazia um bom tempo dentro da minha bolsa.
Nossa, que alívio! Senti que, de alguma maneira, eu voltava a ser eu. Não totalmente o eu de antes – que estragou tudo com Pedro, com a família e com a carreira – mas talvez um eu renovado, que tinha experimentado uma nova condição extrema, e agora estava pronta para um novo equilíbrio. Se eu não queria ser meu pai e mudei tudo, eu também não queria ser minha mãe! A gente não precisa ceder em tudo em nome do outro e nem precisa se anular para fazer o outro feliz. Eu estava começando a entender o caminho do meio.
Desci do carro e assim que entrei em casa, meus pais e meu irmão estavam na sala, com uma cara de tristeza que eu nunca tinha visto.
– O que aconteceu?
– Mariana, temos uma notícia triste pra você.
– O que foi, pelo amor de deus?
– O seu Jair...
– Ah não...!!! Não me diga que ele...
– Sim, Mariana. Infelizmente, ele faleceu. A sobrinha dele passou aqui e avisou! O enterro é daqui a uma hora, a gente estava tentando te avisar pelo celular, mas você não atendia.
– Acabou minha bateria! Droga! Vou voar para lá.
– A gente vai também – meu pai falou.
– Vocês vão? – me espantei.
– Sim. A sobrinha foi muito educada, agradeceu muito por você ter feito companhia a ele nesses anos... Achamos que precisamos ir.
– Então corre, senão a gente perde o enterro!
***
Chegamos no cemitério quase na hora que o cortejo estava saindo. O velório estava se encerrando, mas ainda deu tempo de cumprimentar a sobrinha do seu Jair.
– Mariana, muito obrigada pelo que você fez pelo meu tio. Ele era teimoso, turrão, queria morar sozinho, a gente insistia para ele vir viver com a gente na nossa cidade, mas não tinha jeito. Ele queria ficar no cantinho dele. Mas a sua companhia foi importante, ele falava muito de você.
– Puxa, nem deu tempo de eu ir visitá-lo uma última vez – eu disse, com tristeza.
– Ele estava doente, Mariana. Bem doente. A gente só soube depois. – Eu sabia, só não sabia que era grave assim, a ponto de...
Ela aproveitou que eu não conseguia continuar, e me falou: – Olha, eu queria entregar uma coisa a você. Eu nem tinha certeza que você viria, mas trouxe para cá, porque achei na casa dele antes de vir para o velório.
Ela foi até um canto do salão e pegou um pacote enorme, em forma de rolo. Eu já sabia o que era.
– Tinha um bilhete aqui pra você: “Entregar para Mariana”. Acho que ele já sabia que ele...
Eu comecei a chorar e peguei o pacote e o bilhete. Meus pais se aproximaram e eu fui abrindo o envelope para ler, e fiz isso em voz alta, para eles também.
Mariana querida,
Tomei a liberdade de completar nosso quadro. Achei que você não teria tempo, com tanta coisa acontecendo na sua vida. E eu sei que não tenho muito tempo mais também, mas esse foi um dos projetos que mais me deu prazer, porque fizemos juntos.
Mas eu quis terminar para você ver que é possível combinar estilos diferentes. Dá certo! O resultado fica bom. E também quis terminar para não largar inacabado, para não desistir do nosso quadro, para poder dizer a você para também não deixar nunca a arte de lado,
porque você é muito talentosa. E para dizer que você também não deve desistir da arte, da pintura. Dê um jeito, mas volte! Não desista!
Com carinho,
Jair
As lágrimas caíam dos meus olhos sem que eu pudesse pará-las. Quando olhei para meus pais, vi que eles também estavam emocionados, para meu espanto. Abri o papel que envolvia o quadro e mostrei para eles.
– Está muito bonito, Mariana – meu pai falou, enxugando uma lágrima.
E eu tomei um susto, pois foi a primeira vez que ele elogiava uma obra minha!
– Puxa, obrigada pai! – respondi.
– Olha Mari, eu sempre achei sua arte muito bonita. A do seu Jair também. Mas você precisa entender que eu queria que você aprendesse a honrar suas contas, seus compromissos. Desculpe meu jeito bruto, mas é como eu sei ensinar isso.
– Ah pai! Desculpe o meu jeito também!
E, pela primeira vez na vida, eu o abracei! E ele retribuiu!
Abracei também minha mãe e meu irmão. Não sei se aquilo se repetiria, ou se só aconteceu pela emoção do acontecimento. Mas para mim já tinha valido por todos os abraços da vida, e por, finalmente, poder sentir um gesto de carinho e afeto da minha família.