Paisagens da China e do Japão

Wenceslau de Moraes · Capítulo 6 de 20

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Paisagens da China e do Japão

O Cavallo Branco de Nanko

A fabula, segundo observa, e com criterio, o auctor japonez que consultei a tal respeito, offerece duas lições de alta moral. Uma é esta: a mulher que pretenda conservar um bom marido, deve captival-o pela barriga, isto é, pelo esmero do seu repasto; parecendo averiguado que o estomago é o orgão mais sensivel, e porventura o mais grato, do homem, o rei da creação. A outra lição é a seguinte: o marido que deseje manter a harmonia do seu lar, nunca interfira na toilette intima da consorte; porque, isto de damas, —com sua licença,—todas lá têem o seu rabo, ou escama, ou barbatana, coisa emfim que melhor é não seja conhecida, em proveito dos dois, e em conformidade com o codigo inedito do amor, capitulo Illusões, artigo... esqueceu-me agora o artigo, meus senhores.

 

1899.

 

O CAVALLO BRANCO DE NANKO

 

A C C

 

Isto aconteceu ha cerca de mil annos, em terras japonezas: um cavallo, que o grande artista Kanaoka desenhára n'um biombo do templo de Ninnadji, perto de Kioto, era uma tão bella creação, cheia de verdade e palpitante de vida, que todas as noites se escapava do papel para ir galopar pelos campos em roda, culturas fóra, devastando a esmo as sementeiras; e o caso dava-se, claramente, com magno espanto e raiva dos camponios, que o perseguiam á pedrada. Estes camponios, impressionados pelas fórmas incomparaveis do animal, persuadiram-se por fim de que elle não podia ser outro senão o cavallo de Kanaoka; e a persuação converteu-se um dia em certeza absoluta, quando viram na pintura as patas do travesso, humidas ainda da lama fresca dos caminhos. Sem mais cerimonias, arremetteram contra a tela e esfuracaram-lhe os olhos; e consta que nunca mais houve queixas de estragos nas fazendas.

 

Ainda outro cavallo de Kanaoka, que era mestre no genero, cavallo desenhado n'uma parede interior do palacio imperial, tinha o vezo de ir devorar pelos jardins as flores tenras do açafrão; e só cessou a brincadeira quando alguem se lembrou de retocar a obra, amarrando o patife á parede com um pedaço de corda pintada para o effeito.

 

Ora bem. De muitas maravilhas é sem duvida capaz a mão inspirada d'um artista!... Esses dois cavallos de Kanaoka, nascidos d'uma gotta de tinta e de algumas curvas humoristicas de pincel, mas em todo o caso ungidos do sopro sublime do eximio mestre, animavam-se por momentos, soltavam-se da tela, e ahi iam elles!... Felizes bohemios eram e felizes tempos eram. Arte creadora, arte radiosa das epochas passadas, porque não vaes tu regendo, ainda e sempre, os destinos de todas as coisas d'este mundo?...

N'estes dias que correm, deslavados e tristes, mesmo no Japão, e não cessando de divagar no mesmo assumpto de cavallos, confesso francamente a quem me lêr, que nada me mortifica tanto como o espectaculo dos cavallos sagrados dos templos shintoistas. Ora aqui estão umas cavalgaduras bem authenticas, bem vivas, bem reaes, de carne e osso; e que, se fossem lidas em coisas de arte antiga nacional—mas não são,—por certo muito invejariam as simples creações no papel da mão de Kanaoka. N'este paiz japonez, onde parece que os seres, homens e bichos, nasceram e vivem n'um banho perenne de sorrisos, mais desoladora se afigura ainda a condição dos pobres brutos, que um dia inspiraram estas linhas melancholicas que escrevo.

 

Se pretendo ser de certo modo comprehendido nas divagações que vão seguir-se—e é obvio que pretendo,—convem que me detenha um pouco, fallando de templos shintoistas em geral. O shintoismo, da palavra shinto (a estrada dos deuses), é a crença primitiva, patriarchal, das epochas remotas no Japão; e conservada até hoje, a despeito da grande propaganda de Buddha que se fez e se faz, é ainda a religião nacional, a religião do Estado. O shintoismo é a adoração pelo sol, pelo Imperador seu filho, por todas as forças da creação, pelas divindades protectoras, pelos genios, pelos nobres, pelos heroes e pelos sabios. O templo de shinto é o recinto consagrado a uma d'essas invocações. Distingue-se antes de tudo pelo torii, o grande arco de pedra ou de madeira avisinhando do logar, e como que indicando o caminho ao peregrino. Torii quer dizer descanço dos passaros; e assim ficamos já com uma noção primeira e delicadissima na essencia, aprendendo que no campo sagrado tudo é paz, tudo é remanso, pois que até aos pardaes, cançados dos vôos doidos que fizeram á aventura, se offerece um poleiro protector onde descancem. Ao torii succedem-se o amplo portal e o vasto espaço murado; e lá dentro, symbolos, alfaias

d'uma religião toda de amor, são a

paisagem graciosa, os jardins

verdes, os bosques frescos, as

rochas musgosas, os lagos quietos; aqui é a cisterna

destinada ás abluções preliminares dos crentes; alli são

as monumentaes lanternas de

granito, esverdeadas pelos annos;

além o nicho escarlate votado a

Inari, raposa, Deus do arroz, não

sei que mais, em todo o caso

coisa muito santa; depois as

construcções ligeiras, de madeira

nua, dispersas, e onde em dias

festivos as donzellas do culto

dançam ao som de estranhos

ritornellos, ou silenciosos officiantes abençoam as multidões, agitando sobre as

cabeças reverentes um penacho

de papel branco, emblema de pureza.

Nos templos mais faustuosos, não faltará outro accessorio: o nicho garrido, a pequenina estrebaria, onde o cavallo sagrado mastiga eternamente a insipida palha do seu officio. O deus, ou genio do templo, tem o seu cavallo de estado; é justo. É geralmente um cavallito albino, de pello branco e olho azul celeste, talvez porque se ligue uma certa idéa de candura a tal enfermidade. O deus serve-se d'elle como entende; alguem, a quem pergunto informações do cargo, diz-me que é o Ó tsukae mono... assim como quem diz: o nobre moço de recados. Admittamos pois que faz em regra os recados do deus, o que é já muito, e um alto mister, e por isso é

sagrado e tem honras de santo; e em lances difficeis, mais distinctos serão ainda os seus serviços. Ardeu ha mezes um dos mais famosos templos do Japão, em Yamada; não sei que coisas do culto foram depois encontradas ao abrigo e longe do sinistro;—foi o cavallo que as transportou para lá.—É voz do povo que em Osaka, em dois templos de shinto, desappareceram os cavallos quando rebentou a ultima guerra com a China;—está-se mesmo a perceber que as almas d'esses deuses montaram nos ginetes para irem aos campos do inimigo, abençoar as tropas de Nippon.—Taes casos, porém, são raros, são rarissimos, n'esta epocha positivista, tão escassa de milagres; e os cavallos brancos sagrados vivem e morrem amarrados á mangedoira, passeando uma só vez em cada anno, no dia da festa do templo, encorporados então triumphalmente á procissão, que percorre as ruas da cidade. É o encerro absoluto, é a constante immobilidade tediosa, sem mesmo as furtivas escapadelas dos cavallos pintados de Kanaoka. A palha abunda-lhes; acercam-se d'elles as creanças e as mulheres, que os adoram, e compram á velha, que por alli está cerca do estabulo, montinhos de feijões cozidos, que offerecem sobre as palmas das

mãos rosadas, aos focinhos nostalgicos dos rocins.

 

Eu conheço uns poucos d'esses brutos, mas tenho mais intimas relações com o de Nanko, um templo aqui em Kobe, celebre, dedicado á memoria de Kusunoki Masashige, que foi um nobre guerreiro e patriota.

No amplo santuario do templo estabeleceu-se uma feira permanente, dia e noite, mas principalmente de noite, atractiva e frequentada por passeantes e devotos. A vida inteira japoneza passa, perpassa aqui; quem já folheou os albuns de desenho de Hokusai, e n'elles se interessou, deve depois votar horas inteira No amplo santuario do templo estabeleceu-se uma feira permanente, dia e noite, mas principalmente de noite, atractiva e frequentada por passeantes e devotos. A vida inteira japoneza passa, perpassa aqui; quem já folheou os albuns de desenho de Hokusai, e n'elles se interessou, deve depois votar horas inteiras a esta historia viva e flagrante do povo de Nippon; e assim completar, quanto possivel, a noção que haja formado d'este povo, um dos mais interessantes, e o mais sympathico talvez, do mundo inteiro.

 

A gente afflue de toda a parte, d'aqui, d'alli, d'alem... Junto ao portal, condensa-se o formigueiro humano, em centenas, em legiões de cabecinhas; a pouco e pouco, sedas roçando sedas, risos correspondendo a risos, vae-se entrando, ao som d'um continuo ruido de sóccos e sandalias, que se arrastam pelo lagedo resonante. Na escuridão da noite, o recinto define-se a principio como um negrume vago, complicado de sombras de arvoredo, cheio de gente e de myriades de luzinhas bruxoleantes. Depois os olhos habituam-se. Vae por ahi fóra, direitinha ao templo, a grande rua principal, bordada de arvores varias, lageada; pelos lados espraia-se o labyrintho das passagens, por entre os alinhamentos das barracas, das tendas, das quitandas, armadas de improviso, estiradas pelo chão; e é, á luz frouxa das lampadas, a exposição phantastica das côres, chispando em disparates como n'um campo immenso de kaleidoscopo, correspondendo ás mil industrias que se estendem... Roupas, perfumarias, livrinhos, bocetas, charões, porcellanas, cachimbos, ferramentas, utensilios domesticos, bolos, brinquedos, flores, plantas, tudo: a industria inteira do Japão, se condensa, coalha em museu. Alem algumas chayas vendem refrescos; as creadinhas convidam a turba a que se acerque. Mais longe, são os theatros populares, um cobre por entrada:—cães sabios, athletas, abortos, serpentes, panoramas;—ou a sala do hanashi, da palestra, onde um patusco entretem os freguezes, contando-lhes historias. N'um espaço mais livre, um sujeito com um graphophone, um dentista, um inventor de remedios milagrosos, discursam, explicam, prophetizam.

 

O formigueiro humano ondula, alastra se, sem designio, á aventura. As sociedades occidentaes nada nos offerecem de parecido. Isto, aqui, é a multidão, sem pressas, sem gritos, sem exasperos, tal como nol a apresentam todas as grandes tribus do Oriente; é o cardume de gente, retida na praça publica como o sargaço em mares tranquillos; aqui, quadro requintadamente gentil e sorridente, inconfundivel, mas que ainda nos recorda as agglomerações da plebe nos templos de Cantão ou nos bazares de Aden, ou do Cairo; e, subindo nos tempos e retrogradando em espirito vinte seculos, quasi nos desdobra aspectos vividos, embora fugidios, da Jerusalem biblica, nos seus magotes de homens vestidos de tunicas rojantes, vagueando, palestrando de manso, alongando os braços nús em gestos calmos e solemnes.

Querer inventariar os typos, fôra insania,—é a massa inteira popular despreoccupada, risonha, gosando de viver.—Passam familias,—o pae, a mãe, um filho preso ao seio e os outros pela mão;—ranchos de soldados e ranchos de marujos; ranchos de raparigas; moços, alguns indo caminho do bairro dos prazeres, Fukuwara, que está perto; peregrinos; mendigos; vadios; larapios; extrangeiros. Os garotos assopram nas trombetas que compraram, ou mordem em bolos ou em fructos. Aquella musumé fresca, vestida apenas do seu kimono de verão, azul e branco, já vae de volta; e leva dependurada das mãositas uma gaiola em miniatura, cheia de reluzentes pyrilampos. Uma velha rejubila com o vaso de bellos lirios que mercou. É aqui em Nanko, no mercado especial das plantas, que se revela bem o mimo d'esta gente em jardinagem,—delicados arbustos, havendo merecido longos disvelos de cultura, selecção graciosa de florescencias;—e é de ver-se o afan na escolha, o brilho dos olhitos cubiçosos, dos grupos em roda da exposição dos pinheirinhos, das cerejeiras, dos bambus, dos chrysanthemos, dos lirios, da wisteria.—O espirito simples, o desejo facil de contentar, a puerilidade quasi infantil, estampa-se em todos esses rostos, e dom gentil da mão industriosa, resalta de todos os artigos. Quem tiver duas moedas de cobre na bolsinha—e todos as terão,—póde comprar um objecto de arte; compra-o sem duvida, e no jubilo da face transparece a alegria plena d'uma alma satisfeita. D'essa manifesta innocencia de sentimentos, d'essa psychologia alheia de complicações e de tormentos, deve em rigor deprehender-se uma superioridade de raça, uma animalidade esplendida e exhuberante, muito distanciando-se da vibratilidade morbida das raças exhaustas do Ocidente; e é isto que vagamente se adivinha na esbelteza dos vultos que vão passando, na flexibilidade harmonica das curvas, no jogo pathetico da mimica, na confiança serena com que o pé dominador poisa no chão. Feliz povo! Feliz povo de hontem, de hoje, e possivelmente de amanhã... Não é outra a conclusão sincera do nosso exame passageiro.

No entretanto, a um canto, no estabulo garrido, boceja o cavallo branco sagrado de Kusunoki Masashige. Por velha sympathia, procuro-o sempre, e passo quasi horas inteiras, a vêl-o, a namoral-o. Quantos annos terá de sacerdocio? Dez annos? Quinze annos?... Não lhe despertam zanga nem prazer as minhas visitas repetidas. Cabeça baixa, o olho azul mortiço, parece nada querer, nada sentir, nada soffrer e nada desejar. É quasi de papelão, á força de insipidez, o garranito. Ao burburinho, á luz, ás côres, ás musicas distantes, é insensivel. Ao bello verde do arvoredo é insensivel; pelos modos, não se recorda já das paizagens por onde espinoteou... O seu olho azul-celeste, vitreo, provavelmente myope, relancea com a mesma apathica frieza, as mil scenas do acaso; á gente que o encara,—ralé da praça publica, garotos, cavalheiros, acaso um general, acaso um conde, acaso um inglez de nobres pergaminhos,—vota a mesma indifferença irreverente que ás moscas importunas que poisam, por enxames, sem que o commovam, na mucosa descorada da sua pobre focinheira. Só uma vez, presumo, o vi enternecido: relinchava uma egua algures, longe sem duvida; levemente se lhe agitaram as orelhas, como se uma vaga reminiscencia, penso eu, pelo bestunto lhe corrêra; e pareceu-me então vêr o seu olho azul-celeste arrazar-se de lagrimas, pareceu-me... Ás vezes, avança de bom grado a lingua, a ir lamber as mãos das raparigas; por capricho talvez, e por habito, porque são aquellas mãos que costumam offerecer-lhe, como obulo piedoso, os feijões cosidos comprados á velhita que por ali anda, proximo do estabulo...

 

Eis todo o seu romance.

E mais nada. Disse tudo. Se alguem, por mais curioso, quizer ainda arrancar-me o segredo d'esta minha estranha sympathia pelos cavallos sagrados dos templos de shinto,—tanto mais estranha sympathia, quanto é certo que não me accusa a consciencia de jámais ter pertencido a qualquer sociedade protectora de animaes,

—aqui lhe offereço, a esse alguem, a seguinte estupenda confidencia. No Japão, se não erra o meu juizo, só os cavallos dos templos são tristes. Elles, e eu. Ha entre nós mysteriosas analogias; não gracejo. Após longos estudos da propria carcassa, acabo de concluir—imaginem o quê!...—que tambem sou albino. Não pela anomalia congenita da falta de pigmento corante da pelle, dos cabellos e dos olhos, concordo; albino psychico porem—não sei se me faço perceber...—albino na alma dolente, na vibratilidade exangue, na apathia da vida, após os mil baldões da sorte, e desfeita no ar a ultima bola de sabão das minhas illusões. Do meu poiso, que comparo sem grande esforço ao estabulo de Nanko, assisto ao contorno

das scenas e ao

perpassar da turba;

mas alheado de tudo, e

esquecido até das

saudades da paizagem

serena onde vivi os

meus primeiros annos.

Alvoroços de affectos?

amores? fazem favor

de me dizer para onde

fugiram essas

chimeras aladas da

minha pobre

juventude?... Quando

muito, como o cavallo

de Nanko, mas ainda mais desinteressado do que elle, porque me sinto naturalmente excluido do quinhãosito de feijões que pode seduzil-o, quando muito, se deviso essas musumés, com as suas mãositas muito alvas, muito mimosas, tenho por essas mãos, vagas ternuras: aqui, n'este meio onde me vejo, são-me ellas o emblema dos carinhos do sexo delicado; e incutem no meu espirito uma noção de paz possivel,—aqui, algures, não sei onde,—no lar da familia, quando abençoado pelos fados...