Olhos de Mariana
Capítulo 2
Chegamos até a porta e ele colocou a chave na fechadura e girou. Era engraçado, mas eu estava com uma sensação de ansiedade infantil, uma mistura de curiosidade com receio, já que eu ia entrar naquela casa meio “mal-assombrada”, que por tantos e tantos anos só vi de fora e só visitei com a minha imaginação.
Seu Jair me convidou para entrar e ir com ele até a cozinha. Puxou um banquinho antigo todo pintado por ele, obviamente, e me fez sentar, enquanto começava a fazer um café.
– Sabe, seu Jair, eu não sei... Eu me mostro decidida, mas por dentro, acho difícil ter confiança de viver um sonho, ainda mais eu sendo tão nova e sem ninguém para me dar um chão, ou para falar “Vai, se joga! Qualquer coisa estamos aqui!”.
– Mas por que você precisaria voltar atrás? – ele perguntou, enquanto jogava água quente no coador com pó e um aroma delicioso exalava dali.
– Ah, e se me faltar dinheiro? E se o curso não for o que eu imagino? E se eu tiver que ouvir para o resto da minha vida que eu fiz a escolha errada?
– E se… e se…
– O senhor... ops, você não teve medo de tudo isso?
– Claro que tive, Mariana. Mas, sabe, eu também não tive muita escolha… Açúcar ou adoçante?
– Açúcar mesmo.
– Aqui. – ele me disse, oferecendo o açucareiro para eu me servir.
– Obrigada! – falei, já misturando e tomando com cuidado um gole daquela bebida que estava bem quente, quase queimando, mas deliciosa.
– Olha, chega uma hora em que a arte pede você por inteiro. E, felizmente, não há como escapar. Mariana, a arte é algo que não se vive pela metade… A arte não combina com um pezinho em cada barco. Ninguém é meio artista, assim como ninguém é meio feliz. Ninguém ama só metade de alguém. Ou você ama ou não ama. Ou você é feliz ou não é. Ou você vive a arte com o coração, sem se importar com o que os outros vão pensar, ou ela não vive em você.
– Nossa! Que forte isso, seu Jair!
– O café ficou muito forte? Errei a mão?
– Não, está ótimo! – falei rindo – Foi o que o senhor falou mesmo. Que forte! Mas como eu vou saber se a arte vive em mim? – perguntei, já impactada com a visão daquele homem.
– Aposto que você já sabe que ela vive em você, Mariana. Só não tem coragem de admitir. Você pode abafar por um tempo, fingir que é um gosto passageiro, tentar esconder que você é o que é, mas, um dia, ela vem à tona. Se essa é a sua essência, por que não a viver de forma intensa? – Sim... – minha cabeça estava borbulhando.
– E vou te dizer só mais uma coisa: não tem como a gente viver os nossos sonhos sem deixar de desapontar as expectativas que os outros têm de nós. – Caral...amba! – o palavrão quase saiu, mas me segurei. Não queria assustá-lo naquela primeira conversa.
– Mas é assim. – ele falou rindo.
– É... Você tem razão. – E, como se um caminho novo estivesse se abrindo na minha mente, completei – Então, acho que vou ter que ir com medo mesmo…
– Isso aí garota! Vai com medo mesmo! Acredite, todos nós temos esses medos, até aqueles que não parecem ter. Eu vou te confessar: até hoje morro de medo de várias coisas, mas aí eu sempre lembro de que nada que pede intensidade quer só metade de nós. Então eu me entrego… Há anos tenho medo, e, olha, até hoje eles nunca se concretizaram.
– Sabe, espero que aos pouquinhos eu tenha mais confiança e, quando meus pais encherem o peito para me dizer “Isso não vai te dar dinheiro!”, eu levante a cabeça e responda: “Isso vai me dar felicidade!”.
– Sim, o tempo vai te ajudar. E a confiança vai crescer a cada dia. Vai em frente!
– Ai, obrigada, seu Jair, de verdade!
– Por nada, Mariana. E olha, você já aprendeu o caminho. Venha me visitar sempre, tá? Agora sabendo que você é desse mundo da pintura também, tenho certeza de que teremos muito que conversar. – Ah, pode contar que eu virei sim. Bom, eu preciso ir. Obrigada mais uma vez! E pelo café também, estava ótimo!
Naquele dia, eu me despedi do seu Jair porque estava com pressa. Não porque tivesse algum compromisso, mas porque já estava ansiosa para colocar em prática tudo o que tinha ouvido. No caminho de casa, minha cabeça fervilhou. Estava segura, feliz, e me achando preparada para qualquer coisa.
No trajeto de volta para casa, brincando de andar pelo meio-fio sem cair, pensei em quantas vezes já zombaram – eu sei, quem fala zombaram? Eu sou dessas... – de mim por olhar o mundo com tanta paixão.
Tomei, em segundos, uma coragem que nunca tinha tido, e que precisaria perdurar até o dia seguinte. Até gostaria de dividir a conversa que tive com seu Jair com minha mãe, mas ela não entenderia. Me olharia com aquela cara de desaprovação, e a sua primeira pergunta seria: “Por que você foi falar com aquele sujeito esquisito?”. Ela nunca tinha sido a maior incentivadora dos meus sonhos, e não seria naquele dia que mudaria, por mais que eu tivesse essa esperança todo santo dia.
Era como se, de pouco em pouco, eles tirassem um pedaço de mim. Mesmo assim, prestei o vestibular e cursei artes plásticas até o final. Só que, até hoje, penso que se eu pudesse sentar na frente da minha mãe e do meu pai e explicar que estar em contato com a arte é vasculhar coisas loucas e maravilhosas que carregamos dentro de nós, mas nas quais poucos acreditam, ainda que essas coisas loucas e maravilhosas nem sempre sejam o que gostaríamos de encontrar, eu seria uma das pessoas mais realizadas do mundo.
Mesmo que eu tenha esse jeitinho recluso na maioria das vezes, digamos assim, sou apaixonada e tenho muito amor dentro de mim. E como tenho! E como nem sempre sei dividi-lo com quem amo, demonstro isso com minha arte. A arte nunca me trai. Nunca deixa de acreditar em mim nem me tira a esperança de dar um sentido à minha vida. Procurar sentimentos para serem transcritos, colocados em papéis, quadros ou em vozes suaves é uma busca interna por um defeito, um medo bonito de descrever.
***
– Mariana? Mariana?
– Ah, sim, seu Jair. Desculpe. Divaguei nos meus pensamentos aqui.
– Eu percebi! Olha, vou cobrir este canto aqui da tela com pássaros mesmo, ok?
– Sim, lógico seu Jair! Vai ficar ótimo. Mas eu preciso ir agora.
– Ah, que pena... já vai hoje?
– Sim. Combinei de encontrar minhas amigas em um bar. Aquele grupo de melhores amigas, sabe?
– Sei sim, que tem, como ela chamava mesmo? A Poliana...
– Isso! E antes vou aproveitar e dar uma passada em uma exposição do Modigliani que está tendo lá perto. Não dá pra perder essa oportunidade, não é?
– Claro! Aproveite.
– O senhor não quer ir comigo à exposição?
– Não, Mariana, obrigado. Ando muito cansado, acho que a gripe me pegou. Melhor eu ficar aqui e economizar minha energia de velho. Mas vá sim, é sempre inspirador ver a arte dos grandes mestres.
– É mesmo! E vai que eu me inspiro e alguma coisa incrível acontece, né?
– Sim. Coisas incríveis podem acontecer a todo momento, minha amiga!