Racismo religioso em escolas da Bahia: autoafirmação e inclusão de crianças e jovens de terreiro

Crianças e jovens do Ilê Axé Odara e Ilê Axé Oxumarê

Babá Pecê acredita que o racismo religioso sofrido pelas religiões de matriz africana, especialmente com as crianças e jovens nos espaços escolares, “é fruto de uma grande ignorância, falta de segurança e principalmente falta de fé e respeito ao outro”. O Babalorixá afirma também que “sonha em que um dia todos os segmentos religiosos possam desenvolver seu papel de pregadores do amor e entendam que todos somos iguais e, portanto, temos que respeitar o desejo e vontade do outro ser de qualquer religião”.

Após ouvir os Sacerdotes, autoridade máxima na hierarquia dos Terreiros, passou-se a entrevistar as crianças e jovens, seguindo o roteiro pré-estabelecido (Apêndice), como previsto no projeto de pesquisa.

 

5.2.2 Crianças e jovens do Ilê Axé Odara e Ilê Axé

 

Oxumarê

 

Inicialmente, passa-se a caracterizar o universo de crianças e jovens que participaram diretamente deste estudo. Como pode ser

observado no Quadro 2, Na próxima página, foi entrevistado um total de nove crianças e jovens, sendo cinco do Terreiro Ilê Axé Odara e quatro do Ilê Axé Oxumarê. Além disso, foram observados, de forma menos sistemática, outros integrantes dos Terreiros com a mesma faixa etária dos pesquisados diretamente.

 

Quadro 2 – Caracterização das crianças e jovens entrevistados,

ano de referência - 2018.

NOME COR* SEXO IDADE ANO INSTITUIÇÃO

ADOTADO

NA

PESQUISA

 

ILÊ AXÉ Erê de Iansã Negra F 17 9º Pública

ODARA Erê de Parda F 17 9º Pública

Yemanjá

 

Erê de Branco M 08 3º Privada

Obaluayê

 

Erê de Oxum Negra F 18 3º Pública

1

 

Erê de Xangô Negra F 09 2º Pública

 

ILÊ AXÉ Erê de Oxum Negra F 13 7º Pública OXUMARÉ 2

 

Erê de Nanã Negro M 10 5º Privada

Erê de Negra F 12 7º Público

Oxumarê

 

Erê de Ayrá Negro M 18 3º Pública

Fonte: Dados do pesquisador.

 

Na intenção de resguardar os entrevistados, na sua maioria menores de idade, suprimimos seus nomes de batismo e optamos por identificá-los com a palavra Erê, como são chamados os seres espirituais infantis no Candomblé. Para diferenciá-los, associamos a palavra Erê ao nome do orixá de cabeça de cada uma das crianças e dos jovens.

A escolha dessa denominação não foi uma criação pessoal, ela foi inspirada na dissertação de mestrado da professora Souza (2010), por meio da qual foi usada a expressão Erê para caracterizar as crianças que foram entrevistadas.

A pesquisa direta ocorreu no período de março de 2018 a fevereiro de 2019, sendo as entrevistas realizadas nos meses de setembro de 2018 a janeiro de 2019. Segue abaixo a caracterização

dos entrevistados (Quadro 2).

Passaremos agora à análise do perfil dos Erês entrevistados pelo

processo de autoidentificação. Conforme observa-se no Quadro 2, ao lado, sete dos nove entrevistados se autodeclararam como negros, um como pardo e um como branco. Essa predominância se mostra coerente com o fato de se tratar de um espaço religioso de matriz africana, cuja origem histórica é de pessoas que aportaram no Brasil por meio do processo de diáspora.