Racismo religioso em escolas da Bahia: autoafirmação e inclusão de crianças e jovens de terreiro
O que dizem as crianças candomblecistas
Como quase todos os entrevistados, ele relatou a alegria e felicidade que sente em ser do Candomblé, informou que o terreiro é a sua maior escola e que não pretende deixar a sua religião nunca. Pelo contrário, pretende ser um grande propagador desses fundamentos para que cada dia menos pessoas sofram o racismo religioso por serem do Candomblé.
5.3 O que dizem as crianças
candomblecistas
Após a transcrição e análise das entrevistas individuais, refletiu-se sobre os principais resultados alcançados a partir das questões que foram abordadas em todas as entrevistas e, apesar de não se tratar de pesquisa quantitativa, elaborou-se um quadro síntese para melhor visualização desses resultados, disponíveis a seguir.
Os quadros 3 A e 3 B sintetizam os resultados das entrevistas qualitativas realizadas nos Terreiros Ilê Axé Odara e Ilê Axé Oxumarê; dessa forma, constata-se que, entre os pesquisados, quatro estão acima dos 15 anos, dois entre 11 e 15 anos e três com até 10 anos de idade. Sete deles frequentam o terreiro desde criança, sendo que seis desde que nasceram, e apenas três dos entrevistados conheceram o Candomblé após os 10 anos de idade.
Quadro 3 A – Síntese das entrevistas qualitativas, TERREIRO
ODARA.
NOME IDADE TEMPO NO ASSUME DECLAROU REC
ADOTADO (ANOS) CANDOMBLÉ SUA QUE SOFREU O T
NA (ANOS) RELIGIÃO RACISMO C
PESQUISA NA RELIGIOSO ESP
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Fonte: Dados do pe
Erê de 17 06 SIM “Já fui chamada “Pai
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e fazedora de dos
coisa ruim, mas ensin não liguei”. dos a
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foram feitas se co
brincadeiras na vi
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relação a sua licen
religião. Levar respe
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brincadeira é atrav
uma das formas obse que o racismo do cu
tem de esconder o Ba Fonte: Dados do pe
lid d tem a
a realidade que tem a
passa o povo
negro e
religiosos de
matriz africana.
Erê de 17 17 SIM A maltratam e a “No t
Yemanjá ofendem, apre
principalmente ensin
quando está em obse
“obrigação”, já Pai e
que nesse velha
período ela não terre
vai para a esco
escola de farda, ajuda e sim de roupa conv
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que a escola terre
permite, porém, Exist as ofensas são peda
recorrentes: “lá forma
vem a cotid
macumbeira, lá Terre Fonte: Dados do pe
f iti i ”
vem a feiticeira”.
Erê de 08 08 NÃO “Se eu falar vão No T
Obaluayê me chamar de apre
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“zombarem”, “se mais eu falar vão rir respe
de minha cara e Orixá falar muitos os at
coisas ruins”. falar
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e sem
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Oxum 1 ser zoada, eu como
escondia minha que m condição, já a ser
presenciei uma pess
colega sofrer saio
uma grande sabe
discriminação devo
que fez ela se pess
afastar da respe
escola, então próxi
não me discr
apresentava de nem
candomblé. religi
Queria que essa por s
cidade me Rela
enxergasse quan Fonte: Dados do pe
como uma
como uma na es
pessoa normal, senti
me sinto pess
abalada triste
psicologicament afast e […]”. coleg
tinha
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podia
ela e
senti
satis
comp
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Terre
Erê de 09 07 NÃO Declarou que No c Xangô uma amiga já ela g
sofreu muito por danç ter sido Orixá
identificada brinc
como adepta do Erês candomblé. apre
danç
tamb
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respe
natur
dess
se se
feliz
Terre
Fonte: Dados do pe
Quadro 3 B – Síntese das entrevistas qualitativas. TERREIRO
OXUMARÉ
NOME IDADE TEMPO NO ASSUME DECLAROU REC
ADOTADO (ANOS) CANDOMBLÉ SUA QUE SOFREU O T
NA (ANOS) RELIGIÃO RACISMO C
PESQUISA NA RELIGIOSO
ESCOLA
ESP
ED
Erê de 13 13 NÃO Quando fez as “[…]
Oxum 2 “obrigações de para
sete anos” do e fica
candomblé e olhan
teve que ir para obse
a escola usando repet roupas brancas coisa
e elementos pelos
religiosos que a velho
identificavam que t
como de apre
Terreiro, foi que t
isolada pelos neste
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ela com “rosto ensin
de nojo e da es
desrespeito”, minh
tendo sido é tud
chamada de é ond
macumbeira apre
[…]. O ensin
sofrimento e me
abalou uma
profundamente melh
entendia o que Fonte: Dados do pe a mãe que não mim
outro
entendia o que outro
estava os di
acontecendo
porque ela
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se muito
deprimida, tendo
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abandoná-la.
Erê de 10 10 SIM “Na sala tinha Desc
Nanã muitos alunos detal
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minha religião e Terre eu ficava com sua f
vergonha de na vi
falar, pois sabia os
que sofreria ensin
racismo, mas da re
este ano eu segu
resolvi assumir, são a
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que depois do sua
seu anúncio obse
pôde questionar tamb as ofensas e açõe
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colegas o que uma
realmente era o sagra candomblé, dos a
tendo sido a sua limpa declaração Sant
inclusive para Fonte: Dados do pe importante, o Ter
limpa
inclusive para limpa
uma das suas bicho
professoras que relata também é do receb
candomblé e diaria
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assumir e “com forma
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cultura e religião ali qu africana”. apre
mais
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Oxumarê sabiam que era apre
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que ela chegava e sem para participar obse
das brincadeiras os m não era bem estão
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colegas
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porque ela tinha Fonte: Dados do pe procurar Jesus
porque ela tinha
“parte” com o
diabo.
Erê de 18 18 SIM “[…] não queria “Vejo
Ayrá ser zoada, eu como
escondia minha que m condição, já a ser
presenciei uma pess
colega sofrer saio
uma grande sabe
discriminação devo
que fez ela se pess
afastar da respe
escola, então próxi
não me discr
apresentava de nem
candomblé. religi
Queria que essa por s cidade me Rela
enxergasse quan
como uma na es
pessoa normal, senti
me sinto pess
abalada triste
psicologicament afast e […]”. coleg
tinha
porq
podia
ela e
senti
Fonte: Dados do pe satis
satis
comp
quan
no am
Terre
Fonte: Dados do pe
Dos nove entrevistados, cinco declararam que se assumem, na escola, como religiosos de matriz africana, e quatro escondem a sua condição de candomblezeira. Somente o Erê de Aira, entre os cinco entrevistados que se declararam religiosos de matriz africana, afirma que nunca sofreu racismo religioso na escola, de acordo com ele, devido a sua postura de respeito com todos os colegas. Além de muita segurança ao falar sobre sua religião, porém, já presenciou outros colegas da escola serem discriminados. Os quatro entrevistados que não assumiram na escola sua identidade religiosa afirmaram que não o fizeram por medo de serem maltratados pelos colegas, professores e gestores, já que tiveram oportunidade de presenciar outros colegas que são do Candomblé sofrerem racismo religioso e até mesmo abandonarem a escola.
Quando questionados pelo entrevistador sobre a importância do terreiro como espaço de educação, foram unânimes em falar da importância dos ensinamentos e da formação que recebem no terreiro, onde aprendem observando os mais velhos e acompanhando o dia a dia da rotina religiosa. Todos eles enfatizaram que a convivência no terreiro permite o aprendizado de valores éticos e morais, como respeito ao outro, principalmente aos mais velhos, a solidariedade, o respeito e o cuidado com a conservação da natureza, já que, de acordo com todos eles, o Candomblé não existe sem as ¨folhas¨.
As entrevistas deixaram bem claro para o pesquisador que as crianças e os jovens dos terreiros entrevistados têm plena convicção de que o terreiro tem sua própria pedagogia, que a forma de aprender nesse espaço religioso é bem diferente da escola. No terreiro, o ensinamento acontece por meio da prática, ao mesmo tempo que aprendemos com os mais velhos ensinamos aos mais novos em um aprendizado coletivo e dinâmico, sendo ao mesmo tempo aluno e professor.