Racismo religioso em escolas da Bahia: autoafirmação e inclusão de crianças e jovens de terreiro
Crianças e jovens do Ilê Axé Odara
Das crianças e jovens, as do sexo feminino são maioria entre os entrevistados em ambos os Terreiros (seis dos nove no total). Embora essa escolha não tenha sido direcionada, a convivência nesses espaços possibilitou perceber uma maior disposição destas ao serem informadas do que se tratava a pesquisa, pois elas sofrem mais racismo religioso, pelo que tem sido observado, do que os do sexo masculino. A faixa etária dos pesquisados está entre 8 e 18 anos, na época das entrevistas, sendo coerente com a escolaridade. Predomina a frequência às escolas públicas, observando-se que apenas dois deles estudam em escolas da rede privada de ensino (os de menor idade), o que mostra que as crianças e jovens desses Terreiros residem em regiões periféricas, normalmente no entorno desses espaços.
5.2.3 Crianças e jovens do Ilê Axé Odara
Neste terreiro foram entrevistadas cinco crianças ou jovens entre
8 e 18 anos (figura 24), cujos resultados estão apresentados individualmente a seguir.
Figura 24 Crianças e jovens do Terreiro Ilê Axé Odara
Fonte: Dados do pesquisador.
Erê de iansã
Erê de Iansã é uma jovem de 17 anos, considera-se negra, reside na cidade de Itabuna, estuda no Instituto Municipal Aziz Maron, no turno noturno, cursando o 9º ano do Ensino Fundamental e na sua escola não tem aula de religião. Há seis anos ela frequenta o Terreiro e está passando por processo de iniciação no Candomblé para “fazer o seu santo”, ou seja, ser consagrada ao Orixá “dono do seu Ori” (cabeça). Seus pais e avós são também frequentadores do Terreiro.
Assume-se como candomblezeira e, embora ainda não tenha uma função específica no Ilê, faz tudo que se pede: varre a casa, lava os pratos e arruma o barracão. Entende o terreiro como um espaço de educação e considera o aprendizado do espaço melhor que o da escola, pois “o Pai de Santo fala da África e dos ensinamentos dos ancestrais, ensina como se comportar na vida, pedindo licença, respeitando os mais velhos e aprendendo através da observação e do cuidado que o Babalorixá tem a ensinar”. Ou seja, prefere o Terreiro à escola.
Todas as colegas da escola sabem que ela é do Candomblé, ela mesma contou no bate-papo. Os professores também sabem porque ela mesma falou, e sempre se coloca a favor do Candomblé em discussões na escola. No turno noturno não percebeu nenhum ato de racismo religioso contra ela. Relatou, também, que adora ser do Candomblé; vai de branco para a escola quando está em período de obrigação e nunca sofreu preconceito, sempre se assumiu, porém, apesar disso, disse que já escutou “brincadeiras de mau gosto em relação ao Candomblé”, mas isso não a abalou. “Já fui chamada de macumbeira e fazedora de coisa ruim, mas não liguei”.
Fica claro que apesar de Erê Iansã não ter se sentido ofendida ou até não perceber a gravidade dos acontecimentos, não podemos desprezar o que foi relatado por ela ao dizer que algumas vezes “foram feitas brincadeiras pejorativas em relação a sua religião”. Levar essas ofensas como forma de brincadeira é uma das maneiras que o racismo tem de esconder a realidade que passa o povo negro e religiosos de matriz africana deste país, tal prática não deixa de ser um mecanismo de tentar diminuir e descaracterizar o racismo religioso tão presente no Brasil.
Erê de iemanjá
Erê de Iemanjá é uma jovem de 17 anos, identifica-se com a cor parda e se define como alguém que não é negra nem branca. Ela estuda no Colégio Estadual Sesquicentenário (CISO) onde cursa o 9º ano. Há quatro anos ela estuda na mesma escola e nunca teve aula de religião, “no CISO nem se fala em religião”. Declara-se candomblezeira, frequenta o Terreiro desde criança e há um ano é consagrada ao Orixá Iemanjá. Durante todo o processo de pesquisa no Terreiro, esta Erê de Iemanjá estava na Casa, próxima e cuidando dos afazeres e do Pai de Santo. Os ensinamentos do terreiro para ela são fundamentais, pois ensinam a fazer as comidas, conhecer as folhas e suas utilidades, preparar os “banhos
de folha”, arrumar os Ebós 22. Relatou que “no terreiro se aprende ensinando ou observando o Pai e as mais velhas, enxerga o terreiro como uma escola, pois, ajuda na convivência fora do terreiro”. Para ela existem duas pedagogias: a formal e a do cotidiano no Terreiro.
Todos os colegas sabem da sua religião, ela mesma contou, pois no período da “obrigação” teve que ir vestida de branco e com os aparatos do processo de iniciação no Candomblé, a “feitura”. A professora e diretora descobriram por causa de uma grande briga com uma colega que a discriminou e ofendeu por causa da sua religião. A escola teve uma postura séria de combate ao acontecido e evitou outros problemas. Porém, a Erê de Iemanjá relatou que, caso continuasse sofrendo racismo, deixaria de frequentar a escola. Isso reforça a ideia de que racismo religioso é um dos motivos das altas estatísticas de evasão escolar verificadas.
A entrevistada também relatou que nunca levou ninguém da escola para o Candomblé e que na escola tem muitos colegas evangélicos que a maltratam e a ofendem, principalmente quando está em “obrigação”, já que nesse período ela não vai para a escola de farda, e sim de roupa de terreiro, já que a instituição permite. Porém, as ofensas são recorrentes: “lá vem a macumbeira, lá vem a feiticeira”. Ela nunca escondeu sua identidade religiosa, mesmo sofrendo o preconceito.
Erê de obaluayê
Erê de Obaluayê tem oito anos e frequenta o Terreiro desde o dia em que nasceu. Ele se identifica como alguém que possui pele branca, estuda na escola Cristão Filhos do Rei, onde cursa o 3º ano do Ensino Fundamental I. Algumas vezes tem aula de religião na escola, mas ele não participa, porém, é obrigado a participar das festas. A instituição que o entrevistado estuda é privada e evangélica, sempre acontece nas festas a presença de grupos musicais cantando canções religiosas e todos são obrigados a participar.
Ele frequenta o Candomblé há oito anos, a mãe frequenta o Candomblé às vezes e o pai é o primeiro Ogã da casa. No Terreiro ele aprende a respeitar os mais velhos e o Orixá, a tocar os atabaques, falar outra língua (Bantu), e sempre observar o que os mais velhos estão fazendo.
Os colegas de sala não sabem que ele é do Candomblé, porque, como ele disse, “se eu falar vão me chamar de macumbeiro”, “zombarem” de mim, “se eu falar vão rir de minha cara e falar muitas coisas ruins”. Os professores e funcionários da escola também não sabem que ele é do Candomblé, pois ele esconde sua religião, bem como sua melhor amiga na escola, que também pertence à mesma religião. Ele esconde sua prática religiosa na escola para não sofrer perseguição, pois uma colega e amiga sua se expôs, aparecendo na escola com as roupas brancas e contas no pescoço, foi maltratada e sofreu muita discriminação, ficando, então, vários dias sem ir à escola porque estava com medo e vergonha, medo de apanhar e vergonha de ser do Candomblé. O entrevistado gosta de ser do Candomblé e vai enfrentar as pessoas que falem mal da sua religião.
Erê de Oxum 1
Erê de Oxum tem 18 anos e concluiu o terceiro ano do Ensino Médio no Colégio Estadual Felix Mendonça, na cidade de Itabuna. Ela identificou-se, a princípio, como de cor parda, mas após algumas perguntas se colocou como negra. Na sua escola não tem aula de religião, porém nas aulas de história se falava do tema, inclusive, sobre o Candomblé. Ela se diz católica e do Candomblé, pois, além de vir no terreiro, vai à igreja católica. Quando está em um espaço fora do Candomblé, inclusive na escola, diz ser adepta da outra religião.
A entrevistada frequenta o Terreiro há cerca de quatro anos, está em processo de iniciação, já participa de quase todos os rituais religiosos da Casa e logo estará sendo iniciada como Yaô. Os pais dela são do Candomblé, mas os irmãos não frequentam esse espaço religioso. Ela reconhece o Terreiro como uma verdadeira escola para a vida, pois lá aprende os afazeres práticos e os valores éticos e morais, como a construção do sentimento de igualdade, de respeito às diferenças de raça e credo. Terminou o Ensino Médio escondendo a sua condição de candomblezeira, e quando alguém pergunta sobre sua religião, declara-se católica. Ela verbalizou:
Vejo o Terreiro como um lugar que me ensina a ser uma pessoa melhor, saio daqui sabendo que devo ajudar as pessoas e respeitar ao próximo, não discriminar nem por religião, nem por sua cor. Na escola ninguém sabia que eu era do candomblé, não queria ser zoada, eu escondia minha condição, já presenciei uma colega sofrer uma grande discriminação e isso fez ela se afastar da escola, então não me apresentava de candomblé. Queria que essa cidade me enxergasse como uma pessoa normal, me sinto abalada psicologicamente, nem professores nem diretores da escola sabiam que eu era do candomblé. Muita vontade de defender, ninguém da escola veio conhecer o terreiro, eu me sinto feliz no terreiro, uma pessoa mais alegre, adoro meus irmãos do terreiro, somos uma verdadeira família. Não consigo usar roupa de candomblé na rua, só quando vamos a atividades coletivas e todas se vestem de baianas, aí nos sentimos protegidas. Só após os sete anos uma Yaô se tornará uma
Egbome23 (Erê de Oxum 1, 2018).
Como relatou, Erê de Oxum 1 presenciou uma colega bem próxima sofrer uma agressão verbal muito grave devido a ida à escola usando roupas brancas e contas, portanto ela optou por se esconder. De acordo com ela, “isso foi muito ruim”, pois sabia que, se alguém descobrisse, ela seria maltratada. Relatou ainda que, quando estava na escola, se sentia outra pessoa, era triste e afastada das colegas, não tinha alegria porque não podia ser quem ela era, só se sentia feliz, satisfeita e completa quando estava no Terreiro.
Erê de Xangô
Erê de Xangô tem nove anos de idade e está cursando o 2º ano do Ensino Fundamental I na Escola Municipal Everaldo Cardoso. Ela se reconhece como negra e, embora frequente o Terreiro há sete anos, não diz na escola que é do Candomblé “para não sofrer bulem [bullying] das colegas”, ela acredita que seria “isolada do convívio com as amiguinhas se soubessem que ela frequenta Terreiro”.