Peças de Teatro de Camilo Castelo Branco
Acto II
Outra sala em casa do barão de Caçurrães
CENA I
D. LEOCÁDIA fazendo menção de ler, e AS TRÊS DAMAS
1ª DAMA
É muito linda poesia!
2ª DAMA
Que frescura de frase!
3ª DAMA
Que sabor tão oriental!
D. LEOCÁDIA
E que paixão, não é assim?
AS TRÊS DAMAS
Decerto! Apaixonadíssima! Inspirada!
D. LEOCÁDIA
Soares é um génio. É um milagre do espirito! A alma, bafejada pelo hálito vulcânico daquele seio, sente-se grande e atrevida, não acham?
AS TRÊS DAMAS (Acotovelando-se.)
Decerto.
3ª DAMA
Ó menina lês-nos as duas coplas últimas que são tão harmoniosas e sentimentais?
D. LEOCÁDIA
Pois sim, leio. (Lê.)
Quando entre nuvens cintila
Como em olho de sibila...
2ª A DAMA
Como em olho de sibila... é lindo!
3ª DAMA
Arrebata!
1ª DAMA
Como em olho... Que vaporoso de frase!... Continua menina.
D. LEOCÁDIA (Lendo):
Quando entre nuvens cintila,
Como em olho de sibila,
A fulminante pupila Do meu casto serafim,
Mago dilúvio, odor celeste,
De minha alma onde desceste,
Vai ao céu donde vieste Entre nuvens de cetim.
(Declama.) Tão lindo! Não é?
1ª DAMA
Se é!
2ª DAMA
Endoidece-se de admiração!
3ª DAMA
Eu morria de amores por um homem que me escrevesse isso.
D. LEOCÁDIA
Esta não lhe é inferior. (Lê):
Eletrizam-se-me os seios,
Seios de alma, em devaneios,
Respondendo aos teus anseios,
Flor, inveja dos jardins!
No teu lábio o coral ri-se,
Todo amor, todo meiguice,
Todo céu, todo denguice,
Todo rir de querubins.
1ª A DAMA
Tenho-te inveja, priminha! Assim, compreende-se que uma mulher sacrifique ao talento, riquezas, glórias vãs da terra, a vontade dos pais, o futuro, tudo!
D. LEOCÁDIA
E sacrifico, eu, mulher para quem as outras olham com o desdém da estupidez, devoradas de invejas. Hei de desmentir, com a minha abnegação, os que dizem que a mulher do seculo troca a liberdade da sua alma pelas carruagens, toilettes deslumbrantes, pelo orgulho efémero dos salões, por uma noite de sair rainha de casa da modista para as magnificências de um baile. As primas sabem que diante de mim se correm as cortinas de três futuros. O primo Luiz Pessanha é um rapaz rico. Invejam-mo na melhor sociedade rivais de primeira ordem. Todos os regalos da opulência me esperam neste casamento. Sei que sou amada por ele até ao delírio. O meu casamento seria uma fortuna para duas famílias, e a desesperação das minhas rivais. Mo importa. Rejeito o primo Pessanha, porque não há naquela alma o fogo, o êxtase, o amor doido e vertiginoso de António Soares. Aparece-me João Leite, que não ousa ainda na minha presença balbuciar a declaração do seu amor; mas eu lenho a profunda convicção de que ele, no momento em que um meu sorriso complacente o anime, irá pedir-me ao meu pai. João Leite, além de rico, é deputado, e será brevemente ministro. Não importa. Entre mim e João Leite está uma imagem poética, ideal, e desprendida das mesquinhas glórias da terra. Vejo Soares, amante como o Tasso, e arrobado como Camões, apontando-me para o céu da poesia em que as nossas almas se devem ver à luz da bem-aventurança do amor.
1ª DAMA
Estás arrebatada, menina!
2ª DAMA
Perdida!
3ª DAMA
Para que a interrompem! Era um gosto ouvi-la!
D. LEOCÁDIA
Expandi-me! Sinto-me melhor! Precisava que me ouvissem este protesto contra o materialismo do seculo. Queria que me escutasse muita gente, e que o rubor do pejo subisse ás faces das mulheres para quem o talento, o estro e o poeta não passa de um adorno do Jardim das Damas, ou do Almanaque de Lembranças, queria que...