Racismo religioso em escolas da Bahia: autoafirmação e inclusão de crianças e jovens de terreiro

Pesquisa de campo: dando voz às crianças de Candomblé

5 Pesquisa de campo: dando

 

voz às crianças de Candomblé

 

A partir das leituras realizadas para construção desta obra, considera-se que os postulados do multiculturalismo crítico, defendidos principalmente pelo autor McLaren (1997), são os que podem melhor embasar esta pesquisa. Esse modelo de investigação possibilita a observação a partir de uma pedagogia de resistência, inquirindo os sistemas culturais preestabelecidos.

Entender multiculturalismo e educação pressupõe analisar concepções e práticas pedagógicas baseadas em um movimento teórico que nasceu a partir da segunda metade do século XIX, nos Estados Unidos, e que se difundiu pelo mundo ocidental como forma de enfrentamento dos conflitos surgidos por conta de questões econômicas, políticas, étnico-raciais e culturais na luta para combater discriminações e preconceitos, haja vista as dificuldades de grupos e indivíduos de acolher e conviver com a pluralidade e as diferenças. O relato de McLaren (2000, p. 86-87), expresso no texto a seguir, apresenta de que forma a educação feita com base nos princípios do multiculturalismo crítico pode levar à construção de uma sociedade mais justa e igualitária, tanto no aspecto moral quanto material capitalista.

 

O pós-modernismo de resistência oferece aos educadores que estão trabalhando com educação multicultural uma maneira de interrogar a localidade, o posicionamento e a especificidade do conhecimento (em termos de localização de raça, classe e gênero dos alunos e alunas) e de gerar pluralidade de verdades (em vez de uma verdade apodítica construída em torno da norma invisível do eurocentrismo e da etnicidade branca). Ao mesmo tempo, esta perspectiva também situa a construção do significado em termos dos interesses materiais que estão operando na produção de efeitos de verdade — isto é, na produção de formas de inteligibilidade e de práticas sociais. Consequentemente, educadoras que trabalham com a perspectiva de um pós-modernismo de resistência tornam-se capazes de questionar as assunções políticas e as relações de

determinação sobre as quais as verdades sociais estão fundamentadas, tanto nas comunidades onde elas trabalham quanto na sociedade maior da qual elas fazem parte.

 

O conceito do multiculturalismo acaba ganhando mais visibilidade, principalmente nos países americanos, a partir do momento do crescimento e expansão do sistema capitalista que se torna cada vez mais global.

Economicamente, o novo modelo é representado pela chamada globalização econômica, que significa a internacionalização do capital, tendo como base a produção, distribuição e consumo de bens e serviços, organizados por meio de uma estratégia mundial na intenção de promover uma padronização dos gostos dos consumidores de todos os lugares do mundo, de uma forma muito agressiva sobre as identidades culturais diversas, visto que a globalização pode significar homogeneizar, diluindo identidades, destruindo marcas do que os colonizadores chamam de culturas inferiores. Para Siqueira e Pereira (2002 apud MORANTE; GASPARIN, 2010, p. 3),

 

[…] a sociedade moderna, tipicamente industrial, […] sofreu uma transformação radical, sendo caracterizada hoje como uma sociedade globalizada, impulsionada pela explosão das informações e intensificação das comunicações em nível mundial. Este cenário já não pode ser ignorado pela educação, pois o impacto desses processos no cotidiano escolar é cada vez maior. A problemática atual das escolas, principalmente nas grandes cidades, local onde se multiplicam tensões e conflitos já não pode ser reduzida aos aspectos relativos à estruturação interna da cultura escolar, necessita ser repensada para incorporar na sua própria concepção estas realidades sociais e culturais.

 

A partir de tantas tensões e desafios originários da globalização, que contribui decisivamente para aprofundar a complexidade da questão da centralidade da cultura, enxergamos os princípios do multiculturalismo crítico do teórico Mc Laren (1997). Eles possuem condições para explicar e ajudar na construção de uma escola de maior respeito às diversidades, principalmente culturais e religiosas.

O multiculturalismo não é somente um movimento social em defesa das minorias negras, mas também incorpora-se em uma abordagem curricular contrária a toda forma de preconceito no espaço escolar. Conforme afirmam Silva e Brandim (2008, p. 56), o multiculturalismo

 

Inicialmente, constitui-se desvinculado dos sistemas de ensino, incorporado na sua maioria pelos movimentos sociais, especialmente os grupos sociais negros. O eixo orientador do movimento é o combate ao racismo e a luta por direitos civis, Gonçalves e Silvia (1998) situam o início do movimento no final do século XIX, com as lutas dos afrodescendentes, que buscavam a igualdade de exercício dos direitos civis e o combate à discriminação racial no país.

 

Observando o pensamento inicial multiculturalista, percebemos que podemos relacioná-lo com as ideias de educadores brasileiros, principalmente com a professora Nilma Lino Gomes, que em seus escritos propõe um modelo de currículo que possa iniciar um processo de decolonização do Ensino Básico e Superior no Brasil, em oposição ao atual modelo curricular ainda frequente nas escolas brasileiras, que reitera o caráter colonizador eurocêntrico. Neste mesma linha Silva e Brandim (2008, p. 60) defendem o multiculturalista como instrumento para construção de uma diversidade cultural capaz de construir uma educação cidadã e inclusiva:

 

Para começar, o multiculturalismo é uma estratégia política de reconhecimento e representação da diversidade cultural, não podendo ser concebido dissociado dos contextos das lutas dos grupos culturalmente oprimidos. Politicamente, o movimento reflete sobre a necessidade de redefinir conceitos como cidadania e democracia, relacionando-os à afirmação e à representação política das identidades culturais subordinadas. Como corpo teórico questiona os conhecimentos produzidos e transmitidos pelas instituições escolares, evidenciando etnocentrismo e estereótipos criados pelos grupos sociais dominantes, silenciadores de outras visões de mundo. Busca, ainda, construir e conquistar espaços para que essas vozes se manifestem, recuperando histórias e desafiando a lógica dos discursos culturais hegemônicos. Os estudos sobre os fenômenos culturais partem da necessidade de compreensão dos mecanismos de poder que regulam e autorizam certos discursos e a outros não, contribuindo para fortalecer certas identidades culturais em detrimento de outras.

A grande meta do pensamento multiculturalista a ser atingida é a equidade, com base no acesso e permanência escolar de todas as crianças e jovens, independentemente das diferenças étnicas, sexuais, religiosas. Além disso, visa preparar todos para uma convivência plural e diversa.

Sendo assim, os procedimentos de pesquisa utilizados têm uma dupla função: a de permitir a análise e compreensão do problema enunciado e, ao mesmo tempo, contribuir para o processo de resistência dos Povos de Santo. As áreas da pesquisa foram a cidade de Itabuna, focalizando o Terreiro Ilê Axé Odara, na região Sul do estado da Bahia, e a cidade de Salvador, capital da Bahia, no Terreiro Ilê Axé Oxumarê.

As técnicas utilizadas na pesquisa foram levantamentos em fontes secundárias e outras de caráter primário, que contemplaram a pesquisa documental e pesquisa direta aplicada nos terreiros de Candomblé, principalmente com as crianças e jovens, mas também com seus pais, com as autoridades religiosas dos espaços pesquisados, além de observações na rede de educação formal. A

seguir, apresenta-se o Quadro 1, que contém a síntese das técnicas com suas respectivas fontes de consulta utilizadas na pesquisa.

 

Quadro 1. Síntese das técnicas, fontes e instrumentos

utilizados na pesquisa.

 

TÉCNICAS FONTES

 

PRIMÁRIAS Observação de participante.

Pesquisa direta. Entrevistas com crianças e jovens dos

Terreiros. Autoridades religiosas dos

Terreiros.

Pais dos entrevistados.

 

Fonte: Elaboração própria.

SECUNDÁRIAS Publicações: livros, artigos acadêmicos,

Pesquisas bibliográficas, matérias jornalísticas.

audiovisuais e Internet.

iconográficas. Imagens: fotos, cartazes.

Vídeos: filmes, documentários,

entrevistas. Dissertações de mestrado.

Teses de doutorado.

 

Fonte: Elaboração própria.

 

A construção desta obra consistiu em uma pesquisa qualitativa, por meio da elaboração de entrevista, com roteiro estruturado, aplicada diretamente pelo pesquisador, direcionada às crianças e jovens dos Terreiros, como também a outras pessoas da Casa (Babalorixá, Egbomes, Ogãs e Ekedes). Além desta pesquisa direta nessas fontes primárias, utilizamos outras fontes, tais como: documentos do acervo das instituições religiosas pesquisadas, notícias de periódicos, jornais, documentos governamentais voltados para a Política de Promoção da Igualdade Racial e atas de reuniões do Coletivo de Entidades Negras, onde as pautas foram voltadas para as questões do racismo religioso.

Foram também realizadas as observações dos participantes sobre o comportamento das crianças e jovens entrevistados durante sua estadia no Terreiro, tanto no dia a dia, como nos dias de celebração religiosa. As informações foram registradas de forma organizada, desde o início da pesquisa, classificadas e tratadas qualitativamente por meio de descrição e análise do conteúdo dos fenômenos observados pelo autor nas várias fontes já definidas, de acordo com as questões e objetivos do estudo, assim como com o referencial teórico-metodológico adotado.

Espera-se, dessa maneira, que esta obra contribua para o fortalecimento da autoestima e, também, que possibilite aos jovens assumirem suas condições de religiosos de matriz africana na sociedade em geral e no ambiente escolar, em particular, superando as adversidades que se apresentam.