Racismo religioso em escolas da Bahia: autoafirmação e inclusão de crianças e jovens de terreiro
Sacerdotes
Pai gildo — itabuna (Figura 22)
Figura 22 Pai Gildo na Lavagem do Beco do Fuxico
Fonte: Jornal Bahia Já, 2016
Na conversa inicial, Pai Gildo fez questão de contar como chegou ao Candomblé, o que se deu de forma muito difícil, visto que, apesar de já sentir a necessidade de seguir o caminho religioso, somente depois de uma séria doença que inicialmente lhe fez perder 27 quilos e abrir o corpo todo em feridas, além dos médicos o desenganarem, buscou solução do problema no Candomblé. Após passar por vários terreiros, sem solução, chegou na casa de uma senhora iniciada ao Orixá Nanã, que cuidou dele, levando a sua cura e a sua iniciação no Candomblé da nação Angola.
Após todo esse sofrimento, Pai Gildo entendeu que só construindo “esta obra religiosa” teria saúde. As principais atividades, segundo ele, são as festas aos orixás, além de várias ações sociais que o Terreiro desenvolve com crianças e jovens da comunidade, que não têm oportunidade de frequentar a escola no turno integral, e assim vão ao Terreiro no turno oposto à aula para participarem das várias atividades educativas oferecidas pelo Ilê. O Terreiro também faz, há mais de 20 anos, a lavagem do Beco do Fuxico, uma das mais tradicionais festas da cidade, que consiste na abertura do carnaval de Itabuna.
A educação das crianças do Terreiro é feita conjuntamente com os pais, dentro de suas casas, que acompanham o crescimento delas, ampliando a educação familiar. As crianças aprendem com os mais velhos, principalmente por meio da observação. “Aqui temos a nossa própria pedagogia, que é feita através da prática do aprender fazendo”, relatou Pai Gildo.
O Babalorixá ainda fez questão de frisar que na cidade de Itabuna também existe preconceito com os adeptos das religiões de matriz africana: “não recebemos nenhum apoio do poder municipal, todos os terreiros são obrigados a pagar IPTU e as igrejas de outras denominações não, não recebemos nada de políticos, nada das organizações governamentais”.
A fala do Pai de Santo referente à falta de incentivo governamental para atividades do Terreiro reflete a realidade desse espaço; porém, cabe ressaltar que, há algum tempo, principalmente a partir da década de 2000, diversas políticas públicas têm sido construídas em âmbito federal, estadual e municipal, embora exista ainda muito a se fortalecer. Projetos de apoio às comunidades tradicionais foram criadas e publicizadas por meio de editais públicos, inclusive com ministério e secretarias estaduais e municipais de promoção da igualdade racial, atendendo à reivindicação e pressão por parte da sociedade organizada.
Sobre o racismo, Pai Gildo observa que as pessoas de terreiro quando saem nas ruas da cidade (Itabuna) vestidas de roupas de orixás são discriminadas. “Aqui na cidade, é difícil encontrar uma baiana vendendo acarajé, pois se estiver trajada com suas vestimentas próprias ninguém compra, eu mesmo já fui chamado de macumbeiro e feiticeiro várias vezes nas ruas da cidade”, enfatiza Pai Gildo.
Quando perguntado sobre a discriminação a crianças e jovens do Terreiro, especialmente nas escolas, ele disse que elas “chegam aqui várias vezes se queixando de muitos atos de racismo religioso nas suas escolas, até mesmo os professores discriminando elas”. As crianças de terreiro, de acordo com o Babalorixá, perdem suas amizades da escola e muitas terminam deixando a instituição. Pai Gildo relata: “já acolhi algumas crianças que passaram o ano aqui por não quererem ir mais para a escola, muitos dos Pais de Santos de Itabuna chegam a evitar sair de casa por causa da perseguição proveniente do racismo sofrido”.
Babá pecê — salvador (Figura 23)
Figura 23 Babá Pecê de Oxumarê saudando os Orixás
Fonte: Site Ilê Axé Oxumarê, s.d
Em 1991, Babá Pecê, Sivanilton Encarnação da Mata, filho biológico de Mãe Nizete, assume o Terreiro, contando com apoio das anciãs da Casa de Oxumarê, que tanto aguardavam a profecia de Ogum em seu nascimento. Babá Pecê nasceu no terreiro de Oxumarê, no dia da sua celebração. Babá Pecê, com seu amor e carisma, tornou-se uma referência de conduta sacerdotal por todo o território nacional e internacional. O reconhecimento de Babá Pecê no âmbito religioso e político veio de todo o trabalho por ele desempenhado para a promoção e defesa não só do povo de santo, mas também por proteger a infância, a comunidade negra e aqueles em situação de maior vulnerabilidade. Até hoje, Babá Pecê tem o comando da casa e foi com ele que começamos as entrevistas sobre a questão do racismo religioso.
O Babalorixá da Casa de Oxumarê foi categórico ao afirmar que para ele uma das piores coisas por que passam as religiões de matriz africana é o racismo religioso. Afirmou que, durante todo esse tempo de sacerdócio, acompanha de perto os atos de discriminação, perseguição e racismo contra o povo de santo cotidianamente. Para ele, os ataques, principalmente promovidos pelas igrejas pentecostais, são os mais frequentes, tendo relatado que já presenciou ações violentas contra as religiões de matriz africana, tanto na sua Casa, quanto em inúmeras outras localizadas em Salvador e também no interior do estado. Por causa disso, Babá Pecê, por ser uma liderança religiosa de um dos mais antigos terreiros de Salvador — Ilê Axé Oxumarê, que também era membro do Coletivo de Entidades Negras, sempre esteve à frente de todas as ações e manifestações em defesa da liberdade religiosa do povo de santo.
Foi ele quem liderou um grande movimento pela manutenção de uma árvore sagrada, localizada dento da área do Oxumarê, onde a prefeitura desejava construir uma passarela para travessia de pedestres, o que iria interferir profundamente nos aspectos físicos, morais e religioso da instituição. A luta e mobilização foi intensa, culminando com a mudança do local da construção da passarela e a preservação do espaço sagrado do Terreiro.
Outro caso de racismo religioso relatado por Babá Pecê, e já referido neste trabalho, foi o ocorrido no Terreiro de Mãe Rosa — Ilê Axé Oyá Onipó Neto, que acabou por ter parte do espaço demolida pela prefeitura de Salvador. Embora tenha sido contestada por ação de reintegração de posse pela justiça, a ação da liderança do Babalorixá da Casa de Oxumarê, juntamente com outras instituições do movimento negro e de defesa dos direitos humanos, conseguiu resistir e reverter a situação, por meio de uma intensa e ampla mobilização.