Olhos de Mariana

Fred Elboni · Capítulo 5 de 14

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Olhos de Mariana

Capítulo 5

 

– Bom dia! Pode acordar… fiz um café pra você!

– Putz…

– Putz?

– Putz sim! Que delícia! Café na cama? Nossa, isso é demais!

Talvez esse seja a melhor exclamação que soltei no começo da minha história com o Pedro. Tudo bem que não sou lá a mulher mais receptiva do mundo a fofuras, principalmente as matinais, mas, não sei por qual motivo, o Pedro conseguiu transpor a barreira que poucos já haviam ultrapassado e, com um simples café da manhã, me arrancou um sorriso e uma alegria imensa.

Logo após o café, ficamos horas e horas enrolados nas cobertas, transbordando nos minutos que, incansavelmente, passavam rápido demais, nos abraçando com os travesseiros entre nós, falando sobre coisas aleatórias que qualquer pessoa normal ou careta acharia idiota. E talvez a gente até fosse idiota, mas e daí?

– Seu bicho preferido é elefante?!

– Eu amo elefantes!

– Mas Mariana, não tem outro bichinho mais fofinho, doméstico, peludinho, para você amar?

– Pois é, meu jeitinho! Ainda vou para a Índia andar de elefante sabia? Esse é um dos meus sonhos, conhecer esse país.

– Mas lá é meio complicado, hein? Trânsito caótico, muita gente, mais de 1 bilhão de pessoas... Você sabe que a água na Índia não dá para beber né?!

– Ah, eu sei, já ouvi isso mil vezes! Mas qual é o problema? Eu compro água de garrafinha!

– E ouvi falar que tem ratos andando pela cidade! Muita doença, Mari! A vigilância sanitária lá é uma vergonha!

– Mas a ideia é viver mesmo uma realidade diferente da minha! Ter esse choque cultural gigante. Eu quero andar de tuk-tuk, comemorar a chegada da primavera no Festival das Cores, barganhar por especiarias e suvenires nos mercados, comer curry, ouvir os vendedores ambulantes gritando “chai, chai, chai!” pelas ruas...

– Chai eu adoro! – ele falou sorrindo.

– Ai, eu também! Chai é uma das melhores bebidas do mundo! Sim, quero fazer aqueles desenhos lindos nas mãos com hena, pedir licença para as vacas que ficam deitadas no caminho, aprender a fazer massagens diferentes e milenares, mas, principalmente, valorizar um pouquinho mais a minha vida como um todo, sabe? Ter uma oportunidade de me conectar comigo e me aprofundar numa cultura ímpar.

– Você tá certa! Sonhos são sonhos, e ninguém tem o direito de tirar eles da gente! – ele falou, acariciando meus cabelos.

– Vamos pra Índia juntos um dia? – eu perguntei, entusiasmada.

– Vamos sim Mari! Com você tenho vontade de ir pra qualquer lugar do mundo! – ele respondeu rindo.

Naquele momento, parei de falar e só conseguia me concentrar naqueles olhos castanhos, profundos, cheios de história, e pensar: “Porra, não é que a gente combina mesmo?! Ferrou, achei o cara perfeito!”. E, de repente, a gente já tinha uma intimidade que veio sem pedir licença. Éramos diferentes, mas combinávamos muito! Ele, um tanto metódico (já tinha dado para perceber pelo jeito como arrumava tudo e organizava as coisas, e deixava a cama lisinha...) e prático, e eu, artista, louquinha e sonhadora. Éramos uma mescla muito peculiar. Mas ele também parecia adorar as experiências e intervenções que a vida pode nos proporcionar. Não sei bem por que a gente combinava, mas, também, querer tentar entender as coisas bonitas que acontecem com a gente é pedir demais. Elas acontecem e pronto. Vamos vivê-las.

– Adoro que você é meio louquinha, Mari!

– Louquinha, eu? – dei risada! – E você é todo certinho né? – É, você tem espírito livre, e isso é muito fascinante sabia? Eu fico vendo que pessoas precisam de certezas, de muletas, pra sentir que estão vivendo da maneira “certa”, que o mundo aprova. Mas no fundo, qual é a maneira certa de viver? Casar, fazer sexo com poucas pessoas, gostar de cachorro, almoçar com a família todo domingo, ter filhos com pais presentes e heterossexuais, viajar pelo menos uma vez ao ano, de preferência para o exterior, ter um carro novo a cada três ou quatro anos, trabalhar oito horas por dia? Poxa, isso é limitado e chato né? Mas você é diferente!

– Ah, mas é loucura ter coragem pra viver o que você sente que deveria viver? Se for isso, eu sou mesmo. Tenho um monte de tatuagens, transo no primeiro encontro – sim, eu adoro sexo mesmo! –, fiz uma faculdade que ninguém aprova, tenho uma profissão que não dá grana, gasto o pouco dinheiro que eu tenho em coisas bobas para o mundo, mas não para mim, quero ir pra Índia e não para Paris... Mas pra mim, loucura mesmo é abrir mão das nossas vontades por causa da opinião das outras pessoas!

– Você é demais, sabia? – ele falou, me agarrando e me dando um beijo profundo e delicioso.

Nos conhecíamos não fazia nem 24 horas e já estávamos na cama dele, pulando e fazendo pequenos planos. Isso sim era doido, estar com um cara que mal sabia quem era, mas que ao mesmo tempo já conhecia tão bem. Parecia que a nossa cumplicidade vinha de outras vidas. Mesmo que eu não fosse espiritualizada, naquele momento, aquilo era algo quase divino. Quem mandou ele estar lendo o mesmo livro que eu, no mesmo bar que eu? Se isso não era coisa do destino, o que seria?

Conversando com ele na noite anterior, e na cama dele de manhã, era engraçado e mágico observar como os nossos gostos eram parecidos, as nossas loucuras rimavam e as nossas vontades se encaixavam feito um quebra-cabeça de sei lá quantas mil peças, mesmo com as nossas vidas tão diferentes – ele economista, eu uma tentativa frustrada de artista, ele de família com ar e frescor de alta sociedade, e eu mais simples que banana de feira. E estava sendo muito bom dividir minhas vontades e sonhos com alguém que entendia a grandeza com que aquilo orbitava dentro de mim. Mais tarde, quando eu estava saindo da casa dele com as mesmas roupas da noite anterior, e sem esquecer o meu guarda-chuva listrado, fiquei pensando em como, sempre que estamos desacreditados no amor, parece que alguém surge sem nem bater na porta pedindo para entrar, como se surgisse, rapidinho, somente para nos dar esperança.

Mas, sinceramente – vou falar baixinho, pois não quero parecer afobada –, naquele dia eu queria mais que esperança. Queria um companheiro de viagem, de loucurinhas, e – quem sabe? –, com sorte, de vida.

 

***

 

Fazia uma semana que a gente havia se conhecido e Pedro resolveu me ligar para me convidar para jantar. E eu achei demais ele telefonar, porque não foi uma mensagem no WhatsApp. Às 20h30, ele me buscou em casa. – Vou te levar em um restaurante que eu adoro.

– Ah, que ótimo! – respondi eufórica, feliz e ansiosa por estar vendo Pedro de novo.

Nem questionei aonde iríamos. Ele estava tão seguro de onde me levaria que eu também acabei me esquecendo de falar sobre um pequeno detalhe: eu não como carne.

Quando ele estacionou perto do restaurante, vi que era um japonês. Pensei: “Tudo bem, yakisoba de legumes é sempre uma boa saída”, já imaginando em como contaria a ele sem desanimá-lo nem causar constrangimento, já que deixar de seguir meus princípios só para agradá-lo estava fora de cogitação.

Sentamos à mesa e deixamos o garçom fazer o papel dele: nos entregar o cardápio e empurrar a cadeira para nos acomodar melhor. Os olhos dele brilhavam com o cardápio nas mãos, parecia que ele já tinha em mente todos os pratos que pediria, e eu só morrendo de vergonha de dizer que não comeria nada do que, provavelmente, ele iria escolher. Então, quando vi que ele já estava pronto para fazer o pedido, mas antes que chamasse o garçom, resolvi falar:

– Pedro, acho que esqueci de te contar uma coisa…

– O quê!? – disse, com aquele olhar de “ai meu deus, o que foi?”. – Eu não como carne… hehe!

– Nem peixe?! – eu já esperava essa pergunta clássica.

– Não, não... peixe também é carne...

– Poxa, por que você não me avisou? Não sabia que você era vegetariana! – ele falou, com um ar meio frustrado, mas meio querendo me agradar. – Não sou vegetar... – mas antes de terminar, ele já me cortou.

– Vegetariana, vegana, sei lá…

– Hehe sou ovolactovegetariana. Só não como carne, mas como ovo, tomo leite e derivados!

– Pelo menos, isso, né? Haha!

– Hehe! – dei aquele sorriso para não deixar o clima pesar. Não sei se senti errado, mas me pareceu que a resposta dele tivesse um tom de deboche. Eu não queria estragar o nosso primeiro jantar e deixei para lá. Pedi um yakisoba, que não estava dos melhores, mas não quis reclamar para não atrapalhar a noite. Estava tudo ótimo, a companhia, a conversa, os olhares, mas a minha sensibilidade não falha, e sei que ele ficou com uma pontada de decepção. Aquilo me deixou pensativa. Ele parecia tão cabeça aberta, lendo um livro tão legal no dia em que nos conhecemos, falava tão bem de arte, demonstrava adorar meu mundo interior, mas, na primeira diferença, já torceu, levemente, o nariz? Enfim, eu esperava outra reação, mas relevei, estava apaixonada.

 

***

 

Com o tempo, minha euforia um pouco ansiosa foi baixando, e a gente, em vez de querer ser feliz na intensidade, foi sendo, aos pouquinhos, na calmaria. Fomos saindo cada vez mais, nos vendo às quintas, às sextas e nas emendas dos feriados, e sem nos preocupar em fazer charme ou com essas coisas chatinhas de “você tem que ser difícil!” que muita gente diz por aí – nunca tive paciência para isso. Estávamos com uma rotina bonita de contar. Eu dormia alguns dias da semana na casa dele, em alguns víamos alguns dos filmes do Almodóvar (meu favorito naquele momento era A pele que habito), em outros, fazíamos sessão sem interrupções de How I Met Your Mother.

Aos pouquinhos, ele foi me aceitando em cada detalhe, cada defeitinho, e olha que eu tenho alguns que até para mim são amargos de descer pela garganta. Por mais que fosse aberta com quem eu tivesse intimidade, sempre tive dificuldade em me abrir verdadeiramente, demorava para pegar confiança, e isso tem a ver com a maneira com que os meus pais me criaram. Eu não conseguia me abrir por receio de ser julgada e nunca soube lidar muito bem com a vulnerabilidade do meu coração. Mas com o Pedro era diferente, as coisas iam acontecendo, fluindo… e, quando vi, já estava dividindo com ele todas as minhas histórias, até as mais podres. Ele me passava muita segurança com seu doce e firme olhar cheio de compreensão.

Eu sempre quis alguém que me amasse como eu sou, sem dizer “eu te amo, mas você deveria mudar isso...”. Sem dizer que sou perfeita, mas querer me moldar aos seus gostos pessoais. Eu sou isso, ou me aceita com todos os complementos e as paranoias que o pacote contém ou me deixa livre. Se cada um se aceitar, sem ter que ceder ou negar a sua essência, tudo fica mais fácil. Pedro estava longe de ser o homem perfeito para o resto do mundo, mas parecia perfeito para as minhas imperfeições. Estávamos, dia a dia, como dizem por aí “ficando mais sérios”, nos conhecendo e nos apaixonando mais.