Paisagens da China e do Japão
Issumboshi[2]
esperanças e desejos, que o individuo rasteja como um pária moral, alheio a tudo.
Tal pária, n'um ponto, n'um só ponto, é grande como um Deus: vê o mundo do alto, parecem-lhe os homens formigueiros, segue com a vista as formigas nas batalhas, nas labutas, nos cuidados e nos prazeres; em tal estado de desinteresse e independencia, custa pouco então apontar com o dedo para a tribu que mais bem dotada parece na partilha das graças, dizer—é esta, o Dai-Nippon.
Deixe-me pois guardar, para guardar alguma coisa, as illusões d'este paiz... e a sua estima, e esta não é uma illusão.
1901
ISSUMBOSHI[2]
(CONTO JAPONEZ)
A. A. F 'A .
Ha mui remotas eras, dois velhos esposos residiam na provincia de Settsu, em Naniwa, como então se chamava a cidade de Osaka. Eram os dois sósinhos; nunca tiveram filhos, posto que ardentemente os desejassem. Ora, a prole é a grande preoccupação da familia japoneza; considera-se mesmo incompleta e quasi ignominiosa a existencia d'aquelle que a não teve, e assim se vê privado de legar o seu nome, e os encargos do culto devido aos ascendentes, ao natural herdeiro de taes honras, restando-lhe apenas o triste expediente da adopção de um filho estranho, que, com a herança do appellido de familia, assuma os encargos da supposta primogenitude.
—Um filho... um filho ao menos, fôsse elle embora um aleijado, um monstro, uma migalha de gente, com o tamanho de um dedo por
estatura... mas um filho!...—tal o
thema constante, durante longos
annos, das mais gratas esperanças
do casal a que me referi. Quando,
pelas rugas nos rostos e pela
alvura dos cabellos, os bons velhos
concluiram que não mais lhes era
dado confiar na iniciativa propria,
elevaram então o pensamento aos
deuses, como dispensadores que
são de todos os milagres; encaminhando de preferencia a sua
devoção para o glorioso Myojin,
que é a divindade venerada no
celebre templo de Sumyoshi, a
curta distancia de Naniwa. Quasi todas as manhãs elles se dirigiam em piedosa romaria, juntos, cada qual arrimado ao seu bordão, pois já as pernas lhes vergavam ao peso dos invernos; e era então um espectaculo deveras commovente, e supinamente grotesco ao mesmo tempo, que fazia correr lagrimas e estalejar risadas á gente que passava, o d'aquelles dois decrepitos, cheios de uncção e abrazados em fé, erguendo ao céo as pobres mãos escarnadas, e implorando o deus para que lhes desse um filho, fôsse elle como fôsse, fôsse elle uma migalha de gente, do tamanho de um dedo por estatura!...
Ora, succedeu que tendo assim decorrido varios annos, o deus de Sumyoshi se apiedou por fim de tantas supplicas dos velhos, e lhes appareceu um dia para lhes proferir estas palavras:—«Faço-vos a vontade, bons caturras, haveis de ter um filho.»—Os dois pularam de contentes, como se póde imaginar; galhofando, batendo palmadas amigaveis nas costas um do outro, voltaram para o albergue. Não tardou muito que a velha sentisse com alvoroço os primeiros remoques que prenunciam gravidez; e finalizados nove mezes dava á luz uma creança, um menino...
Caspité!... Mas reparem agora no ponto mais surprehendente da aventura: o menino, lindo como os amores, tinha a estatura de um boneco, como esses de porcellana que se usa collocar nos jardins liliputianos, contidos n'um vaso ou n'uma caixa, muito do agrado da gente japoneza. O espanto dos paes foi grande, e a decepção tambem; mas em verdade não havia motivo de queixa contra o deus, que concedêra o que se lhe rogára,—um filho, com o tamanho de um dedo por estatura.—Era assim.
Issumboshi foi o nome que deram ao menino, isto é, traduzindo litteralmente em portuguez: o Cavalheiro Pollegada. As chronicas não rezam se foi amamentado a biberon, ou se o mirrado seio maternal entumeceu de subito e se offereceu solicito aos labios do garoto. O que é facto é que Issumboshi foi medrando em graças e em esperteza; não porém em tamanho; e quando tinha os seus dez annos era tal como viera a este mundo. Esta gentil disformidade trouxe o enfado ao lar e até um certo azedume mal contido contra as suppostas bondades do deus de Sumyoshi. O escarneo era espontaneo nas boccas dos visinhos; os gaiatos do sitio apraziam-se em zombarias d'esta ordem:—«Lá está o anão comendo arroz! lá vae a ervilha passear!»—Emfim, para encurtar razões, direi apenas que chegou um momento em que Issumboshi se tornou insupportavel a seus paes, vergonha viva do casal, sem prestimo presente, e sem que se lhe suppozesse utilidade possivel no futuro.
Certo dia decidiram os velhos, embora lhes pezasse, pôl-o fóra de casa, abandonal-o ao acaso da fortuna. Foi chamado o menino á presença do pae, que lhe expôz os motivos da sua resolução, e lhe apontou de um gesto o caminho da rua.—«Sim, papá, partirei sem demora, retorquiu, resignado e submisso; mas faça-me favor de dar-me antes uma agulha d'aquellas de que a maman se serve para coser os seus kimonos.»—Perguntou o pae para que? e foi-lhe respondido que era para usar d'ella como um sabre, muito proporcionado ao seu tamanho. Depois pediu á mãe uma tigela de madeira, d'aquellas que se empregam em servir o caldo ás refeições, e mais um d'esses pausinhos que se chammam hashi, com o comprimento de um palmo, substituindo na mesa japoneza o garfo e a colher. Perguntou a mãe para que? e foi-lhe respondido que, para a longa viagem que ia emprehender, a tigela seria o barco, o hashi seria o remo, tudo proporcionado ao seu tamanho.
Em posse dos utensilios que alcançára da munificencia de seus paes, Issumboshi fez-lhe uma rasgada reverencia e desappareceu de casa.
Eil-o só, o pobre abandonado, entregue ao seu arbitrio, dispondo como haveres de uma tigela, de um palito e de uma agulha, collocando esta á cinta, á laia de catana, com uma palhinha por bainha!... Que fazer? Para onde ir?... Corria cerca o Iodogawa, o extenso rio lodoso e calmo que tem suas origens no famoso lago Biwa, desce a Kyoto, atravessa Naniwa, e vae perder-se no oceano. Que fazer? Para onde ir?—«Ir a Kyoto, pensou comsigo o anãosinho, á capital do Imperio (então não era Tokyo a capital), á residencia do Soberano, aonde muitas coisas curiosas deve haver, dignas de vêr-se...»—E abalou.
Seria impossivel relatar as peripecias da viagem, os mil perigos affrontados por tão exiguo barco, que uma simples casca de laranja, boiando á tona de agua, já punha
em risco de naufragio. Issumboshi
ia perguntando aos pescadores o
caminho para Kyoto; se refrescava
o vento, abrigava-se junto da
estacaria das pontesinhas que
galgavam de uma margem do rio
para a outra margem; pelas noites
escuras, ou quando a fadiga o
affligia, encalhava o seu barco junto á terra, por entre a maranha
dos limos e das plantas aquaticas;
e foi assim, com mais de trinta dias de derrota, que abordou uma manhã á famosa capital do paiz do Sol Nascente.
Eil-o em terra, bamboleando-se, folgando com o chão firme, com as palestras da turba, com o cheiro das tabernas, como effectivamente succede aos marinheiros após longos dias de cruzeiro, enfadados de balanço, de isolamento, de carne salgada e de bolacha. Issumboshi, pouco maior que um escaravelho, passava
despercebido por entre os muitos
passeantes; assim poude furtar-se a
commentarios zombeteiros e percorrer
tranquillamente as ruas da cidade,
embasbacando-se em face dos aspectos
grandiosos que aos seus olhitos
sagazes se iam offerecendo. Por fim, eil-
o acercando-se da mais sumptuosa
residencia em que os mesmos olhitos
jamais tinham poisado; era alli que vivia
um grande personagem, o principe Sanjo-no-Saishó, primeiro ministro na côrte do soberano. Entra Issumboshi resolutamente no amplo pateo da entrada, e informa os serviçaes de que pretende fallar ao senhor de tal dominio. Deu-se então o comico incidente de estar sua alteza muito cerca e de acudir, á porta, attrahido pela maviosa voz do visitante; como ninguem visse porém, ia de novo recolher-se, resmungando que teria jurado achar-se alli um estranho em conversas com a gente de serviço; mas um derradeiro olhar pesquisador revelou-lhe, quasi occulto por detraz dos seus tamancos, que estavam junto á entrada conforme o uso do paiz, o curioso figurão que conhecemos.—«Oh! exclamou, eras tu, minusculo vivente que ainda ha pouco proferias o meu nome?»—O rapaz, polidamente, assegurou que sim, que era elle proprio.—«E que me queres então?»—Issumboshi expôz a sua procedencia, os seus titulos e as tristes condições em que se via; e concluiu rogando que lhe desse agasalho, e o admittisse ao seu serviço.—«Pois sim, fica comnosco, respondeu sua alteza, após ligeira reflexão; tu és sem duvida, continuou, o homem mais pequeno que tem apparecido n'este mundo, e a tua historia uma das mais commovedoras que conheço; não quero perder o léo de possuir tamanha galanteria, praticando ao mesmo tempo um acto meritorio, protegendo-te.»
Embora tam infimo em grandeza, o Cavalheiro Pollegada soube mostrar-se utilisavel em tudo em que o occuparam. Dentro em pouco, tornou-se querido da familia, o brinquedo, o passatempo predilecto para matar enfados, dos quaes ninguem se livra, e menos
ainda os ricos, sempre ociosos em
seus palacios de regalo. Ko-Haru,
a filha do fidalgo, a mais gentil
donzella de Kyoto (que é a terra
das mulheres mais gentis de todo
o Imperio), especialmente lhe
votou as suas sympathias, impondo-lhe o dever—dulcissimo
dever!—de acompanhal-a por toda
a parte onde ella fôsse, qual rato
sabio que seguisse a dona em
seus passeios...
Entre os dois, a formosa musumé e a migalha de gente, passaram-
se então graciosas scenas, as
mais tocantes que póde imaginar-
se, se imaginaveis são... Era um
enlevo vêl-o, sempre vestidinho de
guerreiro, a primor, com roupas de setim que ella pelos proprios dedos habilidosos lhe bordava, e lhe cosia, privando de carinhos as suas bonecas favoritas; e Issumboshi, muito compenetrado do seu papel de pagem, nunca largando o sabre da cintura, arrogava-se uns taes ares marciaes, tão petulantes, que a gente morria de rir, ao avistal-o!... Se chovia, ou se a excursão se prolongava, Ka-Haru tomava nas mãos alvas de neve o seu pequeno companheiro, aconchegando-o ao collo, ou aquecendo-o ao seio. Issumboshi, é bem de crêr, possuia, como todo o ser humano possue, um coração, embora reduzido ás proporções de uma cabeça de alfinete, mas pulsando de gratidão e de ternura. Aquella convivencia escravisou-lhe a alma. Uma dedicação immensa, uns zelos infinitos, um desejo constante de agradar á sua nobre ama, taes fôram os sentimentos dominantes no animo do pygmeu. A sua disformidade permittia-lhe delicadezas, que aos outros mortaes eram vedadas... (oh, mysterio psychologico de todos os namorados d'este mundo! quantos de vós, que lêdes estas linhas, invejareis a sorte de Issumboshi!...) Quando, pelas noites calidas de agosto, Ko-Haru se aprazia em estender-se sobre a relva dos jardins, Issumboshi, vencido tambem pela fadiga, poisava e adormecia sobre um dos pés nus de sua ama, como em leito de marmore de alvuras resplendentes. Uma vez, caiu dos labios frescos da donzella uma petala de magnolia, em que por distracção os dentinhos se entretinham mordicando: Issumboshi comeu-a; e durante um dia inteiro não se serviu de outro alimento,
assegurando com verdade que aquelle lhe bastava...
Aconteceu um dia dirigir-se Ko-Haru ao templo de Kiyomizu-no-Kwannon (Kwannon é a deusa buddhista da piedade), a fim de praticar as suas devoções; como sempre, o anão acompanhava-a. Ora, de volta, quando ambos desciam o ultimo degrau da ampla escadaria que dá accesso ao templo, dois demonios surdiram de improviso das proximas balseiras, horriveis de figura, herculeos, colossaes, cuidando sem detenças de raptar a linda peregrina. Ko-Haru desfaz-se em pranto e quasi desfallece. Issumboshi retira a espada da bainha (a agulha que a mãe lhe dera n'outros tempos), perfila-se em frente dos demonios e brada-lhes assim:—«Vis temerarios, que commetteis a magna offensa de perturbar em seus passeios piedosos a princeza Sanjó! sabei que se um de vós, com um só dedo lhe tocar, commigo se ha de haver! e, tão certo como ser eu Issumboshi, assim este meu sabre lhe rasgará a entranha!...»—Consta que os diabretes se pozeram a rir, arreganhando os dentes; e um dos dois, mais fallador, dignou-se responder com uma vóz de trovão que fez afugentar das arvores os pardaes, em cinco leguas ao redor:—«Acalma a tua furia, infimo insecto; não percebes acaso que a lucta contra nós é-te defeza? para encurtar razões e não seres importuno, vaes vêr o que te faço...»—Levantou-o do solo, mui delicadamente, com as pontas dos dedos, e enguliu-o...
Pareceu a Ko-Haru fugir-lhe a
ultima esperança de salvar-se.
Illudia-se. Em plenas trevas,
escorregando pela guela babujenta do monstro, e penetrando na enorme rotunda da barriga, o anãosinho empunhou o
sabre a duas mãos e foi
espicaçando ao acaso, para a
frente, para a direita, para a
esquerda, o ventre, a fressura, os
intestinos; o diabo sentiu-se de
repente incommodado, soffreu
ancias atrozes, vomitou o jantar e
Issumboshi de novo appareceu á luz do dia. O outro monstro tentou em seguida igual ardil, devorando o pygmeu; d'esta vez Issumboshi subiu-lhe para o nariz, em cujas fossas sanguineas e felpudas recomeçou esgrimindo, a ponto de produzir tal comichão, que o diabo espirrou, salvando-se o inimigo pelos ares. Foi então que os demonios se encheram de pavor, convencidos de que tinham em frente de si um ente extraordinario, posto que de tão desprezivel apparencia; e deitaram a fugir...
Muito bem. Agora o heroe cuida de acalmar a desolada dama, convence-a da ausencia do perigo e faz-lhe vêr que são horas de seguir para palacio, onde de certo o pae a espera com anciedade. Ko-Haru vae partir; antes porém testemunha ao pagem a sua muita gratidão, promettendo contar á familia o succedido, para que chovam justas recompensas sobre o seu donodado salvador.
Partiram com effeito. Eis que, a curta distancia, Ko-Haru encontra no caminho um utensilio alli abandonado, o pequenino martello milagroso de que os demonios e os deuses se utilisam, certamente esquecido pelos monstros na ancia de safarem-se. Tomou-o pressurosa. Perguntou o companheiro o que era aquillo; e, como ella lhe exposesse que bastava brandil-o para a gente realisar os seus desejos, e que elle proprio, se algum desejo tinha, lh'o dissesse, que logo lhe seria satisfeito, Issumboshi berrou, no auge da commoção e da esperança:—«Altura! Altura! Altura»—Ko-Haru não percebeu o que elle queria. Elle então, mais prolixo, explicou que queria a altura de si proprio, crescer em tamanho, tornar-se um homem como todos os homens d'este mundo. O milagre, a um gesto da musumé, realisou-se. Issumboshi attingiu n'um momento as
regulares proporções de um guapo
mocetão; ao lado da princeza, quem
se pozesse a vêr aquelle par, diria-os
feitos um para o outro, de encommenda...
Chegaram ao palacio. A admiração foi grande; mas não sei o que mais commentarios mereceu, se as peripecias da princeza, rematadas com tão feliz epilogo, se o milagre do martello na pessoa de Issumboshi. Logo alli se lhe mudou o nome, para outro nome apropriado; recebeu do seu nobre protector mil recompensas, mais tarde do soberano mui fartas honrarias, subindo aos mais altos cargos publicos; mas a mais doce recompensa que aqui se lhe póde assignalar foi tornar-se o esposo querido de Ko-Haru, que elle amava, do fundo da alma, desde o primeiro dia que lhe foi dado contemplal-a...