Paisagens da China e do Japão
Dois Cemiterios Japonezes
japonezes. Uns desertam, e fazem
n'isso muito bem; outros ficam.
Nos que ficam, o desgosto pela
terra do exilio enraiza, alastra
como uma lepra corrosiva.
O desgosto, nas mulheres, crystallisa brevemente em odio,
um odio desesperado, sem treguas; explicavel pela maior
vibratilidade dos nervos no sexo,
pela vida ociosa, e tambem, e
principalmente, pelo penoso
confronto com a mulher indigena, cujo fresco perfil e requintado tacto femenil são uma provocação terrivel aos seus meritos. A mascarada eterna japoneza, a despreocupação, o riso chronico, os traços caricaturaes de todos e de tudo, os dichotes zombeteiros dos gaiatos,—«ijin, ijin!» estrangeiro, estrangeiro!—tudo irrita, bellisca redunda por fim n'um supplicio insuportavel, que nêm respeita o lar, entrando mesmo pelas janellas dentro como um exame de mosquitos. Triste lar, tantas vezes!... Junto da familia do sr. Fulano, seja qual for a sua nacionalidade e situação, contae como provavel um hospede permanente,—o aborrecimento.—A embriaguez, a dissipação, a quebra fraudulenta, o roubo, o suicidio, o adulterio, o assassinio, todos os desmandos de uma sociedade incongruente, succedem-se nas pequenas colonias europeas do Japão com uma triste frequencia, eloquentissima!...
1900.
DOIS CEMITERIOS JAPONEZES
A V. A 'E
Pelos fins de dezembro, em vesperas de Natal e de Anno-Bom, encontrei-me um bello dia, sem bem saber porque, vagabundeando no cemiterio dos europeus em Kobe, o velho. O velho, porque ha um cemiterio novo que se estreou ha pouco tempo, e onde até agora se reuniu coisa de meia duzia de inquilinos; está este situado longe da cidade, n'um declive de collina, amplo, com bellos horisontes em redor. O velho, de acanhadas dimensões, enchera-se de moradores em uns trinta annos de exercicio, e foi por tal razão posto de parte.
O velho cemiterio fica em plena cidade, para as bandas de oeste e cerca dos edificios da alfandega, quando começa um bairro sujo, de fabricas, de armazens, que povôa uma misera ralé de carregadores e de mendigos. Encerrado entre as altas paredes de tijolo vermelho de enormes depositos de mercadorias, sem outro horisonte, com pouco ar, com pouca luz, humido e ermo, é bem triste este canto; até, se não me illudo, os vetustos pinheiros que o arborisam, testemunham pelo verde escuro e estorcimentos convulsos das ramadas, alguma coisa da desolação que aqui impera sobre tudo.
Hoje, que é um domingo, acolá, a curtos passos, sobre a relva do parque publico, a chusma dos caixeiros—inglezes, americanos, allemães,—a chusma cosmopolita, em mangas de camisa, sem chapeu, berra, corre, esbraceja, espernea, joga o tennis, o fout-ball. Mais alem, pelas ruas de trafego indigena, presumo magna enchente, bazares em festa, povo em barda, entre japonezes e estrangeiros. D'estes ultimos, são especialmente as damas que mais se alvoroçam com a proximidade do christmas day, e que afanosamente percorrem a cidade, em carruagens, em jinrikshas, a pé—a pés... e que pés!...—enfiando pelas lojas, mercadejando bonecas, quinquilherias, guloseimas, as mil e mil frivolidades que vão constituir os fructos d'essas estupendas arvores de Natal, préstes a surgirem nos salões. Pobre natal! N'estes paizes exoticos, de ganho e de aventura, as festas particulares da familia europea perdem em regra a sua feição de severidade tocante e amorosa, para se transformarem n'um simples sport, irritante, massador,— fallo por mim,—mero pretexto para ostentações, dissipações e mexericos, a caterva de todos os symptomas da morbidez do exilio. Para o povo japonez, o impulso é bem outro: o dia de anno novo é a festa principal de cada anno, a unica para muitos; religiosa, emocionando a alma indigena, levando a turba aos templos a dar graças aos deuses pelas prosperidades realizadas, e a implorar novas fortunas: intima, de familia, preceituando o doce dever das saudações aos parentes e aos amigos; ninguem trabalha, veste-se fato novo, enfeitam-se os altares e a casa toda; por isto, com louvavel antecipação se compram nos bazares os pequeninos nadas que vão ornar o lar, e os bolos de arroz, e o córte de fazenda, e a flôr para o cabello, coisas de que não prescinde a mais modesta familia de lavrador ou de operario, n'aquelle dia abençoado.
No sitio onde me encontro a quietação é plena, em contraste com o que palpita lá por fóra. É positivo que os mortos não festejam o Natal... nem eu tam pouco, poderia accrescentar, desde mui largos annos de bohemia, sem lar e sem familia. Pesa aqui, no cemiterio, mais duramente por certo do que em outro logar, a aspereza de um triste dia de inverno, sem sol, sombrio e humido; paira no ar uma poeira levissima de neve, que mal se vê, mas fere o rosto como picadas de alfinetes; de quando em quando, uma rajada fresca sacode a rama dos pinheiros, corta o silencio então um vago murmurio de folhagem,—da folhagem sem duvida, mas que acaso poderia parecer o palrear dolente dos mortos uns com os outros, de cova para cova...—
Vou vagueando, com passos e em
espirito. Estou só, ou quasi só; ha
pouco dei fé, por entre as
sepulturas, de uma velha japoneza, guarda do cemiterio,
que ia apanhando do chão alguns
cavacos. Vou lendo os epitaphios,
estudando a botanica tumular nos
arbustos plantados e nos musgos
espontaneos, lançando um olhar
condoïdo ás corôas murchas, que
aqui e ali se encostam ao
marmore das lapidas, pobres
corôas queimadas pelo sol,
rasgadas pelo vento, roïdas pelos
vermes, polluidas pelo pó, e em pó
se desfazendo... N'este gremio de
mortos abundam os padres e os
missionarios de todas as seitas e de todos os paizes; varios pilotos dos mares do Japão, capitães, tripulantes de barcos; gente de negocio; e a mais uns pobres nomes obscuros de mulheres e de creanças, sem titulos nem historia. Aqui deparo agora com um nome de portuguez, Felisberto da Cunha, da Figueira, que morreu com quarenta annos, e a esposa (uma japoneza) lhe mandou erigir o mausuleo.
De trilha em trilha e de tumulo em tumulo, eis-me em frente do monumento tumular dos marinheiros francezes assassinados em Sakai. Lugubre historia; e aqui, n'este Japão da grande hospitalidade e da notoria cortezia, impressiona por estranha e quasi inverosimil. Pois foi bem verdadeira. Ha mais de trinta annos, por um dia de março, uma lancha a vapor da corveta Dupleix aguardava na praia de Sakai a volta de alguns officiaes, que haviam descido á terra e seguido para Osaka; passa casualmente um troço de tropas do Mikado, samurais da provincia de Tosa; e sem provocação, sem um leve pretexto, fazem fogo sobre os marinheiros, matam onze. São os onze tumulos d'estes martyres, d'estes miseros camaradas (porque eu sou como elles marinheiro), que agora contemplo.
Sobre tres degraus de pedra alça-se uma alta cruz; e aos lados, cinco por banda, e o aspirante á frente, como se estivessem na tolda da corveta em formatura, estão os onze corpos, estão as onze lages, aquelles desfeitos em pó seguramente, estas ennegrecidas pelo tempo e pela lepra dos lichens resequidos... pois não se esqueça que ha mais de trinta invernos vae durando a triste formatura. Sobre a cruz leio o seguinte:—«À la memoire des onze marins de Dupleix, massacrés à Sakai le 8 mars 1868. Requiescant in pace.»—Massacrés! massacrados! Como isto é destonante n'este solo, no Dai-Nippon das paizagens amorosas e do sorriso perenne nos rostos dos que passam!...
Vou lendo seguidamente as inscripções dos tumulos:—«Ci git Guillon, Charles Pierre, aspirant de 1 ère classe, agé de 22 ans. Priez pour lui.—Ci git Boulard, Vincent, matelot de 3ème classe, agé de 21 ans. Priez pour lui.—Ci git Nonail, Jean Mathurin, matelot de 3 eme classe, agé de 25 ans. Priez pour lui.—Ci git Condette, François Désire, matelot de 3 ème classe, agé de 24 ans. Priez pour lui.—Ci git Lemeur, Gabriel Jacques Marie, quart.r tre re ere m. de manoeuv. de 1 classe, agé de 29 ans. Priez pour lui.—Ci git Savie, Jacques, matelot de 3 eme classe, agé 23 ans. Priez pour lui.—Ci git Humet, Arséne Florimont, matelot de 3eme classe, agé de 24 ans. Priez pour lui.—Ci git Langenais, Auguste Louis, matelot de 3eme classe, agé de 22 ans. Priez pour lui.—Ci git Bobes, Lazare Marie, matelot de 3eme classe, agé de 22 ans. Priez pour lui.—Ci git Modest, Pierre Marie, matelot de 2e classe, agé de 26 ans. Priez pour lui.—Ci git Grunenberger, Victor, ouvrier chaufeur de 3eme classe, agé de 24 ans. Priez pour lui.»—A ladainha é longa, como vêem; e bem commovedora, quando se attenta nas idades. Onze rapazes; quadra de illusões, de amores, de esperanças. O mais velho do grupo teria hoje os seus sessenta e dois annos, se fosse vivo; de sorte que todos estes pobres moços poderiam muito bem gozar ainda agora da doce alegria de viver, se o destino lhes fosse menos duro: o aspirante vestiria provavelmente a sua farda de capitão de mar e guerra, chapada de veneras; e os marujos estariam talvez com a sua baixa, na aldeia patria, em descanço, a vêrem o mar por um oculo, rodeados de filhos e de netos... Ah! barbara cafila de soldados japonezes!...
A gente póde recompôr em pensamento a scena da praia de Sakai. Uns bellos loiros, rosados como pecegos, robustos como jovens Hercules. Riem, brincam, cantam, pisando a fôfa areia. É um bando de irmãos, todos da mesma idade, tratando-se por tu, passando de mão em mão a bolsa de tabaco, e até de bocca para bocca o cachimbo de gesso fumegante.—«Olha, Jacques! Repara, Gabriel!»—E batem palmadas nas costas uns dos outros, e brilham-lhes as pupillas gaiatas e sagazes, apontando, em grandes gestos rudes, para os recortes estranhos da paisagem, para os contorcidos pinheiros que rendilham o horisonte, para as ameixeeiras em pasmosas florescencias, para as casinhas de madeira e de papel, para as musumés em sedas, seductoras... exoticos, captivantes aspectos de um paiz maravilhoso, que abre agora as suas portas á curiosidade do mundo occidental, deslumbrando a imaginação juvenil d'estes pobres francezes, habituados á monotonia do azul das longas viagens fadigosas. Consta que os garotitos de Sakai iam affluindo á praia, e quedavam-se em volta dos marujos, bocca aberta, espantados dos seus modos, do uniforme, das suas feições de raça branca; e que estes com as creanças partilharam algum pão das suas provisões. De repente, surde de algures um bando petulante, irrequieto, multicôr pelas bandeiras desfraldadas e pelas sedas das cabaias, e reluzente pelas armas que empunha; são samurais do imperio; o quadro é deveras interessante; os marujitos,
surpresos e attentos, são todos
olhos... olhos que em breve se
cerram, quando os corpos caem
inertes sobre a areia, após uma
descarga de metralha... Ah!
barbara cafila de soldados japonezes!...
No meu espirito vagabundo, depois da ferocissima scena de matança, é agora a sorte d'estes samurais que relembro, e me commove. Commovem-me assassinos? Sim; os annos fôram correndo sobre os factos e esfriaram os rancores. Póde hoje memorar-se, sem asco, com sympathia, mesmo nos seus transes sanguinarios, a breve lucta de resistencia que o velho Nippon feudal, embevecido na sua lenda prestigiosa, manteve contra aquelles que vinham despertal-o do seu sonho; e para o bando de Sakai, soldados todos, pertencendo á nobre casta dos guerreiros, seria realmente excepção estranha se não fulgurassem no seu animo, remindo-os do opprobrio, as virtudes da casta—a extrema dedicação aos chefes, o sacrificio de si proprios pela patria, e o amor por essa patria guindado á intensidade de paixão, mais alto ainda, aos paroxismos do delirio.—
A historia plenamente nos explica o odio que a massa dos guerreiros ia nutrindo então pelos estranhos. O shogun, generalissimo do imperador, com residencia em Yedo, assignára por conta propria tratados de amisade e de commercio com a America e com a Europa, e os estrangeiros, em Yokohama, pisavam já afoitamente o solo japonez. O shogun violava por este modo o dogma sagrado do imperio, que era o isolamento absoluto, a exclusão do homem do Occidente, o desdenhoso desinteresse pelo mundo, o goso eterno e sem partilha, deliciosamente egoista, do paiz maravilhoso que os deuses haviam legado ao povo eleito. Quando a noticia do insolito desacato chegou até Kioto, a cidade santa, onde vivia a côrte, em torno do Soberano, a mais accesa colera explodiu, e todas as energias se ligaram para humilhar o shogun e varrer para sempre da patria os teimosos intrusos. —«Morte aos barbaros!»—foi o grito do soberano, da côrte, dos senhores feudaes.—«Morte aos barbaros!»—foi o credo que incutiram ás legiões á pressa reunidas, que corriam a expulsar, a massacrar, a exterminar, os estrangeiros. O shogun, supremo em mando até então, estava perdido, debaixo de seus pés tremia a terra, rugia o vulcão politico que em breve ia esmagal-o; mas, pela fatalidade dos tempos, as energias e as cubiças dos intrusos haviam de vencer, de impôr os seus designios; e a rhetorica dos diplomatas, prudentemente sublinhada pela metralha dos canhões, tinha de ser ouvida. Os dias iam passando, e o solemne decreto de exterminio não podia ser cumprido; apenas, de quando em quando, um ou outro samurai lograva decepar alguma cabeça loira de inglez, merecendo dos seus chefes fartos applausos pelo feito. Cedo, bem cedo, os vultos dirigentes comprehenderam que a lucta era impossivel, que o mysterio nipponico findára; e o Japão foi descerrando pouco a pouco as suas portas, entrando em negociacões com os diplomatas estrangeiros, não já pela iniciativa incompetente do shogun, mas pela propria iniciativa do soberano. O shogun, por inutil, foi deposto; como se não conformasse com a vontade imperial, travou-se dura lucta, foi batido e retirou para Yedo. Estes acontecimentos succediam-se em tropel; a grande maioria da nação não podia aprecial-os, e menos presumir das vistas do soberano; a grande maioria da nação ia odiando o shogun e repetindo o seu credo—«Morte aos barbaros!»—sem se aperceber que a situação mudára, que a côrte já tratava com as potencias, e que a aggressão aos europeus, havia pouco meritoria, era agora condemnada e prejudicava fortemente a marcha da politica imperial.
Foi assim que os soldados de Sakai, massacrando os marinheiros francezes que encontravam, julgavam ter cumprido um dever grato ao soberano e util para a patria. Illudiam-se. A resposta ás energicas reclamações das auctoridades francezas foi a condemnação á morte de todos os culpados, que eram vinte. Como guerreiros, não bandidos, foi-lhes concedido como graça o hara-kiri, isto é, a morte honrosa, devendo cada qual rasgar a propria carne a punhaladas.
Foi escolhido para a cerimonia Myokokuji, um templo de Sakai, e em 16 de março teve logar o supplicio. Passou-se então um
espectaculo
tremendo, não de tristeza, antes uma
festa de sangue, de
morte, que excede a
comprehensão dos
homens europeus.
Enchia o recinto do
templo a multidão dos
officiaes do imperio,
das auctoridades
francezas, das
testemunhas, dos
amigos, dos bonzos,
dos curiosos, vistosa
em côres, em bellos
uniformes, em garbo e
fidalguia; e, um por um,
por seu turno, veio
apparecendo cada
condemnado, todo vestido de lucto, de alvas vestes, ajoelhou no solo, curvou-se em reverencias, saudou a multidão, recebeu solemnemente o curto sabre de etiqueta, cravou-o até aos copos nas entranhas, rasgou as carnes com mão firme, tingiram-se as vestes de escarlate, jorrou o sangue sob uma urna proxima, a fronte crispou-se pela dôr, a côr fugiu da tez, o corpo pendeu inerte, para a frente...
Minamura Inokichi Minamoto no Motoaki, de vinte e cinco annos, escreveu no seu ultimo momento de vida uma curta poesia, que era assim:—«Condemnam me; não discuto a minha morte; servirá ella de pretexto á justiça do futuro, que decidirá se, para honra da patria, devem ser expulsos os barbaros.»—Nishimura Saheji Minamoto no Ujiatsu, de vinte e quatro annos, escreveu o seguinte:—«Não me pesa o morrer, a vida passa como o orvalho desapparece com o vento; uma coisa me afflige:—o futuro da patria»—Ikegami Iasakichi Fujiwara no Mitsunori, de trinta e oito annos, escreveu o seguinte: —«É preciso alumiar o espirito da nação; para isto abandono o corpo ao meu paiz;»—este, quando as entranhas lhe caíram, fez menção de atiral-as á cara dos francezes. Oishi Jinkichi Fujiwara no Yoshinobu, de trinta e oito annos, escreveu o seguinte:—«Façamos hoje o sacrificio da vida, com o maior respeito, pois somos todos filhos d'este paiz dos deuses.»—Sugimoto Shirogora Minamoto no Yoshinaga, de trinta e quatro annos, escreveu o seguinte:—«Sinto o coração feliz pela agonia que soffro, ao dar a vida pela patria;» este, por um gesto respeitoso, offereceu as entranhas aos francezes. Katsugase Saburoku Taira no Ioshihaya, de vinte e oito annos, escreveu o seguinte:—«Ninguem póde abalar no animo d'um samurai o sentimento que tributa ao seu senhor.»—Iamamoto Tetsusuka Minamoto no Toshiwo, de vinte e oito annos, escreveu o seguinte:—«Muitos condemnam a alma do samurai; pensarão de outro modo aquelles que bem a conhecem.»—Morishita Mokichi Fujiwara no Shigemasa, de trinta e nove annos, escreveu o seguinte:—«Abramos o caminho aos ignorantes, a fim de alumiar o mundo.»—Kitashiro Kensuke Minamoto no Katayoshi, de trinta e seis annos, escreveu o seguinte:—«Para legar o seu nome á posteridade ha um meio: o sacrificio da vida.»—Inada Kwannoyo Fujiwara no Norashige, de vinte e oito annos, escreveu o seguinte: —«Os japonezes não temem de perder a vida; tambem a cerejeira, rainha das arvores pelas suas flôres, perde um dia essas flôres.»— Yanagase Tsuneshichi Fujiwara no Yoshiyoshi, de vinte e seis annos, escreveu o seguinte:—«Sacrifiquemos aqui as nossas vidas, e mostremos aos estrangeiros o que vale a nobre coragem japoneza.»—Contando bem, são onze já. Parou aqui a scena, porque o commandante do Dupleix, notando já onze mortos para expiação dos onze crimes, deu-se por satisfeito, pediu que cessasse aquelle espectaculo assombroso. Dos samurais perdoados, um suicidou-se em breve trecho, dando de barato a graça pela honra de morrer com os seus; os outros dispersaram-se; vive um ainda hoje, presumo que em Nagoya, um interessante velhinho, que reconta de bom grado as peripecias d'aquelle horrivel drama.
Os onze samurais foram alli mesmo enterrados, no cemiterio, junto ao templo. Ainda ha pouco lá estive. O templo é um placido retiro de sombra e de silencio, tam velho, que ha alguns mezes um rijo vendaval quasi o desfez em pó.
Os peregrinos visitam primeiro um jardim interior, onde uma arvore sagrada, um enorme sagueiro, occupa o espaço todo, lançando em volta as suas palmas verdes. A lenda dá-lhe mui longos annos de existencia, e reza que ha quasi quatro seculos o shogun Nobunaga tanto se agradou d'aquella arvore, que mandou arrancal-a e transportar para um dos seus jardins; mas tanto se mirrava o sagueiro, e tanto se lamentava noite e dia, que não houve remedio senão trazel-o de novo ao velho poiso.
Do jardim, passa-se ao pequeno cemiterio. As sepulturas, apresentando a fórma de cubos de granito, aconchegam-se, agrupam-se n'uma intimidade commovente; por entre as pedras, tufam e florescem as azaleas e verdejam os musgos, e mãos piedosas vêem depôr ramos de flôres e de verdura. Entre estas sepulturas contam-se as dos onze samurais. Mais adeante, as urnas de charão que serviram ao supplicio, alinham-se n'um altar, e ainda se distinguem manchas negras, do sangue derramado.