Olhos de Mariana
Capítulo 3
– Mariana, mas você vai sair de novo? – minha mãe perguntou com um tom de repreensão.
Eu já estava toda arrumada, pronta para girar a maçaneta da porta, quando mais uma vez fui presa em uma emboscada familiar que tentava me fazer agir do jeito que meu pai e minha mãe queriam. Respirei fundo e tentei ser educada.
– Vou mãe, combinei com as meninas de encontrar com elas em um bar depois que eu for a uma exposição.
– Acho uma perda de tempo – meu pai me cutucou – Por que não aproveita a tarde pra procurar um trabalho de verdade? – ele falou com ironia na voz.
– Eu tenho um trabalho de verdade, pai! – falei, já irritada com a milésima vez que ele me provocava com aquele assunto. – Ah é, e quanto ele te dá por mês?
– Pai, não começa com essa história de novo. Eu já falei que quando eu conseguir fazer minha exposição, vou vender mais, mas que por enquanto meu ganho é irregular mesmo, eu vendo um quadro aqui, outro ali. Estou no começo da carreira, preciso de um tempo para me estabelecer, mas logo eu deslancho. E eu agradeceria muito se pudesse contar com o apoio e a compreensão de vocês até isso acontecer.
– Mariana, a gente apoia com casa, comida, roupa lavada, e uma mesada que não é muita, mas é o possível. Mas você não colabora. Não bastasse ter feito uma faculdade inútil, você não aprende que isso de arte nunca vai te levar a lugar nenhum?
– Pai, eu não quero discutir com você de novo sobre esse assunto. Faz anos que a gente não sai disso. E eu tô com pressa, tô de saída... – falei, muito magoada com aquelas palavras, que me feriam profundamente. – Então saiba que de mim você não vai ver mais nenhum tostão. Chega! Vire-se! Arrume um emprego decente, ganhe na loteria, case com alguém rico, faça qualquer coisa, mas pra mim chega de sustentar gente que não entende como a vida funciona.
– Você é que não me entende, pai! Aliás, nem me conhece direito! Só sabe ver o mundo do seu jeito, só sabe gostar e tratar bem as pessoas que seguem o que você pensa! Você é um ditador, isso sim, que não enxerga nada direito! – Cala essa sua boca, Mariana! Olha como fala comigo! Vânia, me segura senão eu vou perder a cabeça com essa menina!
– Mariana, não fala assim com seu pai, escuta o que ele diz... – A senhora só sabe falar isso! Só sabe obedecer tudo o que ele manda, aliás! Cadê sua vida própria, mãe? Cadê seu amor próprio? Meu pai começou a gritar tão alto depois que eu falei aquilo, que só abri a porta e a bati atrás de mim e saí para a rua pisando firme. Eu estava muito irritada, mas, acima de tudo, eu estava triste, magoada.
Minha família não me apoiava na minha profissão, não me entendia, e, pior, fazia de tudo para que eu desistisse, para que desse errado. Eles podiam não concordar, mas podiam pelo menos me apoiar. Só que meu pai sempre foi muito autoritário, e só queria que fizéssemos o que ele mandava, que era o que ele achava certo para nossa vida, a minha e do meu irmão. E minha mãe era alguém quase nula, que não tinha voz própria, e só seguia o que aquele ditador falava.
Não acho que meus pais tenham sido de todo ruins, não posso ser injusta. Nunca faltou nada para mim e para meu irmão, nunca passamos necessidade, mas os dois sempre foram muito ausentes em termos de afeto, de carinho e de calor familiar. Principalmente da parte do meu pai que, pela natureza de seu trabalho, precisava viajar muito, passando muito tempo fora de casa.
Mas, acho que mesmo que ele tivesse tempo comigo, ele não se interessaria pelo meu universo. Para dizer bem a verdade, acho que até hoje ele não sabe qual é a minha comida preferida, se tenho mais medo de andar de avião ou de barco, e nem se sou destra ou canhota. Na verdade, ele nunca se interessou em saber quem eu realmente era por dentro. Ele só queria que eu fosse quem ele esperava e ponto, como se eu não tivesse vontade própria, como se não existisse algo maior pulsando dentro de mim. Minha mãe se comportava do jeito que ele queria, e eu achava que ela era bastante omissa, submissa e anulada, mas eu me recusava a ser daquela maneira.
***
Apesar da discussão em casa, cheguei ao museu no horário em que marquei com Poliana. Tínhamos combinado de ver a exposição do Modigliani que estava acontecendo na cidade, e depois encontraríamos mais duas amigas em um bar. Eu tinha esperado meses por aquela exposição, que era uma coisa de louco, pois esse pintor e seus retratos estranhos sempre me fascinaram.
É engraçado como esse clima de exposições e vernissages me inspiram. Parece que cada vez mais recebo breves sinais de que realmente nasci para a arte, mesmo que muitas vezes eu tenha negado esse chamado, e fui pensando nisso enquanto estava no Uber, vendo cair uma tempestade que fazia o trânsito ficar péssimo. Mas o motorista deu um jeito de desviar dos lugares de mais congestionamento e eu não atrasei para encontrar com minha melhor amiga.
Poliana era minha confidente, sempre me ajudava com todas as minhas dúvidas, desde as coisas mais banais, sobre qual roupa vestir para um encontro, até mais sérias, como o problema que eu estava passando. Assim que nos encontramos, já fui contando tudo o que tinha acontecido naquela milésima discussão na minha casa. Depois de visitar toda a exposição, sentamos para descansar em um banco na saída, e resolvi pedir uma ajuda mais “concreta” para minha amiga. E me surpreendi muito com sua resposta. – Tudo bem, Mari, eu até te empresto esse dinheiro, e você me paga quando puder. Eu entendo sua situação, entendo que as coisas vão ficar difíceis daqui para a frente, mas, olha, posso te falar uma coisa, mandar a real mesmo?
– Lógico né, Poli.
– Eu acho que seus pais estão certos.
– O quê?! Acho que não ouvi direito.
– Ouviu sim.
– Cê tá mesmo falando que meus pais estão certos, Poliana!? Não tô acreditando...
– Eu acho que eles têm razão, sim, Mariana. Você precisa ter uma estrutura, precisa ser adulta, daqui a pouco você vai fazer 30 anos e precisa ter uma renda, precisa se manter direito, ter sua cas...
– Mas eu tenho renda!
– Eu tô falando de um negócio mais sólido, regular, todo mês, ali, bonitinho na sua conta, Mari. Pensa bem, desencana desse negócio de pintura, acha alguma coisa que pague um salário decente, que pague suas contas, que te dê folga pra comprar tudo o que você quer, pra você viajar, e leva a arte como hobbie.
– Pô, Poliana, se eu soubesse que iria ouvir sermão igual do meu pai, e justo de você, não tinha te pedido nunca esse empréstimo!
– Olha, de repente pode até ser alguma coisa ligada mesmo à arte, mas que seja mais pé no chão, mais sólido, mais razoável. Dar aulas, por exemplo. – Chega! Não quero mais ouvir! Se você falar mais alguma coisa, eu vou ser obrigada a brigar feio com você também, e eu não quero isso. – Eu é que vou ter que brigar feio com você, Mari, se você continuar...
– Cabou Poli, fim de assunto. Vamos para o bar que as meninas já devem estar lá.
– Ok, mas depois não vem chorar no meu ombro, combinado?
– Humpf!