Olhos de Mariana
Capítulo 6
– Oi Ricardo, tudo bem? – atendi meu celular voando quando vi o nome do marchand que estava com uns quadros meus tentando arranjar para mim uma exposição em uma galeria que estava super em alta.
– Tudo bom Mariana? – a voz dele não me pareceu tão entusiasmada quanto eu gostaria.
– Tudo certo! E aí, novidades?
– Sim, mas não são boas as notícias. A galeria não vai fazer sua exposição, Mari.
– Ah não...
– Pois é. Eu insisti, mas eles disseram que estão com outras prioridades, a agenda está concorrida, quem sabe mais pra frente...
– Já entendi, Ricardo. Tudo bem. Mas pelo menos conseguiu alguma venda de algum dos meus quadros?
– Tá bem difícil. Nada ainda. Acho que seu estilo está meio fora do foco dos compradores agora, o pessoal está preferindo alguma coisa mais conceitual...
– Conceitual? Sei...
– Bom, qualquer coisa eu te aviso tá? E se você quiser pegar seus quadros e tentar outro jeito, pode vir buscar, tá? Mas não desanima, não.
– Claro, não vou... – falei, já totalmente desanimada – obrigada! – Beijo! Fica bem!
– Tá bom. Beijo. Tchau.
Desliguei bem triste, porque eu tinha muita esperança naquela exposição. Minha cara de enterro e frustração, é claro, chamou a atenção dos meus pais, que estavam perto de mim e quiseram saber o que aconteceu. Não tive como não contar, apesar de já saber o que viria em seguida.
– Olha Mariana, acho que agora chegou no limite né? Eu acho que você tem que trabalhar. Eu falei com o Arnaldo e você pode trabalhar na loja de roupas da mulher dele. Estão precisando de vendedora lá.
– Pai, você não precisa me arrumar emprego! Eu sei me virar!
– Ah, sabe se virar? Onde Mariana? Não tá se virando! Larga mão de ser orgulhosa e vai ganhar um dinheiro honesto.
– Pai, chega! Eu não aguento mais vocês só ajudando a terminar com a minha carreira.
– Carreira de quê? De artista fracassada?
– Pra mim chega, eu vou embora!
– A porta da rua é por ali! – meu pai gritou, e eu corri para o meu quarto e comecei a arrumar minhas coisas em uma mala.
Desde criança, esse negócio de família sempre foi complicado para mim. Nunca fui de falar muito com meu pai, e minha relação com a minha mãe também não era das melhores, e a verdade é que nunca nos demos muito bem. Sempre tivemos opiniões diferentes, e, com a cabeça dura que eles têm, nunca houve renúncia. Me lembro de quantas e quantas vezes tive que ceder, mesmo sabendo que estava certa, e isso era bastante difícil para mim. Tinha que me fingir de boba para não arranjar confusão nos almoços de domingo, e nunca deu muito certo. Sentados à mesa da sala, com a televisão ligada em um daqueles canais que fazem lavagem cerebral na gente, aquela toalha em que não podíamos deixar cair comida ou ouviríamos durante dias, com meu pai sentado à cabeceira falando sobre as coisas em que ele acreditava, verdades absolutas, críticas à sociedade, e mais um monte de coisas que tínhamos que ouvir e fingir que concordávamos. Quando ele vinha com os preconceitos torpes dele, me subia uma coisa, uma vontade de levantar da mesa e gritar “EM QUE MUNDO VOCÊS VIVEM?”, mas me calava e pegava mais um pouco da salada de batata. Até porque, quem daria ouvidos a uma adolescente?
Aquela discussão foi o estopim para eu querer sair de casa, ser independente, me virar do avesso e mostrar que eu era capaz. E para mostrar quem eu realmente era, pois, na casa dos meus pais, eu seria sempre a filha deles, que, infelizmente, nunca foi, e nunca seria, o que eles esperavam. Aquelas palavras do meu pai foram um tapa na cara que me disse: “Acorda, garota, seus pais não vão mudar, mude você, eles nunca vão deixar você ser quem é, saia de casa, corra atrás do que faz o seu mundo girar, pois por aqui as coisas, infelizmente, nunca vão mudar”.
Não sei se meus pais me conhecem ou se só têm uma imagem exterior de mim. Saber que eles me amam, mas ter certeza de que nunca vão me entender por inteiro é uma grande tristeza. Eles querem o meu bem, mas nunca verão o tamanho do brilho que carrego comigo. Eles nunca vão conseguir me enxergar como realmente sou e, provavelmente, nunca vão mudar… uma pena ver isso e não poder fazer nada.
***
– Oi Mari, entra! O que aconteceu? Por que você está chorando assim?
– Poli, posso ficar aqui por uns tempos?
– Pode miga! Ai, ai, ai... entra. Me conta tudo.