Olhos de Mariana
Capítulo 10
Foi no dia que eu estava no sofá da sala, pertinho do abajur colorido que a minha mãe adora, comendo um lanche e vendo um filme que já tinha tentando assistir várias vezes, mas nunca conseguia terminar, que algo inusitado aconteceu e me fez tomar uma atitude que acabou mudando várias coisas na minha vida. Perguntei para minha mãe assim, sem mais nem menos:
– Mãe, a senhora é feliz?
– Como é que é, Mariana? Que conversa é essa? – É isso mesmo. A senhora é feliz na sua vida?
– Ah... que pergunta... Mas eu sou sim, sabia? – É?
– Sou. Eu tenho uma família, uma casa confortável, um marido que é meio durão mas que me respeita, todo mundo tem saúde, e eu gosto muito de cuidar de todos. Minha família foi bem complicada, passaram fome, não tinha lugar direito para todo mundo. Mas a minha vida foi bem diferente. Eu sempre quis ter uma família e cuidar dela, e isso acontece. Gosto muito de cozinhar, de deixar a casa em ordem, de fazer meu marido feliz...
– E a senhora nunca quis ter uma profissão, trabalhar fora? – Ah, Mariana, eu não tive chance de estudar, mas graças a deus consegui, eu e seu pai, proporcionar para você e seu irmão isso. Então fico feliz de cumprir bem minha “profissão” de dona de casa. Sou “do lar”, como dizem, mas sou bem feliz assim, porque é uma coisa que eu gosto.
– Entendi, mãe. Acho que a senhora está certa.
Conversando ali com ela, achei que talvez eu estivesse bem errada nas minhas decisões de vida, nas minhas convicções, com tantos sonhos grandes, tantas ambições... e tantas frustrações. E se eu baixasse minhas expectativas e começasse pequeno tudo de novo?
Minha mãe vivia bem no casamento dela, com uma vida muito mais simples. Talvez esse fosse o segredo: simplicidade. Eu, que tanto critiquei minha mãe, agora estava pensando em seguir o exemplo dela. Vamos ver no que dava e se eu estava mesmo tão errada.
A partir daquele papo, resolvi que ia fazer tudo diferente. E fiz. Mudei tudo. Tudo mesmo. Cortei meu cabelo, deixei ele liso, e pela primeira vez na vida parei de usar óculos e comecei a usar lente de contato! Nossa, eu era outra! Arrumei um emprego possível que me dava um dinheiro e resolvi começar tudo de novo. E fui trabalhar em uma empresa como secretária júnior, em uma vaga que me aceitou. Minhas roupas precisaram também ficar mais comportadas, já que para trabalhar em um escritório não é possível ir com tinta na roupa, mas já que era para mudar, vamos de cabeça. Isso era eu.
***
Depois de alguns meses, minha vida parecia entrar nos eixos. Minha conta bancária voltou a existir, eu ganhei uma pequena promoção e um aumento, as brigas em casa passaram a rarear até quase não existirem mais – até por conta de eu estar fazendo algo que meus pais acreditavam ser certo – eu tinha uma autonomia bem maior na minha vida, e tudo pareceu estar mais equilibrado e saudável.
Meu emprego era muito chato, uma droga para dizer a verdade, a coisa mais entediante e sem graça da face da Terra. Eu estava feliz? Não. Pintar era muito mais prazeroso e satisfatório. Mas aquilo estava me proporcionando muita coisa boa, não podia negar. E acho que era aquilo que maturidade significava. Voltei a me encontrar com minhas amigas, paguei o que fiquei devendo à Poliana (que me salvou com empréstimos durante o período que fui sua hóspede), comprei roupas novas e até consegui guardar um pouco de dinheiro. Quem diria, Mariana!
Com tudo mais equilibrado, achei que já conseguiria dar atenção de novo para os relacionamentos. E resolvi baixar um daqueles aplicativos para conhecer pessoas, que eu sempre tinha ouvido falar, mas nunca experimentado. Eu não queria conhecer ninguém para nada sério, é fato, mas sei lá o que me deu. Talvez eu só quisesse alimentar meu ego, escolher as minhas melhores fotos e me sentir bonita. Quem nunca?
Na minha cabeça, ficava ecoando em alto e bom som, e em looping infinito: “Eu baixei um aplicativo de relacionamento, eu baixei um aplicativo de relacionamento!”, e eu ficava até me acusando: “Nossa, mas eu, Mariana, que sempre tive atitude para chegar nos homens, fazendo isso? Eu, Mariana, que sempre fui tão descolada e bem resolvida? O que é isso? O que está acontecendo?”.
A resposta é que agora eu era diferente mesmo, e eu me consolava dizendo que iria só experimentar e, se não desse certo, depois ele deletava. A essa altura, eu já havia baixado o aplicativo, cadastrado os pré-requisitos básicos, lido todos os termos possíveis, preocupadíssima para não postarem nada nas minhas redes sociais, e pronto. Eu estava em um sistema para conhecer pessoas – puta merda! Na verdade, estava me sentindo engraçada. Eu, que sempre fui tão cabeça aberta, agora tinha receio de algo tão simples? Não sei por quê, mas passei por cima da minha vergonha, do meu leve preconceito e fui em frente.
Entrei, escolhi algumas fotos que mostravam um pouquinho de mim, mas não entregavam o ouro, não escrevi nada nos campos sobre mim, coloquei só o meu primeiro nome e deixei tudo com um certo ar de mistério.
De início, foi divertido, vários homens curtiram minhas fotos – confesso que funcionou muito bem para levantar, de leve, minha autoestima, o que foi ótimo –, rolaram alguns com papos estranhos, apareceram uns caras com fotos estranhas, algumas obscenas (argh!), e alguns puxavam conversa e sumiam. Nada de muito interessante, no máximo divertidinho, no diminutivo mesmo. Até que um cara, com fotos desfocadas (o mesmo recurso que eu usei), uma na praia, em que parte de seu rosto, com um sorriso, aparecia em um canto, e outra na qual ele corria com um cachorro, despertou minha atenção. Como eu faria na vida real, resolvi demonstrar meu interesse e, por sorte, ele correspondeu.
– E aí, Mariana?!
– Oi Henrique
– Tudo bem???
– Tuuudo e aí?
Multipliquei as vogais para parecer menos grosseira, hehe!
– Tudo certo! O que faz da vida?
– Gosto de viajar, por mais que não tenha viajado muito, não gosto de homens sem atitude, não como carne e me aventuro na arte, vivendo, sempre que possível, com os dedos sujos de tinta… e você?
– Ah, que legal! Sou veterinário, digamos que, sempre que possível, eu seja o segundo pai dos animais e esteja com as roupas cheias de pelos
;)
– Que legal! – papo protocolar, sabe como é…
– Deixa eu te fazer uma pergunta um pouco atípica e um pouco fora dos padrões hehe. Eu adoro tatuagens, você tem alguma?
Putz, eu pensei. Agora ferrou. Vão começar os encaixes...