Paisagens da China e do Japão

Wenceslau de Moraes · Capítulo 9 de 20

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Paisagens da China e do Japão

Pau-Man-Chen

1899.

 

PAU-MAN-CHEN

 

A A B S .

 

Scena domestica. Lá está o meu cosinheiro a bater cabeça, como se diz n'este Macau; lá está elle rezando aos seus deuses protectores. Que lhe preste! Acabou de me roubar nas contas, como bom chinez que é, serenamente aggressivo em tudo ao europeu; e passou a entregar-se a esta outra occupação não menos meritoria.

Sendo seus os aposentos inferiores, é ali rei, ou pelo menos mandarim; faz o que quer. Os altares aos deuses anicham-se pelas paredes, aos cantos do sobrado, sobre as mesas; e até junto ao fogão, onde se guisa o meu jantar, se presta culto a supinas divindades. Mysteriosos ritos. São papeis encarnados, contendo cabalisticos dizeres; são figuras de horriveis monstros, coloridas pelas tintas mais surprehendentes, nas disposições mais grotescas, despertando quasi o riso, despertando quasi o medo, a quem não vive em graça em tal Olympo. Alli o cosinheiro, em humildes genuflexões de crente, vem depôr suas offertas, minhas offertas, pois sou eu que pago a festa,—offertas de laranjas, de doces, de chá, de porco assado e de outras iguarias.—Alli ardem lumes mysticos; e frequentemente, pela noite, como agora, se queimam pivetes, cirios rubros, rezinas e papeis, de tudo emanando um fumo atróz, que invade em torvelino a casa toda, que chega sem respeito ao sitio onde me encontro, e me soffoca. Paciencia! Paciencia é o unico codigo de conducta para o aventureiro que escolheu para exilio um canto exotico, longe, muito longe do torrão onde nasceu, e no qual a civilisação disparatada, a feição propria das gentes com quem lida, hão-de fatalmente apresentar-se, dominantes.

Os deuses, com quem por assim dizer vivo em contacto, e a cuja sublime protecção, posto que indirectamente, me confio, são muitos, um enxame. É todo o Olympo buddhista e o inteiro mytho primitivo, amalgamados em crendices; legiões de espiritos. Naturalmente, ha uns mais preferidos, que se invocam no lar com mais piedoso amor; n'este numero, segundo informações recentes que colhi, deve contar-se Pau-Man-Chen; e é a sua historia maravilhosa que me proponho narrar, como puder.

 

O deus Pau-Man-Chen, venerado em todo o immenso imperio, tem uma face branca e tem uma face preta. Na China não ha effectivamente ninguem que não o adore, que não lhe preste no altar domestico, o culto merecido; a elle, que tudo sabe e tudo pode, que possue a sciencia do bem e a sciencia do mal, que com um olho contempla os ceus e as grandes coisas puras, e com o outro mira O deus Pau-Man-Chen, venerado em todo o immenso imperio, tem uma face branca e tem uma face preta. Na China não ha effectivamente ninguem que não o adore, que não lhe preste no altar domestico, o culto merecido; a elle, que tudo sabe e tudo pode, que possue a sciencia do bem e a sciencia do mal, que com um olho contempla os ceus e as grandes coisas puras, e com o outro mira a terra profunda até aos antros lobregos dos demonios, adevinha-lhes os maleficos designos. O deus Pau-Man-Chen tem uma face branca e tem outra face preta...

 

Ha não sei quantos mil annos, morreu não sei aonde, uma mulher casada. O marido, não resta duvida, procedeu segundo o ritual do estylo, e mandou depositar o caixão n'um solitario templo. Mal imaginava elle que a defunta seguia gravida no esquife; e mal imaginava que o menino, que se occultava no seu ventre, ia votado a altos destinos...

 

Foi por aquella epocha, n'uma mercearia do sitio, que começou sendo notado, com justo sobresalto do dono da quitanda, o caso que vou expôr. Fazia-se sem novidade a venda, dia a dia; mas, quando pela manhã se dava balanço ás contas e ao dinheiro, encontrava-se sempre, de mistura com o monte das sapecas, dois d'esses papelitos amarellos, com a competente mancha prateada, que são nada menos do que a moeda corrente entre as almas do outro mundo, nas suas transacções... Era prova clarissima de que andava por alli coisa sobrenatural,—bruxaria, visita de phantasmas,

ou outro mysterio parecido.—Estudou-se o caso attentamente e com bem justificaveis ancias de terror; observaram-se os freguezes, um por um. Chegou-se por fim á conclusão de que, em tal enigma, andava por certo envolvido aquelle vulto de mulher de maneiras suspeitosas, trazendo uma creança no regaço, e chegando-se todas as noites ao balcão para comprar um bolo, que offerecia ao pequerrucho. Aos cobres, que largava das mãos lividas, cadavericas, não havia nada que dizer-se; eram excellentes; mas quem ignora que de noite todos os bruxedos são possiveis, e é a luz fraca do dia que seguidamente os desmascara?... O patrão (os

tendeiros do mundo inteiro, e desde seculos sem conto, são homens de raro engenho), o patrão, certa noite, conseguiu sem ser sentido, atar um longo fio á ponta da cabaia da fregueza; e quando ella se ausentou, pôz-se a largar o fio, á medida dos seus passos. No dia seguinte, facilmente o finorio percorreu a linha de trajecto da mysteriosa caminheira; e foi assim esbarrar, no termo do passeio, com o caixão da defunta, de que atraz se fez mensão. Do caso, sem detenças, correu a dar parte ao viuvo, de quem era conhecido.

Acercam-se o viuvo e um bando de curiosos, do esquife, e abrem-n'o, ao pasmo de todos. Scena extranha! Sobre os farrapos descoloridos, humidos, fetidos, pasto de vermes,—quem já, dos que me lêem, poisou os olhos no espectaculo d'uma tumba escancarada?—lá está estendida a esposa, e lá está um menino. Vivo? sim. Viva? viva parece, d'uma existencia sobrenatural embora; mas como ninguem d'ella cuidasse, alli ficou jazendo para sempre. As attenções, os carinhos, convergem para o menino; o pae estende-lhe os braços, arranca-o á desolação d'aquelle leito, chama-o á vida, á sociedade, ao mundo.

A lenda popular completa esta curiosa historia pela maneira que vae vêr-se. A defunta, alli amortalhada, alli estendida sobre as tabuas, foi mãe, não sei por que milagre—não se discutem milagres.—O resto explica-se melhor: o mysterio psychico da maternidade, isso que nas mães se patenteia como uma força immensa, sem limites no affecto, sem barreiras nos zelos, capaz de todos os arrojos,

 

poude aninhar-se n'aquelle corpo inerte, e imprimir vontade áquelle feixe de ossos. Aos primeiros vagidos da creança, o cadaver pôz-se a contemplar os proprios seios murchos, pendentes, vazios de seiva, roïdos pelos bichos. O cadaver moveu-se então, galvanisado pelo amor—qualquer cadaver de mãe, n'aquellas condições, faria o mesmo;—começou a dar pontapés no impossivel; partiu a murros as paredes do seu carcere; e apertando de encontro aos ossos o filhito, e embrulhando-se

discretamente na mortalha, foi a correr comprar um bolo á venda proxima. A creança assim foi medrando, passando os dias n'aquelle estranho berço. Foi por isso que ficou com uma face branca, a que voltava para a luz e para o ceu, e com uma face preta, a que poisava na sombra, de encontro á terra negra. De então lhe veio o duplo condão de conhecer o bem e de conhecer o mal, de vêr com um olho os deuses, e com um olho os demonios. Pelo correr dos annos, foi mandarim de modestos logarejos, pois lhe sobrava asco pelas riquezas, pelo fausto e pelos altos cargos. Os nobres senhores, o proprio imperador que muito o honrava, tremiam do seu juizo. Lia nas consciencias e lia nos destinos. Distinguia na turba os humildes, os bons, os opprimidos; e tambem os impostores, os verdugos, os infames. Premiava as virtudes, azorragava os vicios. Os desmandos da côrte, a rapina dos ministros, os mexericos das concubinas, fôram por elle desmascarados e punidos. Assim viveu por longos tempos este grotesco e sublime figurão; assim passou por todo o imperio, para gloria da China e para consolação dos offendidos. O povo punha de parte os labores e vinha prostrar-se em saudações á borda das estradas, ao vêl-o atravessar cidades e campinas, galgar os montes e descer os valles, sempre incansavel, seguindo a largos passos, como se fosse um procurador atarefado com demandas. Fluctuava-lhe ao vento a longa cabaia esfarrapada, suja de lama e de poeira dos caminhos; a mão adunca brandia um baculo nodoso; as pupillas chammejavam iracundas; o corpo ossudo definia-se, na magestade façanhuda dos gestos arrogantes, nos compridos bigodes de asiatico, pendentes como franjas, na barba aberta em leque, chegando-lhe á barriga, e na disformidade do rosto pintado a duas côres, branca uma face e outra face preta. Um bello dia safou-se d'este mundo; mas lá anda no outro, certamente, espreitando cá para baixo, e não largando de mão o seu fadario.