Peças de Teatro de Camilo Castelo Branco
Soares
Pois bem; a Sra. D. Leocádia sabe o resto.
PESSANHA
O resto!
MORGADO
É verdade... O resto! Isso tem que se lhe diga, acho eu.
SOARES
E o Sr. Leite não é estranho ás minhas intenções a respeito da Sra. D. Leocádia, porque eu lhas comuniquei para o poupar à triste figura que tem feito.
BARÃO
E o Sr. Soares não é estranho ás intenções do meu primo Luiz Pessanha a respeito de rainha filha; e a favor dele é que a minha vontade está decidida.
SOARES
Mas a vontade de V. Exa pode ser uma violência, e eu hei de defender a oprimida, cm quanto puder, contra a tirania de quem quer que seja.
BARÃO
O Sr. Soares enlouqueceu. As suas iras estão a provocar o riso... Modere-se. E não me obrigue a lembrar-lhe que estou na minha casa.
SOARES
Eu vou sair, mas é preciso que nos entendamos. Fui aqui ultrajado nesta sala. E não sairei daqui sem saber a quem hei de pedir amanhã uma satisfação. (O barão encolhe os ombros e desce, para subir o morgado.)
PESSANHA (Galhofeiro.)
Quererá o Sr. Soares bater-se comigo.
SOARES
Com o senhor e com quantos forem.
MORGADO (Dando um passo para Soares.)
O senhor é um bazófio! Cá por mim não embarra, porque... Cuidadinho...
BARÃO (Entre os dois)
Tenha a bondade de acomodar-se, senhor morgado...
MORGADO (Rindo.)
Eu estou acomodado, Sr. Barão... Não se assuste... (A Soares.) Pegue lá um rebuçado, e cale-se.
(O barão sobe para falar a Luiz Pessanha.)
SOARES
O senhor é um parvo!
MORGADO
Este menino precisa de criação, por mais que me digam. E eu não se me dava... Sim... Eu não se me dava de... à falta de homens... (Faz em si o trejeito de puxar-lhe uma orelha.)
SOARES
Sr. Leite, amanhã ouvirá de dois amigos meus o que é intempestivo dizer-lhe aqui.
LEITE
Com quanto eu rejeite a responsabilidade das inconveniências proferidas pelo Sr. Morgado, com grave desgosto meu, não poderei receber senão agradavelmente os amigos do Sr. António Soares. Querendo eu, porém, que a sua senhoria tenha causa justa para desafiar-me, dir-lhe-ei na presença destes cavalheiros, que, aspirando eu ao coração de uma senhora, cujo nome respeito muito para proferi-lo, e sabendo que V. S.A. concorria comigo nas mesmas aspirações. Nunca lhe ciaria a consideração de julga-lo meu rival.
MORGADO
Falou bem.
SOARES
Esse novo insulto...
BARÃO
Acabem com isto, senhores; vão discutir na rua a gravidade dos insultos. Não consinto que o nome da minha filha esteja aqui servindo de mote para altercações. (Sobe.)
MORGADO
Apoiado! Apoiado! Também sabe o que diz.
SOARES
Eu queria dizer ao Sr. Leite, que, em resposta ao seu novo insulto, fora desta casa assentar-lhe-ia na cara a mão sem luva.
LEITE (Saindo.)
Sr. Barão, meus senhores, boa noite. (Soares faz menção de sair.)
BARÃO
Os senhores não sairão juntos.
SOARES
Estou que o Sr. Leite aceitará a proposta, que é de suma prudência.
LEITE (Risonho.)
Far-lhe-ei eu medo, Sr. Soares?
MORGADO
Medo! A quem? A isto! (Chega ao pé de Soares.) O senhor vá-se embora; vá com Deus... Mude-se quanto antes, que eu já não o enxergo bem...
SOARES
Não me toque, miserável lorpa, que me suja.
MORGADO (Esfregando as mãos.)
Está-lhe o corpo a pedir folia... Não há remedio...