Paisagens da China e do Japão

Wenceslau de Moraes · Capítulo 8 de 20

Páginas do PDF

Paisagens da China e do Japão

Os Diabos e os Velhos

então tambem amal-a, amal-a

apaixonadamente, embevecido em tanta graça, em tanta formosura. Imagine quem quizer como áquelles amorosos as horas iriam correndo encantadoras, na serenidade mysteriosa do palacio, cingido por muralhas de marmore, e rodeado de jardins, e no afan de festejarem aquella lua de mel, tardia embora, que lhes apparecia no horisonte!...

1899.

 

OS DIABOS E OS VELHOS

 

A N Q

 

Falla a lenda japoneza.

Era uma vez um velho, que tinha um enorme lobinho sobre a cara, na face por signal. Certo dia, achava-se elle na montanha, a cortar lenha—era esta a sua humilde profissão,—quando o surprehendeu uma terrivel tempestade, chuva a potes, ventania desabalada, o raio faiscando nas alturas; tão terrivel, que se viu obrigado a ficar por aquelles sitios e a buscar um abrigo para a noite. Abrigo, na floresta, era difficil problema; um grande tronco de arvore, escavado pelos seculos, offereceu-lhe a unica guarida.

No seu posto, agachado e sem poder dormir, foi o velho passando tristes horas. Alta noite, principiou

a dar razão d'um estranho vozear,

longe a principio, mas pouco a pouco avisinhando-se-lhe—«Olá,

resmungou, tanta gente por aqui,

e eu que contava achar-me

só?...»—E pôz-se a espreitar,

curiosamente, sem sombra de

receio.

O que o velho então viu, muito a

custo, á luz fugidia dos relampagos, mal póde imaginar-

se. Uma numerosa sociedade

approximava-se; mas nunca ao

velho apparecera tão estranha

sociedade como aquella. Era um

bando immenso de patuscos, de

diabos incontestavelmente, medonhos nos aspectos: uns,

encarnados, vestidos de kimonos verdes; outros, negros, vestidos

de kimonos encarnados; a um faltava um olho; a outros o nariz;

alguns não tinham bocca. Pozeram-se a accender uma fogueira enorme, com palha, com folhas, com cavacos que encontraram; e as chammas sinistramente os patentearam. Acocorados em torno da fogueira, em duas filas, bebendo saké em amigavel reinação, pareciam mesmo gente, os taes demonios. A vasilha ia passando á roda, de garra em garra, entre os convivas; e tantas voltas deu, e renovada tantas vezes foi, que jâ não tinham conto as bebedeiras. Um dos mais jovens assistentes ergueu-se como poude, e começou uma cantiga, dançando ao mesmo tempo; os outros imitaram-n'o. Era então extremamente emocionante a vista da paizagem: a fogueira, ateada pelas rajadas successivas, alastrava-se e subia, furiosa, até ás nuvens, em turbilhões de fumo e labaredas, e ia alumiando

diabolicamente a scena inteira—ramarias de bambus e de pinheiros, profundezas de bosques, penedos gottejantes, torrentes espumosas, e ainda a turba immensa dos diabos esbravejando em mimicas atrozes—Uns rodopiaram em vertiginosas piruetas; outros iam gravemente alçando a perna e ensaiando minuetes; outros, immoveis, ou antes querendo assim quedar-se, ondulavam em bordos grotescos de borrachos; e de colina em colina os echos repetiam os torvos descantes em falsete, de mistura com as lamentações das arvores açoitadas pelo vento, e a salva de artilharia dos trovões. Berrava uma vóz esganiçada: «Que grande reinação! mas bem quizera vêr mais alguma novidade!...»—

 

Mettido no seu esconderijo, o rachador de lenha passou por todos os tormentos que o espanto, o susto e o desamparo juntos produzem no animo d'um velho. Por fim, passadas horas, ia já folgando na festa—ou não fosse elle japonez!—e tal poder teve sobre elle a bambochata, que lhe venceu escrupulos e temores, e o levou a esta resolução formal.—«Matem-me embora estes diabos, se quizerem, mas pretendo tambem ir pandigar!»—Surdindo então da tóca, barrete enfiado até ás orelhas, machadinha suspensa da cintura, ei-lo a reunir-se á malta, a dar as boas-noites e a ensaiar passos de dança. Foi agora a vez de se espantarem os demonios; mas tão comico era o velho, no seu pobre corpinho corcovado, avançando em meneios, e recuando após, e virando-se para a direita em cortezias, e voltando-se para a esquerda em reverencias, e traçando no ar, com o pé descalço, estupendas parabolas coreographicas, que desataram todos em risóta, gritando:—«Viva o velho! muito bem! que bem dança o velho!»—E proseguiram depois, n'este proposito:—«Queremos que tomes sempre parte em nossas festas, por seres mui reinadio; mas, como póde acontecer que não pretendas voltar mais, vaes deixar-nos um penhor de que acederás a este convite.»—

 

Consultaram-se entre si, e decidiram da consulta, extrahir-lhe o lobinho; muita gente do povo, é notorio, considera este achaque como um valioso talisman para ser-se afortunado. Eil-os pois, olhos attentos, braços nús, dedos palpando, lancetas e tenazes em acção; e o velho estendido sobre o solo, um segura-lhe uma perna, um outro a outra, outro prende-lhe os braços, outro delicadamente ampara-lhe a cabeça; e sairam-se do caso com limpeza, não causando a menor dôr ao paciente. Depois, fôram guardar o lobinho n'um estojo.

Quando, sereno já o tempo, rompeu a madrugada, uma bella madrugada côr de rosa, e os pardaes começaram a papear nas ramarias, desappareceu então a malta dos demonios. O velho desceu á sua aldeia. Entrou em casa muito contente, ainda um tanto estonteado da bebida, sem o lobinho é claro, com a sua face muito lisa, sem o minimo defeito. O caso maravilhou com razão a companheira, e a gente conhecida. Ia-se servindo o chá pela familia e pelos curiosos que accorriam, sobre a esteira, junto do brazeiro; e era uma chuva de exclamações e de perguntas, que obrigaram o velho a explicar, nos seus detalhes surprehendentes, as peripecias da estranha noite que passára na montanha.

 

Ora, havia entre os visinhos presentes um outro velho, que tinha um enorme lobinho sobre a cara, na face esquerda por signal. Muito calado, assim com ares de não prestar ouvidos á palestra, ia em mente, o finorio, retendo todas as minucias. Não partilhando das crendices da gentalha, pelo contrario, desejoso de vêr-se livre do tortulho, ia já estudando a maneira de entregar-se nas mãos de tão sabios curandeiros. Eil-o pois, por uma noite escura, caminho da montanha; seguidamente, eil-o abrigado sob o mesmo tronco de arvore, á espreita dos diabos. Não faltaram. Começou a bambochata,—risota, dança, vinho.—Juntou-se então aos demonios, a medo, um outro figurão.—«Olá, cá está de novo o velho! voltou, e vem dançar!»—Dançou, effectivamente, e sem ser muito rogado; mas era um desastrado; e tão mal desempenhou o seu papel, tão falto de geito e de pilheria, que os demonios, tomando-o sempre pelo conviva primitivo, zangaram-se e disseram-lhe:—«Enganaste-nos, brejeiro! és um grande desgeitoso; devolvemos-te o penhor que nos deixaste e aconselhamos-te a que não pises mais este logar.»—Um da chusma foi buscar o lobinho, e zaz! pespegou com elle na face direita do sujeito. Saira de casa com um, e voltou com dois, um lobinho em cada face. Pode imaginar-se o desapontamento do sujeito e a hilaridade dos visinhos. Parece que, na aldeia, durante semanas e semanas, paralysou todo o trabalho; os velhos, as velhas, as raparigas, os garotos, não faziam senão rir, rir a bandeiras despregadas,—e o caso não era para menos!—