Olhos de Mariana

Fred Elboni · Capítulo 7 de 14

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Olhos de Mariana

Capítulo 7

 

Apesar de eu ter saído de casa de uma forma péssima, no calor de uma briga com meus pais, Poliana me acolheu bem no início e Pedro me apoiou. Meu namoro com ele estava indo bem, mas, com o passar do tempo, dos meses, algumas coisas começaram a fazer acender uma luz amarela. Já na primeira vez que dormi na casa dele, percebi que ele tinha um lance meio estranho, umas manias de organização, principalmente com cobertas e lençóis. Admito que até me assustei um pouco com a maneira como ele dormiu, tão paradinho, enquanto eu me revirava toda na cama, como mar em dia de tempestade. Fiquei com certo medo, mas sei lá, relevei, estava deslumbrada com ele e com a situação. Talvez ele não gostasse de bagunça nem desarrumação, ninguém gosta, claro, mas no caso dele, ao longo do tempo, fui vendo que se eu deitasse na cama por cima do edredom, mesmo que rapidinho, com as roupas com que tinha chegado da rua, haveria uma hecatombe mundial.

– Pô Mari, não deita aí assim!

– Assim como, Pedro? – ele falou, já me expulsando e ajeitando a cama, deixando os lençóis lisos, estáticos.

– Você tá toda suada, com poeira da rua! A gente vai dormir aí daqui a pouco, limpinhos, não é legal! Levanta!

– Ai, que isso! Desculpa desrespeitar os deuses do sono e esses objetos sagrados, cama, lençol e cobertas!

E algumas discussões bestas começaram a acontecer por bobagens.

Confesso que uma coisa que sempre me desanimou foi a maneira como, muitas vezes, Pedro se importava com a opinião dos outros sobre meu jeito de ser. Eu sempre fui livre, e acho que os outros não sabem do que a gente precisa para ser feliz. Será que essa preocupação era, na verdade, uma certa inveja por eu fazer coisas que eles gostariam de fazer, mas não têm coragem? Pedro sempre achou que eu era louquinha, e muitas vezes ele ficava com receio de ser demais para ele. Nunca me falou isso, mas eu sentia, pelo olhar dele, o medo de a sociedade ver que ele, um homem, economista, filho de uma família de estirpe, estava se relacionando com uma… artista. Ele fingia tirar essa história de letra, mas, no fundo, eu sentia que mexia com ele.

Outro dia, eu e ele estávamos em uma loja meio vazia, e eu o puxei para dentro do provador feminino. A gente começou a se beijar e eu queria transar com ele lá. Eu tenho tesão de transar em lugares não convencionais, mas ele achava estranho, diferente, e volta e meia me olhava com certo estranhamento. Nesse dia, ele ficou irritado e saiu, me deixando lá. E eu me perguntei: “Porra, que homem não gostaria de uma mulher que ama sexo? Que gosta de transar diariamente e em lugares diferentes?”.

 

***

 

Eu sempre fui uma mescla de sensibilidade e grosseria. Talvez isso seja um escudo, uma proteção que eu tenha, por medo de que vejam a minha fragilidade. No começo, o Pedro lidava de uma maneira fofa com isso. Um dia, ele me deixou um bilhete em cima do travesseiro, com uma mensagem de bom-dia, quando saiu mais cedo que eu para trabalhar:

 

Bom dia para você que é amável, mas brava que só. Fria, seca, mas totalmente apaixonada. Educada, mas meio “escrotinha”, para usar seu palavreado. Linda, mas meio “vou com essa roupa mesmo, foda-se…”. Todos dizem que ela é grossa, que não aceita a opinião dos outros e que é irônica, mas quem disse que ela não pode gostar de filmes de princesa, dar beijos ao pôr do sol ou pintar as unhas de rosa?

Te amo, minha pequena ogrinha!

 

Eu adorei, e fiquei pensando: Será que realmente sou uma ogrinha? Foi nesse dia que achei minha definição no mundo: meiga como um tijolo. Sou um pouco grossa, mesmo não querendo ser, mas isso não quer dizer que não haja amor em mim e na maneira como vejo o mundo, longe disso! A questão é que não sei reagir muito bem em algumas situações amorosas, alguns carinhos que pedem muita entrega. Sou um pouco avessa a grude. Sou apaixonada, vivo os momentos com intensidade, mas não sou uma romântica nata. E não tenho lá muita paciência com fofuras, mas isso não significa que eu não goste de carinho também… A questão é: como fazer o Pedro entender esses meus limites, tão tênues, que nem eu entendo? Grande parte dessa minha falta de jeito para dar e receber carinho acho que herdei da minha família, que também é toda meio casca-grossa, e da maneira como fui criada, não tive esse exemplo dentro de casa, principalmente do meu pai. Como perdeu os pais cedo (eu nem conheci meus avós paternos), ele se fechou muito ao mundo e deixou para trás a vontade, ou a necessidade, de demonstrar carinho e amor. Não me lembro de ter ouvido um “eu te amo” dele.

Não sei como a minha mãe conseguiu conviver todos esses anos com alguém tão fechado. Aliás, minha mãe sempre foi calada, defendia o meu pai em todas as suas opiniões e isso revoltava a mim e ao meu irmão Rômulo. Meu pai falava, muitas vezes mesmo sem razão (e tinha ciência disso, mas não poderia dar o braço a torcer, né?), e ela fazia que sim com a cabeça, como se não restasse outra opção além de aceitar e concordar, afinal, ele quem pagava as contas de casa, não é mesmo?

Como nunca teve muita demonstração de afeto em casa, para falar a verdade eu sinto falta disso, e não sei por que nunca disse isso a eles. Talvez por vergonha ou medo da resposta. Mas sinto falta de carinho, de mimos, e sei que o meu irmão também sente. Mas a verdade é que eu não sei receber carinho, por mais que eu goste. Na verdade, eu não sei demonstrar que gosto de carinho.

Um dia, eu estava com o Pedro assistindo uma série no sofá, e toquei no assunto. Eu estava meio diferente e perguntei a ele:

– Por que você nunca me dá carinho?

– Pelo que me eu lembre, desde que te conheci, você nunca foi muito disso…

– Mas todo mundo gosta de carinho, sabia? Até eu.

– Claro que eu sei, mas sempre que faço um carinho, parece que você entra em modo de alerta, como se não gostasse, ou fosse algo invasivo, e para mim é difícil lidar com isso.

– Como assim modo de alerta?

– Você fica estática, sem reação, parece que não sabe se entregar para o carinho que estou dando.

– É, talvez eu não saiba.

– É, você não sabe.

– Mas hoje eu quero, como faz?

– Tudo bem, o difícil é eu saber quando você quer ou não.

– Você tem que sentir, ué.

– Não é tão fácil assim.

– Você acha que sou muito grossa?!

– Não sei, você é carinhosa em certos momentos, tem uma visão bonita sobre o amor, mas ao mesmo tempo tem algumas reações difíceis de interpretar, nunca sei se são brincadeiras ou grosserias de verdade. Fora que você até hoje se entregou muito pouco aos mimos que já tentei te fazer, digamos que você seja meiga como um tijolo.

É, parecia que a gente estava começando a não se encaixar tanto mais. Pelo menos eu estava achando.