Paisagens da China e do Japão

Wenceslau de Moraes · Capítulo 3 de 20

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Paisagens da China e do Japão

O Anno Novo

impressões tristes nos primeiros

japonezes que a avistaram; e foi preciso arranjar logo uma explicação condigna do phenomeno, e é a que ficou descripta n'estas linhas.

É ainda interessante recordar de passagem a approximação, pela desdita, da alforreca japoneza com a medusa mythologica da Grecia, não merecendo esta melhor tratamento dos deuses olympicos. Curiosa coincidencia!

 

O ANNO NOVO

 

F R .

 

Temos festa hoje, aqui. Acaba o anno velho, começa o anno novo. Mas não vão imaginar que seja do anno novo de que rezam os nossos calendarios, a commemoração; tal commemoração, aqui, no fim do mundo, no seio d'esta colonia nostalgica, passa insipida, quasi sem alvoroços intimos de familia, limitada á troca banal—troca sem cedilha e com cedilha—de algumas duzias de bilhetes de visita, com as competentes boas-festas escriptas, da pragmatica. Trata-se do anno lunar que finda, do anno lunar que principia, o anno chinez emfim, a ampulheta que marca para o povo amarello as suas horas de existencia; vamos entrar no anno XXII do reinado de sua magestade imperial celestial, Kuang-Su.

Temos festa hoje, aqui. A alma chineza manifesta-se, evidencea-se, domina, hoje; offusca, pela grande maioria dos rabichos, o pallido reflexo da civilisação do Occidente que logrou chegar a este Macau, a este exiguo penedo asiatico, onde Portugal implantou a sua bandeira.

Meia noite. Ao meu obscuro albergue, chega, de alem dos bazares, o ruido da bombardada amotinadora dos foguetes, e das mil e mil embarcações fundeadas no porto o clamor ovante das bategas, vibradas pelas mãos rudes das companhas. Que irá lá por esses bazares, a estas horas, santo Deus!... Eu não me arredo do meu canto. Bem sei que a febre das massas suggestiona, contamina todos. Bem sei que não se dorme hoje; que não ha chapéo de côco de amanuense ou kepi de militar, direi mesmo chapelinho de pellucia com laçarotes de setim e seu competente passaro empalhado, de menina, que não vá correr as viellas, perder-se na onda, confundir-se com os rabichos, gosar com elles. Mas está tanto frio, e as bagas de agua zurzem-me tão desapiedadamente os vidros das janellas... E, peor do que isto, é o frio da alma, é a apathia enervante do meu espirito, é o sorriso amargo que me enruga os labios, provocado por esse mesmo jubilo do enxame, que aqui me retêem e me impedem de tambem ir galhofar.

 

Não, decididamente não serei da festa. Imagino-a d'aqui. Imagino essas ruas lamacentas, coalhadas de povo sujo, com as cabaias negras ensopadas dos chuvascos; e imagino os lumes tremeluzentes das lanternas de papel, accendendo nas poças, pelo reflexo... grandes labaredas ephemeras, ziguezagueando. As lojas estão escancaradas ao publico; fructos, flôres, doces, carniças, bonecos, coisas santas, estendem-se pelos caminhos em prodigiosas theorias, em coloridos quasi estonteantes; e é comprar, e comprar já, porque não tarda em romper o glorioso dia de descanço, o unico na China em que o camponez, o artifice, o vendilhão, todos, cruzam os braços, não trabalham; e nem a peso de ouro se encontraria um linguado, uma caixa de phosphoros, qualquer infimo objecto nos mercados. As espeluncas de jogo, em galas desusadas, offerecem-se, tentam a onda; e até pelas ruas o taboleiro de azar se estende ao passeante. Que pechincha, se se apanha para a festa um accrescimo de peculio não esperado! O china adora o jogo—era preciso que elle adorasse alguma coisa!— mas hoje todos jogam, todos são chinas, e é isto um exemplo interessante da influencia suggestiva das grandes maiorias; a mão mais circumspecta de funccionario, a mão mais mimosa de dama (de nhônha, em dialecto vulgar d'esta colonia) avançam sem pejo, arriscam á sorte varia umas pratinhas...

Quando bate meia noite; quando, junto do altar dos penates, se curvaram em piedosas adorações milhares de cabeças agradecidas, e se queimaram papeis mysticos, e se accenderam pivetes odorificos; quando em plena rua um brado de alleluia os echos acordou; dirige-se então a onda humana para o lar, já mercas feitas, já bolsas esvasiadas; e vae surgir um grande dia votado inteiro ao descanço, votado á glorificação dos deuses, cuja magnanima assistencia se exalta pelas graças concedidas e pelas graças que vão esperar-se!....

Mesquinha humanidade! como tu me entristeces, ó pobre humanidade, ó pobre familia minha, ainda mais nos teus regosijos e nas tuas esperanças, do que nos teus choros e nos teus desenganos!... Para este bando chinez com quem me encontro agora, que explosão de bençãos lhe estimula a sentimentalidade? que altos beneficios commemora? O bando abençoa a sua eterna existencia de miseria, a miseria passada, a presente e a que fatalmente vae seguir-se-lhe. Abençoa a labuta sem treguas, em busca do punhado de arroz de cada dia; ora exercida no lar immundo, sem sombra de conforto; ora exercida pelos campos, nas varzeas, nas collinas, no amanho da terra, sob a oppressão constante dos raios do sol que escalda, ou dos frios que paralysam; ora exercida nos barcos, que se cruzam na podridão dos estuarios, ou pairam sobre a onda adormecida durante as calmas torpidas, ou se desfazem no escarceo, quando os tufões rugem em furia. O bando abençôa a fatalidade da sua condição social, o problema espantoso, paradoxal, do seu feitio de ser, que em todas as depravações, em todas as iniquidades imaginaveis, parece ir buscar as leis unicas por que se rege. O bando abençôa ainda as

calamidades tremendas, que n'estes ultimos tempos, como uma maldição divina, teem pairado sobre a immensa patria:—nas provincias do sul, nos seus centros mais populosos, é a peste, a peste negra, roubando em cada lar um ou dois filhos, ou o pae, ou a mãe, ou mesmo todos juntos, e vestindo de lucto, de tristes roupas alvas, os parentes, e ameaçando estabelecer-se definitivamente, enraizar como uma arvore de peçonha, d'onde emanará a cada instante o veneno subtil, destruidor das turbas; e, para cumulo de infortunio e de descredito, um visinho, um povo irmão, o povo japonez, invade, vence e desbarata a China, morde e come pedaços do seu torrão sagrado, envergonha-a, offerece-a ao escarneo do mundo na miserrima condição da sua plebe e na opulenta infamia dos seus nobres, desprestigiada emfim, indefeza á cubiça das gentes, aos homens loiros da Europa, que não tardarão em vir espezinhal-a.—Embora! esqueçam-se hoje as miserias, vista-se o povo em gala, chovam bençãos sobre o anno que começa. E amanhã, decorridas algumas horas de folgança, recomecem, prosigam,—pouco importa!—os turvos dias de amargura, a fatalidade da existencia no antro, a dura labuta no campo e no barco, a faina eterna, a orgia torpe dos maridos, a escravidão das esposas, a venda das filhas a quem mais der, os horrores da

prostituição, as vergastadas nas

creadinhas, as extorções dos

mandarins, as torturas nos carceres, a morte lenta nos

patibulos, a obra de destruição

das epidemias e do opio, as

humilhações perante o vencedor,

as exigencias do Occidente, as

arrogancias dos homens loiros...

Para o anno novo, tudo se prepara com antecedencia, em prodigiosa azafama; é para todos uma occupação incessante e desusada, durante as ultimas semanas do anno que vae findar. Lavam-se os covis, lavam-se as podres mobilias. É o pó d'um anno que se sacode, é a lama d'um anno que se deita fóra, é o piolho e é a pulga d'um anno que se afogam na onda das barrelas; porque, durante os labores de cada dia, nunca a idéa de limpeza preoccupou os espiritos durante um só instante. Tudo é providencial neste mundo, ao que parece. Na chafurda typica d'estas povoações chinezas, tão frequentemente visitadas por todas as pragas— cholera, peste, lepra,—embebidas no lodo dos canaes, no ambiente das emanações dos estrumes pachorrentamente acogulados e dos despejos que apodrecem pelas ruas, custa a crêr como a gentalha pollula, e como os consorcios fructificam em ninhadas de garotos; e parece á gente que um sopro qualquer destruidor, de calamidade immensa, irá em breve prostrar esses enxames, sem que deixe de pé um só vivente nos albergues. Puro engano: as povoações eternizam-se. No parecer de alguns investigadores, que taes exotismos interessam, se os miasmas putridos convidam as epidemias a entrar e a vindimar providencialmente as muitas vidas que superabundam, estes mesmos miasmas, sobrecarregados de vapores de ammoniaco, de exhalações corrosivas de fermentos, se encarregam de ferir tambem mortalmente os virus morbidos, poupando o resto do povo. Chegamos ao facecioso paradoxo de ser na China a immundicie o purificador por excellencia, um como que elixir de longa vida, indispensavel a todas as familias, feito da mais estupenda alchimia de dejectos.

 

Conceda-se pois, por excepção, a este bom povo