Paisagens da China e do Japão
O Pescador Urashima
Kobe, março de 1902.
O PESCADOR URASHIMA
J C
Viveu em remotos tempos, n'um logarejo da costa do Japão, Urashima, um moço pescador. D'este simples, pouco ia tagarelando a visinhança:—que tinha um coração propenso ao bem, e que em destreza ninguem o igualava, tratando-se de artes de linhas e de anzoes;—nada mais, mas já não era pequeno o elogio.
Ora, um bello dia, saiu elle a pescar, sósinho no seu barco. E que pescou Urashima d'essa feita? Oh! a sorte sorria-lhe em tal hora... pescou uma enorme tartaruga, com a casca espessa e dura, a cabecita rugosa, denunciando assim a grande vetustez; é notorio que as tartarugas vivem muito; vivem mil annos, no Japão.
Era um opiparo jantar que o acaso offerecia ao pobre pescador, pouco mimoso de acepipes; jantar, ceia e almoço, e mais ainda, fóra os lucros que a casca lhe trouxesse; mas o moço poz-se a scismar
na crueldade que ia commetter, roubando assim talvez longos seculos de vida áquelle bruto, fadado pela sorte ao goso da existencia, durante gerações e gerações da tribu humana; e lembrou-se da mãe, da santa velha que tantas vezes lhe ensinava a ser caritativo com os brutos indefezos... É certo que as mãos abandonaram a presa,
n'um largo gesto de bondade; e a tartaruga, volvendo á agua sem se fazer rogada, lepida mergulhou no azul e se safou das
vistas.
Fazia então tanto calor!... Era um d'esses dias abrazadores de agosto, embebidos de paz, de luz, de torpidos affluvios. Além, a aldeia quedava-se na sésta, amodorrava, jazia em aniquilamento absoluto; apenas, sobre as arvores, cantavam as cigarras, doidas de cio, estonteadas... Interrompera-se nos campos a faina da lavoira; nas choças escancaradas, patenteavam-se os corpos nús, estendidos em repoiso, adormecidos, banhados em suor. E Urashima, no seu barco, vencido tambem pelos ardores d'aquella hora, largou das mãos os remos e as linhas, encostou-se á bancada e adormeceu.
No entretanto, eis que surge das aguas um vulto feminino, encantador. O episodio, que a tradição do povo foi retendo até aos nossos dias, póde agora reconstituir-se em pensamento. Sobre o convez do esquife, poisa esse vulto, essa fada adoravel de feitiços, envolta em roupas carmezins, solto o cabello ás brisas e corôada a fronte com o diadema de oiro, que é apanagio das princezas; estende o braço de neve para o adormecido, toca-lhe na fronte com as pontas dos dedos delicados, e diz-lhe de manso estas palavras: —«Acorda, Urashima, escuta-me; eu vou contar-te quem eu sou; sou a filha do deus do oceano immenso, habito com meu pae o palacio do dragão, no seio das ondas; a tartaruga, que ainda ha pouco colheste e restituiste á liberdade, era eu propria; meu pae impoz-me um tal disfarce, para que assim podesse estudar-te bem os sentimentos; por sua ordem e meu aprazimento pessoal, serei a tua esposa, se me queres; mil annos viveremos sempre juntos, sempre jovens, sempre felizes, no palacio do dragão, sob o azul das aguas...»
Lá seguem os dois pelo mar fóra. Urashima empunha a esparrela da pôpa, maneja-a com denodo, dá-lhe—podera não!—forças herculeas a ancia de chegar; a princeza poisa no outro remo as mãos franzinas, e vae sorrindo ao companheiro. E vão remando, e vão remando, sem que a fadiga os aquebrante, até que finalmente o barco alcança o porto desejado, e já de longe o palacio se desenha, em arcarias, em grimpas, em mirantes recortados.
Que encanto! que prodigio! nem mesmo a phantasia ousára imaginar tantos primores!... As paredes do palacio são de renda de coral; as arvores do jardim têem por folhas, esmeraldas, e fructificam em perolas e rubis; as escamas dos peixes são de prata, os olhos de diamantes, as caudas dos dragões, de oiro lavrado...
Então, toda a bicharia do oceano acode á praia, vestindo kimonos de cerimonia, e vem saudar os noivos viajantes. Após os cumprimentos e os discursos laudatorios que prescreve a etiqueta em casos taes, a princeza, seguida do cortejo, entra em palacio; gorazes e toninhas seguram-lhe a cauda do vestido; poisa nas fofas esteiras, de uma meticulosa limpeza indescriptivel, as plantas alvas dos seus pésinhos deliciosos; descança n'um salão que mais lhe apraz, pela delicia dos adornos e pela paizagem que se avista, e a seu lado offerece um logar ao companheiro. As tartarugas, os peixes, as lagostas, os dragões, a turba em fim dos escravos jubilosos, corre a prostrar-se em frente da princeza; e de joelhos, barbatanas erguidas em offertorio, começa servindo em taças preciosas o branco arroz cosido, os licôres, os fructos, os manjares.
Urashima extasia-se diante do que é seu, bem seu, pois que é de sua esposa. Durante tres annos assim vivem, sempre juntos, sempre felizes, sem enfados, sem nuvens de tristeza no céo dos seus amores; ora na paz da esteira, no enlevo das mãos que se entrelaçam, dos olhos humidos que se fitam, das palavras em segredo que se trocam, das almas enamoradas que se dão; ora perscrutando os mysterios do oceano, em excursões pachorrentas pelas florestas das algas viajantes, por onde a vida aquatica, de plantas, de animaes, se multiplica em maravilhas que a ninguem é dado conhecer; ora em longos passeios pelos jardins, onde as arvores não cessam de vestir-se de ramos de esmeraldas, vergando ao pendor das perolas e rubis.
Tres annos decorridos. Um dia porém Urashima acerca-se da esposa e diz-lhe pouco mais ou menos o seguinte:—que a adora e se sente ditoso, mas cresce-lhe o desejo de ir vêr a sua aldeia, o velho pae, a doce mãe, os irmãos, os antigos companheiros de trabalho; e promette voltar após curta visita.—Então, pela primeira vez sem duvida, uma ligeira nuvem de tristeza, um vago presentimento angustioso, turvaram o olhar sereno da princeza. —«Vae, diz-lhe; vae, Urashima, porque assim o desejas, embora bem me pese, pois imagino que vaes expôr-te a grandes riscos; leva comtigo este pequeno cofre, que alguma coisa contém que te pertence; sirva-te elle de lembrança de quem muito te quer; mas nunca o abrirás, pois se o fizesses, estarias perdido, e nunca mais voltarias a esta mansão do nosso amor...»
E partiu, e abordou o solo patrio...
O que quer que era de bem estranho se passára durante a ausencia de Urashima. Aonde estava a sua aldeia? aonde se erguia a cabana
de seus paes? A
mesma praia loira, os
mesmos penedos
carcomidos, os
mesmos cerros
sobrepondo-se, alli lhe
appareciam, bem taes
como os deixára, na
fria impassibilidade das coisas
immutaveis; mas os povoados
offereciam outro aspecto, os
campos outro amanho; mas as arvores, que lhe haviam dado abrigo e sombra, e de que tão bem se recordava, erguiam apenas troncos seccos, algumas, porque outras já nem mesmo existiam, e outras arvores medravam n'outros sitios, projectando outras sombras, fructificando em outros fructos. Aonde fôra a sua aldeia, surgia agora um pinheiral. Reconheceu o mesmo arroio, que serpeava junto ao lar; e ainda agora a agua crystalina ia correndo, e sussurrante, como dantes; mas agora deserto, faltando o grupo galhofeiro das musumés que tinham por costume ir alli lavar a roupa, entre ellas as suas tres irmans, kimonos arregaçados, pernas núas, braços nús, lidando, palestrando e rindo umas com as outras.
Ao longo do areal iam então seguindo dois sujeitos. Urashima alcança-os e interpella-os:—«Bons dias; fazem favor de me dizer onde é agora a casa da familia de Urashima?»—Pensaram, consultaram-se, coçaram a cabeça, buscando recordar-se. —«Urashima, Urashima... Urashima, o pescador? tem graça tal pergunta: ha já quatrocentos annos pelo menos, como contam, se afogou elle quando pescava no seu barco, pois nunca mais appareceu; o seu pae, a sua mãe, os seus irmãos, os filhos dos seus irmãos, dormem todos além no cemiterio, ha muito tempo; a cabana que procura, apodreceu antes de nossos avós serem nascidos, nem o pó d'ella sequer existe por aqui...»
Então, como um relampago que acode subitamente pela noite, a illuminar a estrada, uma idéa acudiu de subito ao pensamento de Urashima, a allumiar-lhe o espirito. Elle alli estava, volvido á patria, poisando os pés descalços no areal da sua querida aldeia, relanceando as curvas da paizagem em que por tantos annos a vista se poisara, e a recordação lhe gravára para sempre na memoria. O palacio do deus do mar, no abysmo das ondas, com as suas paredes de renda de coral, com os seus pomares de folhas de esmeraldas e fructos de perolas e rubis, e os seus peixes de escamas prateadas e olhos de brilhantes, e os seus dragões de caudas de oiro fino, não pertencia á terra, era do mundo dos prodigios, regia-se pelas leis do encantamento; um dia, dos seus dias, valia por muitos annos, dos nossos annos; e assim, sem que Urashima o suppozesse, seculos sobre seculos haviam passado sobre a terra, matando, destruindo, transformando, arrastando as coisas e os individuos á fatalidade dos destinos, ao aniquilamento, ao pó, ao nada, surgindo das ruinas outros aspectos e outros seres...
O antigo pescador sentiu o calafrio da sua soledade; e o disparate anachronico da situação em que se via, incutiu-lhe no animo não sei que horrivel oppressão de angustia e de pavor. Patria? sim, a mesma areia inerte e os mesmos monstros de granito; mais nada. Aldeia, amigos, aspectos familiares da sua mocidade, nada havia; outras aldeias, outros aspectos, outra gente, e para esta o nome de Urashima entrava já na lenda. Em nada o captivava aquella terra. O anceio de fugir, de volver ao esplendor do seu palacio, acudiu-lhe então, dominador; e a imagem das mil graças da princeza multiplicava-lhe o desejo de abandonar para sempre o solo onde nascera. Lançou um olhar de adeus ao cemiterio, esse no mesmo poiso ainda, mas mais vasto e mais povoado de freguezes; e ia partir, deixar em paz a aldeia morta...
Antes porém lembrou-se de abrir o cofre que recebera da princeza. Porque? Talvez leviandade, talvez mofino séstro, que tantas vezes guia o homem a seguir pelo caminho prohibido... Do cofre aberto, que continha nada menos do que a essencia dos longos annos corridos, e ao mesmo tempo descontados na existencia de Urashima, escapou-se e pairou no espaço uma ligeira nuvem esbranquiçada. Chamado á razão, ao sentimento da desobediencia em que incorrera, e ao medo de um desastre, Urashima correu sobre essa nuvem, desvairado, e bradou-lhe que parasse. Era tarde. De prompto, as proprias forças lhe faltaram, e a voz se lhe extinguiu; a nuvem envolvia-o; a nuvem transportava-o ao seu justo logar nas paginas do tempo, fazia-o galgar de um pulo a grande barreira que o afastava dos seus contemporaneos; as leis da terra tinham pressa em corrigir erro tamanho... Repentinamente, os cabellos, a barba, branquejaram como linho, sulcou-se o rosto em rugas, estalou a pelle do corpo, os ossos romperam para fóra, as costas dobraram-se n'um arco, viu-se como um macrobio não sei quantas vezes secular, como um esqueleto em férias, fugido do sepulcro, faltou-lhe o ar, faltou-lhe a luz, morreu, caiu, desfez-se em pó, desfez-se em nada...