Paisagens da China e do Japão

Wenceslau de Moraes · Capítulo 10 de 20

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Paisagens da China e do Japão

A Caricatura no Japão

1899

 

A CARICATURA NO JAPÃO

 

C P J V .

 

Grande coisa, meus senhores, é ter engenho!.. Eu não me gabo muito d'esta prenda, confesso-o francamente; mas tive ha pouco azo de julgar pela propria consciencia—mercê d'um rasgo excepcional do meu bestunto—quanto vale uma boa idea; e conclui que a felicidade humana seria coisa facil, se uma impulsão sagaz do espirito fôsse guiando sempre os nossos passos n'este mundo. E assim fica satisfatoriamente justificada, penso eu, a exclamação com que enceto estas divagações, escriptas por uma noite fria de janeiro, no meu gabinete silencioso, na cidade de Kobe, no Japão.

Vamos ao facto. Ah, pobre espirito enferrujado pelos azedumes da existencia, gasto pela longa fricção das coisas e dos homens, soffrendo pela dôr do passado, pela insipidez do presente e pelas tristes promessas do futuro! como tu, meu pobre espirito, cahiras na quasi insania, consciente, e por isso mesmo mais penosa, d'aquelles para quem, por mal dos seus peccados, a vida se vae tornando toda um immenso enfado... Morbidez de temperamento? incompetencia ingenita para a lucta? fadiga, após os mil baldões da sorte? pouco importa; não vale a pena agora desenredar esta meada. Passava, e passo ainda, longas horas do dia junto da minha secretaria; é este o meu officio. Alguem, que entrasse, via-me grave, correcto, rodeado de livros e papeis, e até, presumo,—perdôem-me a vaidade—talvez me atribuisse uns certos ares de sabio, em cuja mente magnos problemas se iam sublimando. Só, bem só, entre quatro paredes discretas, desfallecia; o olhar vago fixava-se no nada, todo o meu ser se inutilizava, perdia-se em abstracções, desinteressado da realidade, de mim mesmo, morto,—porque ha para alguns uma morte percursora d'aquella que roe na tumba a febra e põe a nú os ossos brancos do esqueleto.—E vae então, um bello dia, achando-me casualmente n'um bazar de Osaka, compro uma figurinha de barro da deusa O Fuku-san, que colloquei sobre a mesma secretaria referida.

Ora aqui está, no fim de contas, em que consiste o meu rasgo genial; e vou dizer porquê. O barro é trabalhado por dedos tam amorosos de artista,—um obscurissimo artista certamente;—a pasta impregnou-se com tanta obediencia da feição predominante da alma japoneza,—naturalismo humoristico, caricatural;—que a deusasinha patusca que aqui tenho a meu lado, uma bugiganga de tres pollegadas de altura, quanto muito, é toda ella uma gargalhada viva, supina, radiosa!... Acontece que a tristeza, borboleta negra das trevas, foge espavorida da minha convivencia; poiso os olhos na deusa, e desato a rir perdidamente; e assim me tornei o homem mais divertido d'este mundo.

 

Antes de ir mais longe na palestra, justo é que me detenha e diga em poucas phrases quem é O Fuku-san. Divindade popular, patrona da boa fortuna e da alegria, representa na genesis japonica um papel de subida importancia incontestavel. Izagani e Izanami, os deuses iniciaes e creadores, formaram o Japão e tiveram por filha, Amaterasu, a deusa do sol, e outros filhos, todos com maravilhosos attributos. Amaterasu residia no ceu, alumiando a terra; delicioso officio; mas tamanhas affrontas soffreu de um seu irmão, o deus da lua por signal, que se amuou e decidiu esconder-se, escolhendo para retiro uma caverna, aonde se metteu, vedando a entrada com uma enorme pedra; a terra, é obvio, achou-se ás escuras de repente. Os deuses, apavorados,—o caso não era para menos,— recolheram-se em conselho, e resolveram o seguinte, depois de larga discussão: fôram postar-se todos bem junto da caverna; Takadjira, o deus de enormes braços, ficou junto da entrada, fazendo sentinella; O Fuku-san, a mais divertida das patuscas, poz-se a cantar modinhas; ou, quando não cantava, tocava n'uma gaita de bambu; ou, quando não tocava, bailava minuetes, acompanhando a dança de mil tregeitos faceciosos. Tanta pilheria teve a figurona, que a deusa Amaterasu, no seu antro, começou a interessar-se na galhofa, a rir ás furtadellas,—ou não fosse ella japoneza!—e arredou um pouco, para o lado, o pedregulho, alongou um nada a cabecita para fóra, e assim se pôz a gozar melhor da brincadeira. Então Takadjira, n'um relance—zás!—caiu-lhe em cima, lançou-lhe os longos braços ao pescoço, puxou-a para si, foi á força poisal-a no seu throno... e a terra de novo continuou a ser alumiada pelo sol!

A arte popular veste a deusa O Fuku-san em bellos trajos da côrte, dos velhos tempos, setins rojantes, brancos e escarlates, e molda-a nos ultra-comicos contornos d'uma japonezita enormemente obesa, toda ella refolhos de gordura, banhas de pescoço, de collo, de seios, de barriga, redondezas pasmosas de quadris, e mãos e pés papudos. A cara, a immensa caraça, de lua cheia, é um poema completo de monstruosidade triumphal e hilariante: faces prodigiosamente bochechudas, caiadas de cosmeticos; um narizito que mal se vê, rombo, abatatado, como que calcado para dentro, a golpes de martello; á fronte curta e estreita, de imbecil, collam-se dois bandós de cabellos de azeviche; fôram rapadas á navalha as sobrancelhas, segundo o uso classico; os olhinhos piscos, matreiros e gaiatos, reluzem pelas fendas estreitas das palpebras carnudas; e a bocca, a boquinha, em forma de cereja, acarminada, sorri em curvas, em prégas, em covinhas impagaveis... Mas não ha palavras que descrevam, nem de longe, a expressão de toda a figurinha— porque vae alem da nossa comprehensão de occidentaes,—no que d'ella irradia de jocosidade perenne, de beatifico comprazimento, de

vagos tiques de inconsciencia infantil, de imbecilidade, de malicia, de perversão; um indefinivel conjuncto de não sei que de imminentemente pueril, satanico e grotesco, todavia gracioso, que é no fim de contas uma das feições mais caracteristicas e mais emocionantes da arte inteira japoneza.

 

Ensina-se nos livros que por meados do nosso seculo XII, o pintor Kakuyu, que era bonzo buddhista, iniciou no Japão a pintura caricatural. Pois seja assim; concedo ao frade o merito de ter traduzido pelo pincel, por vez primeira, o humorismo d'esta gente. Mas tal humorismo, como feição moral, nasceu com o mesmo povo, é-lhe um fector do sentimento; e cada japonez é, e foi, e será, um caricaturista. Quando se estuda a lenda indigena japoneza, no vasto reportorio das suas fabulas, que eu penso representarem sempre o mais remoto documento do feitio

estetico, da individualidade psychica, d'uma qualquer grande familia humana, depara-se na

scena com a mais curiosa fauna fallante—macacos, caranguejos, raposas, alforrecas, ratazanas e outros varios bichos;—no apologo grego, por exemplo, os brutos são doutores, discursam como philosophos e como moralistas; no apologo japonez, menos profundo, mas talvez mais incisivo, a bicharia contenta-se em mascarar-se vestindo kimonos e enfiando as patas nas sandalias, faz caretas, galhofa, dança e ri, em desenvolturas caricaturaes da mais desopilante troça a todos os ridiculos.

Quando as artes se desenvolvem e nacionalisam, e attingem uma feição independente, inconfundivel, a caricatura, como que traduzindo uma recordação da lenda, vem desempenhar um papel importantissimo, não só na pintura, mas nas multiplices affirmações do engenho—esculptura, ornamentação da porcellana, da faiança, dos charões, dos bronzes, em tudo.—Graças ao pincel e graças ao buril, as rãs decidem-se a vir tocar guitarra para a rua; os pardaes offerecem banquetes aos seus intimos, servidos em porcellanas primorosas; desfila um cortejo de rapozas, levando a noiva, a rapozinha, ao noivo feliz, que a espera no seu lar; pelo dorso de Hotei, deus da bondade, vão trepando os garotos, e um mais atrevido vae poisar-se-lhe em cima da careca; os guerreiros cobrem os rostos com mascaras de um comico façanhudo indescriptivel. Hokusai, o grande mestre da escola vulgar em pintura, delicia-se em desenhar cegonhas d'um só traço repentino, maravilhosos gatafunhos, palpitantes de observação e de verdade; no seu album dedicado ao Fuji-yama, a montanha sagrada, contorna-a vista atravez de uma rede, que um pescador tira do mar; e atravez de uma teia de aranha; e entre o A das pernas nuas d'um operario tanoeiro, que do alto de uma dorna ajusta á força de malho as aduellas; e reflectida no chá da taça que um esfarrapado mendigo leva á bocca. Hokusai, em 1804, durante certa festividade n'um templo, manda estender no solo uma folha de papel de cerca de duzentos metros quadrados de grandeza; vem mais um barril com agua, outro barril com tinta preta, uns oitenta litros d'ella, e mais duas enormes vassouras e tres vassouras mais pequenas; entra o mestre, empunha uma vassoura embebida na tinta, traça sobre o papel curvas gigantes; no fim de alguns minutos termina a sua obra, que só é comprehendida quando alguns dos milhares dos assistentes se lembram de galgar

ao telhado do templo: a distancia e

do alto, o immenso quadro

representa um admiravel busto de

Daruma, o grande apostolo buddhista. Por aquella mesma

epocha, Hokusai pintava sobre um

bago de arroz um grupo de aves,

encantador, mas só distincto com

a ajuda de uma lupa.

É esta caricatura, melhor será

talvez dizer—este humorismo, que

o japonez exerce com habilidade

unica, magistralmente, prodigiosamente; é por ella, é por

elle, pelo segredo dos exaggeros,

pelo arrojo da execução, que

alcança intenções flagrantes no

traço, uma alma quasi na

paizagem, um conceito na arvore,

no ramo em flôr, no simples contorno de um rochedo... Na pintura japoneza, por exemplo, um pargo, um caranguejo, uma lagosta, o figurão zoologico mais lorpa que possa imaginar-se, vivem na tela, isto é, accusam uma vontade, uma intenção, um sentimento, como a fome, como o medo, como o cio. Não se diga que é a fiel reproducção do modelo que dá isto,—a photographia d'um caranguejo não palpitaria de vida;—é pelo contrario o exaggero propositado de certas linhas, o exercicio de uma arte mysteriosa, que naturalmente se inspira no perfeito conhecimento estructural e sentimental do bicho, animalizando de certo modo o artista e humanizando o bruto, e permittindo caprichos descommunaes que o observador não descrimina, que o levam a exclamar, não sei por

que remotas

reminiscencias ancestraes de subito recordadas:—«aquelle

linguado acha-se triste... aquelle

camarão arde em ciumes... aquella lombriga está-se a rir...—»

 

O humorismo japonez não se

limita ás artes; divulga-se nos

costumes do povo, nos seus

habitos; quando nos intromettemos na intimidade indigena, ainda o espectaculo de

inesperados disparates, de requintadas extravagancias, vem

ferir a nossa pupilla e prolongar-

nos o espanto. Eu não pretendo

escrever aqui um tratado dos

exotismos d'esta gente, aponto ao

acaso alguns dos que me occorrem.

Pois não são disparatadas, caricaturaes, estas mangas prodigiosamente amplas dos vestidos, e na propria fazenda a estupenda polychromia dos matizes? E estas peanhas de madeira, á laia de calçado, onde se poisam os pés nús dos japonezes? E estes penteados enormes das mulheres, transformando-lhes as cabeças em estupendos monumentos ambulantes? E o obi, a cinta de seda que cinge as ancas da musumé em voltas sobrepostas e rematadas n'um laço colossal? E o costume das casadas, quando em signal de desapêgo ás vaidades d'este mundo, se desfeam rapando as sobrancelhas á navalha, e envernizando de preto a fila dos dentinhos? A casa de papel, o jardim de Lilliput, a vida passada de joelhos sobre a esteira, a refeição servida em taçasinhas e apprehendida nas pontas dos pausinhos, a arte domestica da preparação do chá e dos ramos de flores, a dança, a musica, a cama improvisada a um canto com duas colchas de seda e uma boceta de charão por travesseiro, as mil saudações trocadas entre duas pessoas que se encontram, todos os aspectos da vida indigena emfim, intimos, sociaes, brincadeira, como se o japonez tivesse vindo ao mundo

para se rir de tudo são

surprezas,

extravagancias,

excepções unicas,

simples pretextos para

em que se occupa, e

para se rir de si

primeiro do que de

tudo... Chega-se sem

muita difficuldade a

comprehender porque,

nas relações de

convivio de um para outro, de preferencia á palavra, de preferencia ao gesto, uma maneira ha mais eloquente de traduzir o pensamento:—a gargalhada!...

O proprio japonez é uma caricatura. Não se espantem da asserção os que tiverem a pachorra de me ir lendo; eu hei de ainda provar que o proprio deus dos japonezes, o sublime creador do Dai-Nippon, formou n'um estado de alma galhofeiro esta terra, sem systema, sem programma estudado e sem pressas; sem pressas certamente, recreando-se nos comicos caprichos que a phantasia lhe ditava e a mão omnipotente ia executando, ferramenta do officio em acção, escopro ou broxa, afeiçoando, retocando, caricaturizando, o que do chaos ia surdindo á flôr das aguas. Depois, concluida a obra, devia ter soltado uma gargalhada retumbante!...

Ora desde remotas

eras até hoje, pratica-

se no Japão um

exercicio de lucta, um

sport (como se diz

agora) muito em voga,

e do especial agrado

d'esta gente; é o

espectaculo favorito

durante determinadas

epochas do anno.

Limita-se no campo um

espaço com esteiras e

bambus, e ao centro

dispõe-se uma

pequena elevação em

forma circular; içam-se

galhardetes e

bandeiras, rufa o tambor, e o povo afflue por centenas de curiosos, compra o seu bilhete e toma poiso; dois homens, quasi nús, combatem corpo a corpo, como na arena grega, até que um d'elles derruba o companheiro e é proclamado vencedor. Estes luctadores de profissão são escolhidos d'entre os gigantes, d'entre os athletas, e é na provincia de Tosa que especialmente se recrutam. Não são homens, são caricaturas de homens, são monstros, enormes, valendo cada um em peso e em dimensões por seis japonezitos ordinarios. Não se imagina, nem podem descrever-se, as caras, os carões de taes sujeitos; são mascaras disformes, caraças imberbes, olhinhos ferinos repuchados para a testa, queixada vigorosa e dentuça arreganhada, orelha polpuda e ampla, trunfa hirta e espessa, e um risinho estranho, sarcastico, mistura de riso de creança e de riso de demonio; nem ha palavras que expliquem a amplidão dos vultos, a obesidade das carnes, o braço roliço quasi feminino, os seios erectos, o enorme ventre impando, lenta a marcha e ondulante, de urso da Siberia em liberdade. Asseguram estudiosos que estes monstros de Tosa são os ultimos restos, preciosos modelos vivos, da raça prehistorica japoneza... Pode assim ser; no japonezito de hoje, embora geralmente franzino, miudinho, delicado, não repugna acreditar que alguma coisa haja de commum com os luctadores de Tosa: como que laivos de familia, a vaga semelhança com um avô... a não querermos mais longe ainda ir procurar-lhe affinidades, n'um remoto parentesco com a deusa O-Fuku-san, que continua a rir-se para mim, e eu a rir-me para ella...

Relanceêmos a chusma, nos theatros, nas feiras, nas romarias, nos bazares? Pode dizer-se, em geral,

que o typo do japonez, da sua

femea, e mais accentuadamente

ainda nos obesos, ou nos magros,

ou nos anões, ou nos albinos, ou

nos côxos, ou nos corcundas, ou

nos leprosos, ou nos que têem um

lobinho, ou nos que têem o nariz

roido, em todos aquelles em fim

em que um defeito, uma tara,

sobresae, é caricatural supinamente, comico a ponto de

nos fazer morrer de rir ás

gargalhadas!... Ah, maganões!

vocês, quando nos deram as imagens dos seus deuses, dos

seus genios do lar: uns pansudos,

como odres; outros esqueleticos,

macrabos; uns pachorrentamente

joviaes, outros terriveis, despedindo raios sobre a terra;

vocês retrataram-se a si mesmos,

segurando com uma das mãos o

pincel e com a outra o espelhinho

onde se viam, maganões!...

Especialisando, da multidão das ruas, essa figurinha em miniatura que tão irresistivelmente captiva as attenções do estrangeiro, toda ella matizes, perfumes, frescura, gentileza, a figurinha da musumé, da rapariga, podemos ainda definil-a como uma caricatura, a caricatura mais travessa, a chimera humana mais deliciosa, em que jámais olhos de viajante se poisaram!...

Profundar o enygma do feitio moral da tribu é impossivel. Apenas conhecemos vagamente que a vida intima desliza serena e pueril, sem ralhos, sem exasperos, em culturas de arbustos, em contemplações dos astros, em banhos quentes, em esmeros junto do espelho, em brinquedos com as creanças, em debandadas pelos campos, em libações de chá, em jantarinhos de arroz e fatias de nabos em salmoira, em sonecas tranquillas debaixo do verde mosquiteiro protector... Mas d'esta mesma gente expludem tambem por vezes os grandes dramas: crudelissimos assassinios, por cegueira de ciumes; suicidios duplos, por desespero de amor,—elle e ella cingidos n'um derradeiro abraço;—e essa horrivel sede de sangue, o homem transformado em fera, trucidando tudo vivo que encontra, estado de loucura conhecido entre os estrangeiros do Oriente pela denominação de amock, palavra malaia ou javaneza.

 

A tribu parece ter sido feita de encommenda para o paiz exotico que lhe foi dado em patrimonio. Percorrendo-o, estudando-o nos aspectos, melhor se comprehende a indole estetica do povo, a alma nacional, com as suas delicadezas, com as suas graciosidades, com os seus caprichos, com os seus disparates; manifestações multiplices de um caracter particularissimo de origem, mas no qual a influencia muito especial do meio laborou tambem intensamente.

Comparando os aspectos normaes, comezinhos, que se desdobram por este mundo fóra, com outros aspectos excepcionaes, em contraste flagrante com a disposição commum das coisas, pergunto eu se o termo—disparate,—se o termo—caricatura,—são permittidos, julgando a obra da omnipotente creação? Haverá, por exemplo, um ilheo disparatado, um pinheiro caricatural? Se permittidos são, se ha tal ilheo, se ha tal pinheiro, então não se pode imaginar coisa mais disparatada, mais caricatural, do que este archipelago, já disparatado de nascença, emergindo a pique e como por encanto, do seio das aguas mais profundas do oceano, tenue, rendilhado como uma joia em filigrana, convulsionado a todos os momentos por mysteriosas commoções vulcanicas, zurzido por tremendos cyclones, invadido por vezes pelas ondas enormes do Pacifico, caprichosa chimera geologica emfim, que pode ámanhã desapparecer no abysmo, sem que por tal se espantem muito os sabios!... Tal é o imperio do Japão.

A paisagem

extravagante,

inverosimil,

inacreditavel, das

porcellanas e charões,

hoje divulgada em toda

a parte, é com effeito a

paizagem real d'este

Japão. Collinas,

penedias, verdes

planices, lagos,

cascatas, torrentes

espumantes, ribeiras dormentes, valles profundos, mares interiores salpicados de ilhas e rochedos, tudo reduzido a miniaturas graciosissimas, reunido em grupos incongruentes e projectado em fundos de ceu estupendamente coloridos, eis o que os olhos abrangem n'um relance.

Demorêmo-nos nos detalhes. As coniferas (algumas especies enormes) vestem as encostas, trepam pelas ribanceiras acima, até irem coroar os ultimos pincaros das serras. Aqui, um bosque de bambus gigantes, cuja sombra eterna e cuja paz soturna dão allucinações áquelle que se aventura em devassar o seu mysterio. Alli, outro bosque, de bordos, de momiji; em novembro, a sua tenue folhagem digitada passa do verde claro ao escarlate; o scenario adquire assim deliciosos exotismos ultra-terrestres, como se a gente se achasse de repente pisando o solo de Marte ou de Saturno. A semente do acaso caiu sobre uma pedra á flôr das aguas; germinou o pinheiro, a rede das raizes abraça-se ao granito, e ergue-se desamparado o tronco, torcido, contorcido pelos annos e pelas intemperies, reflectindo no espelho glauco a sua eterna cabelleira de verdura; ha arvores, enobrecidas ou pela vetustez ou pela forma estranha, celebres como heroes, que são visitadas por uma multidão de peregrinos. As ameixieiras, as cerejeiras, abundam; pela primavera, cobrem-se de florescencias pasmosas, luxuriantes, como nunca se viu em parte alguma; mas não dão fructo, as trapaceiras.

Nos jardins, continua a flora exotica, desconhecida. Trepa, por onde pode, a asagao; e abre á alvorada, por curtas horas, as suas frescas campanulas, de qualquer côr, porque as variedades não se contam, são milhares. Desabrocha a peonia, enorme, paradoxal. E enfileiram as chrysanthemas, a flôr nacional, sob tendas que as abrigam do sol, podendo lembrar cortezãs em exposição nos bairros de prazer, pela extravagancia das côres e dos feitios, que recordam a confusão polychroma dos vestidos e dos penteados das mulheres; mas que realmente se assemelham a enormes actineas, monstros dos mares, multiplicando-se em mil tentaculos contorcidos, brancos, amarellos, rosados ou sanguineos.

Agora a fauna. Pelo espaço, negrejam bandos de corvos, os karasu, escarninhos, voando e rindo ás gargalhadas. Enormes borboletas pretas, nunca vistas, sugam as corollas. De dia, de noite, é incessante o ruido das cigarras, dos grilos, de outros bichos. Noites ha, pelo estio, junto ás ribeiras, em que uma chuva de fogo, de pyrilampos aos myriades, motiva festas ruidosas. Nos lagos dos jardins vagueam peixes de oiro, com os olhos a estoirarem, com as caudas esfarrapadas e rojantes, como se fôssem longos capotes de mendigos. Junto da casa de papel toma o sol, cantarola o gallo anão, do tamanho d'uma pomba; e á porta assoma o gato indigena, esqueletico, rabugento, sem rabo... porque todos os gatos no Japão nascem sem rabo; ou é o cão que ladra, o chin, verdadeira caricatura de cão, com os olhos esbogalhados a saltarem-lhe das orbitas, sem nariz, a cauda em pluma, parente degenerado de qualquer monstro de epochas remotas, hoje extincto.

 

De sorte que todo este

Nippon,—arte, povo,

paizagem, planta e

bicho,—é uma

deliciosa mascarada.

Como fazer sentir isto

a quem o não conhece,

depois de ter escripto o

que escrevi, e de

concluir que nada

escrevi do que me vae

no pensamento?

Olhem: fixem um espelho espherico, ou cylindrico; o aspecto das formas reflectidas é uma interminavel surpreza hilariante, de caretas supinas, de linhas torturadas; pois tal é o aspecto do Japão...

Todos sabem como a caricatura, pelo desenho e pela escripta, exerce nas sociedades uma influencia decisiva. A pintura e o livro humoristicos subjugam a attenção e imperam no espirito com intensidades unicas, alheias ás outras formas de arte. Porque? Fôra difficil explical-o aqui. É certo que a ironia, na obra creada, faz mais do que crear: estigmatiza um defeito, aponta um ridiculo, sublinha uma virtude. As coisas triviaes, taes como as conhecemos, passam desapercebidas ou esquecem brevemente; o exaggero, pelo contrario, fica, grava-se a estylete na memoria. Viu-se hoje um bom retrato d'um sujeito, de Balzac, de Bonaparte, se quizermos; amanhã nada restará no pensamento; mas, se foi relanceada a caricatura, fica a summula cá dentro, uma reminiscencia pertinaz do traço phisionomico (e mais do que isso) do individuo. Seja como fôr e por que fôr, é hoje indiscutivel que a caricatura representa um meio altamente poderoso de impressionar os homens Todos sabem como a caricatura, pelo desenho e pela escripta, exerce nas sociedades uma influencia decisiva. A pintura e o livro humoristicos subjugam a attenção e imperam no espirito com intensidades unicas, alheias ás outras formas de arte. Porque? Fôra difficil explical-o aqui. É certo que a ironia, na obra creada, faz mais do que crear: estigmatiza um defeito, aponta um ridiculo, sublinha uma virtude. As coisas triviaes, taes como as conhecemos, passam desapercebidas ou esquecem brevemente; o exaggero, pelo contrario, fica, grava-se a estylete na memoria. Viu-se hoje um bom retrato d'um sujeito, de Balzac, de Bonaparte, se quizermos; amanhã nada restará no pensamento; mas, se foi relanceada a caricatura, fica a summula cá dentro, uma reminiscencia pertinaz do traço phisionomico (e mais do que isso) do individuo. Seja como fôr e por que fôr, é hoje indiscutivel que a caricatura representa um meio altamente poderoso de impressionar os homens; estude-se-lhe os effeitos, por exemplo, na polemica dos principios, onde ella vale pela mais possante picareta demolidora das instituições, dos thronos e das crenças, rasgando a estrada nova por onde investem os partidos avançados.

 

Estando isto assente, imaginem agora um paquete, despejando em qualquer caes japonez

um bando de loiros

estrangeiros. Elles

todos, os lorpas, têem

nos rostos essa feição

anodina das cabeças,

que é uma das formas

de belleza mais

frequentes nas raças

europeas; e a julgar

pelo olho azul, de

porcellana, sem

expressão, sem alma,

póde admittir-se que lá dentro da casca não ha senão pevides em guisa de miolos.

Mãos rudes, vermelhas, cabelludas, pés enormes;—estigmas de um temperamento avesso a coisas de arte e a todas as delicadezas do sentir.—Emparelham pelas manifestações do gosto: vestidos todos de alvadio, côco no cocuruto da cabeça, sapatos amarellos e ramosinho na carcela. Como entidades prestantes, embora talvez não prestem para nada, uns são sabios, outros são navegadores, outros são diplomatas, outros possuem manhas maravilhosas de balcão; mas—coitados!—em todos se acoberta o microbio desvastador, oriundo dos grandes centros, nascidos da podridão da descrença, do egoismo, da inveja, da cubiça e da misanthropia; e na face e nos gestos alguma coisa já assoma do mal de que enfermaram. Alguns dão o braço a outros sujeitos sem bigode, com

grandes mãos vermelhas igualmente, e enormes pés calçando sapatos amarellos; usam bengala, collarinho alto de bretanha, gravata, tunicas em forma de campanula, uma alcofa á cabeça, cheia de hervas, de aves e de fitas:—são as damas—.

Os pobres forasteiros vêem-se assim de improviso e de surpreza no meio exotico entre todos, requintadamente artistico, caricatural e sorridente, que é todo este Japão. Dominados pelos aspectos, allucinados pela iniciação imposta, riem tambem, e julgam tambem sentir a graciosidade indigena e a gentileza dos scenarios. Eil-os que cruzam as estradas e os trilhos das montanhas, seguem em caravanas numerosas a visitar os logares celebres, encorporam-se nas romarias, entram nos templos e entram nos theatros, bebem chá japonez, e até, burlescamente ajoelhados, engolem o arroz cosido e deliciam-se no peixe cru que as creadinhas vão servindo.

Oh, a paisagem japoneza! Como

ella é encantadora e fresca,

estranha, paradisiaca!... e como

aqui o pensamento se dilata, n'um

longo divagar sereno e amoroso,

tão distincto das preocupações

sombrias que alem, na Europa,

azedam a existencia!... Mas não

sei quê da alma asiatica, subtilmente motejador e sarcastico, subtilmente intolerante,

paira aqui, emana da coloração e

da forma das coisas, do grito dos

animaes, do gesto e voz da gente;

não se define, mas existe,

hostilisando em tudo o pobre intruso. É como que uma exhortação continua e impertinente do Buddha e dos deuses tutelares, murmurada a todos os instantes:—«Vae-te, volta á terra dos loiros; contempla os teus deuses, visita os teus templos, recrea-te nos teus salões, bebe o teu whisky e soda; mas deixa em paz este solo, que não é teu, que te detesta; e onde, para assimilares a harmonia da creação e o sentimento nacional, precisas de uma fluidez de espirito e de uma serenidade de consciencia, que te faltam!...»—

Cedo ou tarde, ámanhã, em dois

mezes, em dois annos, o homem

loiro enfastia-se, compenetra-se

da fatalidade dos destinos, que

crearam o Japão para os