Olhos de Mariana
Capítulo 4
Quando saímos do museu, já era fim de tarde, e, ao contrário da chuva forte que caía quando chegamos, o temporal já tinha passado, o céu estava bonito, e ainda restava um pouquinho de sol. O cheiro de asfalto molhado deixava no ar aquela sensação de paz e calmaria, e sentir aquele odor que eu adorava me fez até esquecer da discussão com a Poliana.
Chegamos as duas ao bar, e eu meio esbaforida e atabalhoada, como sempre, e carregando meu guarda-chuva listrado de preto e branco. Cumprimentamos as meninas e logo emendamos em um papo. Era um dos meus lugares favoritos, um pub que fica em um porão. A maioria das pessoas considera o bar estranho e repleto de gente esquisita, mas eu e minhas amigas adorávamos aquele lugar, pois tinha ótimas cervejas, e, principalmente – e coloca principalmente nisso –, porque poucas pessoas sabiam da existência dele. E a gente sempre gostou de ir a bares que a grande massa não conhecia...
De cara, Poliana já começou a contar suas histórias malucas sobre homens, que novidade, não é mesmo?!
– Olha, já desisti de encontrar alguém que me ame da maneira que eu mereço.
– Ah, para, Poli! O João foi ótimo pra você! – a Sofia protestou. – O Antônio era um fofo, qual o problema dele? – Luiza quis saber.
– É, e não vamos ser injustas com o Luiz também – eu emendei.
– Ah não, o Antônio não foi homem o suficiente pra ficar comigo, Lu, nem vem! – Poli se defendeu.
Confesso que tenho um pouco de preguiça desse assunto, porque muitas mulheres, quando bebem um pouco e começam a falar sobre homens, são como um disco que se repete pela noite inteira. E tem algumas que até colocam o peso da felicidade em um relacionamento – sim, elas existem –, e falam bem, falam mal, falam, falam, mas nunca chegam a nenhuma conclusão. Eu nunca tive muita paciência para isso. Mas, ok, elas eram minhas amigas, e paciência é uma virtude. Então eu me pus no modo “Sorria, Mariana!”. Mas nunca desisti da minha eterna missão de tentar mudar de assunto, e antes que a Poli enviasse uma mensagem aleatória para o João, para o Antônio ou para o Luiz, pedi mais uma cerveja.
– Garçom, mais uma Pale Ale, por favor! – pelo jeito, a noite seria longa. E eu, por sorte, já estava começando a ficar aquele estado alegre, de riso fácil. Quando o garçom saiu para buscar minha bebida, justo na direção dele, ao longe, de repente avistei um cara sozinho, que estava lendo um livro, o que chamou muito minha atenção, por vários motivos. Primeiro, pelo fato de ele estar naquele bar, que eu já achava descolado. Segundo, por estar lendo, e, terceiro, e mais inusitado: ele estava lendo o mesmo livro que eu!!
Consegui ver direitinho a capa: Um rio chamado tempo, uma casa chamado terra, do Mia Couto. Ah, era muita coincidência! Aquilo era incrível. Aquele cara devia ser incrível também, e pus isso na minha cabeça. Na hora, me desliguei do mundo! Parecia que não havia mais nada em volta, não conseguia parar de olhar para ele, não conseguia nem mais tatear a mesa em busca da minha tulipa de bebida. Não consegui evitar ficar encarando, porque encontrar pessoas que estão lendo o mesmo livro que você sempre é um sinal divino de que algo maravilhoso está para acontecer.
Sempre fui de me apaixonar fácil por caras que leem, ainda mais quando têm um gosto parecido com o meu. É quase instantâneo! Parece que ele já conhece tudo sobre mim, meus gostos, o jeito como durmo, com o travesseiro entre as pernas. E na minha cabeça doida, ele já me conhecia também, sabia de todas as minhas manias, apenas ainda não tinha consciência de que tinha todo esse poder. Ah, eu tinha que dizer isso a ele. De repente, dei um gole encorajador na minha cerveja e falei para as meninas:
– Amigas, tô indo conhecer o homem da minha vida.
– Tá doida Mariana? – Luiza falou.
– Ferrou, ela bebeu demais e a gente nem percebeu... – Poliana se desesperou.
– Vai fundo, miga! – Sofia riu da minha cara.
Sem pausas e nem tempo para pensar na loucura sadia que eu estava prestes a cometer, levantei da mesa e fui em direção a ele. Não tinha tempo a perder. Se não fosse naquele momento, nunca mais o veria de novo, e iria me arrepender por deixar de fazer aquilo. Cheguei perto da mesa e fui perguntando:
– Oi... É... Desculpa chegar assim... Mas é que eu estou lendo exatamente o mesmo livro que você, e achei muita coincidência... E não resisti e vim falar isso pra você...
– Caramba, muita coincidência mesmo! Está gostando? – Estou sim. Eu acho que já estou em uma página um pouco mais à frente que você.
– Estou na 172.
– Ah, parei na 200. Essa parte que você está é ótima. Adoro os nomes que ele dá aos personagens.
– E eu adorei o nome do lugar! E por falar em nomes, qual é o seu?
– Ah, Mariana!
– Prazer, sou Pedro. Senta aí, Mariana! – ele falou me estendendo a mão para cumprimentar.
Um sorriso breve, uma suave passada de mão nos meus cabelos feito ondas do mar, uma coçadinha na minha tatuagem preferida no antebraço, um olhar doce, porém não enjoativo, e pronto, já estávamos no papo mais fácil e delicioso do mundo. Pedro era economista, tinha um cachorro, não tinha filhos e cultivava uma horta orgânica em casa. Me contou que adorava restaurantes pequenos, daqueles em que o dono atende, como se fosse um amigo próximo. Achei ele bem bonito, apesar de, no fundo, gostar mesmo de homens com bom gosto, principalmente quando o assunto são livros, filmes e roupas, e naquele momento, com certeza, sua melhor qualidade era saber falar de qualquer assunto com a leveza que sempre esperei de alguém. E quando a gente encontra alguém que entende as referências de filmes, séries ou livros que a gente joga no ar, pode ter certeza que sairá algo gostoso daí. E era o que estava acontecendo! Conversa vai, conversa vem, de Dalí a Arcimboldo, de Hemingway a Salinger, já estávamos ali havia quase duas horas falando sobre o que nos viesse à mente. E, a cada referência artística ou cultural que eu jogava e ele pegava, meus olhos brilhavam mais. Era visível. E era para ser mesmo, porque ele merecia saber que eu estava a fim dele, eu estava mesmo enviando sinais. Não havia tempo para charminhos bobos que retardassem a comunicação clara. Na verdade, nunca há, mas em geral as pessoas complicam.
Do outro lado do bar, minhas amigas provavelmente estavam fofocando e me julgando com olhares que atravessavam o salão e perguntavam de longe, mexendo os lábios, mas sem deixar sair som da boca: “E aí?!”, mas eu mal dava atenção a elas. Naquele momento, Pedro era muito mais interessante. Não muito tempo depois, elas resolveram ir embora. Chegaram perto da mesa, cumprimentaram o Pedro, me deram um tchau rápido e, achando que estavam sendo discretas, me olharam com aquela cara com que as amigas sempre olham quando você está conhecendo alguém em um bar e falaram:
– Tudo bem mesmo a gente ir embora…?
– Avisa no grupo quando chegar, tá Mari?!
– Qualquer coisa, manda mensagem, por favor!
– Tá bom, meninas, fiquem tranquilas! Obrigada! Beijos! – falei, rindo. Pedro também sorriu.
E a Poliana, quando foi me dar um beijo de tchau, perguntou no meu ouvido: “Esse cara é confiável?”. Eu tinha certeza de que ele era, pelo menos para aquela noite, e a minha intuição nunca falha. Sinalizei para ela com um “sim” discreto.
Depois que elas saíram, também resolvemos ir embora. Pagamos a conta – dividimos o que consumimos ali – e fomos pegar o carro dele. Quando levantamos, notei que o Pedro não era muito alto, tinha quase a minha altura, mas também não sou parâmetro para muita coisa, já que sou mais alta que a média das mulheres. Ele usava uma roupa casual, calça jeans, camiseta básica e tênis (escapei do sapatênis, ufa!). Gosto de homens com camiseta básica. Eles me dão, sei lá, tesão.
Enquanto caminhávamos pela rua, fiquei pensando que, caso ele me convidasse para ir à casa dele, eu iria. Pensei, medi minhas inseguranças, que naquele momento estavam anestesiadas, refleti e cheguei a uma conclusão muito inteligente: ia fazer o que o tesão sussurrasse no meu ouvido, sem me preocupar com o amanhã. E sem me preocupar com a opinião dele sobre mim.
Sempre fui do tipo que gosta de sentir prazer antes de pensar nos possíveis desafetos do dia seguinte, pois acho que uma noite feliz sempre vale uma possível manhã de remorso. Mas eu senti não teria nada disso, nenhuma ressaca moral, e, como eu disse, minha intuição nunca falha. Confiei nela. De repente, paramos em uma rua qualquer – para mim era qualquer, mas para Pedro era estratégica, depois percebi, ele desligou o carro e começamos a conversar.
– Aqui é seguro, não precisa ficar com medo. Tem um monte de seguranças.
– Ah, ainda bem que você avisou! Sei lá né, parar na rua pode ser perigoso...
– Fica tranquila... Eu tô de olho.
– Tá bom, assim eu fico.
– Deixa te perguntar... Você usa óculos faz tempo?
– Óculos?
– Sim!
– Ah, eu praticamente nasci de óculos, nem sei como é ser alguém sem. Uso desde que tinha nove meses, mas sempre gostei, sabe? Porque eu usava coloridos na infância, e hoje eles fazem parte do meu estilo, tenho orgulho até. Coisa de aquariana, que gosta de ser diferente!
– Caramba! Faz parte de você então! Você tem miopia?
– É, miopia. Quando eu era criança, tinha um pouco de estrabismo, e usei aquela coisa de tampão e tudo, e quando perguntava para a minha mãe por que tinha os olhos assim, ela dizia que eles queriam ficar juntinhos.
– Ah, que fofo!
– É, mas agora corrigiu. E, acredite se quiser, tem gente que diz que fico bonita de óculos. E eu adoro acreditar.
– Pode acreditar, você é linda! Muito! – ele falou, tirando meus cabelos do rosto e colocando atrás da minha orelha.
– Ah, obrigada! – respondi, meio encabulada.
– Mari, eu estou com a sensação de que te conheço faz tanto tempo! Mas faz só algumas horas! Que coisa doida!
– Eu também, estou com a mesma sensação. Acho que foi muita sintonia né? Parece que a gente combina...
– Sabe como a gente comprova se a gente combina? – ele me perguntou, chegando bem perto de mim.
– Como? – perguntei, um pouco curiosa, um pouco já adivinhando o que ia acontecer, mas adorando como ele estava levando a coisa. – Testando!
Nesse momento, ele aproximou seu rosto do meu, colou os lábios dele nos meus e nos devoramos em um beijo romântico e louco, mas também muito libertador. Meus cabelos insistiam em ficar entre nossas bocas, e ele os afastou gentilmente. Meus óculos embaçaram, e eles os tirou delicadamente. E quando alguém tira meus óculos para me beijar... Ah! É um prato cheio para terminar em uma loucura, e eu adoro loucuras!
Ficamos ali no carro por um bom tempo mais entre beijos, vidros embaçados e algumas conversas sobre arte e pequenas filosofias de vida, quando, de repente, ele disse:
– Mari, eu moro naquele prédio ali. Quer subir e ouvir música?
Eu ri e, com um tom levemente debochado, disse: – Ouvir música? Sei... Mas é lógico que eu quero sim!