Peças de Teatro de Camilo Castelo Branco
Cena Xiv
OS MESMOS E ANTÓNIO SOARES
BARÃO
Entre sem acanhamento nem vergonha, Sr. Soares.
MORGADO
Isso faz ele...
BARÃO
Leocádia Ernestina de Magalhães requer dispensa de consentimento paterno para casar com António Soares de Carvalho. É um requerimento ocioso. Dá-se amplo consentimento. Saibam, porém, os noivos que não tem a haver desta casa um ceitil. Os meus haveres hei de realizá-los em moeda dentro de quarenta e oito horas, e depois irei com a minha mulher para o estrangeiro, onde me não chegue a notícia do arrependimento de dois desgraçados. Casem-se, embora, mas não apelem para a minha compaixão, quando a penúria lhes bater à porta. A miséria há de castiga-los, mas eu quero, e hei de ignora-la, porque me não deleito na vingança. Disse. (Senta-se.)
(Silencio longo.)
BARONESA
Leocádia, minha infeliz filha, teu pai quer salvar-te... Ainda é tempo...
BARÃO
Sr. Soares! A sua paixão pela minha filha não lhe inspira uma resolução nobre e admirável na desgraça? Aceite Leocádia pobre. Engrandeça pela indigência o seu amor.