Paisagens da China e do Japão

Wenceslau de Moraes · Capítulo 1 de 20

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Paisagens da China e do Japão

As Borboletas

Kobe, 10 de Abril de 1901.

W M .

 

AS BORBOLETAS

 

J. M S .

 

A lenda das borboletas.

São tão lindas, as borboletas! Quem as vê, que não lhes queira? ahi vagabundando pelo azul dos campos, razando as corollas frescas, amando-se, beijando-se, libertas da larva abjecta, como almas de amantes despidas da miseria terreal, a viajarem no infinito... São tão lindas, as borboletas!...

Mas na China são talvez mais lindas do que todas. É um deslumbramento surprehendel-as na quietação dos bosques, voejando aos pares, que se tocam, que se abraçam, e enfiando pelas sombras mysteriosas dos bambuaes, com as suas longas azas palpitantes, lancioladas, em matizes maravilhosos, de negros avelludados, de azues meigos, de amarellos quentes, como se as loucas vestissem cabaias de setim, de sedas de alto preço... Choc-In-Toi, a deliciosa Choc-In-Toi, habitava, ha longos seculos, uma pacifica aldeia do Yang-tsze-kiang, não longe do logar que hoje se diz Shanghae. Como fosse muito dada a estudos litterarios e as escolas do seu sexo não lhe satisfizessem a ambição, conseguiu que seus paes lhe permittissem o disfarçar-se em homem, e assim abalou, a ir frequentar a mais famosa universidade do imperio. Volveu ao lar apóz tres annos; volveu tão pura como fôra; da sua innocencia ha provas irrecusaveis. Para não divagar muito n'estas paginas, basta dizer a quem me queira ouvir, que um lenço de seda branca, que ella enterrara na lama em presença d'uma sua cunhada predisposta a vaticinar-lhe rudes lances, foi depois tirado sem uma só mancha e sem um só farpão, branco, puro, como a alma da donzella; e basta saber que as flôres da sua preferencia, que ella deixára no jardim, rogando aos deus Choc-In-Toi, a deliciosa Choc-In-Toi, habitava, ha longos seculos, uma pacifica aldeia do Yang-tsze-kiang, não longe do logar que hoje se diz Shanghae. Como fosse muito dada a estudos litterarios e as escolas do seu sexo não lhe satisfizessem a ambição, conseguiu que seus paes lhe permittissem o disfarçar-se em homem, e assim abalou, a ir frequentar a mais famosa universidade do imperio. Volveu ao lar apóz tres annos; volveu tão pura como fôra; da sua innocencia ha provas irrecusaveis. Para não divagar muito n'estas paginas, basta dizer a quem me queira ouvir, que um lenço de seda branca, que ella enterrara na lama em presença d'uma sua cunhada predisposta a vaticinar-lhe rudes lances, foi depois tirado sem uma só mancha e sem um só farpão, branco, puro, como a alma da donzella; e basta saber que as flôres da sua preferencia, que ella deixára no jardim, rogando aos deuses que as conservassem frescas como ella, assim se conservaram durante a longa ausencia, embora, como consta, a cunhada as fosse regando com agua quente tirada da chaleira.

 

Durante os tres annos de seu estudo, um companheiro, por nome Leun-San-Pac, intimamente se lhe afeiçoou. Era o seu camarada inseparavel, o seu irmão; dormindo juntos, conversando juntos, estudando juntos, divagando, sonhando; e o lorpa do mocinho nunca se apercebeu que tinha a seu lado uma mulher.

Quando soou a hora das despedidas, cortava o coração vêr o rapaz, lamentando o futuro isolamento, a perda d'um amigo como aquelle. A moça consolava-o. A moça poisava-lhe nos hombros as suas mãos gentis, e exhortava-o a que se enchesse de coragem, a que se entregasse ao amor do estudo, té alcançar um alto grau de sapiencia.—«E depois, dizia-lhe ella entre soluços, e depois, se com saudade te recordares ainda de mim, abala, vem vêr me á minha aldeia.»—E dava-lhe indicações precisas do logar. Despediram-se, entre choros.

A donzella esperou, esperou, esperou,—quem poderá descrever esse tormento? guardando da familia o seu segredo; e o moço não apparecia. Segundo os usos do paiz, os paes destinaram-lhe um marido; e ella, a desolada, escrava da obediencia filial, obediencia cega, indiscutivel, que é a base da vida inteira moral do povo china, inclinou-se, acceitou, sem que uma só queixa proferisse.

Tres dias decorridos depois do contracto nupcial, eis que chega á aldeia o pobre Leun-San-Pac; pobre, porque a desventura se lhe acerca; mas rico de erudição, de uma alma culta, e occupando um logar proeminente. Encontra o seu amigo, encontra o seu irmão; mas agora sem disfarces, na graça plena dos seus enlevos femininos, na gentil elegancia das vestes que lhe são proprias, e com grinaldas de flores na trança negra. De começo, este enigma, pouco a pouco explicado, confunde-o, desnortea-o; mas tudo se aclara; da amisade ao amor o salto é rapido. Oh! elle ama-a agora, elle ama-a de todas as forças do seu ser; e no olhar de fogo transluzem mil mysterios de adorações e de desejos!... É tarde. A palavra dada ao feliz noivo não se quebra. Os velhos paes prezam mais do que tudo, a propria honra.

Elle parte; elle parte para um logar visinho, louco, com a alma embebida no fel dos desesperos. É ainda ella, a doce pomba obediente, que tenta consolal-o. Ella escreve-lhe; ella diz-lhe que a vida não é eterna; que a piedade filial arrasta-a a um consorcio que só lhe vaticina dores e prantos; mas que as almas são livres, emigram d'uns corpos para outros; encarnam-se n'outros seres; que elle socegue, aguarde outra existencia, para a qual ella lhe jura será a sua companheira, toda fidelidade e toda amor. Leun-San-Pac lê, faz um bolo d'essa carta, onde tão demoradamente poisara a mão da sua bella, e engole-o, e suffoca-se com elle, e exhala assim na solidão o ultimo suspiro. Um pouco além, sobre a montanha, se lhe elevou a sepultura.

 

Soam bategas festivas, estalejam nos ares fogos de gala, de alegria; e pela longa estrada em ziguezague, bordada aqui e alli de bambus e bananeiras, doirada pelo sol do meio dia, serpea em rutilantes theorias o monumental cortejo do noivado, caminho do lar feliz.

O estylo de ha mil annos é o

mesmo estylo de hoje. São os

grandes balões, os estandartes,

conduzidos por moços vestidos de

vermelho. São os enxovaes

primorosos, as cabaias, a collecção dos sapatinhos, tudo

disposto nas liteiras luzentes dos

esmaltes. São as colossaes peças

de doçaria, castellos de assucar, dragões de assucar, coisas espantosas. São os porcos assados, loiros, deliciosos, espalmados sobre os taboleiros, com laços de fita nos focinhos. São as orchestras estridentes, de flautas, de rebecas. São as creanças ataviadas em setins, em allegorias de scenas de outros tempos, cavalgando alimarias pachorrentas. É finalmente a liteira da noiva, toda ella oiros, toda ella esmaltes, fechada como um cofre, furtando á vista dos curiosos o precioso fardo, Choc-In-Toi.

 

A noiva solicita do cortejo um curto desvio na sua marcha. A noiva, antes de entrar no lar e de ser esposa e escrava, quer abeirar-se, além, d'aquella sepultura esquecida na montanha, e orar junto dos restos do que morreu por ella. Quem lhe recusaria tal licença? Eil-a que desce da liteira, nas suas cabaias deslumbrantes; e eil-a que se prostra, eil-a que beija a terra...

A terra abre-se então, carinhosa,

mãe; a terra traga-a, chama-a a si,

chama-a para junto dos ossos do

seu querido. A comitiva pasma do

milagre. As mãos avançam a

detel-a; mas só logram colher um

pedaço do vestido, que se rasga,

e é tudo... O pedaço de seda, de

mil matizes, transforma-se de

subito n'uma borboleta de mil

côres, que vôa das mãos rudes, e desapparece no azul, desapparece!... É desde aquella epocha que ha borboletas n'este mundo, tão lindas, tão cheias de matizes!...

 

Eu não lhes estou contando uma mentira, meus amigos. Ainda hoje se vê a sepultura, esboroada pelos seculos, d'aquelles amorosos. E as esposas desprezadas alem vão em romaria, e d'aquella terra bemdita se suprem ás mãos cheias, e d'ella provam, e disfarçada com o arroz a ministram aos maridos. Consta que o estranho tempero, aquella terra, que em alguma coisa participa da essencia dos amantes que ali jazem para sempre, tem virtude comsigo, e é sempre efficaz em trazer ao bom caminho os mariolas, os maridos.