Racismo religioso em escolas da Bahia: autoafirmação e inclusão de crianças e jovens de terreiro
Crianças e jovens do Ilê Axé Oxumarê
Na sua escola, às vezes, tem aula de religião, existe uma professora que ministra essas aulas das quais Erê de Xangô participa. Ela contou que o assunto mais falado na aula é sobre Deus, nunca se falou do Candomblé. Ela continua afirmando, na entrevista, que é católica e do Candomblé, disse que toda sua família frequenta a igreja e o terreiro, e quando alguém pergunta na escola qual a sua religião, ela diz ser católica. “Eles (os colegas) dizem que candomblezeira é macumbeiro e abusam, zoam”.
No Candomblé ela gosta de dançar, ver os Orixás e brincar com os Erês. Além de aprender a dançar, também é orientada a respeitar a natureza e se sente muito feliz no Terreiro. Na escola, “quando falam mal do Candomblé, eu saio de perto e vou para outo lugar, fico isolada”. Nem os colegas nem a direção ou professores e coordenação sabem que ela pertence ao Candomblé. Ela acredita que, se soubessem, teria que pedir à mãe para sair da escola, porque não ia aguentar, pois, “mesmo gostando (do Candomblé), não tenho coragem de dizer, já presenciei em outra sala um colega ser tratada mal na hora do recreio, muitos iam atrás dele abusando e chamando de macumbeiro, ele teve que sair da escola”.
5.2.4 Crianças e jovens do Ilê Axé Oxumarê
Neste terreiro foram entrevistadas quatro crianças ou jovens entre 6 e 18 anos, cujos resultados estão apresentados individualmente a seguir,
Erê de Oxum 2
Erê de Oxum 2 tem 13 anos de idade, considera-se negra, estuda na Escola Estadual Maria Romana Calmon, está cursando o 7º ano do Ensino Fundamental II e questiona a qualidade do ensino da instituição. Na escola não tem aula de religião e não se discute a temática. A entrevistada declarou-se religiosa de matriz africana desde o seu nascimento, disse que já nasceu no Candomblé, foi iniciada para o Orixá Oxum com apenas dois anos de idade e seus pais também são do Candomblé. Quando perguntada como aprendia as coisas no Candomblé e se via o terreiro como um espaço de educação, ela respondeu de forma muito segura:
Na verdade, eu nem sei como isso acontece, pois eu já nasci aprendendo, desde que era bem pequena eu vinha para o terreiro e ficava olhando, observando e repetindo as coisas feitas pelos mais velhos, sinto que todo este aprendizado que tenho neste espaço é bem diferente dos ensinamentos da escola, aqui eu aprendo a ser mais humilde, respeitar mais as outras pessoas, compreender o que os mais velhos me ensinam, na verdade o candomblé me faz uma pessoa muito feliz e respeitadora (Erê de Oxum 2, 2018).
Figura 25 Crianças e jovens do Terreiro Ilê Axé Oxumarê
Fonte: dados do pesquisador.
Na escola ninguém sabia que ela era do Candomblé, nem as colegas, nem os professores, nem a direção, ela nunca falou porque sentia receio de se expor, mesmo depois de iniciada, respondia que frequentava algumas vezes e se dizia católica.
Quando a entrevistada fez as “obrigações de sete anos” do Candomblé e teve que ir para a escola usando roupas brancas e elementos religiosos que a identificavam como uma adolescente de Terreiro, foi isolada pelos colegas que olhavam para ela com “rosto de nojo e desrespeito”, tendo sido chamada de macumbeira. Dessa forma, foi afastada das atividades, passou a se distanciar ainda mais e sofrer muito. Ela contou que o seu “sofrimento abalou profundamente a mãe, que não entendia o que estava acontecendo, porque ela chorava tanto ao retornar da escola e sentia-se muito deprimida, tendo vontade até de abandoná-la”, relatou, ainda, que o pior foi assistir ao sofrimento da sua mãe, que ficava muito triste em ver a filha naquela situação.
Erê de Oxum 2 contou que a situação só melhorou um pouco quando ela identificou na sala de aula dois colegas que também eram do Candomblé, tendo se unido a eles e, juntos, tiveram força para reagir às discriminações que sofriam. Outro fato que a fortaleceu foi contar a sua mãe o que acontecia, daí esta foi à instituição e conversou com os gestores, tendo eles passado a interferir, por meio de ações esclarecedoras, sobre a situação de racismo religioso pela qual estava passando a aluna, junto aos alunos e professores, amenizando estes atos.
Ao final da conversa, a entrevistada disse que apesar de tudo que aconteceu, pelo Candomblé, enfrentaria tudo novamente. Para ela, a sua religião “é tudo na vida, é onde aprendo, ensino, estudo e me torno uma pessoa melhor para mim e para os outros, todos os dias”.
Erê de Nanã
Erê de Nanã tem apenas 10 anos de idade, declara-se negro, estuda no Colégio Nabuco, escola da rede particular, e cursa o quinto ano do Ensino Fundamental I. Na sua escola não tem aula de religião na grade curricular e pouco se fala sobre o tema.
Com apenas dois anos de idade ele foi suspenso a Ogã, pelo Orixá Nanã da Egbome Jéssica. Com muita firmeza ele afirma ser do Candomblé, disse que já nasceu no terreiro e é sobrinho do Pai de Santo. Seus pais também são do Candomblé, sendo o pai Ogã e a mãe Egbome. Descreve com detalhes a importância da educação que recebe no Terreiro para sua formação na vida com os ensinamentos da religião que, segundo ele, são aprendidos por meio da sua observação e também das ações práticas, como pegar uma folha sagrada, cuidar dos atabaques, limpar os Santos, varrer o Terreiro, limpar os bichos. Ele relata que recebe diariamente ensinamentos que vão formando sua personalidade.
Erê de Nanã demorou muito de se apresentar na escola como religioso de matriz africana, apesar dos diretores da escola serem do Candomblé. Porém, ele declarou que
Na sala tinha muitos alunos evangélicos que falavam o tempo todo mal da minha religião e eu ficava com vergonha de falar, pois sabia que sofreria racismo, mas este ano eu resolvi assumir, no meio da aula, pedi a palavra à professora e disse em voz bem alta “eu sou do terreiro Oxumarê, sou suspenso a Ogã e o candomblé não é isso que vocês estão falando, se quiserem saber mais vamos a uma festa de Santo”. A partir deste dia me senti aliviado, não precisava mais fingir que era católico, apesar de durante um período ter sido bastante desprezado pelos colegas, me senti aliviado por poder assumir minha condição religiosa. (Erê de Nanã, 2018).
Ele disse que, depois do seu anúncio, pôde questionar as ofensas e dizer para os colegas o que realmente era o Candomblé, tendo sido a sua declaração importante, inclusive, para uma das suas professoras. que também era do Candomblé e nunca teve coragem de assumir. E “com a minha atitude ela sentiu-se fortalecida, e depois deste dia várias vezes passamos a falar sobre a cultura e religião africana”. Finalizando, Erê de Nanã disse que o Candomblé é sua vida e que nasceu ali e jamais sairá do terreiro, “é ali que aprendo, até mais do que na escola”.
Erê de Oxumarê
Erê de Oxumarê tem 12 anos de idade, autodeclara-se preta, estuda na escola municipal Visconde de Cairu e cursa o 7º ano do Ensino Fundamental II. É Ekede suspensa aos dois anos de idade para o Orixá Oxumarê de Babá Pecê, Pai de Santo do terreiro, e é filha da Egbome Viviane de Oxóssi, portanto, praticamente nasceu na Casa de Oxumarê e sempre está no terreiro.
A entrevistada declarou que nunca escondeu a sua religião de ninguém, que colegas, professores e direção sabiam que era do Candomblé e que isso fez com que, durante alguns anos, ela fosse muitas vezes ofendida por todos; sempre que ela chegava para participar das brincadeiras não era bem aceita, e os colegas mandavam ela procurar Jesus porque ela tinha “parte” com o diabo.
Erê de Oxumarê teve uma reação diferente da maioria das crianças e jovens discriminados por causa da sua religião, pois, enquanto a maioria ficava calada e sofria muito internamente, ela partiu para o enfrentamento, apresentando um bom nível de conhecimento dos fundamentos da religião, assim ela enfrentava a todos, argumentando e mostrando que Candomblé não é nada daquilo que eles estavam falando, pedia respeito e dizia que “cada um tem o direito de seguir a religião que escolher”.
Ao final, ela disse que considera terreiro de Candomblé um lugar de muitos ensinamentos, onde ela aprende muitas coisas importantes para sua vida, principalmente cuidar das folhas, já que, de acordo com ela, “sem folha não existe Candomblé, sem folha não existe vida, não existe nada”.
Apesar de assumir e enfrentar ser do Candomblé, ela não deixou de sofrer o racismo religioso na escola por vários anos, porém, encontrou uma forma de reagir, utilizando os conhecimentos adquiridos no próprio Terreiro.
Erê de Ayrá
Erê de Ayrá tem 18 anos de idade, autodeclarou-se negro e estuda no Colégio Estadual Duque de Caxias, cursando o terceiro ano do Ensino Médio. O que mais gosta da escola é a educação que é passada, diz que seus professores são muito competentes e têm postura de muito respeito com todos.
O entrevistado é Ogã confirmado para o Orixá Airá da Egbome Mariana. Participa do Candomblé desde que nasceu e tem cargo de
Oloiê24, aquele que faz tudo no Candomblé: cuida dos bichos; toca atabaques; cuida do salão; da comida e o que mais precisar. A mãe também é do Candomblé e o pai não tem religião. Ele descreveu, de forma muito amadurecida, a importância de tudo que aprende no Terreiro, sendo que, para ele, os 18 anos de convivência com a família Oxumarê fez com que aprendesse a ter uma postura muito séria e respeitosa com todos, afirmou ter sido “uma escola para a vida”.
Erê de Ayrá disse que em nenhum momento da sua vida escolar se sentiu discriminado por causa da sua religião e, de acordo com ele, a sua postura de seriedade e respeito com os outros e todo seu conhecimento sobre os conceitos e práticas do Candomblé não permitiram que isso acontecesse. Ele sabe que na sua escola outros colegas sofreram esse tipo de racismo, mas ele, em particular, em nenhum momento passou por uma situação semelhante.