Peças de Teatro de Camilo Castelo Branco

Camilo Castelo Branco · Capítulo 15 de 53

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Peças de Teatro de Camilo Castelo Branco

Morgado

Insulto nervoso acho que é o mesmo que faniquito... Ela tem razão... Aposto que foi esta! (indica Leocádia) Eu bem sei que ela há de viver amofinada...

 

D. LEOCÁDIA

Eu?! Porque?

 

MORGADO

Eu bem sei, magana...Nós faltaremos. O amoré como as toupeiras, que se não dão bem com a luz do dia... Veja se me entende...

 

D. LEOCÁDIA

Eu? Não! Que sabe? Diga...

 

MORGADO

Sei o que a menina sabe, mas finge que não sabe, porque sabe que... Sim a menina bem sabe que... (Leite puxa-lhe pela aba da casaca.) O senhor rompe-me!

 

AS TRÊS DAMAS (ao mesmo tempo):

1ª DAMA Diga, diga o que é.

2ª DAMA A Leocadiasinha não sabe nada.

3ª DAMA Diga, diga, Sr. Morgado!

 

MORGADO

Isso há de ser só a ela...

 

D. LEOCÁDIA

A mim só! Ai que graça! Quer propor-me casamento...

 

BARONESA (Severa.)

Menina! Que palavra é essa! Nem por graça consinto que uma menina profira semelhante expressão! Estão estragados os costumes antigos.

 

MORGADO

Agora estão! Faz ela muito bem em querer casar, e o noivo é como se quer... (Leite não cessa de puxar-lhe as abas da casaca.) O senhor quer que eu fique de jaqueta, pelo que vejo... Que graça tem isso de me estar a romper!?

 

LEITE (Baixo.)

Cale-se.

 

MORGADO

E está morto que eu fale...

 

D. LEOCÁDIA

Então que quer dizer-me, Sr. Morgado? Sou toda ouvidos.

 

MORGADO

Com licença destes senhores, faz favor de chegar aqui... (Querendo afastar-se do grupo.)

 

BARONESA

Perdoe V. S. mas ou não consinto que a minha filha oiça segredos que a sua mãe não possa ouvir.

 

MORGADO

O casamento é com ela, não é com a senhora.

(Soares tem-se, desde o principio da cena, aproximado do grupo.)

 

AS DUAS DAMAS:

1ª DAMA Parabéns, Leocádia!

2ª DAMA A Viva o Sr. Morgado de Fafe!

 

SOARES (À parte.)

Que torpe farsa é esta!

 

MORGADO

Alto lá! Não é comigo o arranjo.

 

D. LEOCÁDIA

Ai! Não? Que pena!

 

BARONESA

Ó menina, tu estás desenvolta! Olha que eu imponho-te o silêncio das indiscretas!

 

D. LEOCÁDIA

Ora deixe-me rir, mamã! Que tem que eu chore a perda de uma ilusão?! Hei de assistir calada, sem soltar um gemido, ao funeral da minha mais cara ambição? (A baronesa, com arremesso, passa ao grupo das três damas, que sobem.)

 

MORGADO

Fale, fale, menina, que eu também já lhe disse a ele que falasse.

 

D. LEOCÁDIA

A ele?! Quem?

 

LEITE (Enxugando o suor.)

Que vexame!

 

MORGADO

Olha a fazer-se tolinha! Ora vamos... Não seja ingrata a quem tanto lhe quer... (Tomando-lhe a mão.) Tenha-lhe amor, qual outra Ignez de Castro.

 

D. LEOCÁDIA

Amor! A quem?

 

MORGADO (Levando-a ao pé de Leite.)

Venha cá... Dê-lhe a mão, que ele é bom rapaz, e tem uma boa casa... Os seus pais hão de dar o seu consentimento...

 

LEITE (Atribulado.)

Este homem enlouqueceu... A minha senhora, peço-lhe que acredite... Que eu... De modo nenhum...

 

MORGADO

Deixe-o falar, que ele está cego de paixão pela menina... Aquilo é vergonha... Ali está aquele (Indicando Proença.) Que sabe tudo. SOARES (Com veemência trágica.)

A farsa acaba aqui, senhores! Eu aceito o encargo honroso de desforçar uma senhora e uma família de bem, ridicularizada por um truão. Quero que se me diga se este homem é um doido, para ser entregue aos cuidados da policia, ou se tem bastante senso comum para aceitar a responsabilidade da zombaria com que enxovalha uma família respeitável.

 

MORGADO (Serenamente.)

Este homem é comediante?

 

SOARES (Ao morgado.)

Responda-me: encarregaram-no deste papel, ou o senhor é um mentecapto sem imputação?

 

MORGADO

Você parece-me tolo, homem! A perguntar-me se eu sou doido! Aposto que se lhe perguntarem a ele se é doido, diz que não!...

BARÃO

 

O Sr. Soares não tome tanto a serio o que não passa de brincadeira de uma noite. Este senhor tem um génio folgazão, e desconhece um pouco as conveniências; mas nenhuma pessoa desta família se dá por ultrajada, e o zelo do Sr. Soares é exagerado, com quanto digno do nosso reconhecimento.

 

SOARES

Aceito a correção; mas consintam V. Exa que eu me desacara do insulto que me diz respeito. Eu sou ofendido na parte mais nobre da minha alma. Este homem é um inepto que serve apenas de instrumento; a mão, porém, que o impele, há de erguer uma luva.

 

MORGADO

O homem é um trapalhão... Mistura luvas com instrumentos... Que diabo quer ele?