'Salem
Capítulo Catorze – A CIDADE (IV)
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
Até lá, adieu.
BARLOW
Trêmulo, Ben deixou a carta cair sobre a mesa. Olhou para os outros. Mark estava com os punhos cerrados, a boca franzida como alguém que comeu algo estragado. O rosto infantil de Jimmy estava tenso e pálido. Os olhos do padre Callahan brilhavam, seu queixo tremia.
Um a um, eles olharam para o padre.
— Vamos — disse ele.
E avançaram pelo corredor juntos.
14
Parkins Gillespie estava na escada do Pátio Municipal, olhando pelos binóculos Zeiss de alta potência, quando Nolly Gardener chegou no carro de polícia da cidade e desceu, levantando o cinto e puxando os fundos da calça.
— O que foi, Park? — perguntou, subindo os degraus.
O delegado lhe passou os binóculos em silêncio e indicou com o polegar calejado a Casa Marsten.
Nolly olhou. Viu o velho Packard, e, estacionado atrás dele, um Buick bege novo. O alcance do binóculo não permitia ler o número da placa. Ele o afastou do rosto.
— Aquele não é o carro do doutor Cody?
— Acho que sim. — Parkins meteu um Pall Mall na boca e riscou um fósforo na parede de tijolos atrás de si.
— É o primeiro carro que eu vejo lá, fora o Packard.
— É, eu também — disse Parkins, com ar pensativo.
— Acha que a gente deve ir dar uma olhada? — Nolly falava sem o característico entusiasmo na voz. Mesmo sendo policial há cinco anos, continuava extasiado com sua profissão.
— Não — disse Parkins. — Vamos deixar como está. — Tirou o relógio do colete e empurrou a tampa de prata como um agente ferroviário confirmando a hora do trem. Eram 15h41. Comparou seu relógio com o da prefeitura e voltou a guardá-lo no bolso.
— Afinal, o que aconteceu com Floyd Tibbits e o filhinho dos McDougall? — perguntou Nolly.
— Sei lá.
— Ah — fez Nolly, momentaneamente perdido. Parkins sempre fora taciturno, mas estava batendo um novo recorde. Voltou a olhar pelos binóculos. Nada mudara.
— A cidade está quieta hoje — observou Nolly.
— É, está — disse Parkins. Voltou os olhos azuis apagados para a avenida Jointner e para o parque. Ambos estavam desertos. Não se viam mães empurrando carrinhos de bebês nem vadios ao redor do Memorial da Guerra.
— Coisas estranhas estão acontecendo — arriscou dizer Nolly.
— É, estão — disse Parkins, em tom meditativo.
Como último recurso, Nolly puxou o único assunto ao qual Parkins não resistia: o tempo.
— Está nublado — disse ele. — Pode chover hoje à noite.
Parkins examinou o céu. Havia nuvens pequenas logo acima e outras maiores se formavam a sudoeste.
— É — disse ele, jogando fora o toco do cigarro.
— Park, você está se sentindo bem?
Parkins Gillespie refletiu.
— Não.
— Bom, então qual é o problema?
— Acho que estou morrendo de medo — disse Gillespie.
— Como? — espantou-se Nolly. — Medo do quê?
— Não sei — disse Parkins, e pegou os binóculos de volta. Voltou a observar a Casa Marsten enquanto Nolly o olhava, boquiaberto.
15
Depois da mesa onde a carta fora deixada, o porão fazia uma curva em L. O local já fora uma adega. Hubert Marsten devia mesmo ter sido um contrabandista, pensou Ben. Estavam cercados de barris pequenos e médios, cobertos de poeira e teias de aranha. Uma parede estava forrada de suportes para vinho, e algumas garrafas ainda espiavam de seus orifícios em forma de diamante como pombas. Algumas haviam explodido, e onde antes o vinho Borgonha esperava paladares sofisticados as aranhas agora teciam suas teias. Outras haviam se convertido em vinagre, cujo aroma pungente impregnava o ar, misturado ao cheiro de podridão.
— Não — disse Ben, com serena segurança. — Não consigo fazer isso.
— É seu dever — disse o padre Callahan. — Não estou dizendo que vai ser fácil nem que é o melhor, apenas que é seu dever.
— Não consigo! — gritou Ben, e dessa vez sua voz ecoou pelo porão.
No centro do cômodo, sobre uma plataforma iluminada pela lanterna de Jimmy, Susan Norton jazia imóvel. Estava coberta dos ombros até os pés com um simples lençol branco. Eles se aproximaram dela sem dizer palavra. O espanto os emudecera.
Em vida, ela fora uma moça bonita e alegre, que por pouco não chegara a ser bela. E não por alguma falha de seus traços, mas, talvez, por sua vida ter sido extremamente calma e pacata. Mas agora ela atingira a beleza. Uma beleza sinistra.
A morte não lhe imprimira sua marca. Suas faces estavam coradas, e seus lábios, virgens de maquiagem, eram de um vermelho vívido e profundo. Sua fronte estava pálida, mas perfeita; a pele, como seda. Os olhos estavam fechados, e os cílios escuros destacavam-se contra a pele. Uma das mãos estava fechada ao lado do corpo, enquanto a outra repousava levemente sobre o ventre. Contudo, a impressão não era de formosura angelical, mas de uma beleza fria e distante. Algo em seu rosto — apenas insinuado — fez Jimmy pensar nas meninas de Saigon, algumas com menos de 13 anos, que se ajoelhavam diante dos soldados nos becos atrás dos bares. Mas, no caso daquelas moças, a corrupção não fora fruto do mal, mas apenas um conhecimento prematuro do mundo. A mudança no rosto de Susan era totalmente outra — mas ele não saberia explicá-la.
Callahan se adiantou e tocou a região firme do seio esquerdo.
— Aqui — disse ele. — No coração.
— Não — repetiu Ben. — Não consigo.
— Tenha a atitude de um amante — disse o padre Callahan brandamente. — Melhor, de um marido. Ela não vai sofrer, Ben. Vai ser libertada. O único a sofrer será você.
Ben olhou para ele estupidamente. Mark tirou a estaca da maleta preta de Jimmy e a estendeu para ele em silêncio. Ben a pegou, estendendo a mão pelo que pareciam ser quilômetros.
Se eu não pensar no que estiver fazendo, então talvez...
Mas seria impossível não pensar a respeito. E, de repente, ele se lembrou de uma fala de Drácula, aquele filme divertido que não mais o divertia. Era o que Van Helsing tinha dito a Arthur Holmwood quando este teve de enfrentar a mesma e terrível tarefa: Precisamos passar por águas bravias antes de chegar às serenas.
Mas será que eles ainda poderiam encontrar a serenidade?
— Tomem! — gemeu ele. — Não me obriguem a fazer isso...
Ninguém respondeu.
Ele sentiu um suor frio e doentio brotar de sua testa, de suas faces, de seus antebraços. A estaca, que fora um simples taco de beisebol quatro horas antes, parecia misteriosamente pesada, como se linhas de força invisíveis mas titânicas houvessem convergido para ela.
Ergueu a estaca e a pressionou contra o seio esquerdo de Susan, bem acima do último botão de sua blusa. A ponta afundou a pele, e ele sentiu o canto de sua boca se contrair num tique incontrolável.
— Ela não está morta — disse ele, a voz rouca e pastosa. Era sua última defesa.
— Não — disse Jimmy, implacável. — Ela está Desmorta, Ben.
E ele já comprovara. Colocara o medidor de pressão no braço inerte e o bombeara. O resultado fora 0:0. Encostara o estetoscópio no peito, e todos puderam escutar o silêncio no interior daquele corpo.
Alguém colocou algo na outra mão de Ben — ele nunca conseguiu lembrar quem fora. O martelo. O martelo Craftsman com o cabo de borracha perfurado. A cabeça de aço brilhou à luz da lanterna.
— Seja rápido — disse Callahan. — E depois, saia para a luz. Nós faremos o resto.
Precisamos passar por águas bravias antes de chegar às serenas.
— Deus me perdoe — sussurrou Ben.
Ergueu o martelo e o baixou.
O martelo atingiu a ponta da estaca em cheio, e o tremor gelatinoso que subiu pela madeira assombraria para sempre seus sonhos. Os olhos dela se arregalaram, grandes e azuis, como se movidos pela força do golpe. O sangue esguichou da ferida aberta pela estaca num jorro vivo e espantoso, manchando suas mãos, sua camisa, seu rosto. Num segundo, o porão se encheu do odor quente e acre.
Ela se contorceu na mesa. Ergueu as mãos e as agitou freneticamente. Seus pés bateram na madeira da plataforma em ritmo errático. Sua boca se escancarou, revelando presas aterradoras, lupinas, e ela começou a dar gritos que soaram como a trombeta do inferno. O sangue escorria dos cantos de sua boca como riachos.
O martelo se ergueu e baixou mais uma vez. E mais outra. E outra.
A mente de Ben se encheu dos gritos de grandes corvos negros. Girava em meio a imagens horríveis e obliteradas. Suas mãos estavam rubras, a estaca estava rubra, o implacável martelo estava rubro. Nas mãos trêmulas de Jimmy, a lanterna se tornou uma luz estroboscópica, iluminando o rosto ensandecido de Susan de modo entrecortado. Os dentes dela cravaram-se na carne dos lábios, dilacerando-os. O sangue se espalhou pelo lençol branco, que Jimmy dobrara com tanto cuidado, formando desenhos que lembravam ideogramas chineses.
E então, subitamente, ela estirou as costas como um arco e abriu a boca até quase romper as mandíbulas. Uma enorme explosão de sangue verteu da ferida aberta pela estaca, um sangue quase negro sob a luz incerta da lanterna — sangue do coração. O grito que brotou da câmara ressonante daquela boca vinha das catacumbas da memória da espécie, da escuridão úmida da alma humana. O sangue subitamente jorrou de seu nariz e boca numa torrente... e algo mais. À luz vacilante, foi apenas uma impressão, uma sombra, de algo que saltou para fora, enganado e arruinado. Amalgamou-se à escuridão e desapareceu.
Ela voltou a se estender na mesa, a boca relaxando, fechando. Os lábios mutilados se entreabriram numa última e sussurrante respiração. Por um instante, as pálpebras se abriram, e Ben viu, ou julgou ver, a Susan que ele conhecera no parque, lendo um livro.
Estava feito.
Ele recuou, soltando o martelo, estendendo as mãos diante de si, como um maestro horrorizado diante de sua macabra sinfonia.
Callahan colocou a mão em seu ombro.
— Ben...
Ele saiu correndo.
Subiu a escada aos tropeços, caiu e rastejou em direção à luz da cozinha. Terrores infantis e adultos haviam se fundido. Se olhasse para trás, veria Hubie Marsten (ou talvez Straker) a um fio de cabelo de distância, o rosto inchado e pútrido sorrindo, a corda enterrando na carne do pescoço, o sorriso revelando presas e não dentes. Ele soltou um grito desesperado.
Ao longe, ouviu Callahan dizer:
— Não, deixe-o sozinho...
Ben irrompeu pela cozinha e depois pela porta de trás. Seus pés tropeçaram nos degraus da escada, e ele caiu de bruços na terra. Ele se ajoelhou, ficou de pé e olhou atrás de si.
Nada.
A casa se erguia sem propósito. Agora que o último mal que abrigava se extinguira, ela voltara a ser apenas uma casa comum.
Ben Mears permaneceu no vasto silêncio do quintal cercado de mato, com a cabeça para trás, respirando o ar em grandes golfadas.
16
No outono, a noite chega assim a Lot:
O calor do sol arrefece mais cedo, e o ar fica frio, lembrando que o inverno está chegando e será longo. Finas nuvens se formam, e as sombras se alongam mais. Não têm amplitude, como as sombras de verão — não há folhas nas árvores nem nuvens gordas no céu para lhes dar espessura. São sombras magras e miseráveis, que mordem o chão como dentes.
Quando o sol se aproxima do horizonte, seu amarelo benevolente se intensifica, se infecciona, até brilhar com feroz vermelho inflamado. E lança um brilho variegado sobre o horizonte — uma membrana nebulosa que se alterna em tons de vermelho, laranja, escarlate, violeta. Às vezes, as nuvens se rompem em grandes e lentos retalhos, deixando passar feixes de inocente luz prateada que provocam uma doce saudade do verão que se foi.
São seis horas, hora da ceia (em Lot, o almoço é ao meio-dia, e as marmitas que os homens levam para o trabalho são chamadas de “tigelas de jantar”). Mabel Werts, com a doentia gordura da velhice pendendo em dobras do corpo, senta-se diante de um peito de frango grelhado e uma xícara de chá Lipton, o telefone ao alcance da mão. Na pensão de Eva, os homens comem o que há para comer: pratos congelados, carne enlatada, feijões em lata — tão diferentes dos que suas mães costumavam deixar cozinhando durante todo o sábado quando eram crianças —, macarrão pronto ou hambúrgueres requentados comprados no McDonald’s de Falmouth na volta do trabalho. Eva está na sala da frente, irritada, jogando cartas com Grover Verrill e implicando com os inquilinos, gritando que limpem a sujeira e não façam bagunça. Eles nunca a viram desse jeito, nervosa e mal-humorada. Mas sabem o que ela tem, mesmo que ela não saiba.
O Sr. e a Sra. Petrie comem sanduíches na cozinha, tentando decifrar a ligação que haviam acabado de receber, do padre católico da cidade, Callahan: Seu filho está comigo. Ele está bem. Logo o levarei para casa. Até logo. Pensaram em ligar para o delegado do lugarejo, Parkins Gillespie, mas decidiram esperar. Já haviam notado uma mudança no filho, que sempre foi um introspectivo, como dizia a Sra. Petrie. Contudo, os espectros de Ralphie e Danny Glick pairavam sobre eles sem que o admitissem.
Milt Crossen está comendo pão com leite nos fundos de sua loja. Quase não tinha mais apetite desde que a mulher morrera em 1968. Delbert Markey, proprietário do Dell’s, devora metodicamente os cinco hambúrgueres que preparou para si mesmo na grelha. Acompanha-os com mostarda e pilhas de cebolas cruas, e mais tarde se queixará para quem quiser ouvir que sua maldita acidez estomacal o está matando. Rhoda Curless, a governanta do padre Callahan, não come nada. Está preocupada com o padre, ainda na rua até aquela hora. Harriet Durham e sua família comem costeletas de porco. Carl Smith, viúvo desde 1957, come uma batata assada com uma garrafa de refrigerante Moxie. Os Derek Boddin jantam um pernil com couve-de-bruxelas. Aargh, diz Richie Boddin, o valentão deposto. Couve-de-bruxelas... Coma ou vai ganhar um safanão na orelha, diz Derek, que também as odeia.
Reggie e Bonnie Sawyer jantam um rosbife de costela, milho congelado, batata frita e, de sobremesa, pudim de chocolate com calda. São os pratos favoritos de Reggie. Bonnie, cujas contusões começam a se atenuar, serve em silêncio, os olhos baixos. Reggie come com atenção e seriedade, matando três latas de Budweiser durante a refeição. Bonnie come de pé. Continua dolorida demais para sentar. Não está com apetite, mas come assim mesmo, para que Reggie não repare e diga algo. Depois de espancar a mulher naquela noite, ele jogara seus anticoncepcionais na privada e a violentara. E vinha violentando-a todas as noites desde então.
Por volta das 19h15, a maioria dos moradores já havia jantado, fumado seus cigarros ou charutos, tirado a mesa. Pratos eram lavados, enxaguados e postos para secar. Crianças vestiam pijamas e iam para a outra sala ver programas de auditório até a hora de dormir.
Roy McDougall, que acabara de queimar uma frigideira cheia de bifes de vitela, xinga alto e joga tudo — frigideira e bifes — no lixo. Veste a jaqueta de brim e parte para o Dell’s, deixando a gorda e inútil da sua mulher dormindo no quarto. O filho morto, a mulher sem forças, o jantar queimado. Hora de encher a cara. E talvez de fazer as malas e cair fora daquela porcaria de cidade.
Num pequeno apartamento na rua Taggart, que parte da avenida Jointner e acaba sem saída atrás do Paço Municipal, Joe Crane recebe um ambíguo presente dos deuses. Depois de comer uma pequena tigela de aveia e sentar para ver televisão, ele sentiu uma forte e súbita dor paralisar o lado esquerdo do peito e o braço esquerdo. O que é isso? Ataque cardíaco?, pensa ele. E é exatamente isso. Ele se ergue e avança meio-caminho até o telefone, mas a dor subitamente cresce e o derruba como um novilho atingido pelo martelo. Sua pequena TV em cores continua tagarelando. Levará 24 horas para que alguém o encontre. Sua morte, às 18h51, foi o único óbito natural ocorrido em Jerusalem’s Lot em 6 de outubro.
Às 19 horas, a panóplia de cores no horizonte se reduz a uma estreita linha alaranjada a oeste, como se fornalhas tivessem sido abafadas além da margem do mundo. A leste as estrelas já cintilam, com o brilho uniforme de diamantes. Elas são impiedosas nessa época do ano, não acolhem os amantes. Reluzem em linda indiferença.
Para as crianças, chegou a hora de dormir. Hora de serem colocadas nas camas e berços por pais que sorriem quando elas pedem para ficar acordadas só mais um pouquinho ou para deixarem uma luz acesa. E os pais abrem armários pacientemente, mostrando que não há nada dentro deles.
Mas, em torno dos moradores, a bestialidade da noite irrompe em asas tenebrosas. A hora do vampiro chegou.
17
Matt cochilava quando Jimmy e Ben entraram. Despertou com um sobressalto, apertando a cruz que segurava com a mão direita.
Olhou para Jimmy e depois para Ben, com mais vagar.
— O que houve?
Jimmy contou-lhe brevemente. Ben não disse nada.
— E o corpo dela?
— Callahan e eu o colocamos de cara para baixo numa caixa que encontramos no porão, talvez a mesma em que Barlow chegou à cidade. E a jogamos no rio Royal há menos de uma hora, cheia de pedras. Fomos com o carro de Straker. Se alguém o viu ao lado da ponte, pensará que era ele.
— Agiram bem. Onde está Callahan? E o menino?
— Foram para a casa de Mark. Precisam contar tudo aos pais dele. Barlow os ameaçou diretamente.
— Será que eles vão acreditar?
— Se não acreditarem, Mark pedirá que os pais liguem para você.
Matt assentiu. Parecia muito cansado.
— Ben, venha aqui — disse ele. — Sente na cama.
Ben obedeceu, o rosto pálido e confuso. Sentou e cruzou as mãos com cuidado sobre o colo. Seus olhos estavam febris.
— Nada pode consolar você agora — disse Matt, tomando uma das mãos dele entre as suas. — Não importa. O tempo lhe trará consolo. Ela está em paz.
— Ele nos fez de bobos — disse Ben, com a voz entorpecida. — Zombou de cada um de nós. Jimmy, mostre a carta para Matt.
Jimmy entregou o envelope a Matt. Ele tirou o espesso papel e o leu com cuidado, segurando a folha a centímetros do rosto, movendo os lábios de leve. Depois, largou a folha e disse:
— Sim, é ele. Seu ego é maior ainda do que eu imaginava. Me dá calafrios.
— Ele a deixou lá para nos pregar uma peça — continuou Ben, com a mesma voz inexpressiva. — Saiu de lá muito antes. Lutar com ele é como lutar com o vento. Devemos parecer insetos para ele. Formigas atarantadas que o divertem.
Jimmy abriu a boca para falar algo, mas Matt balançou levemente a cabeça.
— Isso está longe de ser verdade — disse ele. — Se ele pudesse levar Susan, teria levado. Não desistiria de seus Desmortos por uma brincadeira, já que são tão poucos. Pare um pouco e pense no que fizeram com ele. Mataram seu leal servo, Straker. Ele próprio admitiu que foi obrigado a participar do assassinato devido a seu apetite insaciável! Como deve ter ficado aterrorizado ao despertar e descobrir que uma criança, desarmada, destruíra um homem tão temível.
Matt se ergueu na cama com alguma dificuldade. Ben se voltou para ele e o olhou, demonstrando algum interesse pela primeira vez desde que saíra da Casa Marsten.
— E talvez não seja nem essa a maior vitória — refletiu Matt. — Vocês o expulsaram de sua casa, do lar que ele escolhera. Jimmy disse que o padre Callahan esterilizou o porão com água benta e selou todas as portas com hóstias. Se ele entrar lá novamente, vai morrer... e ele sabe.
— Mas ele escapou — disse Ben. — Que diferença faz?
— Sim, escapou — concordou Matt. — Mas onde dormiu hoje? No porta-malas de um carro? Na adega de uma de suas vítimas? Talvez no porão da velha Igreja Metodista, no pântano, que pegou fogo no incêndio de 51? Seja onde for, acha que ele gostou ou que se sentiu seguro?
Ben não respondeu.
— Amanhã, vocês começarão a caçada — disse Matt, apertando com força a mão de Ben. — Não só de Barlow, mas também dos peixes pequenos, e muitos peixes pequenos surgirão depois desta noite. A fome deles jamais é saciada. Sempre querem mais. As noites pertencem a ele, mas, durante o dia, vocês o perseguirão e acossarão até ele se apavorar e fugir. Ou até vocês o arrastarem, com a estaca no coração, para a luz do dia!
Ben começou a erguer a cabeça enquanto Matt falava. Seu rosto assumiu um ânimo quase sobrenatural. Um sorriso começou a se formar em seus lábios.
— Sim, isso mesmo — murmurou. — Mas não amanhã. Esta noite mesmo. Agora.
Matt agarrou o ombro de Ben com surpreendente energia.
— Não. Passaremos esta noite juntos, você, eu, Jimmy, o padre Callahan, Mark e os pais dele. Agora ele sabe... e está com medo. Só um louco ou um santo ousaria se aproximar de Barlow durante a noite que o protege. E não somos nem santos, nem loucos. — Ele fechou os olhos e disse baixinho. — Acho que estou começando a conhecê-lo. Fico deitado nessa cama, dando uma de Mycroft Holmes, tentando adivinhar seus passos e me colocando em seu lugar. Ele vive há séculos, é uma criatura brilhante. Mas também é um egocêntrico, como sua carta indica. Por que não seria? Seu ego cresceu como uma pérola, camada por camada, até ficar imenso e venenoso. Ele é todo orgulho e presunção. E sua sede de vingança deve ser suprema, aterrorizante, mas, quem sabe, podemos usá-la a nosso favor.
Ele abriu os olhos e olhou solenemente para os dois. Ergueu a cruz.
— Isto detém a ele, mas talvez não a outros que ele pode manipular, como manipulou Floyd Tibbitis. Acho que tentará eliminar alguns de nós hoje à noite... ou talvez todos nós.
Olhou para Jimmy.
— Acho que não foi uma boa decisão mandar o padre Callahan falar com os pais de Mark. Podíamos ter ligado daqui e pedido que viessem, sem saber de nada. Agora, estamos divididos. Estou preocupado principalmente com o menino. Jimmy, é melhor ligar para eles. Agora.
— Certo. — Ele levantou.
Matt olhou para Ben.
— E você? Vai ficar conosco? Vai lutar conosco?
— Vou — respondeu ele com voz rouca. — Vou.
Jimmy saiu do quarto, foi até o balcão do corredor e procurou o número dos Petries na lista telefônica. Discou rapidamente, e foi tomado por um horror doentio quando o som agudo de uma linha desligada entrou no lugar do toque de chamar.
— Ele os pegou! — exclamou.
A enfermeira-chefe ergueu os olhos ao ouvir o tom de sua voz e se assustou com a expressão de seu rosto.
18
Henry Petrie era um homem culto. Era bacharel pela Northwestern, mestre pela Massachusetts Tech e doutor em economia. Deixara um bom cargo como professor do ensino superior para aceitar um posto administrativo na Companhia Consultiva de Seguros, mais por curiosidade do que por expectativa de ganhos financeiros. Queria ver se algumas de suas teorias econômicas também funcionariam na prática. E funcionaram. No verão seguinte, ele pretendia passar na prova de auditor público e, dois anos depois, na prova da ordem. Sua meta era começar os anos 80 com um cargo econômico nas altas esferas do governo federal. A tendência sonhadora de Mark não viera do pai, que seguia uma lógica exata e planejava seu mundo com quase total precisão. Era democrata de carteirinha e votara em Nixon nas eleições de 1972, não porque acreditasse que o homem fosse honesto — costumava dizer à mulher que Richard Nixon era um pilantra sem imaginação com a elegância de um trombadinha —, mas porque o adversário era um piloto desmiolado que levaria o país ao desastre econômico. Assistira à contracultura do final dos anos 60 com calma e tolerância, acreditando que acabaria sem causar maiores estragos, já que não se apoiava em nenhuma base econômica. Seu amor pela mulher e o filho não era lírico — ninguém jamais escreveria um poema sobre a paixão de um homem que enrolava as meias na frente da mulher —, mas era firme e inabalável. Ele era reto como uma flecha, confiante em si mesmo e nas leis naturais da física, da matemática, da economia e (em menor grau) da sociologia.
Ouviu a história contada pelo filho e pelo vigário da cidade bebendo uma xícara de café e fazendo-lhes perguntas lúcidas quando o fio da narrativa se tornava emaranhado ou obscuro. Sua calma crescia na mesma medida em que a história ficava mais grotesca e a agitação de sua mulher, June, crescia. Quando terminaram o relato, eram quase 19h05. Henry Petrie declarou seu veredicto com quatro sílabas calmas e refletidas.
— Impossível.
Mark suspirou, olhou para Callahan e disse:
— Eu não falei? — E ele falara mesmo, quando saíram do presbitério no carro velho de Callahan.
— Henry, você não acha que...
— Espere.
Essa palavra e a mão erguida (quase com negligência) bastaram para calar a mulher. June sentou e passou o braço ao redor de Mark, afastando-o ligeiramente do padre Callahan. O menino se submeteu.
Henry Petrie lançou um olhar amistoso para o padre.
— Vamos tentar resolver esse delírio, ou seja o que for, como dois homens racionais.
— Talvez seja impossível — retrucou Callahan, com igual amabilidade —, mas pode ter certeza de que tentarei. Estamos aqui, Sr. Petrie, especificamente porque Barlow ameaçou o senhor e sua mulher.
— O senhor realmente cravou uma estaca no coração de uma moça?
— Não fui eu. Foi o Sr. Mears.
— O corpo continua lá?
— Foi jogado no rio.
— Se essa parte for verdade, vocês envolveram meu filho num crime. Já pensou nisso?
— Já. Foi necessário. Sr. Petrie, por que não liga para Matt Burke no hospital e...
— Ora, sei que seu amigo confirmará o que disse — disse Petrie, ainda com o mesmo sorriso brando e irritante. — É um dos aspectos fascinantes dessa insensatez. Posso ver a carta que esse tal de Barlow lhes deixou?
Callahan praguejou mentalmente.
— Está com o Dr. Cody. — E acrescentou, numa reflexão tardia. — É melhor irmos todos para o hospital de Cumberland. Se falarem com...
Petrie abanou a cabeça.
— Vamos conversar mais um pouco. Não duvido que suas testemunhas sejam confiáveis. O Dr. Cody é nosso médico de família, e todos gostamos muito dele. Também já me deram a entender que Matthew Burke está acima de qualquer crítica... pelo menos como professor.
— Mas, mesmo assim...
— Padre Callahan, deixe-me fazer uma comparação. Se dúzias de testemunhas confiáveis lhe dissessem que uma joaninha gigante cruzou o parque da cidade em plena luz do dia cantando “Sweet Adeline” e agitando a bandeira americana, o senhor acreditaria?
— Se tivesse certeza de que as testemunhas eram confiáveis e não estavam brincando, acho que eu acabaria acreditando.
Ainda com seu sorriso condescendente, Petrie disse:
— É aí que nós diferimos.
— O senhor tem a mente fechada, Sr. Petrie — disse Callahan.
— Não, simplesmente esclarecida.
— Dá na mesma. Diga-me, a companhia onde trabalha aprova que seus executivos tomem decisões baseando-se em crenças internas em vez de em fatos externos? Isso não é lógica, Petrie. É dogmatismo.
Petrie parou de sorrir e levantou.
— Essa história é perturbadora, admito. Envolveram meu filho em algo demente, talvez perigoso. Terão muita sorte se não terminarem no tribunal por causa disso. Vou ligar para seus amigos e falar com eles. Em seguida, iremos visitar o Sr. Burke no hospital e discutiremos a questão.
— Muito obrigado por contrariar seus princípios — disse Callahan secamente.
Petrie foi até a sala e pegou o telefone. Não ouviu sinal de discar — a linha estava muda. Franzindo a testa, ele mexeu nos botões. Nenhuma resposta. Devolveu o fone ao gancho e voltou para a cozinha.
— O telefone não está funcionando — informou.
Viu que o filho e o padre Callahan trocavam um olhar cúmplice e amedrontado e ficou irritado.
— Garanto que o serviço telefônico de Jerusalem’s Lot não precisa de vampiros para funcionar mal — disse ele, com mais aspereza do que era sua intenção.
As luzes se apagaram.
19
Jimmy voltou correndo para o quarto de Matt.
— O telefone da casa dos Petries foi cortado. Acho que ele está lá. Droga, como fomos idiotas...
Ben levantou da cama. O rosto de Matt se contraiu num espasmo.
— Viram como ele age? — murmurou. — Com que precisão? Se ao menos ainda restasse uma hora de luz do dia, poderíamos... Mas não. Acabou.
— Temos de ir até lá — disse Jimmy.
— Não! Não façam isso! Se temem pela vida de vocês e pela minha, fiquem aqui.
— Mas eles...
— Não podemos fazer nada! O que está acontecendo já terá terminado quando chegarem lá!
Eles pararam junto à porta, indecisos.
Matt se ergueu, juntou suas forças e falou com calma, mas com energia.
— O ego dele é grande, assim como seu orgulho. São falhas que podemos explorar. Mas sua inteligência também é grande, e precisamos levá-la em conta e respeitá-la. Na carta, ele menciona o jogo de xadrez. Não duvido que seja um exímio jogador. Não percebem que ele poderia ter cumprido sua missão naquela casa sem desligar a linha? Fez isso para que saibam que uma das peças brancas do tabuleiro está em xeque. Sabe que é mais fácil vencer quando as forças adversárias estão confusas e divididas. Vocês permitiram que ele fizesse a primeira jogada porque se esqueceram disso, e o grupo se dividiu em dois. Se saírem correndo para a casa dos Petries, o grupo será dividido em três. Estou sozinho e acamado, uma presa fácil, apesar das cruzes, dos livros e dos sortilégios. É fácil para ele mandar um de seus quase mortos me matar com uma arma ou uma faca. E restarão apenas vocês dois, correndo como baratas tontas para sua própria destruição. E ’salem’s Lot será dele. Será que não veem isso?
Ben foi o primeiro a falar.
— Sim, eu vejo.
Matt curvou os ombros.
— Não digo isso para proteger minha vida, Ben. Você tem de acreditar. E nem mesmo para proteger a vida de vocês. Temo pela cidade. Não importa o que aconteça, alguém precisa sobrar para acabar com ele amanhã.
— Isso mesmo. E ele não acabará comigo antes de eu vingar Susan.
Um silêncio caiu sobre eles.
Jimmy Cody o quebrou.
— Talvez eles escapem — disse, pensativo. — Acho que ele subestimou Callahan, e com certeza subestimou Mark. Aquele menino é impressionante.
— Tomara que sim — disse Matt, fechando os olhos.
E eles se prepararam para esperar.
20
Donald Callahan estava de um lado da espaçosa cozinha, erguendo sobre a cabeça o crucifixo da mãe, que espalhava pelo ambiente um esplendor sobrenatural. Barlow estava do outro lado, perto da pia, prendendo os braços de Mark com uma mão, com a outra segurando o pescoço do menino. Entre eles, Henry e June Petrie, estirados sobre o chão entre os cacos de vidro produzidos pela entrada de Barlow.
Callahan estava aturdido. Tudo acontecera com tamanha rapidez que ele ainda não se recuperara. Num momento estava discutindo a situação racionalmente (na medida do possível) com Petrie sob a luz clara e direta das lâmpadas da cozinha. No outro, ele fora atirado na insanidade que o pai de Mark acabara de negar com tanta calma e firmeza.
Tentou reconstituir o que acontecera.
Petrie voltara e dissera que o telefone não estava funcionando. Momentos depois, as luzes se apagaram. June Petrie gritou. Uma cadeira tombou no chão. Durante alguns momentos, eles tatearam em meio à escuridão, chamando uns pelos outros. Depois a janela sobre a pia se estilhaçara, espalhando cacos de vidro sobre o balcão e o piso de linóleo. Tudo isso no intervalo de trinta segundos.
Então um vulto penetrara na cozinha, tirando Callahan do transe em que mergulhara. Ele agarrou a cruz pendurada em seu pescoço, e, assim que a tocou, o ambiente se iluminou com a sua luz misteriosa.
Viu Mark tentando arrastar a mãe para o arco que dava para a sala. Henry Petrie estava ao lado deles, o rosto antes calmo agora pálido, boquiaberto diante daquela invasão totalmente ilógica. E atrás dele, assomando sobre eles, um rosto lívido e sorridente como uma figura de um quadro de Frazetta, com presas longas e afiadas, olhos vermelhos e lúridos como as portas do inferno. Barlow estendeu as mãos (Callahan conseguiu ver como eram longos e sensíveis aqueles dedos brancos, como os de um pianista), pegou a cabeça de Henry Petrie com uma, a de June com a outra, e as bateu uma contra a outra com um estalido surdo e repugnante. Os dois tombaram como pedras. Barlow cumprira sua primeira ameaça.
Mark dera um grito agudo e penetrante e se atirara contra Barlow.
— Olhe quem está aqui! — Barlow trovejou amavelmente, com a voz profunda e poderosa. Mark o atacou sem pensar, e foi capturado imediatamente.
Callahan avançou, erguendo a cruz.
O sorriso de triunfo de Barlow na mesma hora se transformou num ricto de agonia. Ele recuou em direção à pia, arrastando o menino à sua frente. Seus pés esmagaram o vidro quebrado.
— Em nome de Deus... — começou Callahan.
Ao ouvir o nome da Divindade, Barlow gritou como se tivesse levado uma chicotada, escancarando a boca para baixo, as presas pontudas faiscando. Os tendões de seu pescoço se projetaram em nítido relevo contra a pele.
— Nem mais um passo! — gritou. — Nem mais um passo, xamã! Ou abrirei a jugular do menino antes que você consiga piscar os olhos! — ao falar, ergueu o lábio superior, mostrando os dentes longos e afiados, e quando terminou, mergulhou a cabeça velozmente em direção ao pescoço de Mark, parando milímetros antes de tocar a pele.
Callahan estacou.
— Afaste-se — ordenou Barlow, sorrindo novamente. — Você no seu lado do tabuleiro, eu no meu, hã?
Callahan recuou lentamente, ainda segurando a cruz diante do rosto, espiando por cima dela. A cruz parecia pulsar com fogo contido, e sua energia transmitia-se por seu antebraço, fazendo seus músculos tremerem.
Eles se encararam.
— Enfim, juntos! — exclamou Barlow, sorrindo. Seu rosto era forte, inteligente e belo, mas brutal e sombrio. Quando a luz mudou de ângulo, pareceu quase efeminado. Onde ele já vira aquele rosto antes? E a imagem lhe veio, naquele momento do mais extremo pavor. Era o rosto do Sr. Flip, o bicho-papão de sua infância, a coisa que se escondia no armário durante o dia e saía depois que sua mãe fechava a porta do quarto. Seus pais não lhe deixavam nenhuma luz acesa, pois achavam que o melhor modo de vencer os medos infantis era enfrentá-los, sem concessões. E todas as noites, quando a porta se fechava e os passos de sua mãe se afastavam pelo corredor, a porta do armário abria uma fresta, e ele pressentia (ou via?) o rosto fino e pálido e os olhos febris do Sr. Flip. E lá estava ele de novo, fora do armário, olhando por sobre os ombros de Mark com o rosto branco de palhaço, os olhos vermelhos e brilhantes, os lábios sensuais.
— E agora? — disse Callahan, sentindo que a voz deixara de ser sua. Olhava para os dedos de Barlow, aqueles dedos longos e sensíveis que pressionavam a garganta do menino. Viu pequenas manchas azuis neles.
— Depende. O que você me dá em troca deste pirralho miserável? — Ele deu um puxão brusco nos pulsos de Mark, tentando pontuar sua pergunta com um grito, mas o menino o frustrou. Fora o ar que escapou entre seus dentes cerrados, ele permaneceu em silêncio.
— Você ainda vai gritar — sussurrou Barlow, e seus lábios se crisparam num esgar de ódio animal. — Vai gritar até explodir sua garganta!
— Pare com isso! — gritou Callahan.
— Devo parar? — O ódio sumira de seu rosto, substituído por um sorriso sombrio e gracioso. — Devo deixar o garoto viver mais uma noite?
— Sim!
Com voz macia, quase ronronante, Barlow disse:
— Então, concorda em jogar fora a cruz e me enfrentar de igual para igual? Sua fé contra a minha?
— Sim — disse Callahan, mas com menos firmeza.
— Então, jogue! — Os lábios cheios se franziram, expectantes. A fronte alta brilhou à estranha luz que banhava o ambiente.
— E confiar que vai soltar o menino? Seria o mesmo que pôr uma cascavel dentro da camisa e confiar que não me morderia.
— Mas eu confio em você... veja!
Ele soltou Mark e recuou, com as mãos para o alto, vazias.
Mark ficou imóvel, sem acreditar por um momento, e depois correu para os pais sem olhar para Barlow.
— Corra, Mark! — gritou Callahan. — Corra!
Mark olhou para ele, com os olhos arregalados e escuros.
— Acho que eles morreram...
— CORRA!
Mark se ergueu lentamente. Virou-se e olhou para Barlow.
— Não demorará, irmãozinho — disse Barlow, quase com bondade. — Não demorará para que nós dois...
Mark cuspiu em seu rosto.
Barlow parou de respirar. Sua testa se toldou com uma fúria que revelou que sua expressão anterior não passara de encenação. Por um momento, Callahan viu uma loucura assassina em seus olhos.
— Você cuspiu em mim — Barlow sussurrou. Seu corpo tremia, quase sacudia de ódio. Deu um passo vacilante para frente como um cego abominável.
— Para trás! — Callahan gritou, estendendo a cruz.
Barlow deu um grito e protegeu o rosto com as mãos. A cruz refulgiu com um brilho ofuscante e sobrenatural. E foi naquele instante que Callahan poderia tê-lo banido se tivesse ousado avançar.
— Eu vou te matar — disse Mark.
E ele se foi, como que levado por um turbilhão.
Barlow pareceu crescer. Seus cabelos, penteados para trás à moda europeia, pareciam flutuar em torno de sua cabeça. Usava um terno preto e uma gravata cor de vinho, com nó impecável. Para Callahan, ele era parte integrante da escuridão que o cercava. Seus olhos saltavam das órbitas como brasas malignas.
— Agora cumpra sua parte do trato, xamã.
— Eu sou um padre! — Callahan protestou.
Barlow simulou uma reverência.
— Padre... — disse ele, com o mesmo desprezo que teria por um peixe morto.
Callahan hesitou. Por que jogar a cruz? Ele podia expulsá-lo, terminar a noite em empate, e no dia seguinte...
Mas uma parte mais profunda de sua mente o alertou. Recusar o desafio do vampiro era arriscar possibilidades muito mais graves. Se ele ousasse não se desfazer da cruz, seria o mesmo que admitir... que admitir... o quê? Se ao menos tudo não acontecesse tão rápido, se ele tivesse tempo de pensar, de raciocinar...
O brilho da cruz estava morrendo.
Ele a olhou, arregalando os olhos. O medo queimou suas entranhas como um choque elétrico. Levantou a cabeça bruscamente e encarou Barlow. Ele caminhava em sua direção, o sorriso largo, quase voluptuoso.
— Para trás — Callahan disse roucamente, recuando um passo. — Eu ordeno, em nome de Deus.
Barlow riu com escárnio.
O brilho na cruz era apenas um fio de luz em forma de crucifixo. As sombras avançaram sobre o rosto do vampiro outra vez, conferindo-lhe traços estranhamente bárbaros, acentuados pelas altas maçãs do rosto.
Callahan recuou mais um passo e chocou-se contra a mesa da cozinha, encostada na parede.
— Não há para onde ir — murmurou Barlow com tristeza. Seus olhos escuros transbordavam de júbilo infernal. — É triste ver a fé de alguém vacilar. Bom, é a vida...
A cruz tremeu na mão de Callahan, e, subitamente, o que restava de sua luz se extinguiu. Ela voltou a ser apenas um pedaço de gesso que sua mãe comprara numa loja de suvenires de Dublin, provavelmente a um preço extorsivo. O poder que transmitira para seu braço, e que parecera capaz de derrubar paredes e estilhaçar pedras, se esvaíra. Os músculos ainda se lembravam da força, mas não conseguiam reproduzi-la.
Barlow estendeu a mão em meio às sombras e tirou a cruz de suas mãos. Callahan soltou um grito de desespero, o mesmo grito que vibrara na alma — mas nunca na garganta — daquela criança que a cada noite era deixada sozinha com o Sr. Flip, que a espiava pela fresta do armário. E o som que ouviu a seguir o atormentaria pelo resto da vida — dois estalidos quando Barlow quebrou os braços da cruz e a atirou no chão.
— Maldito! — gritou.
— É tarde demais para esse melodrama — disse Barlow em meio à escuridão. Sua voz era quase pesarosa. — Não é necessário. Você esqueceu a doutrina de sua Igreja, não é? A cruz... o pão e o vinho... o confessionário... são apenas símbolos. Sem fé, a cruz é apenas madeira; o pão, trigo assado; o vinho, uvas amargas. Se tivesse abdicado da cruz, teria me derrotado mais uma noite. De certo modo, era o que eu esperava. Faz tempo que não encontro um adversário de valor. O menino dá dez de você, falso padre.
De repente, mãos incrivelmente fortes emergiram das trevas e seguraram os ombros de Callahan.
— Acho que o olvido da morte que ofereço seria um alívio para você. Os Desmortos não têm memória, apenas fome e necessidade de servir ao Mestre. Eu poderia usá-lo. Poderia mandá-lo de volta para seus amigos. Mas será que é necessário? Sem você para liderá-los, eles não valem nada. E o menino contará a eles. Creio que há um castigo mais adequado para você, falso padre.
Callahan se lembrou do que Matt dissera: Há coisas piores do que a morte.
Tentou se libertar, mas as mãos o prendiam com a força de um torno. Então uma das mãos o soltou. Ele ouviu o som de um tecido deslizando contra a pele nua e depois uma fricção.
As mãos avançaram para seu pescoço.
— Venha, falso padre. Conheça a verdadeira religião. Tome a minha comunhão.
Callahan compreendeu tudo num clarão medonho.
— Não! Não...
Mas as mãos eram implacáveis. Atraíram sua cabeça para perto, para perto...
— Agora, padre — sussurrou Barlow.
E Callahan sentiu a boca pressionar a pele fétida e fria da garganta do vampiro, onde uma veia aberta pulsava. Prendeu a respiração durante o que lhe pareceu uma eternidade, sacudindo a cabeça frenética e inutilmente, o sangue manchando suas faces, seu queixo, sua testa como uma pintura de guerra.
E, por fim, ele bebeu.
21
Ann Norton saiu do carro, sem se dar ao trabalho de levar as chaves, e começou a cruzar o estacionamento do hospital em direção às luzes do saguão. No céu, nuvens ocultavam as estrelas. Ela logo começaria a chorar. Mas não olhava para cima. Olhava para frente, andando como uma sonâmbula.
Ann era uma mulher muito diferente da que Ben Mears conhecera na primeira noite em que Susan o convidara para jantar com sua família. Naquela noite, ele vira uma senhora de estatura média, com um vestido de lã verde que não indicava abundância, mas sim conforto financeiro. Não era uma senhora bonita, mas tinha aparência bem-cuidada e agradável. Seus cabelos grisalhos haviam sido recentemente penteados.
Mas essa mulher estava apenas de chinelos. Não usava meias-calças, e suas varizes estavam expostas, salientes (embora não tão salientes como antes; a pressão sanguínea havia sido diminuída). Vestia um gasto roupão amarelo sobre a camisola. As mechas de seus cabelos voavam erraticamente ao sabor do vento. Seu rosto estava pálido, com olheiras profundas.
Ela dissera para Susan tomar cuidado com aquele Mears e seus amigos, alertara-a contra o homem que a assassinara. E Matt Burke o instigara. Tramaram tudo juntos. Sim, ela sabia. Ele lhe dissera.
Ela passara o dia todo doente, fraca, sonolenta e quase incapaz de sair da cama. E à tarde, quando caiu num sono profundo enquanto seu marido estava fora, preenchendo um inútil relatório sobre pessoas desaparecidas, ele aparecera para ela num sonho. Seu rosto era belo, autoritário, arrogante e forte. Seu nariz era aquilino, os cabelos penteados para trás, a boca cheia, fascinante, ocultava dentes brancos e estranhamente excitantes que apareciam quando ele sorria. E os olhos... eram vermelhos e hipnóticos. Quando ele olhava para a gente com aqueles olhos, a gente não conseguia olhar para outro lado... nem queria.
Ele lhe contara tudo e lhe dissera o que ele deveria fazer. Depois que fizesse, poderia se encontrar com a filha e com muitos outros... e com ele. Apesar de Susan, era a ele que ela queria agradar, para que lhe desse o que ela precisava desesperadamente: o toque; a penetração.
O 38 do marido estava em seu bolso.
Ela entrou no saguão e olhou para a recepção. Se alguém tentasse detê-la, ela daria um jeito. Não com tiros. Não devia disparar nenhum até chegar ao quarto de Burke. Fora ele quem lhe dissera. Se a pegassem e a impedissem de cumprir sua missão, ele não a visitaria, nem lhe daria beijos ardentes à noite.
Havia uma moça de touca e uniforme brancos na recepção, fazendo palavras cruzadas à luz suave do abajur sobre o balcão. Um servente acabava de entrar no corredor e se afastava de costas para elas.
A enfermeira de plantão levantou a cabeça com um sorriso ensaiado quando ouviu os passos de Ann, mas o sorriso se apagou quando viu a mulher de olhos fundos e roupas de dormir. Seus olhos sem vida brilhavam estranhamente, como se ela fosse um boneco de corda que alguém tivesse colocado em movimento. Devia ser uma paciente perdida, pensou ela.
— Senhora, se quiser...
Ann Norton tirou o 38 do bolso do roupão como um pistoleiro espectral. Apontou-o para a cabeça da enfermeira e disse:
— Vire-se.
A boca da enfermeira se abriu em silêncio. Ela engoliu o ar convulsivamente.
— Não grite. Se gritar, eu te mato.
Ela soltou o ar, muito pálida.
— Agora, vire-se.
A enfermeira ergueu-se lentamente e se virou. Ann Norton segurou o 38 pelo cano e reuniu todas as forças para bater na cabeça da enfermeira com a coronha.
Naquele exato instante, alguém lhe deu uma rasteira, e ela desmoronou.
22
A arma saiu voando.
A mulher com o gasto roupão amarelo não gritou, mas emitiu um gemido alto e gutural, quase um lamento. Ela rastejou atrás da arma como um caranguejo, e o homem que estava atrás dela, com a expressão perplexa e assustada, também se lançou em direção ao 38. Quando viu que ela o alcançaria primeiro, chutou-o para o outro lado do saguão.
— Ei! — gritou. — Socorro!
Ann Norton olhou por cima do ombro e emitiu um som sibilante, o rosto contraído numa máscara de ódio, e voltou a rastejar atrás da arma. O servente voltou, correndo. Contemplou a cena por um momento, atônito, e depois pegou a arma que estava quase a seus pés.
— Minha nossa — disse ele. — Esta coisa está carrega...
Ela o atacou. Com as mãos como garras, arranhou o rosto do servente, abrindo riscos vermelhos na pele. Ele ergueu a arma sobre a cabeça. Ainda gemendo, ela alçou o corpo, tentando alcançá-la.
O homem perplexo chegou por trás e a agarrou. Mais tarde, ele diria que foi como agarrar um saco de cobras. O corpo sob a camisola estava quente e repulsivo, cada músculo se crispando e retorcendo.
Enquanto ela se debatia, o servente lhe deu um único murro no queixo. Ela girou os olhos para cima e desabou.
O servente e o homem perplexo se entreolharam.
A enfermeira da recepção gritava, com as mãos tapando a boca, o que dava aos gritos um singular efeito de sirene de nevoeiro.
— Que tipo de hospital é esse, afinal? — perguntou o homem perplexo.
— Não me pergunte — disse o servente. — O que aconteceu?
— Eu estava chegando para visitar minha irmã, que teve neném, quando um menino chegou para mim e disse que uma mulher armada tinha acabado de entrar. E...
— Que menino?
O homem perplexo que viera visitar a irmã olhou ao redor. O saguão estava se enchendo de pessoas, mas todas maiores de idade.
— Não o estou vendo agora. A arma está carregada?
— Com certeza — disse o servente.
— Que tipo de hospital é esse, afinal? — o homem perplexo perguntou novamente.
23
Eles viram duas enfermeiras passarem correndo em direção aos elevadores e ouviram um grito indistinto no andar de baixo. Ben olhou para Jimmy, que encolheu os ombros. Matt dormia com a boca aberta.
Ben fechou a porta e apagou as luzes. Jimmy se agachou em frente à cama de Matt. Quando ouviram passos se aproximando da porta, Ben postou-se ao lado dela, preparado. Quando ela se abriu e uma cabeça se introduziu pela fresta, ele a agarrou e apertou sua cruz no rosto do invasor.
— Me solta!
Uma mão deu socos fúteis no peito de Ben. Segundos depois, a luz do quarto se acendeu. Matt estava sentado na cama, olhando para Mark Petrie, que se debatia nos braços de Ben.
Jimmy se levantou dos pés da cama e correu para o menino, com a intenção de abraçá-lo. Mas hesitou.
— Levante o queixo.
Mark obedeceu, mostrando-lhes o pescoço sem marcas.
Jimmy relaxou.
— Puxa, nunca fiquei tão contente em ver alguém na minha vida. Cadê o padre?
— Não sei — respondeu Mark, cabisbaixo. — Barlow me pegou... e matou meus pais. Meus pais estão mortos. Ele bateu a cabeça deles uma na outra. Matou eles. Depois me pegou e falou para o padre Callahan que me soltaria se ele prometesse largar a cruz. Ele prometeu e eu saí correndo. Mas, antes, eu cuspi nele. E vou matar ele.
Ele oscilava na porta. Tinha marcas de espinhos nas faces e na testa. Atravessara correndo a floresta pela trilha onde Danny Glick e o irmão haviam encontrado a ruína tanto tempo atrás. Havia molhado as calças até os joelhos quando atravessara o córrego Taggart. Pegara uma carona, não lembrava com quem. Só lembrava que o rádio estava ligado.
Ben estava paralisado. Não sabia o que dizer.
— Pobre menino — disse Matt baixinho. — Pobre e corajoso menino...
Mark começou a contrair o rosto. Fechou os olhos, os lábios trêmulos.
— Minha mã... mãe...
Ele cambaleou e Ben o tomou nos braços, abrigando-o, acalentando-o, enquanto as lágrimas brotavam de seus olhos e manchavam sua camisa.
24
O padre Donald Callahan não fazia ideia de quanto tempo havia andado na escuridão. Voltara aos tropeços para o centro da cidade seguindo a avenida Jointner, sem se preocupar em pegar o carro, que deixara parado em frente à casa dos Petrie. Andava às vezes no meio da rua, às vezes ao lado da calçada. Uma hora um carro quase o pegou — os grandes faróis circulares brilharam e a buzina fez um grande alarde quando o motorista se desviou no último segundo, cantando os pneus. Outra hora ele caiu na vala do acostamento. Quando se aproximou da luz amarela que piscava, começou a chover.
Não havia ninguém na rua para notar sua passagem. ’Salem’s Lot se fechara para a noite ainda com mais precauções do que o habitual. O restaurante estava vazio. Na Spencer’s, a Srta. Coogan estava ao lado da caixa registradora, lendo uma revista de confissões sob a luz gelada das lâmpadas fluorescentes. Do lado de fora, sob a placa luminosa que mostrava o cachorro azul saltando, uma luz vermelha de néon dizia:
ÔNIBUS
Os moradores estavam com medo, imaginou ele. E com bons motivos. Haviam captado o perigo, e naquela noite havia portas trancadas em Lot que não se fechavam havia anos... se é que um dia se fecharam.
Ele estava sozinho nas ruas. E era o único que não tinha nada a temer. Soltou uma gargalhada, um som que mais parecia um soluço desesperado. Nenhum vampiro se aproximaria dele. De outros, sim, mas não dele. O Mestre o marcara, e ele seria livre até que o Mestre reclamasse sua alma.
A igreja de St. Andrew assomou diante dele.
Callahan hesitou e depois se aproximou. Queria rezar. A noite inteira, se necessário. Não ao novo Deus, o dos guetos, da consciência social e do assistencialismo, mas ao velho Deus, que proclamara através de Moisés que nenhum feiticeiro deveria viver e que concedera ao próprio filho que renascesse dos mortos. Uma segunda chance, Deus. Farei penitência por toda a vida. Mas... só uma segunda chance.
Ele subiu tropegamente os largos degraus, a batina molhada e enlameada, a boca manchada com o sangue de Barlow.
No alto, ele fez uma pausa antes de estender a mão para a alça da porta.
Assim que a tocou, um clarão azul se produziu, e ele foi atirado para trás. A dor atingiu suas costas, e depois sua cabeça, peito, estômago e canelas quando ele rolou pelos degraus de granito até a calçada.
Ele estremeceu sob a chuva, a mão ardendo.
Ergueu-a diante dos olhos. Estava queimada.
— Impuro — murmurou. — Impuro. Meu Deus, tão impuro...
Começou a tremer. Abraçou os ombros, tremendo sob a chuva, a igreja assomando ao seu lado, as portas fechadas para ele.
25
Mark Petrie estava sentado na cama de Matt, exatamente no lugar que Ben ocupara antes. Enxugara as lágrimas com a manga da camisa, e, embora seus olhos estivessem inchados e inflamados, ele parecia ter-se controlado.