Peças de Teatro de Camilo Castelo Branco

Camilo Castelo Branco · Capítulo 2 de 53

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Peças de Teatro de Camilo Castelo Branco

Baronesa

Credo! Que falario as meninas fazem!

 

PESSANHA

É novidade, prima... Deixe-as deprimir os poetas, que o incenso não as enjoa.

 

BARONESA

Olhe, primo, contra os poetas acho eu que tudo o que se diz é pouco, porque os poetas de agora já nem sequer servem para entreter senhoras numa sala. No meu tempo, quando eu era muito menina, sim, aqui há quinze anos, pouco mais ou menos, os poetas eram uma gente divertida, que alegrava a boa sociedade, glosando moles em décimas e sonetos que todo o mundo entendia. No meu tempo havia em Braga quatro cónegos, poetas de mão-cheia. Que poetas aqueles!... Ai! Que saudade!... Os de agora são todos assim pelo gosto de António Soares, que diz uns versos que não fazem chorar nem rir. E o que mais me espanta e aborrece é estas meninas a dizerem: muito bem! Sublime! Bravo! Gomo se percebessem os versos melhor do que eu, e...

 

PESSANHA

E que o autor... Talvez queira dizer, prima.

 

BARONESA

E os que ele recita ao piano!? Que modas! Acompanhar os versos com polcas!

 

D. LEOCÁDIA (Impaciente)

Oh mãe! Olhe que não vá ele entrar e ouvir! Eu acho os versos de António Soares lindíssimos, inspirados, ardentes de paixão...

 

PESSANHA (A meia voz)

Bravo! Que entusiasmo!... (Alto.) Deve saber, prima baronesa, que a linguagem do coração tem seu progresso, como a linguagem das ciências. Numa época sentimental como a nossa, o vocabulário do poeta deve ser deste mundo o menos possível.

 

BARONESA

Olhe primo Luiz Pessanha, eu como falo a linguagem deste mundo, não entendi bem o que me disse, sou franca.

 

PROENÇA

Modéstia, modéstia, senhora baronesa...

 

BARONESA

O que eu quero é que a minha Leocádia seja mais temperada no falar, e que estas meninas se pareçam com a sua mãe, que Deus haja, que ora uma senhora acabada a todos os respeitos.

 

AS TRÊS DAMAS (simultaneamente):

1ª DAMA A Esta cruel, a tia baronesa!

2ª DAMA Não desculpa nada! A gente lia de ser muda!

3ª DAMA Quer por força que sejamos velhas no alvorecer da vida.

 

BARONESA

Vejam, vejam que mau costume as meninas têm de chilrearem todas ao mesmo tempo! Hei de ralhar, quando o merecerem, porque as amo. A sua mãe, se fosse viva, havia de dizer-lhes o mesmo.

 

BARÃO (Da mesa onde joga.)

Ó Felizarda, o chá demorasse. São sete horas e meia.

 

BARONESA

Esperávamos o João Leite e o amigo que ele quer apresentar; mas eu dou as ordens. (Sai.)

 

PESSANHA (Despeitado.)

Estou maravilhado, prima Leocádia!

D. LEOCÁDIA

De quê, primo?

 

PESSANHA (Irónico.)

Dos inspirados, lindíssimos e ardentes versos de António Soares.

 

D. LEOCÁDIA

Pois não são!? Triste coisa! Porque António Soares não é rico, até o talento lhe querem desdenhar!