Paisagens da China e do Japão

Wenceslau de Moraes · Capítulo 4 de 20

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Paisagens da China e do Japão

A Primavera

celestial, o capricho de lavar uma vez cada anno o antro onde se abriga. Depois, é ver a faina de collar pelas paredes, pelas portas, pelas janellas, papeis de bella côr escarlate, com negras inscripções cabalisticas, que são votos de ventura e de riqueza, que são preces aos deuses. E chega a occasião de se adornarem os altares, de se irem comprar junquilhos em flor, que se dispõem em vasos gentis com agua e seixos alvos, e assim vão enfeitar os aposentos, levando o viço e o perfume, por um dia, aos negrumes das alcovas. No meio do complicado rito das usanças, algumas praticas enternecedoras, de ingenuidade primitiva, interessam o curioso. Reparem por exemplo nas enormes celhas expostas pelos mercados, onde

enxames de pequeninos peixes negros, carpas barbudas, estrebucham na gotta de agua do improvisado captiveiro; o povo compra-as, e vae lançal-as em seguida nas ribeiras, gosando na acção do resgate, por certo grata aos deuses, e que redundará em beneficios...

 

A PRIMAVERA

 

C P

 

Ha alguns dias, na cidade de

Kobe,—poderia precisar o dia, e

quasi a hora, se tamanho

rigorismo me exigissem,—

irrompeu a Primavera. Irrompeu:

não ha sombra de exagero no

vocabulo. Irrompeu, surgiu d'um

pulo, fez explosão. N'este paiz do

Sol Nascente, onde o sol, e com

elle todas as grandes forças

naturaes, são ainda uns selvagens

—se assim posso expressar-me—

uns selvagens sem freio, sem

noção das conveniencias, incapazes de se apresentarem de

visita, de luvas e casaca, n'uma

côrte qualquer da nossa Europa;

n'este paiz do Sol Nascente, ia eu

dizendo, a creação inteira

apostou, parece, em offerecer em cada dia uma surpresa, toda ella exuberancias inauditas, espalhafatos unicos, repentismos nervosos, caprichos doidos, como se reunisse em si a quinta essencia da alma das creanças e a quinta essencia da alma das mulheres, a gargalhada, a troça, emfim, motejadora de tudo quanto é ordem, harmonia, contemporisadora lei das transições.

Hontem, foi um inverno duro, gelido, vestido apenas d'uma ampla tunica de neve. Hoje, d'um salto, o sol rompeu em quenturas amorosas, começaram de florir as arvores, e evolaram-se os insectos. Amanhã, será o estio torrido, em brazas, como nem na China, nem na Africa se sente. E assim corre o tempo, vôam as horas; cada instante é um meteoro; e aqui um tufão arranca os troncos, e alli a chuva torrencial inunda as varzeas, e alem um rio transborda do seu leito, e uma onda do largo afoga as aldeias, e uma convulsão subterranea abala o solo...

O europeu, o pobre europeu das paizagens serenas, soffre os choques d'esta natureza, por demais subversiva para o seu espirito triste, meditativo e attribulado. Offerece-se-lhe um de dois caminhos a seguir: ou communga na vida japoneza, inicia-se nos seus segredos intimos, ama-a nas suas modalidades, e assim a existencia se lhe gasta, se consome rapida, esgazeada em admirações, doidejando em vertigens; ou se retrae, se isola, odeia a natureza que não comprehende, odeia o exilio, vive de saudades da patria, entre as quatro paredes do seu lar, ou dos clubs cosmopolitas da colonia forasteira. Não é preciso mais para justificar o tique de loucura, facilmente perceptivel, da enorme maioria d'estes expatriados, homens e mulheres, após curta residencia no paiz japonez.

 

Ora pois,—dada esta concisa explicação á gente incredula,—ha alguns dias, na cidade de Kobe, irrompeu a Primavera.

Pela noite velha, fóra chegando uma brisa como que amorosa, acariciadora, perfumada. No silencio das trevas, as carpas acordaram, n'um charco fronteiro ao meu albergue; e estrabuchavam, e produziam desusados ruidos, saltando fora d'agua, ardendo em cios, endemoninhadas. Quando rompeu o dia, e appareceu o sol, não se descreve o enlevo do bafo morno, embalsamado, genesiaco, que enchia o espaço. O ceu tinha azues novos; cirros de paz pairavam nas alturas. A paizagem esverdeára; esverdeára da herva nova, que surgia, e das arvores velhas, que se coloriam. A nossa observação educa-se n'este meio em especialidades de minucia, abundando por toda a parte, em campos e jardins, as coniferas, de todas as fórmas, de todas as grandezas; estas arvores nunca se desfolham, mas no inverno descoloram-se, empallidecem como mulheres chloroticas, chegam a lembrar enfermos, chegam a lembrar coisas mortas; depois, a primavera excita-lhes a seiva, um verde intenso assoma-lhes ás folhas, a vida recomeça, doida, vão desabrochar flores em fúria!...

Já as ameixieiras se apresentam em galas de florescencia; os negros troncos rugosos e lavrados pela lepra dos lichens, sem uma folha sequer, cobrem-se agora de bastas cabelleiras, alvas ou rosadas, feitas de mil e mil florinhas presas aos galhos por minusculos penduculos. Vistas de longe, nos sitios onde abundam, fazem lembrar uma floresta de arvores seccas, envolvidas pelo fumo e pelas chammas d'uma queimada devoradora. Em breve serão os pecegueiros a florirem. Depois as cerejeiras. Depois as pereiras. Todas as arvores. Todas em apotheoses de coloridos. Chalaça tudo, em todo o caso—estas arvores não dão fructos, não dão ameixas, não dão pecegos, não dão cerejas, não dão peras; ou, se os dão, não prestam. Esgotam os ardores da seiva na superabundancia das petalas das flores enormes, enormes como nunca se viram em outra parte; contribuem, em meras orgias de cores, para a incrivel hilaridade do scenario, para a supina gargalhada primaveral; nada mais. Servem de pretexto para os mil motivos de debandada para os campos, d'estes bons japonezes, cabaça ao hombro, musumé ao lado, alma descuidosa aberta aos esplendores.

 

São estas florescencias paradoxaes, tão caracteristicas do solo nipponico, que encaminham a cada momento o pincel indigena para requintes de matizes que a esthetica occidental não comprehende; ellas que inspiram aos artistas esses tão frequentes fundos de paizagem salpicados de brancos e vermelhos, a reminiscencia do instante em que as flores se desfolharam e cairam do alto, n'um chuveiro de petalas.

De parceria com as arvores, são as hervas, as plantas, os arbustos, que se vestem de folhas e se enfeitam de flores. Já ao longo dos muros espreitam, por entre as pedras, as violetas silvestres; e o solo vae vicejar de musgos, fetos, de relvas, de bambus e de humildes gramineas; e matizar-se de brancos, de azues, de amarellos, de escarlates, de roxos, de mil côres, de mil flores sem nome, apenas conhecidas dos insectos, que são botanicos emeritos e sabem de cór e salteado onde as corollas lhes offerecem os manjares mais capitosos. Já desabrocham os junquilhos, as camelias. Vão desabrochar a wistaria, as azaleas, os lirios, os iris, os narcisos, os convolvulos, as peonias, a legião vegetal.

As ameixieiras, por aqui pelas cercanias de Kobe, vão vêr-se ao pittoresco oiteiro de Okamoto, ou a Suma, no dominio d'um templo famoso. Os pecegueiros vão vêr-se a Momoyama, em Osaka, que as florinhas côr de rosa incendeiam por curtos dias. As cerejeiras, particularmente queridas dos japonezes, vão vêr-se a um ou dois templos em Osaka; ou á formosissima collina de Arashiyama, em Kioto, marginando a ribeira de Hozukawa, caudalosa e rumorejante; ou, no mesmo Kioto, ao parque de Maruiyama, onde uma só arvore, a vetusta cerejeira da noite de Guion, de delicados ramos em pendor, tem merecido os enthusiasmos e as estrophes de não sei quantas gerações de amorosos e de poetas, que junto d'ella poisam, dia ou noite, embevecidos no extasis do espectaculo; ou ainda a Yoshino, o logar por excellencia preferido, sitio montanhoso e agreste, de difficil accesso, mas por isto mesmo frequentado pelos grandes fanaticos da natureza em pompas; Yoshino, com a sua sentida lenda d'um monarcha fugitivo, e com o peregrino enlevo das suas mil—conta justa, affirmam,—das suas mil cerejeiras, muitas vezes macrobias, offerecendo aqui, acolá, além, n'um valle, sobre uma ponte, á borda d'um precipicio, as scenas mais surprehendentes, mais arrebatadoras, parecendo as arvores em flor, flocos de nuvens brancas a rasarem a relva da paizagem. A wistaria, o fugi, vê-se em Nara, a velha cidade classica; os ramos trepadores enrolando-se em torno dos troncos das chryptomerias gigantes, e os longos cachos brancos e os longos cachos roxos pendentes ao capricho das brisas.

 

Romarias indescriptiveis de graça

pagã, de vida exuberante, estas

romarias, reunindo se ao quadro

bello da natureza, de uma

magestade commovente e estonteadora, a kermesse hilariante

do povo em festa. Barracas

embandeiradas expondo mil artigos; poisos improvisados para a

refeição frugal; os homens em

bandos a folgarem; as creanças

aos saltos, ás gargalhadas, vestidas a primor, de sedas de mil

tons; mulheres de todas as condições, graves mamans deliciosas, meninas recatadas em mimos de flor de estufa, petulantes cantadeiras das ruas, camponezas em roupas escarlates, gueshas em requintes de luxo e de encantos, ovantes como idolos, todas ellas comesticos, todas ellas aromas, todas ellas sedas rojantes, todas ellas mimicas e requebros, espanto-sas.... Ao recolher da festa, a onda humana é curiosissima: cada qual empunhando uma haste florida, cada qual com seu embrulho para o presente de estylo aos amigos que não foram; as mulheres commentando as scenas em gestos e em risinhos; as creanças abarrotando de fructas e de bolos, cançadas, somnolentas, rabujando; os homens em galhofa, pouco firmes, com as frontes e as palpebras encarnadas, que é como se lhes accusa o peccadilho de terem bebido um pouco mais do que convinha...

N'esta contemplação dos scenarios está a alma do indigena. Eu vou reproduzir-lhes uma local, que ha dias appareceu n'um jornal da terra, e que define bem a gentil puerilidade pantheista d'esta gente unica:—«em Himeji já se deu fé este anno de duas flores de cerejeira...» duas, é sobretudo delicioso!... O homem do Occidente pensa, o japonez vê; eis a enorme distincção que os separa. O prazer dos olhos é a alegre preocupação de todos; vive-se no presente, para gosar do momento de hoje, para sorrir ás coisas; e pode ser que seja esta a maneira mais coherente do ser humano prestar culto aos seus deuses, ao Creador, que lhe impoz na terra uma missão.

N'aquella primeira manhã primaveral, debandaram dos bosques mais cedo, em magotes alegres, em serenos vôos altos em busca de aventuras, chocarreando, atirando aos ventos as suas gargalhadas de mofa, os corvos, nos quaes tão bem encaixa, sem eu saber porque, o nome japonez, de karuçu. A pardalada papeava amores, e safava-se resolutamente dos povoados em demanda dos campos. Uma borboleta amarella,—ia apostar que a primeira da estação,—atravessou n'um vôo o meu jardim. Sobre cada flôr poisava um bicho, mosca, ou abelha, ou vespa, ou besoiro, ou moscardo, vindos não sei como, por feitiço, pois havia longos mezes que ninguem lhes punha a vista em cima; e não tarda que chegue a immensa corja alada, cigarras, gafanhotos, mariposas, mosquitos, tira-olhos, os pandigos do ar, todos bulicio, côres e vida!... Pelos corregos, pelas regueiras, ao longo das ruas e caminhos, surdiam pela vez primeira das tocas os sapos, rouquejando; e dois a dois, graves... mas não estou agora para contar-lhes o que faziam nas regueiras e nos corregos, os sapos, graves, dois a dois...

 

Nos rostos da gente, suggestionada, embriagada em aromas, pintava-se uma alegria nova, uma recrudescencia de actividade animal. As raparigas passavam mais lepidas, em kimonos alegres, claros, descalças sobre os sóccos pela primeira vez depois do inverno, os seus pés muito brancos, muito mimosos, após o recatado abrigo durante os mezes frios. Encontrei além, n'aquella esquina, uma musumé, que vendia ovos, e um vendilhão ambulante de cestos e vassouras; haviam poisado no chão a sua industria, conversavam em segredo, mas com intensa vivacidade de expressão; elle agarrava-a pelos pulsos, brutalmente; e ella, a rir, a julgar pelo brilho dos olhos e pelo rostinho alvoroçado de desejos... dava-se-lhe, em promessas.

Pois foi n'aquelle dia, que eu, em vez de ir divagar pelos campos, como os pardaes,—já não digo: (ir vender cestos e vassouras) pelas ruas...—que eu me engravatei cuidadamente e fui bater á porta d'um amigo. Tratava-se d'uma festa de creanças, o que é dizer, d'uma estopada para adultos. Effectivamente, exhibia-se, em frente d'uma duzia de meninos e de outra duzia de pessoas circumspectas, um graphophone americano; graphophone, ou coisa parecida; um phone qualquer em todo o caso; que isto de phones, para quem cursou aulas de physica ha perto de trinta annos, é de uma complicação tal, que nunca a gente chega, por mais que se applique, a fallar com segurança do assumpto.

 

Mal lhes posso agora traduzir a dolorosissima impressão, que a festa me deixou. Ratice minha, sem duvida. Introduzia-se n'uma caixa um cylindro apropriado para o caso e dava-se corda ao instrumento... mas a quem estou ensinando o padre-nosso!... Então, um americano fanhoso, imbirrante, assim com ares de bebedo e ademanes de exhibidor de saltimbancos, a ponto de se lhe presumir a casaca no fio e cheia de nodoas e a gravata branca em uso ha mais de seis semanas, fallava ao publico, annunciava a casa constructora em Nova York, e o que em seguida iria ouvir-se. Eram cançonetas chulas, solos de flauta, estrondos de orchestra, devaneios em viola, discursos grotescos; e tudo aquillo, e as vozes do publico que ria, que vociferava, que dava palmas, que pedia bis, creanças berrando, damas mal suffocando o riso, cavalheiros atirando chufas, tudo aquillo, distinctamente, saía da caixa enfeitiçada e enchia a sala onde me achava, como se uma multidão de patuscos, vindos da America, vindos do inferno, a tivesse invadido de surpresa.

Mas que tristeza immensa!... Como eu amaldiçoava, n'aquella hora, estas invenções da epocha, estes engenhos surprehendentes, monstruosos, que vem zombar da vida, e assassinar arte, enlevos fugaces que passam, reminiscencias, saudades, tudo o que é doce ao espirito... porque,—affirmo-o tanto quanto as palavras me podem traduzir o pensamento,—porque, no fim de contas, ficou-me uma desconsoladora noção de desprestigio da existencia, e de troça ás leis do mundo, á lei da successão dos factos no tempo; e vi em pensamento um bando de velhinhos alchimistas largarem as retortas, por um momento, e virem bradar á creação, fitando o ceu ás gargalhadas:—«não tenhas imposturas, sabemos tanto, fazemos tanto como tu!...»—Já não bastava a photographia, esta artimanha irreverente, que vae implicar com os ausentes, com os defuntos, com o mundo distante, dando-nos em troca da sentida recordação, que guardavamos, o phantasma, em contornos, do que fugiu dos nossos olhos. Agora é o graphophone, que eterniza os sons, a voz dos de longe, a voz dos que morreram. Morte, ausencia, já não tem razão de existir nos diccionarios. Para o caso a que me refiro, cá continua o americano imbirrante a vomitar os seus discursos, os musicos a tocarem, os cantores a cantarem, o publico a rir, a chorar, a applaudir, a chalaçar. Passaram-se assim as scenas ha dois annos, ha cinco annos, ha dez annos. Estará a estas horas o americano morto, coisa de alguma bebedeira mais forte, que o prostou? a creança, que chorava, dormirá tambem n'um tumulo, coitadita? a dama, que ria, estará doida, n'um asylo? o homem, que applaudia, n'um carcere, cumprindo uma sentença? Nada importa. A machina chama-os, reune-os, ressuscita-os, renova-os para a pandiga d'um momento da existencia; o passado é presente; e a machina agita-os, empurra-os para o interior das nossas casas, para nos divertirmos á custa d'elles mesmos...

 

Primavera? ia eu pensando com os meus botões. Primavera? ri a natureza? florescem as arvores? cantam amores os passaros? é uma realidade? Ah! talvez não, que hoje, a um phenomeno substitue-se quasi sempre uma industria; e espectaculos do Pae do Ceu fôram já quasi todos supprimidos, porque iam aborrecendo a humanidade... Cada dia que passa, regista cem descobertas, tendente cada qual a apagar do nosso espirito a lenda do mysterio, do incomprehensivel. A vida, o mundo reduzem-se a machinas, a engenhos mais ou menos complicados. Doce Primavera, que me enfeitiça? Troça. Aqui anda machina, apostára! Quem me assegura, que isto não foi primavera servida a meus avós ha mais de um seculo, gravada n'um cylindro, e impingida depois como nova, de quando em quando, aos patetas, que a applaudem?...

 

E a proposito da Primavera que irrompia, duas palavras sobre outra Primavera, que morria, ahi pela mesma epocha.

Não haverá ninguem, imagino, que, tendo passado em Kobe, não conheça Nunobiki, a cascata. É que o sitio, pela sua fama merecida, é o passeio obrigado de todos os que chegam, embora se demorem duas horas. Não ha conductor de carro, guia de viajeiros, um qualquer alcoviteiro que ande á cata de gente que desembarca dos paquetes, que se esqueça de indicar, como primeira diversão, a ida á queda

de agua. Lá vão todos. Lá fui eu, uma vez, como viajeiro: e muitas vezes, depois, como residente, residente em ocios, attrahido pelos scenarios apraziveis. Lá em riba, muito em riba da montanha, e salpicada de espumas e acalentada em rumorejos, na penumbra do ermo apertado entre penedos a prumo, cobertos de ramaria silvestre, era a casa de chá, a cháya tradicional, offerecendo repoiso por alguns minutos e uma bebida ao forasteiro extasiado, sem fallar nos sorrisos, nas mesuras, que prodigalizavam largamente as raparigas que alli olhavam pela venda. Ha alguns annos, disseram-me, eram tres as raparigas, tres irmans,—as tres graças;—mas eu conheci só duas, tendo casado a outra com um titular europeu, conforme ouvi. Eu conheci só duas: O-Tane San, a Senhora Semente, e O-Haru San, a Senhora Primavera. Como se fica presumindo, eram as japonezas mais populares de Kobe inteiro; das quaes, talvez não erre, acreditando que os muitos milhares de forasteiros, que n'estes ultimos seis annos visitaram o Japão, guardam uma reminiscencia, uma saudade... Duas fadas dos bosques, a enfeitiçarem os incautos? Não tanto: quando muito, duas sereias de agua doce, simplesmente meigas, simplesmente gentis, vendendo graciosamente uma chavena de chá, sem assucar, á moda japoneza, e dando de graça um sorriso, tão doce, que tirava ao chá o travor proprio, mesmo para o paladar mais exigente. Eu preferia á Semente, a Primavera. Era mais fresca,—fresca como o seu lindo nome,—e mais avelludado o olhar negro, e mais esmerada nos kimonos de seda e na curva em azas de borboleta dos cabellos. Com ella palestrava, com ella ria, ria sobretudo, que o riso é a linguagem mais em uso n'esta terra; e, tomando-lhe das mãos, perguntava-lhe quem fôra o delicado, inglez, russo, coreano, hottentote, que lhe offerecêra aquelle annel com uma saphira, que enfiava tão bem no seu dedo côr de rosa...

Pois muito bem. Sabe-se que em materia de progresso material o Japão anda a galope. Lembraram-se ha pouco estes senhores de constituir uma empreza para a distribuição da agua aos domicilios, em Kobe. A idea não é nova: já Yokohama, Osaka, Nagazaki e certamente outros centros, gosam de instituições da mesma especie. O que é lastima,—se vale a pena a gente prender-se em ninharias,—é que assim, alcançado pelo turbilhão reformador, que vae dando cabo de todo o pittoresco d'este povo, tenda a desapparecer o poço... o poço classico dos velhos tempos, com a borda circular talhada n'uma só pedra, o alpendre gracioso sustido por dois madeiros, os baldes suspensos das duas pontas da corda de cairo, que enfia no tosco gorne central; estabelecido em plena cosinha domestica, ou a um canto do jardim, ou n'uma vereda accessivel a um bando de visinhos; e cerca as vasilhas de uso, celhas, escudellas, colheres, da mais graciosa e original tanoaria, de que as creadas, meias-nuas, se vão servindo nas lavagens, demorando-as para alongar tagarelices, proprias do sexo e ainda mais das japonezas; eis o poço, correspondendo a um quadro muito caracteristico da vida intima; o poço, que os adoraveis pinceis dos mestres da pintura se compraziam em reproduzir mil vezes, emaranhando-os na rama das trepadeiras, das asagao, cujas bellas campanulas de côres variadas abrem com o nascer do sol e fenecem logo após...

Para o caso de Kobe, dirigiram-se logo desde o inicio as picaretas e as enxadas para a montanha de Nunobiki, onde a agua jorrava em manancial sem fim; e, á força de braços e de dynamite, no intuito de encaminhar a torrente aos reservatorios da empreza, fez-se um desbarato tal, abatendo as arvores, cortando as rochas, cavando a terra, que todo o enlevo do sitio desappareceu, a paisagem tornou-se em ruinas. Rigorosamente fallando, a cascata acabava de existir. A cháya, tal como a gente a conhecêra no seu rustico pittoresco, forçada pelas escavações a mudar de poiso, acabava de existir. E as raparigas? logicamente, tinham de desapparecer tambem. Com effeito, a Semente casou com um japonez e safou-se... e faço votos para que o seu nome lhe seja de bom agoiro, dispondo os fados

a concederem aos conjuges uma

prole feliz e numerosa; e a

Primavera morreu; morreu, por

mofina coincidencia, quando a

outra Primavera ia renascer, dar

viço e flôres ás arvores, não ás da

cascata, mercê da nova empreza.

Morreu tisica; a sua cascata, onde

nascêra, onde vivêra vinte annos,

com a sua eterna penumbra

crepuscular, com as suas rochas

eternamente gottejantes, com o

seu ambiente eternamente humido, roêra-lhe os pulmões...

Pobre Primavera... Mas não

morreu talvez, pensem bem n'isto

que lhes digo; embora ninguem

mais lograsse vel-a, embora as

amigas tivessem acompanhado ao