Olhos de Mariana
Capítulo 11
Depois que eu e o Henrique conversamos pelo aplicativo, ele pediu meu número e passamos a conversar por WhatsApp. Trocamos algumas fotos e nos achamos interessantes, e resolvemos conversar por webcam. E marcamos de nos encontrar para um jantar.
Nosso encontro foi ótimo, muito agradável, conversamos muito, até que eu pedi licença porque iria até fora do restaurante, um minutinho.
– Onde você vai?
– Ah, vou lá fora fumar um cigarro.
– Ah não! Cigarro? Você fuma?!?
– É... fumo às vezes. E agora me deu muita vontade. – Ah não, eu não suporto cheiro de cigarro, fumaça, cabelo com cheiro! Você não se incomoda não? E, além de tudo, eu tenho asma. Não consigo nem ficar perto.
De repente, eu lembrei que eu precisava aprender a ceder. E que aquela era uma ótima oportunidade para começar.
– Tudo bem, Henrique. Não vou fumar não.
– Puxa, obrigado! Nossa, você deve ser incrível! Vai fazer isso por mim mesmo?
– Vou!
Ele ficou muito feliz e eu também fiquei, por deixar ele feliz. Era uma sensação estranha, mas nova, e boa também. Muito bem, Mariana! Aprendendo a ser adulta!, pensei.
Naquele dia, não transei com Henrique, apesar de ele e eu querermos, e de eu estar morrendo de tesão. Achei que deveria segurar um pouco, mudar, fazer diferente. Mas nos beijamos, e no fim de semana seguinte, em que nos encontramos, tivemos nossa primeira transa, e foi muito boa. Acabei dormindo no apartamento dele. No dia seguinte, quando acordei, ele não estava do meu lado, mas logo percebi que tinha ido para o chuveiro.
– Oi Henrique, bom dia! – gritei do lado de fora, para ele saber que eu tinha acordado.
– Bom dia, Mariana! Faz um favor?
– Claro!
– Vai na cozinha e prepara um café para a gente? Está tudo no armário em cima da pia.
– Tudo bem – falei, achando que seria gentil atender.
– Olha, tem ovo na geladeira, faz mexido. Eu gosto de dois. E tem laranja na fruteira, faz um suco no espremedor, que está no balcão.
Ops!
– OK! – achei aquilo meio “autoritário”, mas concordei. Afinal, o que é que custava, não é?
Preparei tudo como ele me pediu e tomamos um café da manhã bom, conversando sobre amenidades.
***
Depois de três semanas de relacionamento, combinamos de ir ao teatro. Henrique passou para me pegar em casa, e assim que eu entrei no carro, ouvi algo que foi como um soco no estômago para mim. – Mariana, essa blusa está muito decotada! Você não vai assim, não é?
– Henrique!! O que é que tem?
– Como, o que é que tem? Você está comigo! Não precisa ficar se mostrando para os outros. Você se importa de trocar?
– Mas Henrique, eu n... – neste instante, eu me lembrei que estava em pleno exercício de aprender a ceder, de atender aos outros e ser menos autoritária e impor tudo o que eu queria, e resolvi entrar em trocar a blusa.
Mas eu não me senti nada bem.
***
Dormi aquela noite na casa de Henrique, e, na manhã seguinte, ele começou a implicar pela centésima vez com as coisas que eu fazia, com meu jeito de ser, com minhas ideias e com o que eu pensava, usava e queria. E eu já ia respondendo, no meu novo mantra de ser flexível:
– Tudo bem Henriq..
Mas, de repente, uma outra luz se acendeu. Aquilo também não estava certo. Eu me vi me anulando completamente, em nome de aprender a ceder, mas eu não estava sendo eu. Ele era um cara legal, mas eu não precisava fazer aquilo para segurar um relacionamento. Não era assim, não podia ser assim.
– Tudo bem não, Henrique... Tudo mal!
– O quê?
– Olha, você é uma ótima pessoa, tudo é muito bom, mas não dá. Eu não consigo forçar que está tudo ótimo, que eu concordo com as coisas que você me pede, abrindo mão TANTO assim das minhas convicções, só para não brigar com você e te agradar. Tudo bem que a gente tem que ser maduro, ter inteligência emocional, e tudo, mas as coisas têm que ter um limite. E o meu chegou. Beijos!