Peças de Teatro de Camilo Castelo Branco

Camilo Castelo Branco · Capítulo 13 de 53

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Peças de Teatro de Camilo Castelo Branco

Leite

Não pude. Sou um idiota ao pó desta mulher. Não me atrevo a dizer-lhe palavra que não seja uma puerilidade ou uma inconveniência.

 

PROENÇA

A coisa mais parecida com um tolo é um homem de talento apaixonado.

 

LEITE

É uma paixão de criança esta minha... Leocádia compreendeu-me, e aumenta caprichosamente o meu embaraço com o olhar interrogador que me lança...

 

MORGADO

Ó Sr. Leite. (Levanta-se.) Este autor chamado “Ro-us-se-au-x” de que trata? É da moléstia do gado vacum?

LEITE (Abstraindo.)

 

Não, não é.

 

MORGADO

É porque está aqui episode, e pensei que isto queria dizer epizootia.

 

PROENÇA (Rindo.)

É impagável este homem! Penso que o mandaste buscar à província para te distrair.

 

LEITE

Refinou na sandice, desde que chegou a Lisboa. Tem-me vexado aqui hoje, e o ridículo dele pode refletir em mim aos olhos de Leocádia.

 

PROENÇA

Não é isso natural; pode ser até que Leocádia te agradeça este debique... Vamos, animo! Sai desta posição equívoca; declara-te.

 

MORGADO

É segredo?

 

LEITE

Não senhor.

 

PROENÇA

Se não queres dizer-lho, escreve-lhe. Posso asseverar-te que tens a estima da baronesa, e a do barão hás de conquista-la por intermédio da filha.

 

LEITE

E poderei disputa-la ao primo e ao Soares?

PROENÇA

Não há rival invencível. A mulher que tem mais de um adorador, mostra que não lhe agrada nenhum. Se se deixa incensar por dois, é porque espera o incenso de um terceiro.

 

LEITE

Leocádia é uma mulher excêntrica.

 

PROENÇA

Por isso mesmo.

 

LEITE

Todas as vezes que eu encaminho a conversação de modo que a declaração ocorra naturalmente, ela adivinha-me, e interrompe com alguma frase desdenhosa, que me deixa... Que me deixa...

 

MORGADO

Atrapalhado?... Eu logo vi que o senhor estava namorado da filha do dono da casa. Já vê que não sou tolo...

 

PROENÇA (Risonho.)

É verdade, Sr. Morgado. O nosso amigo está apaixonado pela Sra. D. Leocádia, mas não lho diz. Que remedio daria V. S.A. a isto?

 

MORGADO

O remedio é dizer-lho; pois então?

 

PROENÇA

Vês, Leite. Aqui tens uma opinião ilustrada que corrobora a minha.

 

MORGADO

Pois cá em Lisboa é moda a gente não dizer a uma rapariga que a ama, quando sente no interior o fogo da simpatia?

PROENÇA

O amor sublime tem estas esquisitices, meu caro senhor. e a vossa Senhoria nunca se sentiu acanhado ao pé da mulher querida?

 

MORGADO

Eu não, senhor. Digo-lhe tudo o que me vem à ideia, e, se me ficam a talho de fouce, beijo-lhe a mão, e caiu de joelhos, como se faz na comédia; é o meu sistema. O Sr. Leite sabe o que eu tenho feito lá por Fafe; ele aí está que o diga... O senhor conhece a Teresinha do Aidro, e a Joana do Reguengo de baixo...

 

LEITE (Sorrindo.)

Muito agradecido à sua bondade...

 

MORGADO

O ratão já se ri. Já está com melhor ar... Pois diga à menina que lhe quer bem, e o mais deixe-o pela minha conta... Quer o senhor uma coisa? Digo-lho eu.

LEITE (Rindo.)

Muito agradecido à sua bondade...

 

MORGADO

Isto é sério... Os amigos conhecem-se nas ocasiões.