Paisagens da China e do Japão

Wenceslau de Moraes · Capítulo 5 de 20

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Paisagens da China e do Japão

Nilguyo

cemiterio o seu corpinho inerte...

O seu retrato já corre mundo, em

photographia, vendido pelas lojas,

perpetuando-lhe o rostinho. E

nada mais possivel do que o facto

de andar ganhando cobres pelas

feiras, hoje, amanhã, d'aqui a

quarenta annos, um sujeito qualquer ajoujado com um graphophone, um phone qualquer americano... Estão imaginando a patuscada:—Cylindro apropriado; dá-se corda... A plebe ouve pouco mais ou menos o seguinte:—«Grande companhia de graphophones de Nova-York e de Paris! Scena da famosa cascata de Nunobiki, no Japão!»—E a plebe continua de ouvir: é agora o murmurio continuo, soluçante, de agua despenhando-se de rocha em rocha; trina um passaro vagabundo; um francez bate as palmas, pede cerveja; um

inglez pede whisky; um nipponico pede chá; a vóz da Senhora Primavera vibra distincta, fresca, doce; Primavera desfaz-se em desculpas, em risinhos, diz que já vae, não tarda; mas o inglez tem pressa, renova o seu pedido com azedume: e o instrumento é então perfeito—oh, maravilhas da sciencia!—que se ouve até o ciciar d'um beijo, que é naturalmente do francez...

1899.

 

NILGUYO

 

Mukashi, mukasi (nos velhos tempos, nos velhos tempos, como diriam estes bons japonezes, e conforme reza a lenda, interpretada pelo Nihon no Mukashibanashi (Antigas Legendas do Japão), viveu um homem, um simples, de indole bondosa, de quem se poderia dizer que passára a mocidade em desejos de matrimonio; mas como desejos e realização d'elles são duas coisas mui differentes, attingiu o pobre a meia idade sem ter levado a effeito essa firma...— commercial não é talvez o termo proprio,—em todo o caso essa firma a dois parceiros, que partilham entre si, da vida, alegrias e tristezas.

As alegrias d'elle consistiam principalmente em entregar-se á pesca, pesca á linha durante os longos ocios; tristezas, sentia-as sobretudo, mais mordentes, ao recolher á noite a casa, derreado, cambaleando de somno e de fadiga, sem encontrar uma alma companheira que lhe sorrisse á porta, e em saudações o convidasse a entrar, nem mãos prestimosas que lhe tomassem do peixe e o amanhassem, e fossem depois leval-o ao fogo do brazeiro. Em toda a parte, e especialmente no Japão, estes sentimentos intimos d'alma,—jubilos de pescador á linha e desalentos de solteiro,—são bem justificaveis. Com effeito, para um temperamento vagabundo e impressionavel aos enlevos da paizagem, como se dá com todo o japonez, quantos encantos não vão proporcionando a linha e o anzol, induzindo-nos sem esforço a longos passeios de bohemio, penedos e praias fóra, contornando margens ziguezagueantes de ribeiras e enseadas, em face dos scenarios serenos, todos verde, frescuras, espelhos de aguas e murmurios... e como as horas vôam, acocorado o corpo sobre a rocha, a mão ora affeita, ora prendendo o isco, ora demorando-se em commovente espectactiva, ora colhendo o peixe a estrebuchar; e o espirito voando, como as horas, alheio ao officio, deliciando-se em sonhos, viajando no reino das chimeras... Mas á noite, após um dia inteiro de labuta, é que o corpo se doe e falham os joelhos; e deve então saber tão bem chegar a gente ao lar de esteiras e papel, e vir á entrada ajoelhar-se em cortezias a figura gentil d'uma esposinha fresca, envolvida em sedas e perfumes, com as mãositas rosadas em posição submissa, as mãositas tão habeis em córarem nas brazas as trutas saborosas...

Ora, um bello dia, o nosso homem, de quem a tradição não tomou conta do nome, achava-se pescando segundo o seu costume, bambu em punho, e meditando ao mesmo tempo sobre o seu desconsolo e desolada sorte, quando... zaz! um grande safanão na linha lhe fez logo imaginar que alguma coisa fóra do commum viera de colher. Por pouco se lhe não vão, linha, e anzol, e peixe ao mesmo tempo; então, com muitas manhas que são proprias da arte, poz-se a cançar a presa, já alongando o braço e deixando-a debater-se a seu capricho, já aproveitando o repoiso para traze-la á praia; até que emfim, azado o instante, puxou com força, e veio cair-lhe o peixe aos pés.

O peixe? o peixão!... Era uma Ninguyo, uma sereia; nem mais nem menos; face de mulher, d'uma rara formosura, e um enorme corpo ventrudo, alongado, escamoso, agitando barbatanas e terminando em amplo rabo, que então desesperadamente estremecia. Face de mulher de uma rara formosura,—disse-o eu, e não me engano:— esse contorno doce de oval, de urizanegao, de pevide de melão, tão querido em esthetica japoneza; os bastos cabellos negros fluctuando em coma; a tez de jaspe; os olhinhos de velludo; a boquinha escarlate. Mas chorava, a sereia, em contracções de angustia; chorava certamente pela dôr, pois lhe rasgava a carne o traiçoeiro anzol; e ainda mais talvez pela vergonha de vêr-se assim arrebatada do seu meio habitual, expiando um peccado de lambarice, indefeza, nua deante d'um estrangeiro!...

 

O pescador porém era d'uma indole bondosa, como ficou notado um pouco atraz; e vae-se agora ver como o provou. Comprehende-se, é claro, o seu primeiro espanto: o homem punha as mãos sobre a cabeça, a esbugalhar os olhos, e gaguejava não sei que exclamações... Podera não! Acalmado, sacou cautelosamente o anzol da bella face em sangue; e tomando nas mãos o estranho ser, poz-se a scismar maduramente sobre o caso. Ora, ia pensando, se elle fosse correr as feiras todas, as festas dos mil e mil templos do paiz; e alinhando a sua barraca com as outras, onde se exhibem salamandras, crocodilos, creanças sem pés e sem mãos, cães sabios e muitas outras coisas, que abundantissima chuva de sapecas lhe não cahiria em cima, quer dizer, dentro das mangas do kimono!...—"Meus senhores, entrem todos! Quem não tem cabeça, não paga nada! Ora aqui está uma sereia authentica..."—e já ia estudando o discurso que faria, soberbo, dominador, impondo-se á plebe embasbacada. Ou então, outra ideia: se elle comesse a carne da sereia, cosinhadinha, feita em postas... e sabem todos que a carne da sereia tem virtude de conservar perpetuas a vida e a juventude a quem d'ella provou... Mas a sua indole bondosa revoltou-se afinal contra a lembrança de reter n'uma tina, em exposição, ou peor ainda, de levar á degolla aquelle pobre bicho, que sobre as suas mãos se lamentava e desfazia em prantos, como se fôra uma pessoa; contemplou-o ainda, longamente; e com um nobre gesto e decidido esforço, atirou a sereia ás vagas, d'onde viera, e onde mergulhou e desappareceu sem mais cerimonias, após um acenar de rabo, que poderia ser um adeus, um adeus e um agradecimento.

O nosso pescador voltou á sua faina. Consta que, n'aquelle dia memoravel, o cabaz se lhe encheu de uma espantosa quantidade de tudo que o mar dá. Á tarde, tornando a casa ajoujado com a carga, bailava-lhe nos labios um

sorriso, que provinha da boa

pesca que fizera, e tambem da

boa acção que praticara.

 

Quando pela noite, na cosinha, mangas do kimono arregaçadas até acima dos sovacos, avental sobre as pernas, celha ao lado, se dispunha a preparar a sua ceia, ouviu que de fóra, e junto á porta, uma fallinha mansa lhe ia dizendo:—"Dá licença! dá licença?"...— Corre o homem a abrir a corrediça, ainda com a faca da cosinha, e um carapau na dextra adunca; e á luz frouxa d'um luar de quarto minguante, poude distinguir um vulto de mulher em nada extraordinario, porém doce e cortez, que lhe confessou ser uma viajante extraviada do caminho, sem casa e sem abrigo, e lhe pedia poisada só para aquella noite.—«Entre depressa, menina, acode-lhe o sujeito, e venha partilhar do pouco que aqui tenho».—Então, dando-lhe entrada, conduzindo-a ao aposento das visitas, fel-a descançar sobre a esteira, e junto do brazeiro, foi-lhe servido o chá tradicional.—«Muito obrigada.»—O homem rogou-lhe seguidamente que esperasse pela ceia, uma ceia de peixe por signal, que elle ia amanhar sem perda de um minuto.—«Permitte-me que eu ganhe o direito ao meu quinhão, ajudando-o n'essa lida?»—Disse que não redondamente, que nunca consentiria que os seus hospedes trabalhassem na cosinha. Em replicas e treplicas, a rapariga assegurou-lhe que passara a vida toda, além, da banda do oceano (talvez filha de gente embarcadiça? pescadora?) e que ella conhecia as melhores receitas de cosinhar o peixe, no que até muitas vezes, por passatempo, se occupava; e tanto ella teimou,—sabem todos o que são teimas de mulheres!—que sempre foi levando a sua ávante.

O que é certo, é que nunca o pobre solteirão se lambera com tão deliciosas petisqueiras. Comeu a sua dose, repetiu, pediu terceira vez; e dizia, a chuchar ainda as cabeças dos ruivos, que a pena que lhe ficava, era de não lhe ser servida uma ceia egual, todas as noites. A companheira observou então modestamente, a meias fallas, que lhe parecia não ir além dos seus poderes, um tal desejo; e instada a explicar melhor a sua phrase, accrescentou que era solteira, sem parentes, sem lar... Comprehendida finalmente, o remate de tão feliz encontro foi ella consentir em ser a esposa do sujeito.

Antes, porém, impôz as suas condições.—«Danna, meu dono, eu tenho, como disse, passado a vida pelo mar, e não posso prescindir do meu banho de agua salgada ao menos uma vez cada semana; consente-me isto?»—Elle acenou que sim.—«E jura-me (agora vão ouvir os pudores da pequerrucha...) que me deixará banhar em paz, sem seguir-me, e sem sequer espreitar-me?»—Elle jurou que sim; e deu-se por feliz (já se ia babando pela moça, o maganão!) de, por tão pouco preço, ver-se possuidor de tal thesoiro.

Casaram. Bodas de estrondo; e viveram ditosos durante longos mezes. O peixe, o prato querido dos nipponicos, foi sêmpre excellentemente preparado pela esposa, activa, intelligente, a rir-se sempre. O pargo, em fatias cruas regadas com molhos excitantes, era divino! As enguias com arroz, uma delicia! O caldinho de ameijoas, superfino! As trutas assadas sobre o lume, sem egual! E até uma certa caldeirada, assim como quem diz á moda do Algarve, era de estalo, sem favor! E o marido tornava-se anafado e luzidio, a testemunhar a toda a gente, pelo volume e pelas banhas, que alguem olhava por elle com disvelo...

 

Mas o banho? Melhor fôra não fallarmos n'elle...

Ai que pandega que era esse tal banho!... Ella passava a manhã inteira preparando-o, afinando o appetite, podia-se dizer; e no banho se quedava horas esquecidas, pela tarde. Depois, ajoelhada sobre a esteira, espelhinho em frente, e em torno os cofresinhos mysteriosos, era a interminavel tarefa de fazer-se bella, ora branqueando as faces, ora avermelhando os labios, ora compondo o penteado. O esposo chegára mesmo a esta conclusão não muito lisongeira:—que a companheira mais queria á agua salgada do que a elle;—mas perdoava-lhe,—outros ha que bem menos innocentes caprichos vão perdoando...—e nunca a sombra sequer d'um arrependimento viera turvar a paz do seu viver.

Uma bella tarde,—tarde de banho por signal—chegou o homem a casa, e, como se diz em portuguez... cheio de fome.—«Tardará muito para a ceia? resmungava. Irá o banho em meio ou em principio?» A esposa, é claro, achava-se invisivel, e com a portinha fechada a sete chaves; mas casas japonezas são casas de papel, e uma fenda, um rasgão, convida-nos a enfiar os olhos para dentro. O caso é que elle espreitou. Surpresa! Horror!... Não é uma mulher, mas uma sereia, que se banhava, melhor dizendo—que nadava, em demoradas circumvoluções de regalo ao longo da tina, agitando mansamente o rabo e as barbatanas, e cantarolando baixinho canções do mar, canções das praias...

Pobre marido!—«Ah! canta-me assim, exclamou elle, canta-me assim, grande mostrengo!... Agora percebo eu as tuas habilidades em lidar com peixes,—lidas com os teus parentes, grande mostrengo!...—Melhor fôra, sem duvida, que eu nunca te conhecesse em tal estado, em tal nudez; mas, feito o mal, quer-me parecer que nunca mais poderei tragar com appetite os teus guisados, intrujona...»

A porta, abriu-se então e appareceu a esposa. Chorava, cahiam-lhe as lagrimas a punhos; chorava mas digna, resignada, lia-se-lhe no olhar uma resolução fatal. Fallou assim, ajoelhando:—«Danna, meu dono, foi a sua benevolencia para mim, um dia, extrema, tirando-me das aguas, podendo fazer da minha vida o que quizesse, e salvando-m'a. Trouxe-me aqui um dever de gratidão: julguei com a minha presença poder amenisar a sua soledade, servindo-o como escrava. Deu-me o nome de esposa. A minha gratidão será eterna. No entretanto, acabando de ver-me assim na minha forma verdadeira, um bicho, um monstro que mette medo a toda a gente, comprehendo que a missão que tomei chegou ao termo. Estala-me o coração, mas pouco importa!... Danna, meu dono, adeus. Do ceu lhe chovam bençãos...»—E correu para a praia e desappareceu nas ondas.

Pobre marido!... Por um acto inpensado, perdeu para sempre uma companheira carinhosa; e, como das nupcias com a sereia lhe resultava o dom de longa vida, foi longa a sua viuvez, e longo o seu martyrio...