Peças de Teatro de Camilo Castelo Branco

Camilo Castelo Branco · Capítulo 53 de 53

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Peças de Teatro de Camilo Castelo Branco

Cena Xv

LUIZ PESSANHA, BARÃO, BARONESA, JOÃO LEITE, MORGADO,

D. LEOCÁDIA E AS TRÊS DAMAS

 

PESSANHA (tomando o chapéu)

Duas palavras somente, primo barão. Desquito-o da sua palavra de honra. Retiro-me vexado de lha ter pedido como fiança daquela senhora. Quando sua filha tiver um marido que a distancie daqui, continuarei a ser o amigo frequentador doesta casa. (O morgado d esquerda observando).

 

BARÃO

Primo Pessanha, o facto da minha filha ter desmerecido no seu conceito não deve afugenta-lo desta casa. Ouso até dizer-lhe, que a honra da minha casa não sai dela com a vossa Exa. Para minha filha há de haver sempre um marido que possa estender a mão a Vossa Exa.

 

PESSANHA

Eu é que não sei se poderei aceitar-lha. Para uma mulher há diferentes degradações na escala humana.

 

D. LEOCÁDIA

Há uma terrível. . . podia havê-la para mim . . . Dessa estou eu salva, porque nunca serei sua, Sr. Pessanha.

 

PESSANHA (irónico)

Conta com os seus adoradores, minha senhora? Tem dois na sua presença: um pediu-a ao seu pai; e o outro confessou na presença de todos nós uma paixão que o há de matar. Escolha. (Arreda-se para a esquerda)

D. LEOCÁDIA

Eu não escolho; rejeito-os a todos.

 

LEITE (Avança.)

Era escusado escolher, minha senhora. na minha alma há uma parte ferida de morte; mas há uma outra, a da honra invulnerável. Não vim pedi-la para minha mulher; vim despedir-me. Cumpri, e se ainda aqui estou, foi porque o Sr. Barão pediu o meu testemunho num espetáculo de que levo uma impressão que me há de curar.

 

BARÃO

Teve uma ridícula ideia, Sr. Leite, rejeitando minha filha que ninguém lhe ofereceu. Saibam o Sr. Pessanha e o Sr. Leite, que a mão de Leocádia pertence ao meu presado e honrado amigo, o Sr. Morgado de Fafe.

 

MORGADO

Eu vou-me embora também, Sr. Barão. Estes dois. Senhores deram as suas razões, eu dou as mesmas razões, e mais uma, e é que não quero casar, por quatro razões; — primeira, porque meu irmão frade diz: «Antes que cases, olha o que fazes; segunda porque...

 

BARÃO

Basta. Saiam todos da minha casa...

 

MORGADO

A segunda porque acho que está no seu direito.

 

BARÃO

Torno-lhe a dizer, senhor, que...

 

MORGADO

A terceira... Porque... Está no seu direito, o como não quer ouvir, sem mais...

BARÃO

É de mais. Já, já fora.

 

(Saem todos.)

 

BARONESA (Caindo desfalecida numa cadeira, as damas a rodeiam.)

Oh! Meu Deus, um insulto destes!... Na minha idade...

 

MORGADO (Tornando a entrar.)

Oh! O meu chapéu; queiram perdoar, porque me tinha esquecido o chapéu.

(Pega no chapéu faz uma reverencia e salte a um sinal do barão. Cai o pano.)

 

FIM

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