Peças de Teatro de Camilo Castelo Branco
Leite
Não pude. Sou um idiota ao pó desta mulher. Não me atrevo a dizer-lhe palavra que não seja uma puerilidade ou uma inconveniência.
PROENÇA
A coisa mais parecida com um tolo é um homem de talento apaixonado.
LEITE
É uma paixão de criança esta minha... Leocádia compreendeu-me, e aumenta caprichosamente o meu embaraço com o olhar interrogador que me lança...
MORGADO
Ó Sr. Leite. (Levanta-se.) Este autor chamado “Ro-us-se-au-x” de que trata? É da moléstia do gado vacum?
LEITE (Abstraindo.)
Não, não é.
MORGADO
É porque está aqui episode, e pensei que isto queria dizer epizootia.
PROENÇA (Rindo.)
É impagável este homem! Penso que o mandaste buscar à província para te distrair.
LEITE
Refinou na sandice, desde que chegou a Lisboa. Tem-me vexado aqui hoje, e o ridículo dele pode refletir em mim aos olhos de Leocádia.
PROENÇA
Não é isso natural; pode ser até que Leocádia te agradeça este debique... Vamos, animo! Sai desta posição equívoca; declara-te.
MORGADO
É segredo?
LEITE
Não senhor.
PROENÇA
Se não queres dizer-lho, escreve-lhe. Posso asseverar-te que tens a estima da baronesa, e a do barão hás de conquista-la por intermédio da filha.
LEITE
E poderei disputa-la ao primo e ao Soares?
PROENÇA
Não há rival invencível. A mulher que tem mais de um adorador, mostra que não lhe agrada nenhum. Se se deixa incensar por dois, é porque espera o incenso de um terceiro.
LEITE
Leocádia é uma mulher excêntrica.
PROENÇA
Por isso mesmo.
LEITE
Todas as vezes que eu encaminho a conversação de modo que a declaração ocorra naturalmente, ela adivinha-me, e interrompe com alguma frase desdenhosa, que me deixa... Que me deixa...
MORGADO
Atrapalhado?... Eu logo vi que o senhor estava namorado da filha do dono da casa. Já vê que não sou tolo...
PROENÇA (Risonho.)
É verdade, Sr. Morgado. O nosso amigo está apaixonado pela Sra. D. Leocádia, mas não lho diz. Que remedio daria V. S.A. a isto?
MORGADO
O remedio é dizer-lho; pois então?
PROENÇA
Vês, Leite. Aqui tens uma opinião ilustrada que corrobora a minha.
MORGADO
Pois cá em Lisboa é moda a gente não dizer a uma rapariga que a ama, quando sente no interior o fogo da simpatia?
PROENÇA
O amor sublime tem estas esquisitices, meu caro senhor. e a vossa Senhoria nunca se sentiu acanhado ao pé da mulher querida?
MORGADO
Eu não, senhor. Digo-lhe tudo o que me vem à ideia, e, se me ficam a talho de fouce, beijo-lhe a mão, e caiu de joelhos, como se faz na comédia; é o meu sistema. O Sr. Leite sabe o que eu tenho feito lá por Fafe; ele aí está que o diga... O senhor conhece a Teresinha do Aidro, e a Joana do Reguengo de baixo...
LEITE (Sorrindo.)
Muito agradecido à sua bondade...
MORGADO
O ratão já se ri. Já está com melhor ar... Pois diga à menina que lhe quer bem, e o mais deixe-o pela minha conta... Quer o senhor uma coisa? Digo-lho eu.
LEITE (Rindo.)
Muito agradecido à sua bondade...
MORGADO
Isto é sério... Os amigos conhecem-se nas ocasiões.