Peças de Teatro de Camilo Castelo Branco
Cena Iv
MORGADO
JOÃO LEITE, e OS QUE ESTÃO JOGANDO
LEITE
Senhor morgado, tem dito coisas que não parecem suas.
MORGADO
Pois aí tem! O senhor pensava naturalmente que eu vinha à capital aprender a falar ás senhoras!... Nós, lá em Fafe, estamos civilizados.
LEITE
Pois em nome da civilização de Fafe, é que eu peço a Vossa Senhoria que modere a sua língua.
MORGADO
Pelo que vejo, quem vem a Lisboa há de moderar a língua! Acho que o diz bem, e que o faz melhor, Sr. Leite. É por isso que o senhor, desde que entrou nas cortes, não disse palavra. Há de ser por isso. O meu amigo Sr. Leite, quando falava aos convícios populares, lá na nossa terra, falava pelos cotovelos. Mas isto cá, pelos modos, muda muito de figura. Pois dou-lhe a minha palavra de honra, que, se eu fosse deputado, havia de falar quando fosse preciso, e mais não estudei gramatica nem matemática. Um bom deputado tem sempre que dizer. Eu tanto pedi ao senhor que arranjasse cá com o governo a passar-me a estrada à porta, mas o senhor não fez caso, nem respondeu à carta do boticário que lhe pedia um hábito de Cristo... Palpita-me que V. S.A. não torna cá...
LEITE
Falaremos a esse respeito oportunamente: o que eu agora encarecidamente lhe peço é que não fale tanto, nem dê aso a que seriam de V. S.A. — As suas excelentes qualidades, regidas pela prudência e comedimento, habilitam-no a dar-se na sociedade uma posição digna do seu nascimento e riqueza. Em Lisboa pesam-se as palavras, e o provinciano, que se não coíbe, é sempre alvo do escárnio.
MORGADO
Com que então em Lisboa pesam-se palavras! É por isso que o senhor ainda não deu meia oitava delas nas camaras... (Rindo e abraçando-o.) Isto é chalaça, meu janota... Não se assuste. Em quanto eu for vivo, há de o senhor ser sempre deputado; mas não se esqueça daqueles termómetros de estrada em que lhe falei... O senhor o que tem?! Está a pensar, com um rosto tão assombrado! Isso, em quanto a mim, é paixão de alma por alguma das feiticeiras cá da casa... Diga a verdade...