'Salem
Capítulo Catorze – A CIDADE (IV)
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
— Você sabe que a situação de ’salem’s Lot é desesperadora, não é? — perguntou-lhe Matt.
Mark fez que sim.
— Neste exato momento, os Desmortos que ele criou se arrastam sobre a cidade — prosseguiu Matt. — Produzindo outros. Eles não conseguirão pegar todos esta noite, mas vocês terão uma terrível missão amanhã.
— Matt, você precisa dormir — disse Jimmy. — Não sairemos daqui, não se preocupe. Sua cara não está boa. Tudo isso tem pesado muito sobre você e...
— Minha cidade está se desintegrando diante dos meus olhos e você quer que eu durma? — Seus olhos, infatigáveis, brilharam em seu rosto cansado.
Jimmy insistiu:
— Se quiser ficar para ver o final, precisa se poupar. Estou falando como seu médico, droga.
— Está bem. Daqui a pouco. — Ele os olhou com firmeza. — Amanhã vocês três devem ir à casa de Mark para fazer estacas. Muitas estacas.
Com um calafrio, eles compreenderam o significado do que ele dizia.
— Quantas? — perguntou Ben.
— Acho que precisarão no mínimo de trezentas. Aconselho que façam quinhentas.
— Impossível — declarou Jimmy. — Não podem ser tantos.
— Os vampiros têm sede — disse Matt. — É melhor se precaverem. Fiquem sempre juntos. Não se atrevam a se separar, nem durante o dia. Será uma caçada. Percorram toda a cidade, de um lado a outro.
— Nunca conseguiremos encontrar todos — objetou Ben. — Nem se começarmos ao amanhecer e terminarmos ao pôr do sol.
— Façam o que puderem, Ben. Talvez os moradores comecem a acreditar em vocês e até os ajudem, se lhes mostrarem que estão dizendo a verdade. E, quando a noite chegar, terão anulado boa parte do trabalho dele. — Matt suspirou. — É melhor não contarmos mais com o padre Callahan. É uma grande pena. Mas vocês devem ir em frente assim mesmo. Tomem muito cuidado. Preparem-se para mentir. Se forem presos, será perfeito para os propósitos dele. E, se ainda não pensaram nisso, é melhor começarem a pensar. É muito provável que, caso consigamos derrotá-lo, acabemos sendo julgados por assassinato.
Matt olhou para cada um deles. Deve ter ficado satisfeito com o que viu, pois voltou a dirigir a atenção exclusivamente para Mark.
— Você sabe qual é a principal tarefa, não?
— Sei — disse Mark. — Matar Barlow.
Matt sorriu com cansaço.
— Não vamos pôr o carro na frente dos bois. Primeiro precisamos encontrá-lo. — Ele olhou atentamente para o menino. — Você viu ou ouviu alguma coisa hoje, qualquer coisa, que possa nos ajudar a localizá-lo? Pense bem antes de responder! Sabe melhor do que ninguém como isso é importante.
Mark pensou. Ben nunca vira ninguém obedecer a uma ordem de modo tão literal. Ele apoiou o queixo na palma da mão e fechou os olhos. Parecia examinar deliberadamente cada detalhe do encontro daquela noite.
Finalmente abriu os olhos e sacudiu a cabeça.
— Nada.
Matt pareceu desapontado, mas não desistiu.
— Uma folha grudada ao casaco dele? Carrapatos na barra da calça? Terra nos sapatos? Algum detalhe que ele não se deu ao trabalho de ocultar? — Bateu na cama num gesto desesperado. — Santo Deus, será que ele não comete um deslize?
Mark de repente arregalou os olhos.
— O que foi? — disse Matt, agarrando o menino pelos cotovelos. — Lembrou-se de alguma coisa?
— Giz azul — disse Mark. — Ele passou um braço pelo meu pescoço, assim, e vi a mão dele. Os dedos eram compridos e brancos, e dois estavam manchados de giz azul. Eram manchas pequenas.
— Giz azul... — refletiu Matt.
— Uma escola — disse Ben. — Só pode ser.
— Mas não o colégio — disse Matt. — Todos os nossos materiais vêm da Dennison e Company, de Portland. Eles só fornecem gizes brancos e amarelos. Impregnaram minhas unhas e meus casacos durante anos.
— E nas aulas de arte? — perguntou Ben.
— Eles só têm artes gráficas no colegial, e usam tinta, e não giz. Mark, tem certeza de que...
— Era giz — afirmou ele.
— Pode ser que alguns professores de ciência usem gizes coloridos, mas não há onde se esconder no colégio. Você viu, é tudo plano, com paredes de vidro. Tem sempre gente entrando e saindo das despensas. E também da sala de calefação.
— E nos bastidores do teatro?
Matt encolheu os ombros.
— Lá é bem escuro. Mas se a Sra. Rodin dirigir a peça para mim, os alunos a chamam de Sra. Rodan, por causa de um filme de ficção científica japonês, a área será muito usada. Seria um grande risco para ele.
— E as escolas primárias? — perguntou Jimmy. — Os alunos devem aprender desenho nas primeiras séries. E aposto cem dólares que giz colorido faz parte da lista de materiais.
— A escola primária da rua Stanley foi construída com as mesmas verbas que o colégio. Também é moderna, plana e bem-aproveitada. E bem-iluminada, com muitas janelas de vidro. Não é o tipo de prédio preferido pelo nosso alvo. Eles gostam de prédios velhos, escuros, lúgubres, cheios de tradição, como...
— Como a escola da rua Brock — disse Mark.
— Isso mesmo. — Matt olhou para Ben. — A escola da rua Brock é um prédio de estrutura de madeira, com três andares e porão, erguido mais ou menos à mesma época que a Casa Marsten. Quando a verba para a nova escola estava para ser votada, falou-se muito na cidade que a escola oferecia risco de incêndio. Foi um dos motivos pelos quais conseguimos a verba. Uma escola em New Hampton pegara fogo dois ou três anos antes...
— Eu me lembro — murmurou Jimmy. — Em Cobb’s Ferry, não foi?
— Isso mesmo. Três crianças morreram queimadas.
— A escola da rua Brock ainda é usada? — perguntou Ben.
— Só o primeiro andar, com turmas da primeira à quarta série. O prédio todo será desativado daqui a dois anos, quando ampliarem a escola da rua Stanley.
— Barlow teria onde se esconder lá? — perguntou Ben.
— Acho que sim — respondeu Matt, mas com relutância. — As classes do segundo e do terceiro andar estão vazias. As janelas foram fechadas com tábuas porque muitas crianças atiravam pedras nelas.
— Então, é lá — disse Ben. — Só pode ser.
— É possível — disse Matt, aparentando muito cansaço. — Mas parece simples demais. Transparente demais.
— Giz azul — murmurou Jimmy, com olhar distante.
— Não sei — disse Matt, angustiado. — Simplesmente não sei.
Jimmy abriu a maleta preta e retirou um pequeno frasco de comprimidos.
— Tome dois com água — mandou ele. — Já.
— Não, temos muita coisa para analisar, muita coisa para...
— Por isso não podemos perder você — disse Ben com firmeza. — Se perdemos o padre Callahan, você é a pessoa mais importante agora. Faça o que ele disse.
Mark trouxe um copo d’água do banheiro. Matt cedeu de malgrado.
Eram 22h15.
O silêncio caiu sobre o quarto. Ben achou que Matt parecia assustadoramente velho e cansado. Seus cabelos pareciam mais ralos, mais secos, e em poucos dias ele ganhara a aparência de alguém que levara uma vida sofrida. Fazia sentido, pensou Ben, que um profundo tormento, quando finalmente o atingiu, tivesse uma forma onírica e fantástica. Sua existência o preparara para enfrentar males simbólicos, que ganhavam vida sob o abajur e desapareciam ao amanhecer.
— Estou preocupado com ele — disse Jimmy baixinho.
— Pensei que o ataque tivesse sido fraco — comentou Ben. — Que não tivesse chegado a ser um infarto.
— Foi uma leve obstrução. Mas o próximo não será leve. Será esmagador. Essa história vai matá-lo, se não acabar rápido. — Ele pegou o pulso de Matt e o apalpou com carinho. — E isso seria uma tragédia.
Eles esperaram ao lado da cama, dormindo e velando em turnos. Matt dormiu a noite toda, e Barlow não apareceu. Tinha afazeres em outro lugar.
26
A Srta. Coogan lia um artigo chamado “Tentei Estrangular Nosso Filhinho”, na revista Confissões da Vida Real, quando a porta se abriu e o primeiro cliente da noite entrou.
Ela nunca vira tão pouco movimento. Ruthie Crockett e sua turma nem tinham aparecido para tomar um refrigerante — não que ela sentisse falta daquela corja —, e Loretta Starcher não passara para pegar o The New York Times. O jornal continuava sob o balcão, bem dobradinho. Loretta era a única pessoa em Jerusalem’s Lot que sempre comprava o Times (ela pronunciava o nome assim, com itálico). No dia seguinte, colocava-o na sala de leitura da biblioteca.
O Sr. Labree também não voltara do jantar, embora isso não fosse nada fora do comum. O Sr. Labree era um viúvo dono de um casarão no monte do Pátio da Escola, perto dos Griffens. A Srta. Coogan sabia muito bem que ele não ia para casa jantar. Ia para o Dell’s, onde comia hambúrgueres e tomava cerveja. Se ele não voltasse até as 11 (e faltavam 15 minutos), ela pegaria a chave na gaveta do dinheiro e trancaria a loja sozinha. Não seria a primeira vez. Mas os dois ficariam em maus lençóis se alguém chegasse precisando desesperadamente de algum remédio.
Ela às vezes sentia falta do movimento após a sessão de cinema, que costumava acontecer por volta daquela hora antes de a velha sala em frente ser demolida. Pessoas pedindo milk-shakes, frapês ou leite maltado, namorados de mãos dadas, falando dos trabalhos escolares. Fora uma época difícil, mas saudável. Os jovens naquele tempo não eram como Ruthie Crockett e as amigas, que gostavam de exibir os seios e usar calças jeans tão justas que dava para ver a marca da calcinha — se é que usavam. Ela sentia saudade daqueles antigos clientes (que lhe haviam causado a mesma irritação, embora ela se esquecesse) e ergueu a cabeça esperançosa quando a porta se abriu, como se esperasse ver um aluno da turma de 1964 com a namorada, pronto para um sundae com cobertura de chocolate e nozes.
Mas era um homem, alguém que ela conhecia, mas não sabia de onde. Quando ele se aproximou do balcão com a mala, algo em seu andar ou no movimento da cabeça revelou-lhe quem ele era.
— Padre Callahan! — exclamou ela, sem conseguir disfarçar a surpresa. Ela nunca o vira sem a batina antes. Ele vestia calças escuras simples e uma camisa azul de cambraia, como um operário comum.
De repente, ela sentiu medo. Ele usava roupas limpas e seu cabelo estava bem penteado, mas havia algo em seu rosto, algo que...
De repente, ela se lembrou do dia, vinte anos antes, quando voltara do hospital onde a mãe morrera de um súbito derrame. Quando contou ao irmão, ele ficou com uma expressão semelhante à do padre Callahan. Seu rosto tinha a palidez de um condenado, seus olhos estavam vagos e aturdidos, e tão inexpressivos que ela ficou alarmada. A pele ao redor da boca estava vermelha e irritada, como se ele tivesse se esfolado ao se barbear ou a esfregado com um pano por muito tempo, tentando remover uma mancha renitente.
— Quero comprar uma passagem de ônibus — disse ele.
Então era isso, pensou ela. Pobre homem, alguém morreu e ele acabou de receber a notícia no monastério, ou seja qual for o nome do lugar onde ele mora.
— Claro — disse ela. — Para onde...
— Qual é o primeiro ônibus?
— Para onde?
— Para qualquer lugar — disse o padre, destruindo a teoria dela.
— Bom, eu não sei... Deixe-me ver... — Ela se atrapalhou ao pegar o horário e o verificou, aturdida. — Tem um ônibus às onze e dez que passa em Portland, Hartford e Nova Y...
— Esse mesmo — disse ele. — Quanto é?
— Até quando... quer dizer, até onde? — Ela estava totalmente atrapalhada agora.
— Até a última parada — disse ele, e sorriu. Ela nunca vira um sorriso tão pavoroso num rosto humano. Recuou, assustada. Se ele encostar em mim, pensou ela, juro que eu grito.
— No... Nova York, então — disse ela. — São 29 dólares e 75 cents.
Ele tirou a carteira do bolso de trás com um pouco de dificuldade, e ela viu que sua mão direita estava enfaixada. Ele colocou uma nota de vinte e duas de um sobre o balcão, e ela derrubou uma pilha de passagens em branco no chão ao tirar uma do alto. Quando terminou de apanhá-las, ele já tirara mais cinco notas de um dólar e um monte de moedas da carteira.
A Srta. Coogan preencheu a passagem o mais rápido possível, mas nada seria rápido bastante. Sentia o olhar sem vida do padre sobre si. Carimbou a passagem e a empurrou sobre o balcão para não ter que encostar na mão dele.
— O... o senhor vai ter de esperar lá fora, padre Callahan. Vou fechar daqui a cinco minutos.
Jogou as notas e as moedas dentro da gaveta cegamente, sem pensar em contá-las.
— Tudo bem — disse o padre. Meteu a passagem no bolso da camisa. Sem olhar para ela, ele disse: — E pôs o Senhor um sinal em Caim, para que ninguém que o encontrasse o matasse. E Caim, tendo se retirado da face do Senhor, andou como um fugitivo pela terra, ao leste do Éden. Está nas Escrituras, Srta. Coogan. É o trecho mais cruel da Bíblia.
— É mesmo? — disse ela. — Infelizmente o senhor precisa sair, padre Callahan. Eu... o Sr. Labree acabou de chegar, e ele não gosta que eu... que eu...
— Entendo. — Callahan começou a andar em direção à porta, mas parou e olhou para ela. A mulher se encolheu diante daqueles olhos mortiços. — Você mora em Falmouth, não é, Srta. Coogan?
— Moro...
— Tem carro?
— Claro que sim. O senhor precisa mesmo esperar lá fora e...
— Volte para casa rápido hoje, Srta. Coogan. Tranque as portas do carro e não pare para ninguém. Para ninguém. Não pare nem se for alguém conhecido.
— Nunca dou carona — disse a Srta. Coogan com ar virtuoso.
— E, quando chegar em casa, fique longe de Jerusalem’s Lot — prosseguiu Callahan. Ele a olhava fixamente. — A cidade está perdida agora.
— Não sei do que está falando — disse ela, amedrontada. — Mas terá que esperar o ônibus lá fora.
— Sim, tudo bem.
Ele saiu.
De repente, ela percebeu como a drogaria estava silenciosa. Será que ninguém, ninguém, entrara depois do anoitecer fora o padre Callahan? Não. Ninguém entrara.
A cidade está perdida agora.
Ela começou a apagar as luzes.
27
Em Lot, a escuridão era intensa.
Às dez para a meia-noite, Charlie Rhodes foi despertado por uma buzina longa e insistente. Sentou-se na cama bruscamente.
O ônibus!
E, logo em seguida:
Moleques desgraçados!
Eles já haviam feito coisas parecidas antes. Conhecia bem aqueles pilantrinhas. Uma vez, haviam esvaziado seus pneus com palitos de fósforos. Ele não vira quem fora, mas fazia uma boa ideia. Fora até a sala do maldito diretor e denunciara Mike Philbrook e Audie James. Sabia que haviam sido eles — quem precisava ver?
Tem certeza de que foram eles, Rhodes?
Foi o que eu disse, não foi?
E o molenga não pôde fazer nada a não ser suspender os moleques. Mas, uma semana depois, chamou-o de volta à sua sala.
Rhodes, suspendemos Andy Garvey hoje.
É? Não admira. O que ele aprontou?
Bob Thomas o pegou esvaziando seus pneus. E o diretor o fulminou com um olhar longo e frio.
E daí se fora Garvey em vez de Philbrook e James? Os três andavam juntos, os três eram safados, os três mereciam cintadas e salmoura.
E agora, estavam lá fora, apertando a buzina, acabando com sua bateria, enlouquecendo-o com aquele som:
FOM, FOM, FOOOOM...
— Seus filhos da mãe — murmurou ele, saindo da cama. Vestiu as calças sem acender a luz. Não queria assustar os miseráveis.
Noutra ocasião, alguém deixara um monte de bosta de vaca no banco do motorista do ônibus, e ele também tinha uma boa ideia de quem fora. Dava para ver nos olhos deles. Aprendera isso montando guarda na guerra. E resolvera a situação a seu modo. Expulsou o desgraçado do ônibus três dias seguidos, a 6 quilômetros de casa. Finalmente o moleque o procurou chorando.
Eu não fiz nada, Sr. Rhodes. Por que está me expulsando do ônibus?
Então colocar merda de vaca no meu banco não é nada?
Não, não fui eu. Juro por Deus que não fui eu.
Ele tinha que admitir. Eles eram capazes de mentir para as próprias mães com a maior cara de pau. E deviam mentir mesmo. Expulsou o menino mais duas noites, e então ele confessou. Charlie o expulsou mais uma noite, só para garantir, mas Dave Felsen, da frota de ônibus escolares, lhe dissera para pegar leve.
FOOOMMM...
Ele enfiou a camisa e depois pegou uma velha raquete de tênis. Ia arrancar o couro daqueles moleques!
Saiu pela porta de trás e deu a volta pela casa até onde guardava seu grande ônibus amarelo. Sentia-se forte, frio e eficaz. Parecia uma tática de infiltração, como no Exército.
Ele parou atrás do loureiro e olhou para o ônibus. Sim, conseguia vê-los — era um bando deles, e as silhuetas escuras se recortavam atrás do vidro escuro. E veio-lhe a velha fúria, o ódio por aqueles moleques, queimando-o como gelo. Agarrou a raquete com mais força, fazendo com que tremesse em sua mão como um diapasão. Eles haviam arrebentado — seis, sete, oito — oito janelas de seu ônibus!
Charlie se escondeu atrás do ônibus e depois avançou, colado à lateral amarela, até a porta do passageiro. Estava aberta. Ele retesou os músculos e, de um salto, subiu os degraus e entrou no ônibus.
— Fiquem onde estão! Moleque, tire a mão dessa buzina, ou eu...
O menino sentado no banco do motorista, apertando a buzina com as duas mãos, virou-se para ele com um sorriso insano. Charlie sentiu as entranhas gelarem. Era Richie Boddin. Estava branco como um lençol, com a exceção dos tições que eram seus olhos e dos lábios vermelho-sangue.
E seus dentes...
Charlie Rhodes olhou para os bancos de trás.
Aquele era Mike Philbrook? Audie James? Deus misericordioso, os filhos dos Griffen também estavam lá! Hal e Jack, sentados nos fundos, com feno nos cabelos. Mas eles não andam no meu ônibus! Mary Kate Greigson e Brent Tenney, sentados juntos. Ela estava de camisola, ele de jeans e camisa de flanela vestida ao contrário e do avesso, como se ele tivesse desaprendido a se vestir.
E Danny Glick. Mas… santo Deus… ele tinha morrido… semanas atrás!
— Seus... seus moleques... — balbuciou ele.
A raquete de tênis caiu de sua mão. Ouviu um assobio e um baque surdo quando Richie Boddin, com o mesmo sorriso insano, acionou a alavanca de cromo que fechava a porta dobradiça. E eles começaram a levantar dos bancos, um a um.
— Não — disse ele, tentando sorrir. — Crianças... vocês não estão entendendo. Sou eu. Charlie Rhodes. Vocês... vocês... — Ele lhes abriu um sorriso sem sentido, sacudiu a cabeça, estendeu as mãos para mostrar que eram apenas as mãos do velho Charlie Rhodes, inocentes, e recuou até bater com as costas no vidro amplo do para-brisa.
— Não... — sussurrou.
Eles se aproximaram, arreganhando os dentes.
— Por favor, não...
E se abateram sobre ele.
28
Ann Norton morreu no curto trajeto de elevador do primeiro ao segundo andar do hospital. Um tremor a percorreu, e um pequeno filete de sangue escapou de sua boca.
— Pronto — disse um dos serventes. — Pode desligar a sirene agora.
29
Eva Miller despertou de um sonho.
Fora um sonho estranho, não exatamente um pesadelo. O incêndio de 1951 ainda ardia sob um céu implacável, que passava de um azul-claro no horizonte a um branco ígneo e impiedoso no zênite. O sol fulgia nessa cúpula como uma moeda de cobre. O odor acre da fumaça permeava tudo. Todas as lojas haviam fechado, e as pessoas tomavam as ruas, olhando para sudoeste, em direção aos pântanos, ou para noroeste, em direção à floresta. A fumaça havia pairado sobre a cidade a manhã toda, mas agora, à uma da tarde, dava para ver as flamejantes artérias dançando no matagal além do pasto dos Griffen. A brisa constante que empurrara as chamas sobre as clareiras agora lançava uma nuvem de cinzas brancas sobre a cidade, como neve de verão.
Ralph estava vivo, tentando salvar a serraria. Mas era uma mistura, porque ela estava com Ed Craig, e só conhecera Ed no outono de 1954.
Eva contemplava o fogo da janela do quarto. Estava nua. Mãos a tocaram por trás, mãos morenas e rústicas sobre a brancura macia de seus quadris, e ela sabia que era Ed, embora não conseguisse ver o reflexo dele na vidraça.
Ed, tentou dizer ela. Agora não. Ainda é cedo. Faltam quase nove anos.
Mas as mãos dele insistiam, acariciando sua barriga, um dedo brincando com seu umbigo. Depois, ambas as mãos subiram para envolver seus seios com insolente segurança.
Ela tentou lhe dizer que estavam na janela, que as pessoas na rua podiam vê-los, mas as palavras não saíam. E então sentiu os lábios dele em seu braço, seu ombro, depois se fechando com volúpia em seu pescoço. Sentiu os dentes dele, sugando e mordendo, tirando sangue, e ela de novo tentou protestar: Não deixe marcas no meu pescoço, Ralph vai ver...
Mas era impossível protestar, e ela já nem queria mais. Não ligava mais se alguém olhasse e os visse nus e impudentes.
Eva voltou os olhos sonhadoramente para o incêndio, enquanto ele aplicava os dentes e os lábios ao seu pescoço, e a fumaça era escura, negra como a noite, toldando o céu ardente e metálico, anoitecendo o dia. Mas o fogo o penetrava com seus pulsantes filamentos escarlates — flores febris numa selva noturna.
E então de fato era noite, e a cidade desaparecera, mas o fogo ainda fremia na escuridão, tomando formas fascinantes e caleidoscópicas, até delinear um rosto em sangue — um rosto com nariz aquilino, olhos profundos e fogosos, lábios cheios e sensuais, parcialmente ocultos por um denso bigode, e cabelos penteados para trás como os de um músico.
— O guarda-louça que está no sótão — disse uma voz distante, e ela sabia que pertencia a ele. — Acho que servirá. E depois prepararemos a escada... precisamos nos precaver.
A voz desvaneceu. As chamas desvaneceram.
Restara apenas a escuridão, e Eva em meio às brumas, sonhando ou começando a sonhar. Ela pensou vagamente que o sonho seria doce e longo, mas no fundo amargo e sem luz, como as águas do Letes.
Outra voz — a de Ed.
— Venha, querida. Levante. Precisamos fazer o que ele disse.
— Ed? Ed?
O rosto dele assomou, não afogueado, mas terrivelmente pálido e vazio. Mesmo assim ela o amava de novo... mais do que nunca. Ansiava por ser beijada.
— Venha, Eva.
— Estou sonhando, Ed?
— Não... não está.
Ela teve medo, mas não por muito tempo. A compreensão o substituiu. E, com a compreensão, veio a fome.
Eva olhou para o espelho e viu apenas o reflexo de seu quarto, vazio e imóvel. A porta do sótão estava trancada, a chave estava na última gaveta da cômoda, mas não importava. Eles não precisavam mais de chaves.
Deslizaram entre a porta e o batente como duas sombras.
30
Às três da manhã o sangue pulsa lento e espesso, o sono é pesado. Nessa hora, a alma ou dorme ignorando a escuridão ou olha ao redor em profundo desespero. Não há meio-termo. Às três da manhã, a terra, essa velha cortesã, tira a maquiagem vistosa e mostra o rosto sem nariz, o olho de vidro. Os risos se tornam frágeis e ocos, como no castelo de Poe cercado pela Morte Escarlate. O horror é destruído pelo tédio. O amor é um sonho.
Parkins Gillespie andou com passos vacilantes da mesa de sua sala até a cafeteira, como um macaco magro e doentio. Atrás dele, um jogo de paciência estendido sobre a mesa. Ele ouvira muitos gritos naquela noite, o som penetrante e estranho de uma buzina, alguém correndo. Não saíra para investigar nada disso. Seu rosto estava encovado, atormentado pelo que imaginava estar ocorrendo na cidade. Usava uma cruz, uma medalha de São Cristóvão e o símbolo da paz ao redor do pescoço. Não sabia bem por que os colocara, mas lhe davam segurança. Se conseguisse sobreviver àquela noite, iria para bem longe no dia seguinte, deixando o distintivo na prateleira, ao lado do molho de chaves.
Mabel Werts estava sentada na cozinha, diante de uma xícara de café frio, as venezianas baixadas pela primeira vez em anos, os binóculos no estojo. Pela primeira vez em sessenta anos, ela não queria ver o que se passava. A noite estava prenhe de mexericos mortais, mas ela não queria ouvi-los.
Bill Norton estava a caminho do Hospital de Cumberland atendendo a um chamado (feito enquanto sua mulher ainda vivia), com a expressão rígida e imóvel. Os limpadores de para-brisa arrastavam-se hipnoticamente sob a chuva, que caía agora com mais força. Ele tentava não pensar em nada.
Outros na cidade, dormindo ou acordados, continuavam ilesos. A maioria era gente sozinha, sem parentes ou amigos na cidade. Muitos nem sabiam que algo estava acontecendo.
Os que estavam acordados, no entanto, haviam acendido todas as luzes. Os motoristas que cruzaram a cidade (e muitos carros passaram por lá, em direção a Portland ou localidades ao sul) devem ter estranhado aquela cidadezinha, tão parecida com outras ao longo da estrada, com tantas casas totalmente iluminadas na calada da noite. Alguns podem ter diminuído a velocidade, procurando um incêndio ou um acidente; mas, não vendo nada, voltaram a pisar no acelerador e se esqueceram do caso.
O mais estranho é que nenhum dos que vigiavam a noite em Jerusalem’s Lot sabia a verdade. Alguns suspeitavam, mas essas suspeitas eram vagas e informes como fetos. Mesmo assim, não hesitaram em abrir as gavetas das cômodas, as caixas guardadas no sótão ou os porta-joias em busca de quaisquer símbolos religiosos ou talismãs. Fizeram isso sem pensar, como um homem dirigindo por uma longa estrada começa a cantar sem perceber. Andavam lentamente de um cômodo a outro, como se tivessem frágeis corpos de vidro, acendendo as luzes, sem olhar pelas janelas.
Acima de tudo sem olhar pelas janelas.
Por terríveis que fossem os ruídos e as possibilidades, por pior que fosse o desconhecido, havia algo ainda pior: olhar a Górgona no rosto.
31
O barulho penetrou seu sono como um prego perfurando um carvalho espesso — com fina lentidão, fibra por fibra. Primeiro, Reggie Sawyer pensou que estivesse sonhando com carpintaria, e seu cérebro, no território sombrio entre o sono e a vigília, foi tomado pela lembrança fragmentária de um dia em que ele e o pai pregaram tábuas nas laterais de uma cabana que ergueram no lago Bryant em 1960.
Essa lembrança deu lugar à consciência de que ele não estava sonhando, mas ouvia mesmo o bater de um martelo. Após um breve período de confusão, ele percebeu que os golpes eram aplicados à porta da frente. Alguém esmurrava a madeira com a regularidade de um metrônomo.
Seus olhos primeiro fitaram Bonnie, deitada de lado, uma forma em S sob os cobertores. Depois o relógio: 4h15.
Ele levantou, saiu de mansinho do quarto e fechou a porta. Acendeu a luz do corredor, andou em direção à porta e depois parou, sentindo um arrepio interior.
Sawyer olhou para a porta da frente com a cabeça levantada. Ninguém batia às 4h15. Se alguém na família morresse, alguém avisaria por telefone, não viria bater na porta.
Ele estivera no Vietnã durante sete meses em 1968, um ano muito difícil para os Estados Unidos na guerra, e participara de combates. Naquele tempo, acordar era algo brusco como um estalar de dedos ou o acender de uma lâmpada. Num minuto dormia-se como uma pedra; no outro, estava-se desperto na escuridão. Ele perdera esse hábito assim que o mandaram de volta para os Estados Unidos, e se orgulhava do fato, embora nunca o mencionasse. Não era uma máquina, afinal. Aperte o botão A e Johnny acorda. Aperte o botão B e Johnny mata uns chinas.
Mas agora, sem aviso, a confusão e a névoa do sono se desfizeram num segundo, e lá estava ele, piscando os olhos e com frio.
Havia alguém do lado de fora. O filho do Bryant, provavelmente, bêbado e procurando briga. Pronto para matar ou morrer pela bela donzela.
Ele entrou na sala e foi até o suporte de armas sobre a lareira pré-fabricada. Não acendeu a luz. Sabia se deslocar só pelo tato. Pegou a espingarda, abriu-a, e a luz do corredor se refletiu sobre os cartuchos de metal. Voltou para a porta da sala e espiou pelo corredor. As batidas continuavam monotonamente, com regularidade, mas sem ritmo.
— Entre! — gritou Reggie.
As batidas cessaram.
Depois de uma longa pausa, a maçaneta girou, muito lentamente, até o fim. A porta se abriu, e lá estava Corey Bryant.
Reggie sentiu o coração afundar. Bryant vestia as mesmas roupas que na noite em que Reggie o expulsara, só que agora estavam rasgadas e enlameadas. Folhas se colavam a suas calças e camisa. Uma mancha de terra na testa acentuava sua palidez.
— Pare onde está — disse Reggie, erguendo a espingarda e puxando a trava de segurança. — Desta vez está carregada.
Mas Corey Bryant avançou lentamente, os olhos apagados, fixos no rosto de Reggie com uma expressão pior do que o ódio. Ele passou a língua pelos lábios. Seus sapatos estavam cobertos de uma crosta de lama enegrecida pela chuva, e soltavam torrões no chão do corredor a cada passo. Havia algo implacável e desumano naquele andar, que ecoava na expressão fria e impiedosa dos olhos. Os pés cobertos de lama pisavam forte. Nenhuma ordem ou súplica os faria parar.
— Se der outro passo, arrebento sua cabeça — disse Reggie. As palavras saíram duras e secas. O rapaz não estava só bêbado. Estava doido. E Reggie teve a súbita certeza de que teria de atirar nele.
— Pare — disse de novo, mas de modo quase mecânico.
Corey Bryant não parou. Os olhos se fixavam no rosto de Reggie com a avidez inerte de um alce empalhado. Seus pés pisavam solenemente o chão.
Bonnie soltou um grito.
— Entre no quarto — gritou Reggie, e entrou no corredor para se colocar entre os dois. Bryant estava a apenas dois passos de distância agora. Estendeu a mão pálida e vacilante para os canos duplos da espingarda.
Reggie puxou os dois gatilhos.
A explosão foi como um trovão no estreito corredor. Os dois canos cuspiram fogo brevemente. O cheiro de pólvora queimada encheu o ar. Bonnie deu outro grito, agudo. A camisa de Corey se desfez em retalhos escuros. Mas, quando revelou a brancura doentia do peito e do abdômen, não se via nenhuma marca. Reggie teve a impressão de que aquela carne não era real, mas imaterial como gaze.
Depois a espingarda foi arrancada de suas mãos, como das mãos de uma criança. Ele foi agarrado e jogado contra a parede com força descomunal. Suas pernas cederam, e ele caiu, entorpecido. Bryant passou por ele em direção a Bonnie. Ela gritava, mas os olhos pregados no rosto de Bryant estavam cheios de ardor.
Corey olhou por sobre o ombro e dirigiu um sorriso largo e demente para Reggie, como os dos crânios de vacas no deserto. Bonnie estendeu os braços trêmulos. Em seu rosto, o terror e o desejo se revezavam como flashes alternados de luz e sombra.
— Querido — disse ela.
Reggie gritou.
32
— Ei, amigo — disse o motorista do ônibus. — Chegamos a Hartford.
Callahan olhou pela janela ampla e polarizada. Viu a estranha paisagem, tornada ainda mais estranha pelas primeiras luzes da manhã. Àquela hora, em Lot, eles voltavam para suas tocas.
— Eu sei — replicou ele.
— Vamos fazer uma parada de vinte minutos. Não quer entrar e comer alguma coisa?
Callahan tirou a carteira do bolso com a mão enfaixada e quase a deixou cair. Era estranho, mas a queimadura na mão não doía mais tanto. Estava só amortecida. Ele preferia que doesse. Pelo menos a dor era real. Sentia o gosto de morte na boca, um gosto brutal e farináceo como o de uma maçã estragada. Era só aquilo? Só. Não podia ser pior.
Estendeu uma nota de vinte.
— Pode me trazer uma garrafa?
— Senhor, é proibido...
— Pode ficar com o troco, é claro. Meio litro está bom.
— Não quero confusão no meu ônibus. Vamos chegar a Nova York daqui a duas horas. Pode conseguir o que quiser lá. O que quiser.
Acho que está enganado, amigo, pensou Callahan. Voltou a inspecionar a carteira. Tinha uma nota de dez, duas de cinco, uma de um. Juntou a de dez à de vinte e as entregou com a mão enfaixada.
— Meio litro está bom — repetiu. — E pode ficar com o troco.
O motorista olhou para as notas e depois para os olhos escuros e fundos, e por um terrível momento pensou estar diante de um crânio vivo, um crânio que se esquecera de como sorrir.
— Trinta dólares por meio litro? O senhor enlouqueceu. — Mas ele pegou o dinheiro, andou até a frente do ônibus vazio e se virou. O dinheiro havia desaparecido. — Mas nada de confusão. Não quero saber de confusão no meu ônibus.
Callahan assentiu como uma criança que recebe uma merecida reprimenda.
O motorista olhou para ele durante mais um momento e desceu.
Algo barato, pensou Callahan. Que queime a boca e arda na garganta. Que tire esse gosto doce, suave... ou que pelo menos o alivie até ele encontrar um lugar para começar a beber de verdade. Beber e beber até...
Ele achou que fosse chorar. Mas não lhe vieram lágrimas. Ele se sentia seco, totalmente vazio. Tudo que havia era... aquele gosto.
Rápido, motorista.
Ele continuou olhando pela janela. Do outro lado da rua, um adolescente estava sentado nos degraus de uma varanda, a cabeça apoiada nos braços cruzados. Callahan o olhou até o ônibus voltar a andar, mas o menino não se mexeu.
33
Ben sentiu uma mão em seu braço e emergiu rapidamente do sono.
— Bom dia — disse Mark, de pé a seu lado.
Ele abriu os olhos, piscou duas vezes para clareá-los, e olhou para o mundo além da janela. A aurora se insinuava por entre uma insistente chuva de outono. As árvores no entorno gramado do pavilhão do hospital já estavam quase desnudadas, e os ramos escuros se delineavam contra o céu cinzento como letras gigantescas de um alfabeto desconhecido. A Rodovia 30, que saía da cidade a leste, reluzia como uma pele de foca — um carro que passava com os faróis ainda ligados projetava reflexos vermelhos e sinistros sobre o asfalto.
Ben ergueu-se e olhou ao redor. Matt continuava dormindo, o movimento do peito indicando uma respiração curta mas regular. Jimmy também dormia, estendido na única espreguiçadeira do quarto. Estava com a barba por fazer, o que destoava de sua pose de médico. Ben passou a mão pelo próprio rosto áspero.
— Já está na hora, não é? — perguntou Mark.
Ben assentiu. Pensou no dia que os aguardava e em todo o seu abominável potencial e quis fugir dele. O único modo de enfrentá-lo era só pensar em termos dos dez minutos seguintes. Olhou para o rosto do menino, e viu uma determinação férrea que o constrangeu. Levantou e sacudiu Jimmy.
— Hã? — fez Jimmy. Mexeu-se na cadeira como um mergulhador emergindo das profundezas. Contorceu o rosto e abriu os olhos, que, por um momento, se encheram de terror. Olhou para os dois, desnorteado. Depois os reconheceu e relaxou.
— Estava sonhando.
Mark assentiu, entendendo perfeitamente.
Jimmy olhou pela janela.
— Amanheceu — disse ele, com a repulsa de um avarento diante da perspectiva de gastar. Ergueu-se e foi tomar o pulso de Matt.
— Como ele está? — perguntou Ben.
— Acho que melhor do que ontem — disse Jimmy. — Ben, vamos descer pelo elevador de serviço, caso alguém tenha visto Mark entrar ontem à noite. Quanto menos risco, melhor.
— O Sr. Burke ficará bem sozinho? — perguntou Mark.
— Acho que sim — disse Ben. — Ele tem seus próprios recursos. Barlow adoraria se ficássemos mais um dia presos aqui.
Cruzaram o corredor pé ante pé e pegaram o elevador de serviço. A cozinha começava a funcionar àquela hora, quase 7h15. Um dos cozinheiros ergueu a cabeça, acenou e disse:
— Oi, doutor.
Ninguém mais lhes dirigiu a palavra.
— Para onde iremos primeiro? — perguntou Jimmy. — Para a escola da rua Brock?
— Não — disse Ben. — Tem muita gente lá de manhã. A que horas as crianças saem, Mark?
— Só às duas horas.
— Ainda restará muita luz do dia — disse Ben. — Vamos primeiro para a casa de Mark, fazer estacas.
34
Ao se aproximarem de Lot, uma nuvem de apreensão quase palpável se formou dentro do carro, e eles pararam de conversar. Quando Jimmy saiu da estrada depois da grande placa verde onde se lia RODOVIA 12 JERUSALEM’S LOT CUMBERLAND, Ben lembrou que fora por aquele caminho que ele e Susan haviam voltado na primeira vez que saíram juntos. Ela quisera ver um filme com corrida de carros.
— A situação piorou — disse Jimmy, o rosto infantil assustado e zangado. — Nossa, dá quase para sentir pelo cheiro.
Dava mesmo, pensou Ben. Só que era um cheiro abstrato, e não físico: a exalação das tumbas.
A Rodovia 12 estava quase deserta. No caminho, passaram pelo caminhão de leite de Win Purinton, parado no acostamento e vazio. O motor ainda funcionava. Ben foi desligá-lo, depois de olhar pra dentro do veículo. Jimmy o interrogou com o olhar quando ele voltou. Ben sacudiu a cabeça.
— Não o vi. Já estava quase sem gasolina. Ficou parado, com o motor funcionando, durante horas.
Jimmy bateu na perna com o punho cerrado. Mas, ao entrarem na cidade, ele disse, com alívio quase absurdo:
— Olhem, Crossen está aberto.
Era verdade. Milt estava na frente da loja, colocando uma capa de plástico sobre a banca de jornais. Lester Silvius estava ao seu lado, com um impermeável amarelo.
— Não estou vendo o resto da turma — disse Ben.
Milt acenou para eles, e Ben pensou ver rugas de preocupação no rosto dos dois. A placa de “Fechado” continuava na porta da Funerária Foreman. A loja de ferramentas também estava fechada, assim como a drogaria Spencer’s. O restaurante estava aberto, e, depois de passarem por ele, Jimmy parou em frente da loja nova. Sobre a vitrine, letras simples e douradas anunciavam o nome: “Barlow e Straker — Móveis Finos”. E, como informara Callahan, um cartaz colado na porta anunciava, na caligrafia refinada que todos reconheceram — era a mesma da carta do dia anterior —, “Fechado até segunda ordem”.
— Por que parou aqui? — perguntou Mark.
— Para ver se, por acaso, ele não está escondido aqui — disse Jimmy. — É um lugar tão óbvio que ele pode ter achado que nem passaria pela nossa cabeça. E acho que os agentes da alfândega marcam as caixas que inspecionam. Escrevem “Ok” com giz.
Foram até os fundos da loja. Enquanto Ben e Mark se encolhiam debaixo da chuva, Jimmy quebrou o vidro da porta com o braço protegido pelo casaco, e os três puderam entrar.
O ar estava estagnado e insalubre, como se a loja estivesse fechada havia séculos, e não dias. Ben deu uma olhada na sala principal, mas não havia onde se esconder lá. A decoração era escassa, e parecia que Straker não renovara o estoque.
— Aqui! — Jimmy chamou com voz rouca, e o coração de Ben saltou até a garganta.
Jimmy e Mark olhavam para uma longa caixa que Jimmy abrira com a ponta curva do martelo. Pela fresta, viram uma pálida mão saindo de uma manga preta.
Sem pensar, Ben atacou a caixa. Jimmy tentava abrir a outra extremidade com o martelo.
— Ben, você vai cortar as mãos — disse ele. — Você...
Mas Ben não ouvia. Arrancou as tábuas da caixa, sem se importar com lascas e pregos. A viscosa criatura da noite estava lá dentro, e ele cravaria uma estaca em seu coração como havia feito com Susan, e...
Arrancou mais uma tábua da caixa ordinária de madeira e descobriu o rosto morto e pálido de Mike Ryerson.
Por um momento, fez-se silêncio, e depois os três soltaram a respiração. Foi como se uma brisa tivesse atravessado o cômodo.
— E agora? — perguntou Jimmy.
— É melhor irmos para a casa de Mark — disse Ben, a voz cheia de cansaço e decepção. —Voltaremos depois. Nem sequer temos uma estaca.
Colocaram as tábuas quebradas de volta de qualquer jeito.
— Deixe-me ver suas mãos — disse Jimmy. — Estão sangrando.
— Depois — disse Ben. — Vamos.
Eles saíram da loja, sem expressar o alívio que sentiam por voltar à luz do dia. Jimmy seguiu pela avenida Jointner rumo à parte residencial da cidade, passando pelo pequeno centro comercial. Chegaram à casa de Mark rápido demais para o gosto deles.
O velho sedan do padre Callahan estava parado atrás do econômico carro de Henry Petrie na entrada da casa. Ao vê-lo, Mark prendeu a respiração e desviou os olhos, terrivelmente pálido.
— Desculpe, mas não consigo entrar — murmurou. — Vou esperar no carro.
— Não precisa pedir desculpas, Mark — disse Jimmy.
Ele parou, desligou o motor e desceu. Ben hesitou e depois colocou a mão no ombro de Mark.
— Você vai ficar bem aqui?
— Vou. — Mas ele não parecia bem. Seu queixo tremia e seus olhos estavam vazios. De repente, ele se voltou para Ben, e seus olhos não estavam mais vazios, e sim cheios de dor e lágrimas.
— Por favor, cubra eles. Se estiverem mortos, cubra eles.
— Claro, Mark — disse Ben.
— É melhor assim — disse Mark. — Meu pai... teria sido um vampiro muito eficiente. Teria ficado tão bom como Barlow, com o tempo. Ele... ele era bom em tudo que fazia. Bom até demais.
— Tente não pensar demais — disse Ben, odiando o tom pouco convincente de suas palavras. Mark olhou para ele com um sorriso descorado.
— A pilha de lenha está no quintal. Podem acabar mais rápido se usarem o torno do meu pai. Está no porão.
— Certo — disse Ben. — Fique calmo, Mark. O mais calmo que puder.
Mas o menino havia se virado, enxugando os olhos com a manga.
Ben e Jimmy entraram na casa.
35
— Callahan não está aqui — constatou Jimmy. Eles já haviam revistado toda a casa.
— Barlow o pegou — disse Ben com esforço.
Olhou para a cruz quebrada que tinha na mão, e que estivera no peito de Callahan no dia anterior. Era o único vestígio do padre que haviam encontrado. Estava ao lado dos pais de Mark, que de fato estavam mortos. Barlow batera suas cabeças com tanta força que literalmente as rachara. Ben lembrou da força sobrenatural que a Sra. Glick demonstrara e sentiu náuseas.
— Venha — disse a Jimmy. — Precisamos cobri-los. Eu prometi.
36
Eles pegaram a manta do sofá da sala e os cobriram. Ben tentou não pensar no que estavam fazendo, mas era impossível. Quando terminaram, uma mão — as unhas finas e pintadas indicavam ser de June Petrie — rolou de sob a manta estampada, e ele a empurrou para baixo com a ponta do pé, esforçando-se para controlar a náusea. Os formatos dos corpos sob a manta eram inconfundíveis, lembrando algumas fotos tiradas no Vietnã — mortos em campos de batalha e soldados carregando terríveis fardos em sacos de borracha preta, absurdamente parecidos com sacos de golfe.
Desceram as escadas, cada um levando uma braçada de achas de madeira.
O porão fora o domínio de Henry Petrie, e refletia sua personalidade. Três lâmpadas de alta voltagem haviam sido instaladas no teto sobre a área de trabalho, cada uma com um anteparo de metal que obrigava a luz a se projetar com mais força sobre a plaina mecânica, a serra de vaivém, a serra com suporte, o torno, a lixa elétrica. Ben viu que ele vinha montando um viveiro de pássaros, que provavelmente instalaria no quintal quando a primavera chegasse. O diagrama que seguia estava cuidadosamente estendido e preso em cada canto com pesos de papel de metal. Era um trabalho competente, mas sem imaginação, e agora nunca seria concluído. O chão estava impecável, mas um aroma nostálgico de serragem pairava no ar.
— Isso não vai dar certo — disse Jimmy.
— Eu sei — disse Ben.
— Estou falando da pilha de lenha — bufou Jimmy, e soltou a madeira dos braços com estrondo. As achas rolaram desordenadamente pelo chão, e ele soltou um riso alto e histérico.
— Jimmy...
Mas sua gargalhada cortante interrompeu a fala de Ben.
— Vamos acabar com esse pesadelo com a pilha de lenha do quintal de Henry Petrie? Então, por que não pernas de cadeira ou bastões de beisebol?
— O que mais podemos fazer?
Jimmy olhou para ele e se controlou com visível esforço.
— A grande caçada ao tesouro — zombou ele. — Ande quarenta passos no pasto de Charles Griffen e olhe debaixo da pedra grande... Ah, até parece... A gente pode sair da cidade, Ben. Por que não?
— Você quer desistir? É isso que está dizendo?
— Não. Mas não vai ser só hoje, Ben. A gente vai levar semanas para pegar todos, se é que vamos pegar. Você vai suportar? Vai aguentar fazer mil vezes o que fez com Susan? Arrancar eles dos armários, gritando e esperneando, e esmagar o coração deles com uma estaca? Consegue fazer isso até novembro sem enlouquecer?
Ben tentou refletir, mas era algo impensável.
— Não sei — respondeu.
— E o menino? Acha que vai aguentar? Ele vai daqui direto para o hospício. E Matt vai morrer. Posso garantir. E quando a polícia estadual vier ver que diabo está acontecendo em ’salem’s Lot? O que vamos dizer? “Espere um pouco, seu guarda, enquanto espeto esse vampiro”? O que me diz, Ben?
— E como vou saber, droga? Quem até agora conseguiu parar e pensar?
Eles perceberam, ao mesmo tempo, que estavam cara a cara, gritando um com o outro.
— Opa — disse Jimmy.
— Desculpe — disse Ben, baixando os olhos.
— Não, a culpa foi minha. Estamos sob muita pressão. Barlow sem dúvida diria que é fim de jogo. — Ele passou a mão pelos cabelos alaranjados e lançou um olhar perdido ao redor. Seus olhos de repente brilharam quando deram com algo ao lado do diagrama de Petrie. Era um lápis de graxa.
— Acho que encontrei o melhor jeito — disse ele.
— Qual?
— Você fica aqui, Ben, fazendo as estacas. Já que é para ir em frente, sejamos científicos. Você fica sendo o setor de produção. Mark e eu seremos o setor de pesquisa. Vamos revistar a cidade e procurar por eles. E vamos encontrá-los, assim como encontramos Mike. Vou marcar os locais com este lápis de graxa. Amanhã, atacaremos com as estacas.
— Mas eles não vão ver as marcas e mudar de lugar?
— Acho que não. A Sra. Glick não parecia muito lúcida. Acho que eles agem mais por instinto do que por raciocínio. Talvez fiquem mais espertos com o passar do tempo e comecem a se esconder melhor, mas acho que no começo vai ser como pescar num barril.
— E por que não eu?
— Porque eu conheço a cidade e a cidade me conhece, como conhecia meu pai. Os sobreviventes de Lot estão escondidos em casa hoje. Se você bater na porta, não vão atender. Se eu bater, a maioria atenderá. Conheço alguns esconderijos. Sei onde os bêbados se abrigam no pântano e onde vão dar as estradas de lenhadores. Você não. Sabe mexer com esse torno?
— Sei — disse Ben.
Jimmy tinha razão, claro. Mas o alívio que ele sentiu por não ter que sair e enfrentá-los o deixou culpado.
— É melhor começar. Já passa do meio-dia.
Ben virou-se para o torno.
— Se quiserem esperar meia hora, já poderão levar algumas estacas.
Jimmy hesitou, depois baixou os olhos.
— Acho que amanhã... amanhã será...
— Certo, então vá — disse Ben. — O que acha de voltar lá pelas três horas? A escola já vai estar tranquila a essa hora, e poderemos dar uma olhada.
— Boa ideia.
Jimmy começou a andar em direção à escada do porão. Alguma coisa — uma ideia vaga, uma súbita iluminação — fez com que se virasse. Viu Ben trabalhando sob o forte clarão das três lâmpadas, cuidadosamente enfileiradas.
Algo lhe veio... mas lhe escapou.
Ben fechou o torno e olhou para ele.
— Mais alguma coisa?
— Estava na ponta da língua — disse Jimmy. — Mas esqueci.
Ben ergueu as sobrancelhas.
— Quando cheguei à escada e virei para você, senti um estalo. Mas já passou.
— Era importante?
— Não sei. — Ele se demorou mais um pouco, tentando lembrar. Tinha a ver com a imagem de Ben, inclinado sobre o torno debaixo das luzes fortes. Não adiantou. O esforço para lembrar só serviu para afastar mais a lembrança.
Ele subiu a escada, mas olhou para trás mais uma vez. A imagem era estranhamente familiar, mas ele não sabia o porquê. Cruzou a cozinha e foi para o carro. A chuva se tornara uma garoa.
37
O carro de Roy McDougall estava parado na frente do trailer na estrada da Curva. Ao se deparar com ele num dia de semana, Jimmy se preparou para o pior.
Saiu do carro com Mark, levando a maleta preta. Subiram os degraus, e Jimmy tocou a campainha. Não funcionava, e ele bateu na porta. As pancadas insistentes não acordaram ninguém no trailer dos McDougall, nem no trailer vizinho, a 20 metros, que também tinha um carro parado na frente.
Jimmy tentou abrir a porta externa. Estava trancada.
— Tem um martelo no banco de trás do carro — disse ele.
Mark foi buscá-lo, e Jimmy quebrou o vidro ao lado da maçaneta. Passou o braço pelo buraco e soltou a tranca. A porta de dentro estava aberta. Eles entraram.
Sentiram o cheiro instantaneamente. As narinas de Jimmy se contraíram, tentando bloqueá-lo. Não era tão forte quanto o que haviam sentido no porão da Casa Marsten, mas era basicamente o mesmo, de coisa morta e apodrecida. Um cheiro úmido, pestilento. Jimmy se lembrou de quando era criança e ia com os amigos de bicicleta, na primavera, recolher as garrafas retornáveis de cerveja e refrigerante reveladas pela neve que derretia. Numa delas (uma garrafa de Crush) ele encontrou um ratinho decomposto, que fora atraído pelo açúcar e não conseguira sair. Depois de dar uma cheiradinha, tinha soltado a garrafa e vomitado. Aquele cheiro era nauseantemente parecido — uma doçura doentia e uma acidez pútrida, que se misturavam e fermentavam. Sentiu o estômago se revolver.
— Eles estão aqui — disse Mark. — Em algum lugar.
Revistaram o trailer metodicamente — a cozinha, a salinha de jantar, a sala de visita, os dois quartos. Abriram os armários ao passar. Jimmy pensou ter encontrado algo no armário do quarto do casal, mas era só uma pilha de roupas sujas.
— Não tem porão? — perguntou Mark.
— Não, mas pode ter algum tipo de depósito.
Eles foram até os fundos e viram um pequeno alçapão na base de concreto barato do trailer. Estava trancado com um cadeado velho. Jimmy o arrebentou com cinco marteladas. Quando puxou o alçapão, o cheiro os atingiu numa onda nauseabunda.
— Lá estão eles — disse Mark.
Jimmy espiou pela abertura e viu três pares de pés, como corpos enfileirados num campo de batalha. Um par usava botas, outro, chinelos de lã, e o terceiro — pés minúsculos — não usava nada.
Que linda cena de família, pensou Jimmy, absurdamente. Uma página do Reader’s Digest. O desespero o dominou. O bebê... Como conseguiriam fazer aquilo com um bebê?
Marcou o alçapão com o lápis de graxa e recolheu o cadeado quebrado.
— Vamos para o trailer ao lado — disse ele.
— Espere — disse Mark. — Deixe-me puxar um deles para fora.
— Puxar...? Para quê?
— Talvez a luz do dia acabe com eles. Assim não teremos de fazer isso com as estacas.
Jimmy sentiu uma ponta de esperança.
— Está bem. Mas qual?
— O bebê, não — respondeu Mark prontamente. — O homem. Você pega um pé e eu pego outro.
— Certo — disse Jimmy, a boca seca como um papel. Quando tentou engolir, sentiu um estalo na garganta.
Mark entrou pelo buraco de bruços, as folhas mortas crepitando sob seu corpo. Agarrou uma das botas de trabalho de Roy McDougall e a puxou. Jimmy se encolheu e rastejou ao lado dele, raspando as costas no teto baixo, resistindo à claustrofobia. Pegou a outra bota e, juntos, puxaram o corpo para a garoa fraca e a luz.
O que aconteceu foi quase insuportável. Roy McDougall começou a se contorcer assim que a luz o atingiu em cheio, como um homem atormentado durante o sono. Vapor e umidade emanaram de seus poros, e a pele cedeu e ganhou um tom amarelado. Os globos oculares viraram sob a pele fina das pálpebras. Chutou as folhas molhadas com pés lentos e sonhadores. O lábio superior se contraiu, revelando incisivos grandes como os de um cão — um pastor alemão ou um collie. Os braços agitaram-se lentamente, as mãos se abrindo e fechando, e, quando uma delas roçou a camisa de Mark, ele saltou para trás com um grito enojado.
Roy se virou de bruços e começou a rastejar lentamente para o cubículo, braços e joelhos cavando sulcos no húmus molhado. Jimmy notou que uma respiração ofegante, como de um paciente com insuficiência cardíaca, começara assim que a luz atingira o corpo. E parou logo que McDougall se escondeu nas sombras novamente. Assim como a expulsão de líquidos.