Saúde do trabalhador na sociedade brasileira contemporânea

14. Produção de conhecimento sobre a tríade saúde, trabalho e subjetividade

14. Produção de conhecimento sobre

a tríade saúde, trabalho e

subjetividade

 

Silvana Mendes Lima

O presente estudo traça um panorama e faz uma análise do estado da arte da produção de conhecimentos na área da saúde do trabalhador e sua intercessão com os estudos da subjetividade. Justifica-se pela carência de pesquisas não somente que aprofundem as numerosas vertentes que comportam o tema, mas também que incluam a questão da subjetividade, por esta última ter se tornado matéria-prima essencial das relações de produção do capital, na sua forma atual.

É aspecto próprio das novas formas de produção do capital a destituição, diluição e exclusão daqueles que não são capazes de se inserir na dinâmica atual da modernização dos processos de trabalho baseados em ajustar, de modo polivalente e flexível, o trabalhador moderno. Nessa dinâmica, as empresas, de um modo geral, acabam funcionando como máquinas de vulnerabilizar e de excluir, tendo como efeito a desqualificação e a invalidação dos trabalhadores que estão envelhecendo e, em relação aos jovens, a redução das qualificações exigidas para a admissão, que acabam por “desmonetarizar uma força de trabalho antes mesmo que tenha começado a servir” (Castel, 1998: 527).

Mas se é fato que o capital se apropria em escala nunca vista das formas de trabalho e vida, instituindo modos próprios de subjetivar o trabalho na contemporaneidade, a subjetividade “é ela própria um capital de que cada um dispõe, virtualmente, com consequências políticas a determinar” (Pelbart, 2000: 37). Isso significa afirmar que os modos de subjetivar as formas de trabalho, próprias do nosso tempo, não existem de maneira uniforme nem total. Eles existem em uma série de outras maneiras de viver, de pensar, que, embora muitas vezes não apareçam ou apareçam como desviantes, são formas de resistir, transformar e alterar esses modos dominantes. Essas transformações se consolidam por meio das alianças pessoais, sociais e políticas que vão sendo constituídas no encontro e nos embates ante as formas de trabalho e vida.

Sobre esses embates, quando se acopla o tema da subjetividade e sua relação com a produção de conhecimento na área da saúde do trabalhador, verificamos uma pluralidade de olhares que esse tema tem suscitado na literatura. Para Araújo (2002), a discussão da subjetividade aparece referendada nos campos da saúde e do trabalho com base em abordagens teóricas diferenciadas. Nessas abordagens, a subjetividade comporta cinco perspectivas: sustentando um caráter psicodinâmico do trabalho; como oposição à objetividade; como dimensão da experiência; como dimensão clínica da organização; como invenção contínua de modos de estar na vida.

Além dessas diferentes perspectivas apontadas por Araújo, encontramse, igualmente, outras tentativas de sistematização e análise que vêm sendo operadas por diferentes campos de conhecimento e que trazem acepções próprias quanto às questões da saúde e do trabalho. Acepções essas que abarcam distintas compreensões sobre a noção de subjetividade e o que ela suscita.

Para fins deste estudo, foi realizado um primeiro mapeamento, que abrangeu resumos de artigos de revistas científicas, dissertações de mestrado e teses de doutorado, todos produzidos no Brasil, de 2000 a 2007. Entre as áreas de concentração em que foram produzidas, encontram-se: enfermagem, filosofia, sociologia, psicologia, engenharia, administração, fonoaudiologia, antropologia, saúde coletiva, economia, educação. Com relação aos artigos, um número considerável deles concentra-se na área de psicologia com incursões em outras áreas, tais como: engenharia, enfermagem, educação e saúde coletiva. No mais, aparecem alguns trabalhos da área de nutrição e fonoaudiologia.

Percebemos que a temática da subjetividade, quando referida aos campos da saúde e do trabalho, encontra-se mais associada aos estudos no âmbito da composição subjetividade, saúde mental e trabalho, ou ainda, subjetividade, sofrimento psíquico e trabalho – o que aponta, desde já, para a diversidade de arranjos, análises e metodologias que marcam, inevitavelmente, os estudos que referendam a saúde e a subjetividade de quem trabalha.

Este estudo constitui-se, inicialmente, em um mapeamento e análise dos trabalhos selecionados mediante um enfoque eminentemente qualitativo. Nosso esforço consistiu em buscar, com base nessa revisão, seus planos conceituais, dando visibilidade ao modo como eles produzem, repassam, recriam e atribuem sentidos e valores à tríade saúde, trabalho e subjetividade. Por conseguinte, do ponto de vista analítico, operamos uma inversão no caminho trilhado pela filosofia tradicional ou psicologia, com relação àquilo que se nomeia como a questão do sujeito e da intersubjetividade. A subjetividade aqui é concebida como produção, sendo composta de diversos elementos, de natureza interna e/ou externa (afetivos, familiares, do corpo, da mídia, da linguagem, do desejo, entre outros). Essa heterogeneidade de elementos, em constante processualidade, faz da subjetividade uma instância múltipla indissociável de práticas sociais concretas (Caiafa, 2000).

Assim, o que vem a seguir é um primeiro retrato sobre a produção de conhecimento no campo da saúde do trabalhador e a tríade saúde, trabalho e subjetividade. Importa-nos compreender como essa tríade é referida por alguns de seus autores e os sentidos, valores e embates daí derivados.

 

Saúde do trabalhador e as noções de

subjetividade Um primeiro desafio presente nos resumos e estudos selecionados, para fins desta análise, é o modo como buscam dar visibilidade a uma “matéria-prima tão impalpável quanto incontornável a que chamamos subjetividade” (Pelbart, 2000: 35), ainda mais quando essa matéria é problematizada em razão de sua composição com a saúde e o trabalho.

Assim, a subjetividade ora é referida como uma espécie de entidade interiorizada que, ao sofrer as ações de determinadas formas de trabalho, torna-se uma subjetividade explorada e alienada; ora é concebida como algo que se perde, por exemplo, com a introdução da máquina no processo produtivo.

Há estudos, porém, que buscam compreender a organização subjetiva dos trabalhadores envolvidos em determinados processos de trabalho e outros voltados à busca dos sentidos, subjetivamente manifestos, em torno do trabalho ou de sua ausência. Nesse aspecto, a subjetividade permanece igualmente como uma entidade/unidade, mas que expressa a totalidade de um coletivo. O que se observa nessas análises é que, mesmo quando a noção de subjetividade é remetida a um coletivo, este último torna-se refém da ideia de unidade/ totalidade. Nas unidades que guardam suas identidades, um dos efeitos é a manutenção da cisão entre coletivo e individual, que, na composição saúde, trabalho e subjetividade, produz uma segunda cisão expressa entre modos de trabalhar e modos de subjetivar. Uma cisão histórica que se desdobra em tantas outras anunciadas entre o individual vs. o grupal; o objetivismo vs. o subjetivismo; o sujeito vs. o objeto. Nessa direção, segundo Araújo (2002), a tentativa de ultrapassar uma visão de subjetividade como oposição à objetividade é fruto da incorporação das ciências sociais nos estudos das relações e dos fenômenos saúde/doença, abrindo, portanto, novas perspectivas na área da saúde do trabalhador.

No entanto, embora essa guinada qualitativa da relação entre saúde, trabalho e subjetividade ganhe um novo fôlego, nota-se, em alguns dos estudos analisados, principalmente aqueles desenvolvidos no domínio da psicologia, uma visão dicotomizante – de um lado, as relações saúde e trabalho e, de outro, a subjetividade.

De acordo com Passos e Barros (2000), essa dicotomia remete ao advento da psicologia como campo. Buscando analisar as forças que o constituem, os autores afirmam que se parte da ideia de que o objeto próprio da psicologia seria o homem diante de sua própria contradição. Nesse sentido, a psicologia buscou e ainda busca, mediante procedimentos vários, tratar e analisar essa condição, demasiadamente humana, de um objeto caracterizado por uma tensão constituinte, “já que nele é impreciso o limite entre o normal e o patológico, o adaptado e o desadaptado, o corpo e o espírito” (Passos & Barros, 2000: 77).

Portanto, a história dos estudos psicológicos é configurada por uma dispersão teórico-metodológica, cujo saber nunca se firmou em um campo coeso. São três as linhas evolutivas que andaram paralelas e concorreram na disputa pela preeminência nesse campo:

os estudos do sujeito do conhecimento evoluíram desde a

segunda metade do século XIX, definindo uma vertente

comprometida com o tema dos processos cognitivos.

Contemporânea a esta linha evolutiva, outra se traça apoiada

nas práticas clínicas e tendo como tema central o sujeito do

desejo e do inconsciente. Por fim, sem forjar os seus próprios

instrumentos com uma preocupação eminentemente utilitária,

as psicotécnicas se desenvolveram voltadas para instituições

como a escola, a fábrica, o hospital geral. (Passos & Barros,

2000: 72)

Do ponto de vista epistemológico, o eixo de sustentação que se adota, diante desse estado de dispersão teórico-tecnológica, remete à especificidade da relação estabelecida entre sujeito e objeto de conhecimento. É, então, com base nessa relação, que se opera a distinção dos campos, que se determinam as fronteiras e que se demarcam as disciplinas.

Um aspecto relevante observado na leitura desses estudos se refere aos modos diferenciados de apropriação daquilo que eles nomeiam como o objeto de conhecimento: o trabalhador e as relações engendradas em seu território laboral, quando se tem como meta a promoção da saúde mediante a incorporação do tema da subjetividade.

Assim, essas formas de apropriação se realizam por meio de diferentes procedimentos quando se busca focar o objeto de conhecimento incorporando numerosos saberes. Uma é relativa ao movimento de disciplinas que se somam e tomam o objeto em sua natureza multifacetada, e que exige diferentes olhares (multidisciplinaridade); outra, mais frequente, busca uma zona de interseção entre as diferentes disciplinas para cada qual um objeto específico será designado (interdisciplinaridade). Em ambas as perspectivas, observa-se a manutenção das fronteiras disciplinares, assim como dos objetos e, notadamente, dos sujeitos desses saberes. Por último, há os estudos, mais raros, que se dirigem a uma perspectiva transdisciplinar em que

sujeito e objeto não são mais realidades previamente dadas,

mas se produzem por efeito das práticas. Estas, sejam teóricas

ou não, devem explicar as posições subjetivas e objetivas que

tendem a se estabilizar como realidade. Nessa perspectiva, já

não se pode mais admitir sujeitos determinando formas de

conhecer objetos, nem objetos com suas bem marcadas linhas

se dando a conhecer aos sujeitos. (Passos & Barros, 2000: 74)

Esses procedimentos e formas de apropriação e condução dos estudos ganham maior complexidade quando se adentra o terreno arenoso da subjetividade e sua composição com a saúde e o trabalho. Assim, retomando os trabalhos consultados, dois textos são emblemáticos na tentativa de delimitação de abordagens teórico-metodológicas diferenciadas e da qual derivam estratégias de intervenção distintas.

Nos artigos de Borsoi (2007) e de Jaques (2003), as autoras assinalam quatro amplos conjuntos de modelos teóricos em saúde mental e trabalho: as teorias sobre o estresse, a corrente voltada para a psicodinâmica do trabalho, a abordagem epidemiológica e/ou diagnóstica e os estudos sobre subjetividade de trabalho. Destes modelos, podemos extrair dois eixos constitutivos. Um dos eixos menciona a importância de um diagnóstico dos sintomas de origem psíquica, analisando sua vinculação a situações de trabalho. No outro eixo, a ênfase não recai no diagnóstico de doenças ocupacionais, mas nas vivências dos trabalhadores em situações de trabalho produtoras de adoecimento. O que vale ressaltar é que cada uma das abordagens busca, a seu modo,

encontrar a relação entre trabalho e saúde mental, tentando

apontar os nexos entre aspectos do trabalho e sofrimento

psíquico. Pode-se notar que apesar das distâncias teórico-

metodológicas existentes entre elas, há, pelo menos, um

consenso: desencadeador, determinante ou constituinte, o

trabalho pode ser considerado, de alguma maneira, motivo de

sofrimento que muitas vezes limita o trabalhador, quando não o

impede efetivamente de trabalhar. (Borsoi, 2007: 107)

Mais do que buscar um consenso quando se trata de trabalho, talvez possamos compreendê-lo à luz da afirmativa de que ele, o trabalho, é uma fonte inesgotável de paradoxos (Dejours, 2005).

De fato, a natureza paradoxal e complexa que a categoria trabalho abarca se traduz, historicamente, em um amplo leque de conceituações as mais diversas. Essa diversidade de acepções ganha feições específicas de acordo com as numerosas possibilidades, embates e confrontos presentes na relação que se estabelecem entre o trabalho e as formas de vida que ele engendra.

 

Linhas transversais de análise na composição

saúde, trabalho e subjetividade

Referindo-nos à composição saúde, trabalho e subjetividade, um dos desafios, próprio à produção de conhecimentos e às intervenções operadas nos espaços de trabalho, é que tais acepções acerca do trabalho e as modalidades e metodologias de intervenção daí derivadas sejam capazes de criar ressonâncias entre campos ou disciplinas que, predominantemente, foram sendo constituídos de modo cindido e estanque.

Se, como indica Brito (2004), o campo da saúde do trabalhador se constitui mais como uma perspectiva de estudo, atenção e intervenção sobre os problemas relativos à saúde dos trabalhadores, ele pode criar ações que escapam a esse modo cindido e estanque que vem predominando nas análises e intervenções próprias ao campo. Especialmente por se tratar de um campo que desenvolve ações práticas, segundo olhares de diferentes especialistas e trabalhadores. Nessa direção, nos questionamos acerca de como fundar uma intercessão entre esses diversos domínios, disciplinas ou especialidades, de modo que possam criar ressonâncias nas formas de produzir conhecimento, assim como nas metodologias de intervenção nos territórios de trabalho.

Quando falamos da noção de intercessão, é fundamental compreendê-la opondo-a radicalmente a uma outra noção, a de interseção. Esta última consiste, apenas, em compatibilizar dois domínios – por exemplo, o do trabalho e o da saúde – na constituição de um terceiro domínio, “que se espera estável, idêntico a si e para o qual se pode se definir um objeto próprio”. Quanto à primeira noção, “a relação que se estabelece entre os termos que se intercedem é de interferência, de intervenção através do atravessamento desestabilizador de um domínio qualquer (disciplinar, conceitual, artístico, sociopolítico, etc.) sobre outro” (Passos & Barros, 2000: 77).

É nesse segundo sentido, inspirado na ideia de ‘intercessor’, que neste capítulo enfatizamos a ressonância entre as acepções de trabalho, saúde e subjetividade, assim como das ações práticas que tais acepções produzem em termos de mudanças significativas nas condições de trabalho, formando uma tríade cuja compreensão não pode ser apreendida senão no interior de uma certa intervenção ou operação (Deleuze, 1992).

A ideia de intercessor ganha relevância quando se trata de formas de intervenção no âmbito da saúde. Porém, vale ressaltar, uma acepção de saúde como a define Canguilhem (1990): saúde como um conceito vulgar, alheio ao campo do saber objetivo e que estaria ao alcance de todos. Nesta forma de pensar, a saúde não é propriedade de especialistas e, embora não possa prescindir desses saberes, deve incorporar como dimensão a experiência do corpo e suas referências de dor e prazer do ponto de vista de quem as vive.

O corpo, nessa acepção de saúde, resulta sempre de um campo de forças, dando-lhe um caráter de embate e necessidade de ultrapassagem. Esse caráter de embate é similar à perspectiva de saúde como um campo de luta, situada fora dos parâmetros de equilíbrio e conformidade ao meio. Assim, o caos, o desequilíbrio, o adoecer não são concebidos como defeitos, mas efeitos que emergem dos encontros dos corpos com as “infidelidades do meio”, usando a expressão de Canguilhem (1990); o caos e suas linhas descontínuas como fazendo parte da vida, uma maneira de conceber e estar no mundo, uma das expressões em que a vida se manifesta.

Nos estudos em foco, identificamos, em suas linhas descontínuas, um esforço na direção de criar ressonâncias desestabilizadoras entre domínios diferenciados, preservando a natureza daquilo que eles compreendiam ser a singularidade de seus domínios de ação. Desse modo, encontramos, por exemplo, num dos artigos (Pereira & Mishima, 2003), a problematização acerca da subjetividade como matéria para a reorganização do processo de trabalho da enfermagem. As autoras sugerem que a enfermagem retome o núcleo de competência que lhe cabe, além dos procedimentos técnicos, aquele concernente à ação cuidadora, detendo-se no doente e não na doença.

Em outro artigo, Ribeiro, Pires e Blank (2004) – teorizando sobre o processo de trabalho em saúde como instrumental para análise do trabalho no Programa Saúde da Família – buscam, igualmente, definir a especificidade ou a natureza do trabalho em saúde quando a definem como uma atividade laboral na esfera da produção não material, que se completa no ato de sua realização; portanto, seu produto é a própria realização da atividade. Em ambos os estudos, encontra-se, de algum modo, uma orientação teórico-metodológica-prática que, ao mesmo tempo que caotiza suas margens com outras disciplinas e áreas afins, está atenta à particularidade da natureza de seu trabalho. No caso do trabalho imaterial, principalmente aqueles circunscritos à área da saúde que demandam uma ação cuidadora, trata-se de um conjunto de atividades cujas ações não se restringem a executar tarefas, mas visam, sobretudo, a concebê-las, criá-las.

Ao ampliarmos essa análise, vemos que a condição do trabalho imaterial, assim como o seu conteúdo e resultado, consistem, eminentemente, na própria produção de subjetividade que atravessa todas as etapas do processo de trabalho. Nisso, conclui-se que o trabalho necessita da vida como nunca e que seu produto afeta a vida em uma escala sem precedentes. Urge, portanto, examinar os impasses e efeitos das formas que toma essa contínua apropriação da subjetividade e o que ela produz nos diferentes modos postos em funcionamento presentes nas relações de trabalho.

Esses impasses e efeitos tornam-se, igualmente, matéria-prima para a produção de conhecimentos no que se refere à composição saúde, trabalho e subjetividade e sua circunscrição ao campo da saúde do trabalhador. Vimos, inclusive, que tal circunscrição a um campo sofre a interseção de disciplinas e formas de intervenção que colocam em análise a própria noção de campo.

Por conseguinte, mais do que a ideia de campo, a saúde do trabalhador parece se configurar como um plano de constituição de saberes e práticas compostos de matérias heterogêneas e que produzem realidades diversas. Nesse plano, a produção de saúde consistiria, então, em considerar os componentes sociais, afetivos, econômicos que atravessam as formas de vida e trabalho atualmente, dada a intenção de suscitar uma saúde como potência de interferir no mundo ou, como diz Canguilhem (1990), capaz de inventar novas normas que abalem os traços e marcas, historicamente impressos no corpo do trabalhador e em sua relação com o trabalho em seu caráter coercitivo e excludente.

O que se inaugura com uma perspectiva de produção de saúde como potência de interferir no mundo são práticas de natureza transversal. Práticas conjugadas e traçadas em um espaço de revezamento entre saberes, corpos, perspectivas e métodos. Práticas que, em seu caráter dissidente, produzem, com base na composição saúde, trabalho e subjetividade, novas formas de sensibilidade que funcionam como processos criadores e de transformação e que entendemos como produtores de saúde.

 

Considerações finais

Ao analisarmos os estudos que buscam congregar a tríade saúde, trabalho e subjetividade, nos deparamos com uma diversidade de orientações e de aportes teórico-metodológicos que o campo da saúde do trabalhador comporta. Essa diversidade, quando se busca focar o objeto de conhecimento incorporando numerosos saberes, se traduz em diferentes perspectivas e acepções nomeadas neste capítulo como: multidisciplinar, interdisciplinar e transdisciplinar.

Dentre essas acepções, constatamos visões, por vezes redutoras, acerca da problemática da subjetividade e sua composição com a saúde e o trabalho. Nelas, a subjetividade aparece como uma entidade interiorizada, estanque, que diz respeito apenas a um ‘eu’ que, ao sofrer ações engendradas nas formas de trabalho, torna-se matéria passiva, explorada. No entanto, há igualmente estudos que tentam ultrapassar essa lógica binária e estanque de conceber a subjetividade tomando-a como algo que é da ordem do inacabado e que, por isso, buscam desenvolver ações práticas, com base em olhares de diferentes especialistas, incluindo, principalmente, acepções e embates do trabalhador.

O que interessa nessas ações é o confronto com trajetórias, metodologias, afazeres que são sempre singulares, cujo efeito, quando privilegiamos uma perspectiva transversal nos modos de subjetivar a saúde e o trabalho, possa criar mediações produtoras de uma efetiva reapropriação da vida social e subjetiva. Para tanto, os conhecimentos produzidos teriam de trabalhar na direção de conhecimentos-ferramenta que funcionariam como operadores de realidade. Nesse sentido, os conhecimentos produzidos no interior de qualquer intervenção estariam cheios de força para produzir crise, desestabilizar. Teríamos, assim, conceitos-ferramenta forjando espaços-tempo de experimentação aptos a interferir e desestabilizar determinadas condições de trabalho, desatrelando e destituindo aquelas relações de trabalho pautadas no constrangimento e, por isso, produtoras de sofrimento. Tarefa árdua, mas necessária de ser exercida, em que os diferentes domínios, campos, disciplinas, conceitos e formas de intervenção seriam afetados pela particularidade de suas forças, as quais estabeleceriam uma relação de ressonância e/ou troca mútua, deixando-se perturbar tanto por suas diferenças quanto por uma interferência desestabilizadora, aproveitando “a potência de diferir do outro para expressar sua própria diferença” (Passos & Barros, 2000: 78).

Importa, então, retomando a tríade saúde, trabalho e subjetividade, que a relação entre esses diferentes domínios possa caotizar suas margens e limites, transformando-os em sistemas abertos, enfrentando, na sua composição, a moral dominante que tem estancado, agonizado e rivalizado, incessantemente, as múltiplas possibilidades de conceber e experimentar as formas de trabalho e vida.

 

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