Olhos de Mariana
Capítulo 8
A gente não estava bem. Eu achei que tinha encontrado a pessoa perfeita para as minhas imperfeições, mas, com o tempo, mesmo sem querer, Pedro se revelou outra pessoa, com opiniões, atitudes e, às vezes, até reações que eu nunca imaginaria que ele teria. E eu me perguntava: “Será que ele mudou ou sempre foi assim e eu nunca percebi?”.
Pedro e eu brigamos, mas foi uma briga diferente das outras, envolvendo coisas maiores e mais profundas do que uma briguinha qualquer. Na verdade, ele fez a pior coisa que poderia fazer comigo – e ele sabia disso. Vou tentar resumir a história.
Eu nunca fui de fumar. Só em raras exceções, quando bebia, mas era coisa de uma, duas vezes por ano, até porque não éramos muito de sair à noite. É que o cigarro sempre foi um bom companheiro nos momentos em que apenas a bebida ou o silêncio não preenchiam o vazio da ansiedade. E Pedro sempre soube disso, e às vezes até fumava comigo. E não que isso seja algo bonito de contar, mas, infelizmente, esse detalhe faz parte da história. Era noite de sábado e estávamos num bar com um grupo de amigos bebendo cerveja artesanal e comendo o bolinho de bacalhau, e conversa vai, conversa vem, Pedro levantou para ir ao banheiro e, quando voltou, me viu fumando um cigarro, e, só pelos movimentos dos olhos percebi que estava “insatisfeito”. Ele nunca tinha me lançado esse olhar de desaprovação daquele jeito, mas relevei, e continuei bebendo e fumando, sem pressa. Quando voltei, sentei ao seu lado, coloquei a mão carinhosamente na sua perna e perguntei:
– Aconteceu alguma coisa?
– Não, não... – respondeu, claramente chateado. – Aconteceu algo que eu sei, me diz... – insisti, sabendo que as primeiras respostas dele são sempre qualquer coisa menos o que ele gostaria de dizer, respirei e insisti mais um pouco:
E, como um caminhão que descarregava seus entulhos num pátio vazio, ele desandou em falar:
– Eu não quero mais que você fume.
Na hora, não esbocei nenhuma reação, mas fiquei em choque: “Sério que isso está acontecendo? Pedro me cobrando, tolhendo a minha liberdade?”. – Ta bom, não vou acender mais nenhum cigarro! Depois a gente fala com calma, em casa – falei, para não criar nenhum atrito ali.
Ficamos mais um tempo no bar, mas o humor dele não melhorou, parecia que estava ofendido. Cheguei a pensar que ele estava criando algum atrito besta só para eu me cansar e terminar com ele… minha cabeça foi a mil, mas não era o perfil do Pedro ser assim tão covarde. Se ele quisesse terminar, que assumisse suas vontades. Pelo menos eu sempre esperei isso dele.
Na casa dele, começamos uma discussão na cozinha, e o tom de voz foi aumentando, e nós dois confiantes de que estávamos certos, ainda que a minha certeza fosse radicalmente contrária à dele. Até que ele encheu a boca:
– Eu nunca casaria com você sendo fumante!
Ao ouvir aquilo, fiquei paralisada, como se o meu mundo tivesse virado de cabeça pra baixo. Meu coração apertou, a garganta fechou e aquele frio na espinha fez voo sem escala. E o que mais me entristeceu, ou potencializou a tristeza que já sentia, foi que eu já havia ouvido isso mais de uma vez, de outros caras com quem me relacionei, mas nunca imaginei ouvir isso do Pedro, o que mexeu comigo de uma forma que nem ele poderia dimensionar. Era como se ele gostasse que eu fosse louquinha, divertida, tatuada, mas… mãe dos seus filhos? Nunca! Como se eu fosse uma ótima pedida para uma aventura, algo passageiro, nunca para um amor da vida toda. Como ouvir isso e não me sentir sozinha na relação – seja ela como for? Triste, perdida e com uma dor no peito que parecia não ter fim, saí correndo da casa dele, me perguntando o que havia de errado comigo. Estava tão desnorteada que não percebi, num primeiro momento, que, se havia algo de errado, não era comigo, mas com ele.
***
Alguns dias se passaram e, para o Pedro, tínhamos tido só uma briguinha de fim de semana, mas, para mim, a magia havia se despedaçado. Ele me conheceu falando alto, fazendo valer minha opinião, e sempre soube que eu era assim, me aceitava e, mais, me elogiava por ser assim, autêntica, forte, segura, ainda que eu tivesse minhas fragilidades. Mas parece que ele tinha cansado.
Não tinha sido somente uma discussão, ali ele tinha revelado coisas que nunca haviam passado pela minha cabeça. Ele estava querendo me mudar e deixou claro que, se eu não mudasse, não teríamos futuro juntos. Pedro nunca deixou de ser um cara legal, mas, de olhos mais abertos, comecei a ver nele preconceitos, opiniões e posturas que eu nunca imaginei que ele teria.
Eu sei que o homem por quem eu era tão apaixonada nunca foi perfeito. Sempre soube dos seus defeitos, mas, em vez de questionar, procurava aceitá-los, conviver com eles. Mas, como ele revelou nessa discussão, ele não. E viver em um relacionamento em que o outro não te aceita é morrer aos poucos.
Faz uns dias, não estou legal, não me sinto bem. Estou morrendo de saudade, mas sei, no fundo eu sei, que ele nunca vai mudar. E se eu o desculpar, e ele ganhar confiança e achar que a nossa discussão foi mesmo só uma briguinha? Não foi. Perdi um amor? Não sei. Mas preciso cortar esse mal pela raiz, antes que eu não saiba mais como lidar comigo. E, na dúvida, prefiro viver sozinha do jeito que eu sou do que viver a dois do jeito que ele quer que eu seja.