Peças de Teatro de Camilo Castelo Branco

Camilo Castelo Branco · Capítulo 18 de 53

Páginas do PDF

Peças de Teatro de Camilo Castelo Branco

Soares

Pois bem; a Sra. D. Leocádia sabe o resto.

 

PESSANHA

O resto!

 

MORGADO

É verdade... O resto! Isso tem que se lhe diga, acho eu.

 

SOARES

E o Sr. Leite não é estranho ás minhas intenções a respeito da Sra. D. Leocádia, porque eu lhas comuniquei para o poupar à triste figura que tem feito.

 

BARÃO

E o Sr. Soares não é estranho ás intenções do meu primo Luiz Pessanha a respeito de rainha filha; e a favor dele é que a minha vontade está decidida.

 

SOARES

Mas a vontade de V. Exa pode ser uma violência, e eu hei de defender a oprimida, cm quanto puder, contra a tirania de quem quer que seja.

 

BARÃO

O Sr. Soares enlouqueceu. As suas iras estão a provocar o riso... Modere-se. E não me obrigue a lembrar-lhe que estou na minha casa.

 

SOARES

Eu vou sair, mas é preciso que nos entendamos. Fui aqui ultrajado nesta sala. E não sairei daqui sem saber a quem hei de pedir amanhã uma satisfação. (O barão encolhe os ombros e desce, para subir o morgado.)

PESSANHA (Galhofeiro.)

Quererá o Sr. Soares bater-se comigo.

 

SOARES

Com o senhor e com quantos forem.

 

MORGADO (Dando um passo para Soares.)

O senhor é um bazófio! Cá por mim não embarra, porque... Cuidadinho...

 

BARÃO (Entre os dois)

Tenha a bondade de acomodar-se, senhor morgado...

 

MORGADO (Rindo.)

Eu estou acomodado, Sr. Barão... Não se assuste... (A Soares.) Pegue lá um rebuçado, e cale-se.

(O barão sobe para falar a Luiz Pessanha.)

 

SOARES

O senhor é um parvo!

 

MORGADO

Este menino precisa de criação, por mais que me digam. E eu não se me dava... Sim... Eu não se me dava de... à falta de homens... (Faz em si o trejeito de puxar-lhe uma orelha.)

 

SOARES

Sr. Leite, amanhã ouvirá de dois amigos meus o que é intempestivo dizer-lhe aqui.

 

LEITE

Com quanto eu rejeite a responsabilidade das inconveniências proferidas pelo Sr. Morgado, com grave desgosto meu, não poderei receber senão agradavelmente os amigos do Sr. António Soares. Querendo eu, porém, que a sua senhoria tenha causa justa para desafiar-me, dir-lhe-ei na presença destes cavalheiros, que, aspirando eu ao coração de uma senhora, cujo nome respeito muito para proferi-lo, e sabendo que V. S.A. concorria comigo nas mesmas aspirações. Nunca lhe ciaria a consideração de julga-lo meu rival.

 

MORGADO

Falou bem.

 

SOARES

Esse novo insulto...

 

BARÃO

Acabem com isto, senhores; vão discutir na rua a gravidade dos insultos. Não consinto que o nome da minha filha esteja aqui servindo de mote para altercações. (Sobe.)

 

MORGADO

Apoiado! Apoiado! Também sabe o que diz.

 

SOARES

Eu queria dizer ao Sr. Leite, que, em resposta ao seu novo insulto, fora desta casa assentar-lhe-ia na cara a mão sem luva.

 

LEITE (Saindo.)

Sr. Barão, meus senhores, boa noite. (Soares faz menção de sair.)

 

BARÃO

Os senhores não sairão juntos.

 

SOARES

Estou que o Sr. Leite aceitará a proposta, que é de suma prudência.

 

LEITE (Risonho.)

Far-lhe-ei eu medo, Sr. Soares?

 

MORGADO

Medo! A quem? A isto! (Chega ao pé de Soares.) O senhor vá-se embora; vá com Deus... Mude-se quanto antes, que eu já não o enxergo bem...

 

SOARES

Não me toque, miserável lorpa, que me suja.

 

MORGADO (Esfregando as mãos.)

Está-lhe o corpo a pedir folia... Não há remedio...