Saúde do trabalhador na sociedade brasileira contemporânea
16. Saúde ‘mental’ e trabalho: questões para discussão no campo da saúde do trabalhador
16. Saúde ‘mental’ e trabalho:
questões para discussão no campo
da saúde do trabalhador
Milton Athayde
Buscamos trazer para discussão neste capítulo questões que se
encontram delineadas 1 no campo que vem sendo designado na América Latina por saúde do trabalhador. Chamamos a atenção para o fato de que não nos dedicamos aqui às formas de adoecimentos e acidentes gerados pelo trabalho, como pode ser a expectativa, considerando-se a rubrica saúde mental e trabalho. O foco do texto está na interrogação sobre o ‘mental’ presente ao trabalhar, e em especial buscamos fazer considerações sobre a incorporação do trabalhador ao processo de pesquisa-intervenção nesse campo, pois entendemos que sua participação resiste como uma fragilidade persistente. Enfim, buscamos colocar em discussão
como o corpo-si 2 e a coprodução linguageira podem ser efetivamente contemplados nesses processos.
As condições de proveniência e emergência do campo saúde do trabalhador e a análise de seus desenvolvimentos, de seus impasses, vêm sendo satisfatoriamente tratadas na literatura. Destacamos os textos de Lacaz (1983, 1996), Mendes e Dias (1991), Minayo Gomez e Thedim Costa (1997), Minayo Gomez e Lacaz (2005). Outras questões têm sido incorporadas, como a do ambiente (Porto, 2005) e a de relações de gênero (Brito, 1997, 1999), sendo esta inclusive articulada com o “ponto de vista da atividade” (Brito, 2005). Ou seja, temos um legado que nos oferece as condições suficientes para um debate profícuo.
Nesse campo, teríamos uma subárea (para outros, uma temática) designada saúde mental e trabalho (ou SM&T). Inscreve-se nesta rubrica quem se situa de forma mais consistente no campo saúde do trabalhador. Não obstante, em nosso entendimento, o reconhecimento da riqueza dos textos que se assumem nessa rubrica não nos deve afastar das contribuições eventualmente presentes em outras linhagens, em outros campos. Se o conceito (e valor) de saúde, em suas diferentes acepções, tem um uso farto e fértil, a noção de ‘mental’ está eivada de problemas não resolvidos. Paradoxalmente, com frequência, o uso da expressão saúde mental se define mais pela ausência ou presença de doença mental. E a composição dos vocábulos (doença – mental) configura-se uma expressão pantanosa. Afinal, em que consiste doença? Será mesmo que a maior parte dos casos de ‘estranhezas’ encontrados pode
mesmo ser definida como ‘doença’ mental? Muitas vezes não.3 Assim, no campo denominado saúde mental e atenção psicossocial, encontramos a utilização da expressão ‘transtorno mental’ (caindo a frequência do vocábulo ‘loucura’).
Quanto à sua localização no espaço de saber científico, poderíamos indagar se a melhor forma seria mesmo situar a SM&T no interior – subárea – do campo saúde do trabalhador. Uma alternativa seria explorar as questões em foco com base nas relações entre os campos instituídos e denominados saúde do trabalhador e saúde
mental e atenção psicossocial/estudos da subjetividade 4 – operando mais fecundamente neste ‘entre’, engendrando as questões pertinentes ao trabalho nesse espaço, repotencializando-o, ‘rizomando’, proliferando ao largo de binarizações, polibifurcando (Deleuze & Guattari, 1980). Não se trataria, nesse caso, de se ficar paralisado ou debatendo-se entre dois campos instituídos, entendidos como entes, como duas totalidades instituídas.
Entendemos que essas são dificuldades a serem discutidas, daí podendo tomar rumos frutíferos. No campo saúde do trabalhador, a emergência da questão da ‘saúde mental’ (ou da ‘subjetividade’, apresenta até aqui um quadro de desconfianças, bloqueios, especialmente no que tange à aceitação de que se trata de algo estratégico. Salvo engano, somente em 1994, na II Conferência de Saúde do Trabalhador, entre mais de uma dezena de temas tivemos um painel sobre saúde mental e trabalho (Sato, 1996). Em paralelo, no campo denominado saúde mental e atenção psicossocial, a
questão trabalho sequer emergiu com vigor.5
Aqui também, damos como incorporado à nossa argumentação o patrimônio existente, com materiais que vêm de forma sistemática desde os anos 80. Na América Latina, temos os textos de Matrajt (1986, 1994). No Brasil, temos em São Paulo, especialmente, os trabalhos pioneiros de Seligmann-Silva (1983, 1986, 1994, 1997), à frente desses desafios desde o movimento de criação do Departamento Intersindical de Estudos e Pesquisas de Saúde e dos Ambientes de Trabalho (Diesat), acompanhada entre outros por Sato (1989, 1996) e Sato e Bernardo (2005). No Rio de Janeiro, temos materiais de Silva Filho (1986, 1987). Estes são textos da maior importância, embora, muitas vezes, não tenham o devido reconhecimento.
Dentre os autores que têm escrito sobre o campo mais geral, Minayo Gomez e Thedim Costa (1997), ao falarem da exigência de sinergia entre saberes (tema que iremos explorar mais adiante), acabam chegando (via Laurell & Noriega, 1989) à questão das cargas de trabalho, ou exigências psíquicas (Noriega, 1993). Minayo Gomez e Thedim Costa (1997:29) avançam com a ergonomia, entendendo que “um processo de investigação que objetive formular propostas de transformação requer um minucioso trabalho empírico que capte e potencialize o saber e os processos psíquicos mobilizados na atividade”. Em seguida os autores dão mais um passo ao considerar que os postulados operados por Dejours “abrem novas perspectivas, desvelando na organização real do trabalho as estratégias adaptativas intersubjetivas, considerando-se que as manifestações patológicas do sofrimento são a expressão do fracasso dessa mobilização subjetiva” (1997: 29). Assim, temos aí, mesmo que tardiamente, um reconhecimento da relevância das questões ‘psi’ no trabalho.
Vida, saúde ‘mental’, trabalho: ignorâncias
recíprocas e a necessária humildade
epistemológica
O viver 6 7 e o trabalhar – considerando sua complexidade, o caráter sempre enigmático do real – extrapolam nossa capacidade de inteiramente compreendê-los. Diante de tais desafios, os humanos criaram, dentre outras formas de saber, a forma-ciência, limitada e parcial, mas de grande potência, explorada como força produtiva de capital. Ou seja, nessa cena de buscas e limitações, o campo da saúde do trabalhador – “um tema que ainda não atingiu a adolescência” (Lacaz, 1997: 8), ainda prenhe de “novas-velhas questões” (Minayo-Gomez & Lacaz, 2005) – apresenta encaminhamentos ainda frágeis, especialmente quanto ao foco em saúde mental.
Entretanto, o risco talvez esteja mais em ignorar a fragilidade ou negá-la do que nela mesmo. É o que se percebe quando nos aproximamos de áreas nobres para a ciência (e o capital), nas quais coexistem muitas vezes noções e métodos oriundos de diferentes paradigmas teóricos e epistemológicos. O ecletismo e a coexistência de racionalidades contraditórias podem ser nocivos, sim, quando a comunidade científica se contenta com a situação, representando nesse caso um freio importante para a pesquisa. Entretanto, quando se entende que esse quadro pode estar traduzindo o reconhecimento de uma complexidade e dos limites de teorias e métodos disponíveis, em uma conjuntura científica e técnica dada, tal tipo de encaminhamento pode ser preferível ao dogmatismo. Podemos então entender que o mais fértil pode ser aceitar a complexidade presente no campo saúde do trabalhador (e da SM&T), assim como sua relativa dispersão como saber e formas
de intervenção, especialmente no que tange à saúde ‘mental’, 8 explorando com fertilidade essas características.
No referido texto de Minayo Gomez e Thedim Costa (1997: 27), assinala-se enfaticamente que “a referência central para o estudo dos condicionantes da saúde-doença é o processo de trabalho”, cuja apropriação “possibilita reformular as concepções ainda hegemônicas que, ao estabelecerem articulações simplificadas entre causa e efeito, numa perspectiva uni ou multicausal, desconsideram a dimensão histórica do trabalho e da saúde/doença”. Também esse é nosso entendimento, mas ressaltando que o elemento que dá vida ao processo de trabalho é a atividade humana, algo ainda explorado de forma insuficiente nesse campo. Na verdade, o foco costuma estar colocado exclusivamente nas relações sociais, que compõem o processo de produção, junto com o processo de trabalho. Ou nas ferramentas e formas de trabalhar, no desenvolvimento científico-tecnológico, em uma leitura reducionista de Marx, pois todos os elementos do processo de trabalho são fruto da atividade humana. A atividade acaba sendo desqualificada, limitada como força de trabalho incorporada pelo capital, dado que todo o processo de trabalho encontra-se então subordinado ao processo de valorização de capital.
Para além da ‘impactologia’ no plano da
causalidade
Temos incrustado em nossa cultura crítica um fardo composto de
fatalismos e profetismos9 – a ‘impactologia’: o determinismo simples de ‘a’ causando ‘b’. Uma das formulações mais frequentes a partir dos anos 80 é o chamado impacto da reestruturação produtiva sobre a saúde mental dos trabalhadores, ou o trabalho capitalista
gerando loucura10 etc. Ora, se denunciar a nocividade contida na vida cotidiana é absolutamente necessário, não se revela suficiente. Pior: se essa crítica se apresenta em um referencial que simplifica, torna-se um fardo que age na prática como obstáculo epistemológico para a busca de compreender-transformar.
Entendemos que a questão da causalidade está diretamente ligada à compreensão do viver, compreendendo o vivente como alguém que não está limitado à reação aos estímulos. Na linhagem de Canguilhem (1999, 2001), saúde é atividade (normativa), capacidade de produzir novas normas; o quadro que daí emerge é o de uma dinâmica, como a dialética marxista vem procurando dar conta. O cérebro (Berthoz, 1997) é um órgão de colocação de problemas, de antecipação, e não de pura resposta. O trabalhador, individual e coletivamente, em seu cotidiano, é não só capaz de detectar, interpretar e reagir, como também pode melhor apresentar os problemas e mesmo questionar o que seriam falsos problemas e inventar outros. Athayde (1996), por exemplo, denominou esse agenciamento criativo de “coletivo de rede”.
Denunciar a nocividade, como dissemos, é absolutamente necessário. Desde a inserção do Brasil no mercado capitalista, a força ideológica escravista persevera, combinando-se perversamente com o clientelismo, o mandonismo, o machismo e o populismo. Nessa formação social, pululam as possibilidades de adoecimentos e acidentes de trabalho. No interior desse campo de combates, a defesa dos trabalhadores, por meio da busca jurídico-política, para estabelecer um nexo causal muitas vezes se confunde com a polêmica científica. Quando a estratégia de produção científica subordina-se ideologicamente à luta político-sindical, os equívocos tomam a frente. Alguns chegam mesmo a considerar que determinadas abordagens – classificadas, por exemplo, como ‘especulativas’ – ‘colaboram’ com o capital. Duvidamos do êxito da empreitada, ela própria especulativa e acusatória.
Pode ser útil lembrar que essa busca de estabelecimento de nexo causal tem história. No Brasil, durante os preparativos da Constituinte, ao apresentar a hipótese de seu programa de investigação, Codo afirmava que “o trabalho teria função determinante, embora não exclusivo, nos distúrbios mentais”. Naquele momento, propunha que as doenças mentais fossem consideradas doenças profissionais, enquadrando-as na lei n. 6.367, de 1976 (ou equivalente). Assinalava com lucidez que a importância do enquadramento legal não estaria no ‘benefício’ que o trabalhador então encontraria. Destacava que tal enquadramento “arranca a discussão e o diagnóstico do foro privado e o remete a uma instância pública, necessariamente política” (Codo, 1988: 21). Esse deslocamento teria, sim, efeitos, tanto para o trabalhador, a empresa e o Estado quanto para os profissionais de saúde mental.
Em seguida, esse autor nos lembrava que a disputa assumia a
forma de comprovação sobre o nexo causal,11 estabelecendo-se um litígio, o que Codo nomeia como “farsa”. Para ele, “quando estamos no território da saúde mental, são confusos e mal determinados os nexos causais de qualquer doença mental”; e em seguida: “talvez a postura mais correta seja a de eliminar o modelo simplista de mera atribuição causa-efeito, ou como querem alguns, partir, a priori, da múltipla causação, ao traçar a etiologia psicopatológica” (Codo, 1988: 24).
O próprio autor enfrenta a objeção a esse encaminhamento, pois se diria que desse modo se tornaria impossível o enquadramento legal. Ora, considerando-se a hipótese de que o trabalho seja apenas desencadeante, Codo lança mão da jurisprudência dos casos de cardiopatias: admite-se que as lesões cardíacas geradas por traumatismo ou esforço físico violento e prolongado, em paciente predisposto, já afetado por moléstia cardíaca, podem ser consideradas acidentes de trabalho! Considerando-se outra hipótese, de que o trabalho seja apenas uma das causas, o mesmo autor lembra estar já consagrado o princípio da ‘concausalidade’: reconhece-se a existência de infortúnio mesmo que o acidente não tenha causa única. Assinala ainda que, na jurisprudência estabelecida, em caso de dúvida do nexo causal, a questão vinha-se resolvendo a favor do operário. Enfim, “mesmo a partir do Direito atual – que todos reconhecemos falho e esperamos aperfeiçoar com a Constituinte – é perfeitamente possível do ponto de vista jurídico o enquadramento das ‘doenças mentais’ como ‘doenças profissionais’” (Codo, 1988: 24).
Enfim, Codo considerava viável a luta nos termos por ele apresentados, naquele momento. Muitos poderão dizer: ora, mas não foi, nem é. Neste caso, poderíamos dizer que a discussão já está no plano jurídico-político, não no científico. Não caberia entrar em uma polêmica ferina e infecunda com as abordagens que ‘atrapalhariam’ o estabelecimento do nexo causal. Não se trata, portanto, de ausência de força científica, mas de fragilidade política. A melhor abordagem não é aquela que ajuda a sustentar o nexo cientificamente, ao preço de uma adesão ao positivismo, ao objetivismo, ao fetichismo da quantificação.
Jacques sinalizava que a edição da medida provisória n. 316, de 2006, pelo governo federal recolocava em cena a discussão acerca do nexo causal, pois “ela prevê o nexo técnico-epidemiológico e inverte o ônus da prova em alguns casos ao determinar o registro automático como doença relacionada ao trabalho de determinadas patologias, em função de altas incidências em determinados ambientes de trabalho” (Jacques, 2007: 112).
Segundo essa autora, “os vínculos entre o trabalho e o adoecimento psíquico vêm ganhando visibilidade crescente” (Jacques, 2007: 112), paralelamente ao crescente número de trabalhadores acometidos por agravos mentais. Assinala, ainda, a importância de psicólogos estarem atuando na direção de estabelecer o nexo causal, contribuindo para o diagnóstico e prescrição terapêuticos corretos, além de propiciarem ao trabalhador as garantias legais existentes.
Entretanto, Jacques (2007: 117) não se recusa a reconhecer que “os princípios que fundamentam o estabelecimento do nexo causal ainda se reportam a um modelo em que a ênfase recai na patologia”. Trata-se de um modelo em relação ao qual ela utiliza a análise de Vasques Menezes (2004) para criticar, afirmando que “a doença se sobrepõe ao paciente e este se apresenta como a-histórico”, em que a necessidade de enquadrá-lo e classificá-lo “acaba por encobrir o sujeito e seu sofrimento, alienando-o de seu processo de adoecimento” (Jacques, 2007: 117). Conclui ela: “a relação de causalidade, mesmo que multicausal, que fundamenta o estabelecimento do vínculo entre saúde/ doença mental e trabalho não dá conta das relações de determinação das manifestações humanas” (Jacques, 2007: 118).
Se entendemos que esse tipo de encaminhamento apresenta tais limites, não se trata de ceder à inviabilidade e cair em paralisia, mas assumir o desafio da complexidade. Que fazer?
Na linhagem presente em Marx, perguntamos com Zarifian (1995): por que não explorar o campo de possíveis contido no próprio movimento do real, reforçando o que nesse curso seja indicador de transformações? Continuando com o autor, podemos ser mais precisos: um campo de possíveis está sempre presente, mesmo que no infinitesimal, em estado emergente, possíveis embora frágeis, mascarados pelas evidências dominantes; a transformação social reside no próprio movimento do real.
Esse entendimento implica que orientemos nossa busca para captar o que, no movimento do real, é indicador das transformações, dos modos de relações que não somente ‘prefiguram’, mas figuram uma outra sociedade/sociabilidade. Essa busca de captar a abertura para o devir (aquilo que rompe as cadeias do hábito, para constituição de novas formas, composições, fazendo desvios, bifurcando), dado o caráter sempre inacabado de sociedade, mostra-se muito mais importante que captar as regulações e as regras sociais que lhe correspondem (o que não é inútil detectar e compreender, é claro). Além disso, mais do que descrever o real (ou do que chegar a um quadro o mais exaustivo acerca dele), trata-se de identificar os possíveis (aqui entendidos como os pontos de tensão, os nós esquivos em que relações contraditórias se estabelecem, pois os nós – em suas estranhezas – são muito mais importantes que os laços).
Ou seja, diante das crises – e não só no plano econômico-financeiro, como na crise que temos hoje – é fértil perguntar: nesse contexto, que outras relações sociais, mesmo se minoritárias e dominadas, estão em vias de surgir, representativas de um devir
‘diverso’ (não ‘anti’ ou ‘pós’)? 12 É desses possíveis, de sua abertura, que vem uma parte importante tanto do sofrimento patogênico quanto do potencial de revolta contra as relações dominantes. Ou seja, esse potencial, esse possível diverso já existe, está na própria constituição do real. Em nosso entendimento, essa deve ser a orientação para uma discussão metodológica.
Além do esquematismo da representação como
forma de conhecimento
Enquanto a episteme clássica estava fundada na semelhança, na episteme moderna o conhecimento deveria ser uma representação fiel da realidade, já dada, que seria independente do conhecedor. Nessa perspectiva, o cérebro extrairia (ou receberia passivamente desse mundo) as informações que o mundo já conteria, passando em seguida por um processamento (posteriormente visto como computacional), representando mentalmente aquelas informações. O conhecer seria um espelho dos fatos, já dados.
A principal característica dessa concepção (‘representacionista’) é a separação sujeito/objeto, sendo a subjetividade descartada para não comprometer a pretendida exatidão, dada a imensa dificuldade para lidar com o subjetivo. Esta visão de que cada um de nós é separado do mundo, visto como objeto a ser explicado para dele ‘beneficiar-se’, opera uma prática de cunho extrativista, com efeitos éticos e societários de porte, em sua ação predatória sobre o meio. Ela vem sendo questionada desde o século passado por diversos grandes epistemólogos e cientistas, afastando-se do paradigma clássico, embora sem necessariamente buscar a construção de um novo
paradigma.13 Com base na biologia, por exemplo, é o caso da obra de Maturana e Varela (2001), que apresentaram em 1984 a tese de que o próprio viver já é um processo de conhecimento, sendo então necessário entender esse processo para compreender o viver. Nessa ótica, o mundo não é anterior à nossa experiência, pois nele vivemos, dele fazemos parte, estamos todos de algum modo ligados, vivemos com outros seres e com eles compartilhamos o processo vital. No curso desse conviver, ao mesmo tempo que esse mundo nos constrói, nós o construímos. Aprendemos ao viver a vida e em seu devir vivemos aprendendo, em um processo incessante e interativo (e não passivo). Como enfatizam esses autores, não há por que levar em conta exclusivamente o observado; há, sim, que se considerar como o observador experiencia o que observa (Maturana & Varela, 1990).
Assim, o conhecer não pode ser reduzido ao processamento de informações oriundas de um mundo exterior, a ser fragmentado e explorado cientificamente. Autonomia e dependência constroem-se mutuamente, em uma dinâmica circular: ao mesmo tempo que se relacionam com o meio e dependem de recursos externos, os viventes são autônomos, capazes de produzir seus próprios componentes ao interagir com o meio; vivendo ‘no’ conhecimento e conhecendo ‘ao’ viver. Observador e observado, vivente e mundo, cooperam na circularidade. Nessa mesma linhagem, com base na própria constituição do cérebro humano, é o que encontramos em Deleuze e Guattari (1980), com sua proposição do rizoma como
‘paradigma’.14
É também nessa direção que em 1962 nos aponta Eco, desde o livro Obra Aberta. Embora sem querer forçar a relação entre o poético-literário e o científico, pode-se lançar mão dessa concepção para discutir metodologia e a tensão objetividade-subjetividade. Consideremos uma dada proposta para compreender-transformar no campo da saúde (mental) do trabalhador. Ela, na medida em que formulada e apresentada aos trabalhadores, pode ser tratada como um texto, uma obra em curso. Nesse caso, o profissional de saúde pode ser visto em diálogo com o protagonista da atividade de trabalho em análise, ambos produtores/consumidores/leitores de uma obra-proposta. Podem assim, ambos, fazer a gestão de um empreendimento de transformar o trabalho, uma vez que o trabalhador é, também ele – mesmo considerando-se as determinações que o subordinam relativamente – alguém ativo que desenvolve suas próprias ações.
Percebemos que qualquer proposta de pesquisa-intervenção (vista como uma ‘obra’) é, em alguma medida, aberta, admite mais de uma interpretação daquele a quem a proposta é apresentada (o protagonista da atividade de trabalho em foco). Daí pode-se esperar o engendramento de múltiplos sentidos, embora não qualquer sentido. Ou seja, entendemos que, ao tomar contato com uma proposta de ação nesse campo, o trabalhador dela faz uso, em um movimento em que, em alguma medida, recria a proposta na própria ação, ampliando seu universo de sentido. Trata-se então de um ato cooperativo, de uma relação dialética entre profissionais de saúde e protagonistas da atividade em foco.
Nessa mesma direção vai a produção de Certeau (1994, 1995), assim como a corrente britânica dos chamados estudos culturais. O
trabalhador (individual e coletivo) pode ser visto como usuário15 da proposta apresentada, dela apropriando-se pelo seu uso. Desenvolvem-se formas de apropriação, de algum modo socializadas em rede pelos usuários, fluindo melhor quando em um movimento de “inovações ascendentes” ou “inovações horizontais’ (Von Hippel, 2005).
É nessa perspectiva, segundo diferentes abordagens, que a busca de transformar pode ser pensada e posta em prática como coprodução, em uma ‘relação de serviço’ (Zarifian, 2001b), envolvendo, para tal, competências pertinentes (Zarifian, 2001a, 2001c). Enfim, trata-se de um entendimento ainda a ser explorado.
Voltemos ao texto de Minayo Gomez e Thedim Costa (1997: 28), em que os autores reiteram o caráter interdisciplinar e multiprofissional do campo da saúde do trabalhador, pois que “nenhuma disciplina isolada consegue contemplar a abrangência da relação processo de trabalho-saúde em suas múltiplas e imbricadas dimensões”. Apontam para um “princípio de cooperação”, enfatizando o necessário diálogo, incorporando o referencial de outras disciplinas e saberes. Tudo isso o Modelo Operário Italiano de luta pela saúde (MOI) estabeleceu, desenvolvendo experimentações extraordinárias (Oddone, Marri & Gloria, 1986).
Esse ‘modelo’ (que continua sendo utilizado no sudeste da França, assessorado por Oddone), envolvendo o que se denominou uma ‘comunidade científica ampliada’, em seguida passou por uma análise rigorosa (Schwartz, 1988), estabelecendo-se com maior clareza na ergologia (Schwartz, 2000), com a proposição de um dispositivo dinâmico de três polos – o DD3P (Schwartz, 2004). Visa-se então a operar a sinergia não só entre disciplinas e abordagens, mas também entre diferentes saberes, para tal operando um terceiro polo (não assinalado no MOI), ético-epistêmico (no caso da Itália, naquela conjuntura, um polo operado pelo sindicato).
Na mesma direção das proposições do MOI (não delegação, validação consensual etc.), outra premissa metodológica é reiterada em Minayo Gomez e Thedim Costa (1997: 29), em que os autores assinalam que é imprescindível a “interlocução com os próprios trabalhadores, depositários de um saber emanado da experiência e sujeitos essenciais quando se visa a uma ação transformadora”. Em nosso entendimento, já nesse plano encontramos maior fragilidade, pois as características da interlocução, a produção linguageira que aí se desenvolve, as mediações necessárias não são facilmente formuláveis, correndo-se o risco de ficar nos princípios. Vamos, portanto, com a lupa sobre essa questão.
Partir do viver e da saúde para transformar os
transtornos e adoecimentos: uma caixa de
ferramentas teórico-metodológicas
Nossa lupa, nosso microscópio, nossa caixa de ferramentas teórico-metodológicas conta com algumas disciplinas e abordagens teórico-metodológicas em sinergia.
A ergonomia da atividade (Guérin et al., 2001) representa um
esforço exemplar.16 À diferença de outras abordagens, a ação ergonômica é global: partindo de uma demanda, passa por uma análise do trabalho (AET), mobilizando diferentes atores, chegando a recomendações de mudanças (ou “proposições discutíveis”, como prefere Daniellou, 2004), a serem acompanhadas por ergonomistas – quiçá operando-se um circuito virtuoso de ‘melhorias’.
Mas no tipo de encaminhamento ergonômico que seguimos, entende-se que a efetividade das mudanças depende tanto da
formação17 dos trabalhadores (aqueles que vão efetivamente operar a ação ergonômica) quanto do que aprendem os próprios especialistas nessa ação conjunta. Isso exige um tipo de dispositivo adequado. Aqui a ação ergonômica tem sido enriquecida pela perspectiva ergológica (Daniellou, 2004), seja com o alargamento do conceito de atividade (Schwartz, 2005), seja com o dispositivo dinâmico de três polos (Schwartz, 2000; Schwartz & Durrive, 2010).
Na história da ergonomia na França, Wisner, considerando os determinantes geográficos e culturais da atividade de trabalho, criou uma outra abordagem, a antropotecnologia (Wisner, 1997). Tinha também clareza quanto à presença de sofrimento psíquico no trabalho; daí colaborou decisivamente para que junto à ergonomia caminhasse outra abordagem já em curso, a psicopatologia do trabalho, em seu caso tendo como interlocutor Dejours. Daniellou (2001), entre outros construtores da ergonomia da atividade, também reconhece a dívida com a psicodinâmica do trabalho (PDT) para seu maior desenvolvimento, especialmente para que ela não fosse tragada pelo cognitivismo.
A partir dos anos 80, no solo em que se constituiu a ergologia, sob influência do marxismo em psicologia do trabalho (incorporando as correntes russas da psicologia – com Vygotsky – e da linguística
dialógica – com o círculo Bakhtin), alimentando-se com o MOI, 18 deu-se, nos anos 90, a emergência da abordagem chamada clínica da atividade. Desenvolve-se com rigor um método indireto de aproximação (o que em ergonomia da atividade denomina-se confrontação), passando pela técnica chamada ‘instruções ao sósia’ (explorada pelo MOI), chegando às técnicas de autoconfrontação cruzada (Clot, 2006; Faïta, 2005; Faïta & Maggi, 2007). Trata-se de outra abordagem também reconhecida por Daniellou (2004), que agrega riqueza ao que a ergonomia da atividade busca desenvolver.
Quanto ao método pertinente ao trabalho de campo, iniciou-se um debate entre a ergonomia da atividade (método AET) e a psicodinâmica do trabalho (método enquete). Encontramos essa discussão na polêmica travada entre Daniellou e Molinier e publicada no número 7 da revista Travailler (2001). Na proposta metodológica da psicodinâmica do trabalho, tem-se a proposição de uma etapa, a pré-enquete. Há na literatura quase um vazio de considerações, tanto dos aficionados quanto dos críticos. A análise da oferta/demanda (uma etapa da AET) e a análise da implicação (quase sempre ausente nas diversas abordagens) merecem maior atenção, ambas podendo ser enriquecidas pelas abordagens da análise institucional (Lourau, 1975) e da esquizoanálise (Deleuze & Guattari, 1973, 1980; Baremblitt, 1992). Entendemos que esse momento de pré-enquete tem relação com a etapa da análise global da AET, cabendo aí um conjunto de estudos sobre a realidade concreta de trabalho que muitos dizem ausente da proposta metodológica de Dejours.
Se pensarmos em um horizonte mais amplo de pesquisa-intervenção, a concepção que vimos desenvolvendo contempla o que classicamente se tem designado por triangulação (ou metodologia de convergência, validação convergente, métodos múltiplos). Quando se mostra pertinente, temos cruzado diferentes métodos e técnicas – por exemplo, mobilizando métodos de influência epidemiológica (ou de análise bioestatística) – dialogando inclusive com materiais de outros grupos. Nesse momento, estamos dando destaque a abordagens clínicas do trabalhar (Lhuilier, 2006; Clot & Lhuilier, 2010).
Ao consideramos o trabalhar, a luta pela saúde, o permanente movimento e o caráter sempre enigmático (Schwartz, 2000; Dejours, 2005) que caracterizam a atividade humana, temos de indagar que métodos podem dar conta dessa complexidade. Como apreendê-la em sua dinâmica processual, seus fluxos? Como acompanhar o engendramento e operação da inteligência e sabedoria da prática, da competência, dos conhecimentos incorporados e desenvolvidos, se estes elementos (inteligência/sabedoria, competência, conhecimentos) são, muitas vezes, desconhecidos no plano da consciência pelo próprio trabalhador e quase nunca são verbalizados em uma entrevista clássica? Sabemos que, incorporados como ‘informantes’, os trabalhadores podem apenas repetir o discurso da hierarquia e descrever as tarefas prescritas, não permitindo a compreensão do trabalho efetivamente realizado, menos ainda do que eles experimentaram nesse processo. Que métodos permitem a expressão individual e coletiva dos conhecimentos sobre o trabalho, para pôr em palavras ‘o que não se sabe’ ou ‘o que se sabe sem nunca haver podido dizer’? Entendemos que é preciso utilizar métodos indiretos.
No debate científico acerca do assunto, nos anos 80, apresentou-se como primeira dificuldade o chamado ‘mutismo do trabalho’: quando os trabalhadores falam, o fazem de forma variável e enigmática, gerando reservas sobre essa fala, composta de dois argumentos. Para Boutet (1993), existe uma não ‘dizibilidade’ do trabalho, uma dificuldade conceitual linguageira para colocar em palavras, dado o que seria uma falta social de produção discursiva a propósito do trabalho. Em sua forte singularidade, o trabalho não encontraria à sua disposição o ferramental semiótico necessário. Haveria uma vacuidade dos universos discursivos correspondentes. Isto porque, enquanto o trabalho prescrito está em relação direta com o linguageiro, o trabalho real estaria inadaptado à expressão da experiência do trabalho, que desborda o trabalho prescrito. A linguagem seria, portanto, inadaptada a esse dizer particular, deficitária em relação à complexidade do real.
Mas, para Faïta (2002), essa compreensão deve ser criticada, pois instala cada vez mais o trabalhador-ator-locutor em uma situação de exterioridade com relação à sua própria experiência, no mesmo movimento em que o analista mantém-se como o mestre do jogo, no trato com o trabalhador. Para esse autor, não existe transparência no discurso, sendo imprescindível instaurar as condições de interação (transação) na ação profissional, suscetível de fornecer modalidades de acesso (indireto) ao sentido/significação do trabalho. O desafio, nesse caso, está em criar as condições para uma fala autêntica sobre o trabalho, reintegrando o trabalhador em um debate que o implica como sujeito de sua própria experiência e de seu discurso.
Desde seus primeiros textos, a perspectiva dialógica de Bakhtin
(2003) nos apresenta o conceito de extralocalidade19 ou exotopia (tradução mais frequente entre nós), ao analisar a criação artística. Aliamo-nos àqueles que entendem que se pode fazer uso desse conceito para compreender a atividade de trabalho e da pesquisa-intervenção.
Entre a compreensão que tem o trabalhador acerca de seu trabalho e o que outros podem ter existe sempre um hiato, uma diferença de lugares e de valores. Conforme Amorim (2003: 14), a tarefa do pesquisador é “tentar captar algo do modo como ele se vê, para depois assumir plenamente meu lugar exterior e dali configurar o que vejo do que ele vê”. Para a autora, “exotopia significa desdobramento de olhares a partir de um lugar exterior”, lugar (e cada um ocupa um lugar singular, que caracteriza a autoria, algo pelo qual cada um responde, se responsabiliza) que permite que se veja do trabalhador e seu trabalho algo que ele não vê.
O princípio dialógico que encontramos em Bakhtin sugere que o pesquisador nunca está livre para impor sua intenção, deve sempre mediá-la por meio das intenções dos outros, tendo que entrar em diálogo com o outro, a partir de onde seu ponto de vista deve emergir. Conforme Clark e Holquist (2004:264), o conceito de extralocalidade (ou exotopia) “descreve uma posição que só pode ser conhecida por meio da mais complexa triangulação das relações interpessoais”. No diálogo, todo enunciado tem uma segunda pessoa (seu destinatário), sendo o ato de fala moldado por sua compreensão responsiva. Mas na medida em que o autor não pode abandonar toda a responsabilidade do julgamento de sua obra à livre vontade dos destinatários mais próximos, pressupõe-se uma instância superior de compreensão da obra. Assim, cada ato de fala remete também, desde o início, a um fundo de compreensão-resposta, uma terceira pessoa que presencia de forma invisível o diálogo, antecipando, prevendo a compreensão do enunciado, interlocutor que Bakhtin (2003) denomina “destinatário superior”. Essa terceira pessoa configura um momento constitutivo do enunciado completo.
O método indireto, o acesso ao enigmático da atividade de trabalho, demanda a criação de um meio de trabalho dito “extra-ordinário” (uma zona de desenvolvimento, ou um espaço potencial) que mobilize um coletivo – dispositivo que temos denominado comunidade ampliada de pesquisa (Brito & Athayde, 2003), em que circula uma comunidade dialógica de pesquisa (França, 2007) – para investigar a atividade ‘ordinária’ de cada um e do(s) coletivo(s). Trata-se, então, de um trabalho de coanálise, associando os pesquisadores profissionais e os protagonistas da atividade de trabalho em foco (nesse caso, parceiros na coinvestigação/intervenção). O objetivo é focalizar o como, e não somente o porquê da atividade de trabalho, seu desenvolvimento e não apenas seu funcionamento. Daí emergem questões pertinentes a importantes vetores, como o que Schwartz (2000) denomina corpo-si.
Nessa perspectiva, toma-se o humano ‘de corpo inteiro’, como um corpo-si, um corpo-atividade-potência. Uma corporeidade ao mesmo tempo fechada (nos limites da forma corpórea) e aberta (impulsionada para além, despregando-se de si, em uma dinâmica de criação dos limites de si).
Trata-se então de um corpo (humano) que não é mudo, mas um vivente produtor de textos. Tendo o ‘linguagear’ tal nobreza para esse vivente, emerge em destaque a questão da produção de sentido.
Para Bakhtin, a língua é inseparável do fluxo da comunicação; ela não é transmitida, mas constituída na corrente da vida. Daí a busca dos ‘constituintes’ do sentido, em seu processo histórico. A atribuição de sentido a um objeto (a uma palavra) não é uma operação de etiquetagem, mas o produto de uma relação que cada indivíduo (locutor/interlocutor), a seu modo, constitui. Produção que implica uma grande parte de subjetividade, sendo o ponto de chegada de um processo (e não de um procedimento totalmente estabelecido). Então como podem ser operadas as escolhas que levam a esse tipo de procedimento? Para Bakhtin (1981), o sentido do enunciado é como uma “faísca elétrica” que só se produz quando há contato entre os dois polos opostos. Em qualquer momento do desenvolvimento do diálogo, existem quantidades enormes e ilimitadas de sentidos esquecidos, pois para o autor o sentido nunca está morto de um modo absoluto. Para Bakthin, há sempre uma lacuna a preencher pela imaginação de um ouvinte. A palavra quer ser ouvida, está em busca de compreensão, de maneira ilimitada.
Outro elemento é o ‘transacional’, 20 pois o caráter linguageiro (e não o objeto técnico unificado que é a língua) possibilita a interação verbal, o conversar. Não se trata aqui apenas de um encontro de psiquismos individualizados, mas de uma relação de textos e contexto: o corpo-si, em sua singularidade, situado, em relação com o contexto histórico-social. Sua apreensão dialógica só pode se dar no fluxo da história (Jobim & Souza, 1994).
Um terceiro elemento é o dialógico, pois a vida é dialógica por natureza. Como nos diz Bakhtin (1992), viver é participar de um diálogo com o corpo inteiro. Sendo a transação linguageira o centro organizador/formador da atividade dita ‘mental’, é essa expressão que organiza a atividade mental e modela/determina sua orientação. Assim, o conhecimento acerca do humano só pode ser dialógico.
Quando desenvolvemos uma pesquisa-intervenção nos mundos do trabalho, é importante considerarmos que a enunciação (e a multiplicidade de vozes/personagens que aí se manifestam), o discurso, é já um diálogo (não existe o primeiro discurso). Toda enunciação/discurso faz parte de um processo de comunicação ininterrupto. Não há enunciado isolado; ele é um elo em uma cadeia discursiva. Logo, o que é dito encontra-se no universo do já dito.
É preciso levar em conta o linguageiro para compreender o que ocorre no trabalho, seus efeitos, sua dinâmica – seja considerando a linguagem sobre o trabalho, seja no trabalho, e mesmo a linguagem
como trabalho (Lacoste, 1995). 21 Afinal, a atividade de linguagem intervém na própria construção da atividade de trabalho (ou seja, ela faz parte da situação, é atividade na atividade), podendo mesmo ser o essencial da tarefa.
Trata-se, pois, de um duplo encaminhamento: 1) dar à linguagem uma dimensão de ação, considerá-la uma atividade (linguageira) na atividade (de trabalho); 2) considerar que pelas falas se manifesta um fazer material (a atividade de uma secretária ao telefone, por exemplo). Podemos então dizer com Boutet (1995) que existem três proposições acerca da atividade de linguagem em qualquer situação social, como na de trabalho. O processo de colocar em palavras tem uma função de descoberta (diz-se a outrem coisas que não se sabia ou ao menos não dessa forma, antes de enunciá-la), é uma operação ‘material’ e é um processo corporal.
Também Dejours (1987) considera como principal material de análise os comentários dos trabalhadores sobre seu próprio trabalho – antes, durante e após o trabalho realizado, no interior de uma cadeia dialógica. Assim, as atividades de linguagem de um trabalhador – conceito de atividade diferente do estabelecido pelos cognitivistas (Dejours, 1987) – fornecem uma via de acesso privilegiado ao conhecimento de sua atividade, em sua globalidade. A palavra não pertence exclusivamente ao que fala. O ouvinte, assim como todas as vozes que o antecederam, participa dessa produção. Ninguém é o primeiro a falar sobre o que está em jogo. Ao usar as palavras, já se está habitado por outras falas, múltiplas vozes participam do diálogo na vida (polifonia). Nos enunciados encontramos julgamentos (apreciativos) de valor, sendo a entoação (na fronteira entre o dito e o não dito) o modo como o socioafetivo pode ser detectado, como a relação entre as pessoas acontece, em sua singularidade.
Na perspectiva ergológica, considera-se que o trabalho é ‘encontro de encontros’; nele se situa um ponto de convergência/divergência de olhares múltiplos (por exemplo, expectativas da empresa em termos de funções e de missão, expectativas dos clientes/usuários, além das expectativas dos diferentes trabalhadores). Para expressar a confrontação entre o prescrito e o real, o trabalhador é entendido como o primeiro expert de seu trabalho. Mas temos aí uma opacidade, as palavras do discurso do trabalho não lhe vêm daí como por encanto, da forma que deveriam, para adequar-se ao modo de estruturação do discurso sobre o trabalho.
Sistematizando, do ponto de vista metodológico: após acordar um contrato psicológico em que os trabalhadores aceitam submeter sua própria atividade (assim com as condições e situações na qual ela se realiza) ao crivo da reflexão e a análise em comum (com os pesquisadores profissionais), é necessário criar situações em que os trabalhadores possam ‘abrir espaços’, ‘abrir parênteses’ (François, apud Faïta, 2007), escapando à contrainte da observação, do diálogo puramente desigual com o pesquisador. Não se trata de coletar, via verbalização, representações mentais do que se passou. Trata-se de não só compreender o funcionamento da atividade, mas acima de tudo contribuir para o seu desenvolvimento.
Para isso, o confronto deve envolver diferentes tipos de pares, especialistas práticos do trabalho em análise (os colegas de trabalho, agentes de um coletivo), assim como leigos/analistas profissionais (novos parceiros, compondo um novo coletivo). Quando na análise muda-se o tipo de endereçamento, o tipo de
destinatário,22 o quadro altera-se, modifica-se a própria análise. Dependendo das características do par – ‘especialistas’ daquela atividade ou ‘leigos’ –, são diferentes os acessos ao trabalho (particularmente em relação ao real da atividade). Nessa dinâmica de análise, há um reendereçamento das palavras do trabalhador, que não se voltam apenas para o seu objeto de trabalho, mas para sua própria atividade. Uma dinâmica se dá entre o que os trabalhadores fazem (em um coletivo de trabalho, no encontro entre diferentes coletivos de trabalho, em uma dada situação), o que eles dizem que fazem (diferentes endereçamentos, diferentes mobilizações de suas experiências), o que dizem daquilo que fazem, o que eles fazem daquilo que eles dizem (Clot, 2000).
Esperamos que nosso texto sirva como instrumento para incentivar a discussão sobre o que existe de ‘mental’ tanto ao trabalhar quanto ao pesquisarintervir no campo da saúde do trabalhador. Quiçá contribua também como ferramenta metodológica para compreender-transformar o que se faz necessário nos mundos do trabalho contemporâneo.
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1 Cabe ressaltar que, mesmo fora dessa configuração, fora dessa nomenclatura, encontramos também materiais importantes, a serem ainda rigorosa e cuidadosamente rastreados.
2 Preferimos essa noção provisória em relação à noção de ‘subjetividade’. O “Glossário da ergologia” (Durrive & Schwartz, 2008: 24) nos diz: “O trabalho não existe sem alguém que trabalha. É difícil nomear este sujeito porque isso subentenderia que ele se encontraria bem delimitado, definido. Ora, se a actividade é efectivamente conduzida por alguém em carne e osso, – ela inscreve-se em funcionamentos neurossensitivos de tal forma complexos que não se consegue dar a volta – esta actividade tem, além disso, prolongamentos que ultrapassam a pessoa física. São solicitados e mesmo incorporados, inscritos no corpo: o social, o psíquico, o institucional, as normas e os valores [do contexto e retrabalhados], a relação às instalações e aos produtos, aos tempos, aos homens, aos níveis de racionalidade, etc. (…) Este alguém que trabalha – este centro de arbitragens que governa a actividade – pode assim ser designado corpo-si ou corpo-pessoa”.
3 Para muitos, como Basaglia, a chamada ‘doença mental’ é uma invenção da psiquiatria. Seu uso mais confunde que explica ou oferece vias de transformação.
4 Podemos sinalizar para os esforços de Pichon-Rivière e toda uma linhagem latino-americana, a partir da Argentina, para pensar os processos grupais, configurando o que este autor chamou de ‘epistemologia convergente’ (envolvendo microssociologia, psicanálise kleiniana, teoria da interação e comunicação, materialismo histórico). Essa noção de convergência, assim como a de interdisciplina – que também fundamenta seu esquema, denominado conceitual, referencial e operativo (Ecro) – têm passado por importantes críticas, na perspectiva ético-estético-política. A respeito, ver os importantes textos de Heliana Conde Rodrigues (2002) e Regina Benevides de Barros (2007).
5 Patinhando entre as oficinas de trabalho (e ‘renda’) e a proposta de economia solidária.
6 Utilizamos aqui o substantivo deverbal (‘o’ viver), conforme Maturana (1991), e com ele entendemos o viver como “história de interações recorrentes”.
7 Podemos encontrar em Stengers (1990), por exemplo, indicações para aprofundar essa perspectiva.
8 Quanto à complexidade no campo denominado saúde mental e atenção psicossocial, ver, por exemplo, Amarante (1996), especialmente o capítulo 1.
9 E seu autoritarismo messiânico sobre a figura dos trabalhadores, tantas vezes professado em nome dos então denominados pobres e oprimidos.
10 É assim que o primeiro livro de Dejours (Travail, Usure Mentale: un essai de psychopathologie du travail, de 1980) foi publicado no Brasil, em 1987, com o título A Loucura do Trabalho. Talvez a alteração do título, embora distorça a tese defendida ao longo do texto, tenha sido um acerto de marketing, considerando a cultura aqui predominante entre os prováveis consumidores do livro.
11 Ou seja, que entre o evento – acidente ou doença – haja uma cadeia causal.
12 Por exemplo, diverso do taylorismo, e não ‘anti’ ou ‘pós’-taylorista.
13 É o caso de Stengers (1990), para quem a questão da complexidade é ‘prática’.
14 Um paradigma regido por seis princípios básicos: conexão, heterogeneidade, multiplicidade, ruptura a-significante, cartografia e decalcomania.
15 E não um utilizador, ou objeto da ação. Assinalamos que a figura do usuário ficou mais visível com as novas tecnologias, distinguindo-se da caracterização mercantil do consumidor ou da representação passiva do receptor.
16 Schwartz (2004: 142) chega a sinalizar a possibilidade de que ela seja, hoje, “uma propedêutica da epistemologia”.
17 Os próprios trabalhadores passam por uma formação em ergonomia para operarem a ação ergonômica.
18 Yves Clot (2006), que vem desenvolvendo a corrente denominada Clínica da Atividade, fez a apresentação e o posfácio da edição francesa do livro de Oddone, Re e Brianti (1981).
19 Na tradução de Guinsburg para outsideness (vnenaxodimost, em russo) no livro de Clark e Holquist (2004).
20 O que, nas palavras de Bakhtin, aparece com o vocábulo interação, categoria básica da linguagem, cuja realidade fundamental é o seu caráter dialógico. Ele faz uma crítica ao que aponta como objetivismo abstrato (Saussure) e ao subjetivismo idealista (Humboldt), que reduzem a linguagem a um sistema abstrato de formas (separa língua/social de fala/individual, priorizando os elementos constituídos pelas formas normativas da língua, como se ela fosse registrada passivamente pelo humano; o que interessa é a relação de signo para signo, no interior de um sistema de signos) ou à enunciação monológica isolada (como criação individual, dicotomizando interior e exterior, privilegiando o interior), ambos criando obstáculos à apreensão da natureza real da linguagem como código ideológico (Jobim & Souza, 1994).
21 Segundo Lacoste (1995), trata-se de uma distinção que apareceu na França via tradição oral, no meio dos ergonomistas, nos anos 80.
22 O início de qualquer jogo dialógico entre interlocutores envolve o lançamento de uma ‘ponte’ em relação a outrem, construindo-se o sentido das palavras escolhidas para falar, pois o discurso é atividade e seus endereçamentos sucessivos à atividade dos outros.