Paisagens da China e do Japão
A Primeira Formiga
1899.
A PRIMEIRA FORMIGA
A S G .
Á parte esta dedicatoria especial, é ás formigas e aos sabios—Deus não permitta que ellas, ou que elles, tomem a mal o parallelo—que eu offereço as revelações que vão seguir-se, nas quaes se explica, após longos preambulos, como é que a primeira formiga veiu ao mundo.
Quando na China, pela era do imperador Tai-Sun, as terras andavam divididas pelas mãos de muitos monarchas irrequietos, envolvidos em continuas batalhas e baralhas, deu-se um caso no ceu, digno de particular ensinamento. Acontecia que uma certa deusa do Olympo—Lei-San era o seu nome— nunca em demorados arrebiques, em meticulosas pinturas de cutis, das ia dar o seu (passeio pelas nuvens, imagino) sem se esmerar sobrancelhas e dos labios. Pieguices do sexo, desculpaveis, e até de certo modo meritorias; mas o caso motivou, certo dia, um risinho malicioso da sua serva mais querida, e ainda por cima este commento pouco respeitoso:—«A
deusa tem pelos modos algum defeito no seu rosto, e cuida de escondel-o á força de cosmeticos...»—Vão lá chasquear impunemente dos encantos d'uma dama! e quando ella fôr divina... É certo que tão cheia de cholera ficou a divindade, que vestiu a deliquente d'uma pelle diabo que encontrou a geito, pelle horrivel, cara azul, ruiva a guedelha, dois dentes curvos surdindo da bocca para fóra, e mãos e pés disformes; e assim, n'esse bonito estado, a escorraçou do ceu, aos beliscões, e a enviou ao mundo em expiação. Chamava-se Tchong-Mou-In, a penitente.
Tai-Sun, empenhado em pellejas, e mortificado por innumeras derrotas, teve uma noite um sonho radioso, difficil de explicar. Consultado sobre o caso um lettrado favorito, anão por signal e muito feio, mas um poço de sciencia, elle disse ao soberano, após magnos processos de magia, que o sonho revelava que os deuses lhe haviam destinado certa dama por esposa, forte de genio e habilissima na guerra, a quem mais tarde se deveria a salvação do estado.
O anão dispunha-se a proseguir, depois de curta pausa; mas não quiz mais ouvir o imperador; e eil-o cavalgando o ginete dos cortejos, em pompas de comitiva festival, dirigindo-se para onde vivia a sua bella, conforme as indicações do anãosinho. Atravessa povoados, galga montanhas, desce valles; vôa, não corre, sua magestade; vôa nas azas da esperança, pula-lhe o coração em mil anhelos; e assim foi dar com Tchong-Mou-In.
Imagina-se a scena. Não ha palavras que descrevam o desapontamento do monarcha. Tremulo de indignação, rompeu logo em iras e em blasphemias; pela mente, passaram-lhe de subito processos de torturas a exercer; e d'um gesto esporeou a alimaria, no intuito de regressar ao seu palacio. Ah! mas o soberano não contava que a dama, que a principio o recebera com doces humildades de etiqueta, que a dama, expulsa embora do ceu e do convivio dos seus deuses, ainda d'elles auferia benevolentes protecções. A dama, n'um esgar provocante da sua face azul, arreganhando os dentes e estendendo solemne a mão papuda, conteve d'um aceno suggestivo a furia do cavallo, e vomitou ao cavalheiro, severos vaticinios. Gritou-lhe que havia de casar com ella, se não quizesse alli ficar eternamente quedo; gritou-lhe que havia de recebel-a como imperatriz, e que ao seu braço de mulher, astuto e vigoroso todavia, teria de confiar altas emprezas. Emfim, para encurtar razões, e apressar o fim da historia, direi que o imperador desfez-se em cortezias e desculpas, venceu-lhe o asco e o medo, e tudo prometteu. Não tardou que aquelle monstro feminino
lhe entrasse pela casa, rude e plebeu, endiabrado, dispensando cerimonias, transportando ella propria ás costas o enxoval—dois cabazes, uma thesoira, um espelho, um pente, uma vassoura, uma bacia de lavar o rosto,—utensilios que, desde então até hoje, como que ficaram consagrados, symbolisando do lar domestico o nucleo indispensavel.
Tres mezes, consta, esteve o imperador alheio á convivencia da esposa, prolongando-lhe por esta forma uma castidade fastidiosa, com que ella provavelmente, não contava. Paciencia. Por vezes, na fria intimidade dos salões, procurou desprestigial-a aos olhos dos vassallos. Diz-se que um dia, reunidas a esposa e a concubina favorita, uma aposta se fez, sobre qual das duas, em escripta, mais habil se mostrava; e para isto se combinou contar quantos caracteres eram ellas capazes de escrever no tempo necessario para arder de um pivete perfumado, que alguem foi collocar sobre uma urna proxima. Do lado da favorita, cuja cultura litteraria é primorosa, estão o imperador (o basbaque!) e dois validos; do lado da soberana, apostam tres lettrados, e um d'elles é o anão. Eil-a, a amante, interessada vivamente no certamen, toda olhos, toda attenção, toda adoraveis fernesis dos seus bellos dedinhos côr de leite, que empunham o fino pincel, e correm febrilmente sobre o papel que lhe trouxeram. A soberana, o mostrengo segredam, por piedade, decida-se a escrever...»—A bruta não os escuta. (perdôe-se-me o qualificativo que me occorre), face azul pousada nas manapulas, dedos disformes enfiando pela trunfa ruiva, olho impassivel e matreiro, relanceia, aparvalhada e immovel, a scena, e os espectadores. Sobresaltam-se os lettrados, que adivinham, n'uma eminente surriada, o desprestigio proprio no conceito do monarcha.—«Senhora, Repetem se, multiplicam-se as instancias; até que finalmente, attendendo a
tantas supplicas, diz ella:—«Vão
buscar aos meus aposentos um
pincel.»—Voam escudeiros, volvem breve:—«Não se encontra,
Senhora!»—Ella indica que está
junto d'um armario. Os vassallos
replicam:—«Perdão, não está; o
que está é uma vassoura...»—
Então berra a soberana:—«Pois é
isso mesmo, seus patetas!»—E
tomando da vassoura, e ensopando-a n'uma mixordia de tinta, de que mandou encher a bacia que trouxera no enxoval, isto quando o pivete ia chegando já ao termo, com a vassoura lambusou um enorme papel, d'um gesto apenas; e por milagre,—que só assim se explica tal portento— appareceram nitidos, sublimes, mil e mil caracteres da mais adoravel forma caligraphica.
Na guerra, dirigindo ella mesma, em pessoa, a turba dos guerreiros, foi colhendo victorias e engrandecendo os seus dominios. Nos ardis, um primor.
Uma vez, convidados, imperatriz e imperador, para um banquete de monarchas, com os quaes andavam de guerrea porfiosa, um dos nobres apresentou aos convivas um enorme macaco que possuia, mono astuto nos seus modos de selvagem, e eximio n'um jogo então em moda, semelhante ao gamão dos nossos tempos. —«Senhora, ides jogar tres partidas com este mono; se a ultima ganhardes, são vossas, nossas terras; se a perderdes... percebeis-me?»—Trava-se o jogo em que a imperatriz não era forte, pouco affeita a prendas de salão, e sendo notorio que nos ceus, onde passara a juventude, o jogo é prohibido. Coragem!... Primeira partida: ganha o mono. Segunda partida: ganha o mono. Tchong Mou-In desfalece em intimas angustias, julga-se perdida, quando então se lembra de invocar os deuses. A sua divina ama, que nunca a abandonára, despede do ceu um aviso visivel só para ella:—Toma este fructo; esconde-o na manga da cabaia, de modo que apenas o macaco dê fé d'elle, e joga resoluta.—Terceira partida: o mono dando vista do acepipe, banana ou coisa parecida, estremece de desejos; o trazeiro, onde parece residir a alma dos macacos, pula-lhe em sobresaltos, em anhelos, sobre o assento da cadeira; e com a dentuça arreganhada, o olho em braza, em arco as espessas sobrancelhas, o bestunto por certo desvairado, balbucia gritinhos repetidos—eh, eh! eh, eh!—que irritam os convivas. A mãosita felpuda ainda vae mexendo as pedras, por habito, por dever, mas sem arte, sem intuito; e a razão foge-lhe, abandona-o—tão imperativa é a lambarice n'estes figurões da fauna comica!—E perde a partida decisiva!
Um parenthesis na historia. Dizia-me ha dias um companheiro de desterro, dos raros com quem logro palestrar:—Ora vêja você quantos macacos ha por este mundo, de gravata, e casaca, e rosa na carcella, quando não é uma commenda, astutos no gamão e n'outras prendas varias, quasi attingindo as alturas da audacia e do triumpho; n'um momento fatal, uma banana qualquer, mostrada a geito, desnortea-os, allucina-os, aniquilla-os... E que, por mais que façam, são macacos, embora a cauda se não vêja, de certo occulta nas ceroulas, e ninguem ha que possa purgal-os, expurgal-os, do sangue dos avós...
Continuo.
Uma das mais bellas façanhas que illustram a gloriosa mulher, se mulher é, de quem me occupo, é a seguinte. Travava-se então renhida a lucta pelas armas, entre varios soberanos, já com enfado de vencedores e de vencidos. Tai-Sun ia levando a melhor nas investidas. Eis que os reis desbaratados, unidos em conluio, julgam ir pôr termo a tão irritante situação, e muito em seu proveito, propondo ao imperador um curioso problema.—Não nos façaes a guerra. Aqui tendes uma perola, arrancada d'um annel; notae que tem dois furos esta perola, communicando entre si interiormente por um labyrintho de nove canaesinhos; se conseguis apresental-a enfiada n'uma linha, juramos-vos a paz e a entrega por inteiro de tudo que hoje é nosso.
Irra! Em que apuros se viu o bom soberano em caso tão difficil!... Os conselheiros ficaram-se calados, macambuzios, e nada aconselharam. Foi então impingindo esta questão á esposa, elle, que a não beijava, nem lhe queria, mas que em assumptos escabrosos só n'ella tinha fé. Tchong-Mou-In recolhe-se, implora os deuses. A sua divina ama envia-lhe então do ceu uma formiga, a primeira formiga que veiu a este mundo; e manda a verdade que se diga que essa formiga prehistorica era um nadinha differente das formigas contemporaneas, menos esbelta nas formas, mais bojuda. Tchong-Mou-In comprehende o precioso auxilio: ata uma linha a meio corpo do bichinho, leva-o assim junto da perola, junto d'um dos seus furos, por onde se vê forçado a enfiar, não tardando que surda pelo outro, arrastando a competente linha atraz de si. É a gloria!...
E não reparam hoje na delicadeza da formiga, leve a cintura, como a cintura d'uma dama espartilhada? D'antes não era assim. Consigna-se o facto como indicando ainda ás gerações presentes uma maravilhosa herança atavica, a impressão do nó com que a linha se prendia e apertava a primeira formiga, a formiga lendaria, a mãe de todas as formigas que hoje passeiam sobre a terra.
Nada mais sobre o insecto.
Poucas palavras apenas pelo que
respeita á soberana. Lei-San, a
sua divina protectora, perdoou-lhe
finalmente o passado sorriso de
motejo, que valia uma injuria;
despiu-a da pelle monstruosa que
lhe dera, por expiação do seu
peccado, restituiu-lhe a peregrina
belleza que lhe era propria... O
imperador, antes que a consorte
volvesse aos seus labores divinos,
poude vêl-a, e por longos annos,
no completo esplendor dos seus
enlevos. O imperador, que já lhe
tributava incondicional veneração,
graças aos seus prodigios, que
tanta ventura lhe trouxeram, e
prosperidade ao imperio, poude