Paisagens da China e do Japão
O Espelho de Matsuyama
Como eu dizia ha pouco, os annos passaram sobre os factos e esfriaram os rancores. N'estes dois cemiterios, de Kobe e de Sakai, nem já existe sequer o pó dos ossos, existem só legendas. Em Kobe, as onze sepulturas evocam no espirito esse periodo de frenesi da Europa, de curiosidade, de cubiça, em face da morna inercia d'este canto do mundo; e as esquadras que o devassam, que o visam com os canhões; e os diplomatas que intrigam, que teimam, conduzindo o finalmente, á força, ao convivio das nações; e, como peripecias infimas, quasi olvidadas e não pesando na marcha progressiva dos negocios, o sacrificio inglorio de alguns humildes obreiros d'essa empreza... Em Sakai, as onze sepulturas rememoram a desesperada resistencia d'uma tribu feliz, contra aquelles que vinham arrancal-a aos seus sonhos amorosos, rasgar-lhe a lenda e a crença, e bradar-lhe que ser-se assim ditoso, já não é permittido. Pobres mortos! abraço com um mesmo olhar d'alma, enternecido, as vinte e duas campas...
1900.
O ESPELHO DE MATSUYAMA
Á F C C
Viveu ha muito tempo no Japão um feliz casal de gente rustica, modelo de virtudes conjugaes; eram elles, os dois, e uma filhinha, o seu encanto. O povo varreu já da memoria os nomes d'essa gente; não admira, quando se pense que tantos seculos passaram. Indica-se apenas o logar, Matsuyama, que quer dizer Montanha dos pinheiros, na provincia de Echigo. Esta ligeira indicação basta para que imaginemos o scenario: serranias, pinheiraes, succedendo-se a serranias, pinheiraes; a terra, a rocha, fôfas de musgos, de fetos, de herva brava; covôes, precipicios, cachoeiras, por onde a agua golfa, espuma e rumoreja; pios de corvos e hymnos de cigarras; raros caminhos serpeando, calcados
pelas sandalias dos que passam;
e aqui, e alem, alguma humilde
cabana de aldeões, de barro e
colmo, aonde a vida intima, após
as horas de labuta, desliza em
longos repousos sobre a esteira,
em simplicidades primitivas, em
face da grande paz da scena
agreste, e do azul sem fim dos
largos horisontes. N'uma d'essas
cabanas vivia o casal a que alludi.
Ora, aconteceu uma vez que negocios muito graves chamaram o marido á faustuosa cidade, á capital de todo o imperio. Figure-se o alvoroço e o reboliço na choupana. Em coisas de viagem, a experiencia da esposa resumia-se ao trilho que seguíra raras vezes, em duas horas de caminho, do seu lar ao logarejo mais visinho. Alanceavam-n'a agora varios sustos, acudiam-lhe ao espirito não sei que perigos e trabalhos, maleficios dos genios das florestas, mil revezes a que se ia expôr o companheiro... Por outro lado, envaidava-se com a idéa de ser elle o primeiro do logar que ia vêr por seus olhos a mansão da côrte e do soberano, e contemplar as grandes maravilhas que lá por certo havia. Ella ficava; ella tinha a sua pequerrucha e o cuidado do lar; e, embora mordida de saudades, devia resignar-se aos deveres do seu mister, e aos anceios d'aquella dura ausencia.
E que terna que foi a despedida!... Beijos e abraços não se deram, porque os japonezes não dão nem beijos nem abraços; lagrimas não correram, porque os japonezes nunca choram; mas fôram tantas as mesuras e tantos os sorrisos, e tam longa a ultima palestra, elle promettendo voltar breve, ella prodigalisando mil conselhos, que era mesmo um regalo contemplar casal tam meigo e tam feliz!...
E lá foi o marido.
Passaram-se semanas e semanas; para encurtar razões, annuncia-se agora o regresso do Passaram-se semanas e semanas; para encurtar razões, annuncia-se agora o regresso do sujeito. É vêl-a então, a cirandeira, ora varrendo,
ora lavando ora arrumando,
dispondo a choça em festa para a
ditosa hora da chegada. É a
pequenita certamente que mais
cuidados lhe merece: o kimonosinho de crepe de seda preciosa, a faixa da cintura, a flôr
para o cabello, tudo novo, tudo
fresco, tudo lindo, se põe de parte,
se examina; e os dedos finos da
maman, em curvas adoraveis,
saltam, vôam, aqui alizam pregas,
alli compõem laços, com habilidades unicas, prodigiosas;
convem saber que não ha mãos
mais bonitas e mais destras do
que as mãos das japonezas, nem
mães mais carinhosas do que
estas mamans do Dai-Nippon. Ella
propria, a maman, tambem cuida
de si, não se furta aos adornos,
não por arte talvez, por instincto
do sexo; e eil-a enfiando os pés
nús em grandes soccos novos, de
charão negro e luzente, e estreando um kimono catita, azul e branco. E lá vão ellas, as duas, certo dia, trilhos fóra, tic-tac, tic-tac, ao encontro do homem.
Ai, que jubilos, ao toparem com elle são e salvo, todo chibante, bamboleando-se no seu passo vagaroso, para mais prolongar tam doce transe!...—«Bons dias, senhor marido! Bons dias, senhor meu pae!»—e os corpos agaxam-se em mesuras, e as cabecitas vão quasi tocar o chão do campo. E como a pequerrucha bate as palmas, e se lhe accendem os olhitos, quando elle logo alli lhe quer vasar no regaço a caixa de bonecos que comprára, carretas de madeira, raposas de pellucia, uma viola, minusculos apparelhos de cosinha e muitas outras maravilhas!... Elle promette entreter dias inteiros, só com a narração do que seus olhos viram: theatros regorgitando de musumés, vestidas como deusas; principes em comitivas resplendentes, passeando em liteiras de charão, e o povo prostrado a adoral-os pelas ruas; serenatas nos rios, barcos vogando a transbordarem de mulheres e enfeitados com balões, gemem as cordas das violas e estalejam nos ares foguetes de mil côres; templos gigantes e enormes sinos badalando; palacios cheios de luxo; jardins cheios de flôres; e por toda a parte a immensa multidão, de velhos, de rapazes, de meninos, feliz, risonha, pachorrenta; e a immensa industria dos bazares, charões, oiros, sedas, porcellanas, adornos sem conta nem medida, tudo digno de ir adornar mansões de fadas, no mundo das chimeras!...
O marido passou depois ás mãositas da esposa, tremulas de emoção, um bello cofre de madeira branca, cuidadosamente fechado, e disse-lhe isto:—«Não me esqueci de ti, como estás vendo; trago-te uma coisa muito linda, que tu de certo não conheces, um espelho, um kagami, como lhe chamam na cidade.»—Ella então, abrindo o cofre, observou a offerta; era um grande disco de metal, com o seu cabo, tendo uma face prateada, com relevos de folhagem de bambu e vôos de cegonhas, e a outra face limpida e brilhante como um puro crystal.
É bom saber-se que, sendo a industria do vidro recentissima no Japão, só ha mui pouco tempo aqui se conheceram os espelhinhos reles da industria occidental; nos velhos tempos, os espelhos do paiz eram metalicos, de preciosa liga e artistico trabalho, objectos caros excluidos, do lar dos aldeões; de sorte que é presumivel, dada a simplicidade de alma da pobre gente rustica de então, que as bellas ignorassem que eram bellas, por nem no espelho da agua das ribeiras se mirarem. Mas vamos nós á historia, excluindo divagações que pouco interessam.
Dizia o marido á companheira:—«Olha bem para a face brilhante d'este espelho e conta-me o que vês.»—Ella era toda olhos, toda surpresas, toda extasis; e respondeu por fim que via o rosto de uma mulher muito gentil, com um oval de enfeitiçar, comuns olhinhos negros muito doces, com uma rubra boquinha de cubiça. Disse mais que essa mulher não cessava de fital-a; e se ria, a mulher ria; e se fallava, os labios da mulher acompanhavam-n'a no gesto; e, para cumulo de estranheza, vestia um kimono azul e branco, igual ao seu, que ella trazia... O marido sorria-se, já com uns ares de doutor, que da viagem lhe provinham; e foi benevolamente convencendo-a de que essa mulher era ella mesma, e que o espelho, por um mysterio que elle não sabia explicar, apenas reproduzia a sua imagem, os seus encantos proprios; lá na cidade, muitas raparigas possuiam espelhos como aquelle, e n'elles se viam e reviam, ora compondo as voltas do cabello, ora pintando os labios de escarlate, ora por mero passatempo de se acharem bonitas, as garridas. A esposa ficou então louquinha com o presente; e... diga-se toda a verdade: cheia de orgulho de si mesma, por se vêr tam catita, tam fresca, apetecivel. Fôram semanas e semanas votadas a esse enlevo, a mirar-se, a namorar-se—quem não lhe relevará essa vaidade?—até que finalmente convenceu-se de que um espelho era joia preciosa de mais para servir todos os dias, alli na choça núa, na solidão dos bosques; assim se explica o caso de ter elle ido parar dentro de uma gaveta, esquecido de mistura com as velhas reliquias da familia.
E vão passando os dias, os mezes e os annos. A felicidade bafeja constantemente aquelle lar. A grande alegria do casal é a filha, que cresce em mimos, tornando-se a verdadeira imagem da maman, e como ella submissa, e como ella affectuosa, e como ella activa na labuta. Vaidades de mulher, que tanto prejudicam no futuro as raparigas, não as tinha; e deve aqui prestar-se inteiro applauso á previdencia da maman, que em lembrança dos seus caprichos de outro tempo, passageiros, nunca á mocinha confiou o espelho, velha joia sem uso, esquecida na gaveta.
E vão passando os dias, os mezes e os annos. Muitos annos. A mãe, uma velhinha com a alvura da neve por côr dos seus cabellos, jaz prostrada na cama, sem forças, moribunda; a filha, junto d'ella, multiplica-se em cuidados, anima a triste enferma.
A custo, diz a velha:—«Sinto que
morro, vae-me fugindo a luz dos
olhos. Vou deixar-te, e o nosso
velho amigo. É isto que me pesa;
cheguei a persuadir-me de que
este nosso bem não tinha fim. Por
ti, tam só que ficas, receio muito,
filha: o mundo é um grande mar,
cheio de escolhos e de perigos...»—E deteve-se e pôz-se
a meditar por muito tempo,
passando pela fronte os dedos
descarnados; então, um pensamento lhe acudiu, uma
d'essas travessuras de velha que
só redundam para o bem, e
proseguiu d'esta maneira:—«Olha,
tenho uma idéa: toma este espelho, este objecto milagroso
que veio de muito longe; e jura-me que uma vez em cada dia e uma vez em cada noite, o irás vêr. Eu te apparecerei então, no mesmo espelho; e assim, na minha companhia, terás mais animo na vida, mais força nas angustias, mais tento com as indecisões da juventude e com os males que te rodeem.»—E a filha jurou isto; e a velha deixou-se morrer serenamente, resignada, sorrindo á paizagem verde, sorrindo ao sol festivo, que investia em faixas de ouro pela casa...
A musumé cumpriu attentamente o juramento. Por esta forma percorreu a via da existencia, tranquilla, sempre assistida pela mãe, que nunca cessou de apparecer-lhe, quando, nas mãos piedosas sustinha o espelho milagroso. Não era da moribunda, livida, prostrada em agonia, desfallecendo pouco a pouco, a doce apparição; era a maman gentil, de outros tempos, cheia de louçanias e sorrisos. Achava-se com ella n'um placido convivio sem reservas, com ella palestrava, a ella confiava os seus segredos, os seus sobresaltos de donzella; e n'aquella face pura bebia conforto e recompensas.
O velho algumas vezes surprehendeu a filha com o espelho entre as mãos, sorrindo, murmurando singellas confidencias. Pareceu-lhe estranho o caso; e ia um bello dia notar-lhe o disparate, quando a moça lhe fez uma pergunta, por onde avaliou a chimera amorosa com que ella ia embalando o pensamento.—«Repare, senhor meu pae: não vê no espelho a minha mãe?...»—O que o velho via claramente, era a imagem da filha, que alli tinha junto de si em carne e osso,—e que carne! e
que osso!—palpitante de vida e
gentileza... mas julgou mais
prudente conserval-a sob o
prestigio da illusão; e, franzindo muito o rosto, de rude pergaminho, sem que se percebesse se ria ou se
chorava, ou se ria e chorava ao
mesmo tempo, fez côro com
ella, assegurando que sim, que via a santa mãe, e tam bella, e tam fresca, como no dia do noivado...
1900.
AMÔRES...
A J. G D C
Uma impressão de Macau.
O que faria aquelle bando de
leprosos, que a policia da colonia
surprehendeu e agarrou? O que
faria aquelle bando de leprosos,
além no meio do rio, sobre um
miseravel barco, pela noite velha,
tenO que faria aquelle bando de
leprosos, que a policia da colonia
surprehendeu e agarrou? O que
faria aquelle bando de leprosos,
além no meio do rio, sobre um
miseravel barco, pela noite velha,
tenebrosa e fria, ora pairando e
deslisando ao grado da corrente,
ora remando manso, de margem
para margem, em vigia?...
Elles eram uns ossudos filhos das aldeias, dando-nos de longe uma impressão de robustez de musculos, de gente affeita á enxada e á vida de lavoira. Vistos de perto, resaltava horrivelmente o ferrete de peçonha do seu sangue; eram indiscriptiveis seres inuteis, abjectos, quasi sem mãos, quasi sem pés, porque os dedos lhes iam caindo podres aos pedaços; rostos medonhos lavrados pelo mal, sem narizes, com os beiços roidos, com as faces chagadas; ainda mais sinistros pela infamia estampada nas feições e nos olhares, denunciando perversidades de alma de infimo quilate, por certo derivadas da suprema degradação do seu viver. Vestiam farrapos immundos, sem fórma definida e sem côr reconhecivel; e escondiam as frontes, talvez envergonhadas, sob as abas enormes dos chapeus de rota, em uso nas aldeias.
Pescavam? por aquellas horas da noite e n'aquelle paradeiro, não era admissivel esta supposição; nem no misero barco, onde se amontoavam alguns trapos, se deu fé de anzoes ou de outras artes de pescar.
Mendigavam? menos possivel ainda que assim fosse. A taes horas, dormem todos, incluindo os mendigos. O rio dormia, silencioso, lugubre pelo aspecto das suas aguas negras, dos cascos alterosos das grandes lórchas juntas em magotes, desenhando-se vagamente junto ás margens os barquitos em cardumes, presos ás varas de bambú encravadas no lodo. Apenas de espaço a espaço algum raro tanka atravessava d'um lado para outro, chape-chape, remos movidos lentamente pelas mãos das raparigas somnarentas, fartas da lida do dia,—coisa de ir levar ao seu albergue algum retardatario, de volta do jogo ou das orgias.—Não era dos nocturnos viajeiros, e menos dos pobres tankareiras, que o bando de leprosos lograria um punhado de sapecas, que compensasse o esforço da vigilia. Nem a sua miseria, realmente, era tal, que os levasse a tão duros extremos. É certo que o leproso se encontra excluido dos povoados. Em paragens mais rusticas, matam-n'o á pedrada, se o encontram; em Macau, porém, a brandura dos costumes regeita em regra esta medida, tenha embora o miseravel de viver pelos esteiros, em barcos podres, ou sobre os lodos, escondido das gentes como um bicho peçonhento. No entretanto, o esteiro fornece-lhe peixes vis, e caranguejos, e molluscos, e vermes; os cäes vadios encontram de quando em quando, nos despejos, um punhado de arroz cosido, e o leproso tambem o encontra, como elles. Na altivez da sua pasmosa abjecção, o leproso não vem expôr-se ao asco, ao opprobrio; sorri ao mundo com desdem, acoita-se no antro, come immundicies, bebe agua pôdre; e os fados são-lhe bastante complacentes em geral, para matal-os da molestia antes que arrebentem pela fome...
Averiguou-se finalmente o que fazia aquelle bando de leprosos.
Aquelles infimos párias passavam a existencia isoladamente, cioso cada qual do seu covil, dos seus farrapos, devorando sem partilha o que o acaso lhe offerecia nos enxurros. Conheciam-se certamente, pela visinhança dos antros, sobre a mesma vasa que se alastra na margem fronteira á de Macau, e a fatalidade commum estabelecia de direito affinidades, allianças tacitas de tribu, entre elles; mas, como não carecessem uns dos outros para soffrerem, para odiarem a natureza creadora, para jazerem no ninho da trapagem, para morrerem, não se procuravam. Na imaginação immersa em trevas de cada um, rustica, pouco elastica, e cultivada em ascos, em maldições, em misanthropias rancorosas, nunca por certo passara a phantasia de vir insinuar-se na turba, partilhar das suas distracções, relancear os festins, percorrer os bazares, invadir os templos e os
theatros. Mas na torva e lenta elaboração do pensamento, durante os longos dias, os longos mezes, os longos annos de isolamento e de ocio, um desejo se fôra pouco a pouco avolumando, definindo, convertido finalmente em tortura,
amargurando como uma dôr constante e implacavel: —era a mulher, o desejo, a tortura da mulher.— Prazeres do mundo não se queriam, nem mesmo se lhes imaginavam os feitiços; era-se superior a essa chimera. Mas, no ambiente acariciador da vida, em
presença das arvores fructificando, das flores perfumadas, dos animaes requestando-se, os hymnos da terra, da creação em galas, do amor dos sexos, vinham tambem echoar n'aquelles cerebros, electrisar aquelles nervos; a visão da mulher, durante as mornas monotonias sem termo, aparecia como um apetite crescente, como uma fome de carne; e os miseraveis, allucinados pela obsecação de todos os momentos, estremeciam, erguiam-se de subito do seu leito de trapos, arquejantes, o sangue a escaldar-lhes as frontes, o olhar em fogo...
Então, tacitamente, impôz-se a cada qual a necessidade de fraternisar com o seu visinho, de agremiar-se em bando. A união faz a força. Procuraram-se, intenderam-se. Medonhos conciliabulos se passaram, a coberto das trevas, pelas noites longas, sobre os lodos. Segredava-se, aventurava-se um plano, discutia-se. Os olhos fuzilavam como raios, a phrase rouca golfava dos labios, eloquente, persuasiva, os membros disformes erguiam-se na sombra em gestos tragicos. E assim se escolheu o barco menos podre, se nomeou a companha, o capitão, se esperou por uma noite mais escura, azada aos seus intentos. Assim tiveram inicio e proseguiram os estranhos cruzeiros, á aventura. Eil-os, o bando immundo dos gafados, á capa, pairando ou remando a medo, de manso, de manso, silenciosamente, e prescrutando as trevas. Se ia passando algum tanka, os ouvidos subtis e os olhos experimentados, estudavam, presumiam, adivinhavam. Quando era chegado o bom momento, então,—oh delirio supremo!—n'um impeto de remadas e desejos, o barco voava, dava a abordagem, os milhafres caiam sobre as victimas indefesas. Habeis no ataque, com as mãos sem dedos suffocavam os gritos das mulheres, a murros, ou premindo; n'um relance, pelo faro, distinguiam das velhas as moças, apartavam dos ossos duros a carne fofa e tenra; e com fome de hyenas, as boccas pestilentas comiam, devoravam com beijos as pobres raparigas, que em vão se debatiam na lucta tremenda d'uns instantes...