Paisagens da China e do Japão

Wenceslau de Moraes · Capítulo 2 de 20

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Paisagens da China e do Japão

A Alforreca

 

 

H C .

 

Falla a lenda japoneza.

Antigamente—e quem sabe se ainda hoje!—no seio do oceano era o reino faustuoso dos dragões. Por longos annos, o senhor d'este reino, o dragão real, viveu celibatario, n'uma existencia descuidosa; e sabem só os deuses, e não nós, quantas noites de dissipação, em companhia de tartarugas e lagostas ligeiras de costumes, que lhe cantavam trovas ao som do shamicen e lhe iam servindo saké em ricas taças, quantas noites elle passou em travessas intimidades amorosas!...

Verdores, que passam

breve. Um bello dia,

resolveu casar-se, o

bom soberano. A noiva

escolhida foi uma joven

dragôasita, dezeseis

annos apenas,

adoravel, digna pelos

seus mil encantos de

ser a consorte feliz de tal senhor. Explendidas foram as bodas por essa occasião, segundo consta: sem já fallar na côrte intima, toda a bicharia aquatica, peixes, mariscos, molluscos,

todos vieram processionalmente, em cardumes, em bellos kimonos de sedas encarnadas, offerecer seus respeitos e presentes; e foram, durante longos dias, estupendos regabofes, em danças, em musicas, em banquetes...

 

Mas nem os dragões escapam ás duras

provações da existencia! Ainda bem um mez se não passára, quando a augusta soberana caiu doente; e taes cuidados inspirou desde logo o seu estado, que era uma lastima observar as trombas compungidas dos fidalgos, commentando baixinho, em lamentações do seu officio, o triste caso. Reuniram-se os doutores em conferencia; fallaram muito, discutiram muito, sem chegarem a accordo, como sempre succede; consultaram-se abalisados alfarrabios de therapeutica; as barbatanas incançaveis rabiscaram um milhão de receitas milagrosas, e todas as tisanas se serviram. Baldado intento; a soberana extinguia-se; e afinal os focinhos dos sabios, n'um tregeito de piedade e desengano, tiveram de ser francos, de declarar que a sciencia—já n'aquella epoca se enchia a bocca com a sciencia—que a sciencia nada mais podia fazer, e que um angustioso desfecho era de esperar-se.

 

Do seu leito de enferma, de entre os futon, as fofas colchas de setim, agita as tremulas patinhas a rainha; chama junto de si o esposo, e diz-lhe estas palavras ao ouvido:—«Uma só coisa me salvará: arranquem o figado a um macaco vivo, e consintam que o devore; recuperarei a saude....»—O rei não poude reprimir um gesto de surpresa, quasi de enfado, e todo se lhe erriçou o bigode façanhudo:—«Um figado de macaco! estás louca, minha querida!...»—Ella promptamente retrucou:—«Louca, porquê? Vossa

magestade esquece por ventura,

que nós, o grande povo dos

dragões, no mar vivemos sempre;

emquanto que os macacos, muito

longe d'aqui, vivem na terra, nos

bosques, entre as arvores, nutrindo-se de fructos... No figado

do mono alguma coisa virá que

participe d'esse mundo, tão

diverso, tão outro; e essa particula

estranha, senhor, me salvaria!...»—E a rainha, a quem

as lagrimas acodem, prosegue n'um tom reprehensivo e lastimoso: —«Uma insignificancia, um nada, pedi, e esse nada vossa magestade me recusa. Julgava merecer-lhe mais affectos. Dispa-me d'estas pompas de soberana, não as quero; dê a corôa a outra esposa, mais digna, mais formosa; consinta que volva ao ninho carinhoso de meus paes...»—A voz suffoca-se em soluços, não pode mais proferir uma só queixa...

O rei dos dragões não queria passar, entre damas por um dragão cruel; por demais conhecia elle os caprichos pueris do sexo fragil, mas perdoava-os complacentemente, por systema; e sobretudo adorava a esposa, cujas lagrimas desejaria poupar a todo o transe. Satisfaça-se pois o capricho da rainha. Mandou chamar a sua escrava mais fiel e dedicada, a

alforreca, e disse-lhe o seguinte:

—«Vou dar-te uma espinhosa

tarefa, minha velha, mas confio na

tua dedicação nunca mentida;

preciso que emprehendas uma

longa viagem, que nades até junto

da terra, e alli convenças um

macaco a vir comtigo a estes

meus reinos; falla-lhe, para o

resolveres, da magica belleza

d'estes sitios, tão differentes dos

seus, e da gentileza d'estes meus

subditos felizes; mas o que eu realmente quero n'este caso, é que se arranque o figado das entranhas de tal mono, e se sirva como medicamento á tua joven ama, que, como de certo sabes, se acha em perigo de vida, a desditosa.»

Lá vae, oceano fóra, vento em pôpa, a alforreca, emissaria obediente e ufanosa do encargo. Por aquelles tempos, a alforreca, como qualquer bicho das aguas, era um animal gracioso, de contornos esbeltos, com cabecinha, com olhinhos, com mãosinhas, e com a competente cauda titillante; e ficava-lhe tão bem o fato de marujo!... Lá vae, oceano fóra, olhar sereno e cogitador, rompendo a vigorosas braçadas a onda fria. Não tarda muito a abeirar-se do paiz onde vivem os macacos; por felicidade, um alem está, um lindo mono, saltando de ramo em ramo, dependurando-se das arvores que enraizam nos penedos e se debruçam sobre o mar.—«Bons dias, senhor macaco. Eu venho aqui expressamente para fallar-lhe d'um paiz longinquo, muito mais bello do que o seu; é elle situado alem das ondas e conhecido pelo reino dos dragões; alli, não ha estações, é eterna a amenidade do clima; alli, nas copas das arvores repolhudas, constantemente amanhecem avelludados fructos saborosos, é colhel-os, não ha outra tarefa; para cumulo do conforto, essas creaturas malfazejas, homens chamados, não pisam taes paragens. Se lhe agrada vir commigo, eu serei o seu guia; não tem mais que fazer do que saltar d'esse tronco para cima do meu lombo...» O macaco achou gracioso isso de ir vêr novos paizes. Vá lá mais esta extravagancia á conta da bohemia simiesca.—«Ao largo, amiga!»—E lá foram os dois; porém, a meia travessia, pensou tardiamente o mono na temeridade do seu feito, expondo-se assim ao arbitrio d'um extrangeiro, e abandonando a sua patria. Decidiu-se emfim a perguntar:—«Que pensa você que vão fazer de mim na sua terra?»—A alforreca deveria agora

ser discreta, encapotar as respostas em evasivas; mas

oiçam lá o que ella deu em troco:

—«Eu lhe digo: meu amo, rei dos

dragões, ordena ao senhor macaco que arranque o proprio

figado, o qual vae ser servido á

nossa soberana, hoje enferma, e

salval-a da morte.»—Então o

mono, guardando para si os

commentarios que o caso suggeria, disse cortêzmente, que era para elle uma alta honra e um esperado prazer, o assim tornar-se util a sua magestade; acrescentou, porem, que agora se lembrava de ter deixado o figado dependurado n'um tronco de arvore, aquelle mesmo castanheiro d'onde saltara para as costas da alforreca. Continuou discursando em linguagem fluente, de orador emerito, descendo a explanações minuciosas; e explicou como o figado era uma coisa bastante pesada, embaraçosa, um quasi alforge de peregrino, um empecilho que elle costumava pôr de parte, durante o dia, para se entregar mais á vontade aos seus exercicios de acrobata; habitos de familia, já seu avô fazia o mesmo; e concluiu, que o melhor que tinham a fazer n'este momento, era voltarem para trás, e na arvore encontrariam o figado em questão.

Não pôz objecções a nadadora. Voltando á terra, o macaco saltou ao castanheiro com uma ligeireza nunca vista, nem mesmo entre macacos, acompanhando o pulo d'uma alegre careta e d'um gesto que traduzia o jubilo do bestunto, coisa que passou estranha á alforreca. Procurou entre as folhas o seu figado. Não o encontrou. Explicou então do alto, á alforreca, que provavelmente algum companheiro o levára para longe, o que o obrigava a mais demoradas pesquisas pelo bosque; no entretanto que fôsse ella contar o caso ao seu senhor, que devia estar ancioso por vêl-a chegar antes da noite.

 

Assim procedeu o bicho.

El-rei, que a esperava, e que a escutou, enraivecido por tamanha ingenuidade—para não lhe chamar coisa mais feia,—mandou logo vir da maladia um bando dos seus mais soberbos samurais, e ordenou-lhes que malhassem no bicho á pancada, até cançarem. O castigo foi cumprido, e com esse vigor de braços de villões, que miram aos applausos do monarcha. É esta a razão porque a alforreca, hoje em dia, não tem pernas, nem cabeça, nem cauda, nem barbatanas: tanta pancada levou, que ficou reduzida a esta miseria, massa informe, um farrapo, um pedaço de gelatina, boiando despresivelmente á mercê do turbilhão das vagas.

Com respeito á soberana, reconsiderando no disparate do seu capricho, concluiu que o melhor que tinha a fazer era erguer-se da cama e pôr-se bôa; e assim fez, com grande pasmo dos doutores.

 

A historia da alforreca está contada, na sua simplicidade commovente. É veridica esta historia, como tudo que o povo relata de memoria; creia n'ella quem crê. Fica-se já sabendo no entretanto, —e é isto d'um proveitoso ensinamento,—que os japonezes tão prodigamente propensos ao perdão para tantos pecadilhos de alma e de costumes, castigam os patetas.

Diga-se francamente: esta desgraça da alforreca, no paiz do sol nascente, era inevitavel; e o caso presta-se a interessantes commentarios, que eu vou resumir em poucas linhas. Os japonezes —povo de artistas—são os grandes amorosos da creação, da forma, da vida; ninguem como elles conhece os segredos da ave, do insecto, do reptil, do peixe, dos molluscos, do verme, de todos os seres da terra; a animalidade graciosa d'esses seres, estudada com percepções especiaes, que nos escapam, constitue o thema mil e

mil vezes variado, dos seus

primores de arte. Mas esse

monstro, essa disformidade, essa

alforreca que se apresenta como

unica excepção da lei geral da

gentileza da vida, e parece

resumir em si o enfado inteiro

d'um dia de mau humor do

Omnipotente, devia ter deixado