Saúde do trabalhador na sociedade brasileira contemporânea
17. O trabalho e a saúde mental no Brasil: caminhos para novos conhecimentos e novos instrumentos de intervenção
17. O trabalho e a saúde mental no
Brasil: caminhos para novos
conhecimentos e novos instrumentos
de intervenção
Álvaro Roberto Crespo Merlo
A saúde mental dos trabalhadores pode ser afetada por numerosos fatores, tais como a exposição a agentes tóxicos, políticas de gestão de pessoas e das estruturas da empresas, até aspectos relacionados à organização do trabalho.
Os agravos à saúde psíquica muitas vezes vêm acompanhados de consequências somáticas, sendo o caso mais exuberante, atualmente, as lesões por esforços repetitivos/distúrbios osteomusculares relacionados ao trabalho (LER/Dort), embora não se possa afirmar que as condições e a organização do trabalho sejam as causas únicas para o aparecimento desse grupo de patologias.
Aspectos relacionados à (re)estruturação do mundo do trabalho e à divisão internacional da economia também têm, ainda que indiretamente, repercussões sobre a saúde psíquica (e física) dos trabalhadores, na medida em que contribuem para definir as formas diferentes de como o trabalho vai ser exercido em um determinado país, conforme seja ele de capitalismo central ou de capitalismo periférico. Como exemplo, pode-se citar a divisão internacional das formas de trabalhar, que destina aos países de capitalismo periférico atividades produtivas muito exigentes de mão de obra, tal como o que ocorre na produção do vestuário ou do calçado, que ainda funcionam em moldes tayloristas e/ou fordistas criados há pelo menos cem anos e podem produzir importantes agravos à saúde física e psíquica dos trabalhadores, não mais aceitáveis pelas legislações e fiscalizações do trabalho em seus países de origem. Não é possível esquecer, também, que as organizações e as condições de trabalho a que nos referimos ocorrem nos marcos de condições específicas de apropriação do lucro e de estruturas de poder, histórica e socialmente determinadas, definidas como modo
capitalista de produção.1
Múltiplas abordagens e métodos foram criados (e serão criados no futuro) para estudar as relações entre trabalho e saúde mental, e não é intenção deste texto descrevê-los e analisá-los todos. É importante, no entanto, lembrar sempre que as realidades podem ser apreendidas de várias maneiras e que nenhum método sozinho é capaz de dar conta de todos os seus aspectos. Entendemos que as diversas abordagens utilizadas nessa área devem ser vistas, antes de mais nada, como complementares e não excludentes. Apesar dos avanços ocorridos, principalmente nos últimos vinte anos, ainda existe uma importante lacuna na compreensão das relações entre trabalho e saúde mental, que limita e cria impasses ainda não resolvidos para a atenção à saúde nos serviços que atendem os trabalhadores. Por exemplo, a questão do nexo causal entre trabalho e saúde mental ainda não é devidamente resolvida e limita a atividade dos profissionais de saúde que atuam nos Centros de Referência em Saúde do Trabalhador (Cerests), nos ambulatórios de doenças do trabalho dos hospitais universitários, nas unidades básicas de saúde etc.
Nossa proposta neste texto é oferecer subsídios para os debates da temática já citada, tendo como referência a metodologia da psicodinâmica do trabalho, com a qual trabalhamos nos últimos anos, que se oferece como um instrumento útil para conhecer as realidades de saúde mental e trabalho – mas que serve, também, para uma intervenção qualificada nos espaços de trabalho, buscando transformá-los para reduzir o sofrimento mental dos que ali atuam.
A metodologia Na origem da psicodinâmica do trabalho, temos as pesquisas de Le Guillant (1984), autor que, durante os anos 50, realizou as primeiras observações que permitiram estabelecer relações entre trabalho e psicopatologia. Em um estudo feito em 1956 sobre a atividade de telefonistas em Paris, ele identificou um distúrbio que nomeou de síndrome geral de fadiga nervosa, caracterizada por um quadro polimórfico que incluía alterações de humor e de caráter, modificações do sono e manifestações somáticas variáveis (angústia, palpitações, sensações de aperto torácico, de bola no estômago etc.). Falou, ainda, da invasão do espaço fora do trabalho, por hábitos da atividade realizada, que chamou de síndrome subjetiva comum da fadiga nervosa. Esta síndrome caracterizavase pela manutenção do ritmo de trabalho durante as férias, manifestando-se pela sensação de irritação, por uma grande dificuldade para ler em casa e pela repetição incontrolável de expressões verbais do trabalho.
As repercussões da organização do trabalho sobre o aparelho psíquico foram muito inovadas pelo estudo de Christophe Dejours, com a publicação na França de Travail: usure mentale – essai de psychopathologie du travail, em 1980, traduzido em 1987 no Brasil com o título A Loucura do Trabalho: estudo de psicopatologia do trabalho (Dejours, 1987a). A mudança do conceito de psicopatologia do trabalho para o de psicodinâmica do trabalho deu-se a partir de um privilegiamento do estudo da normalidade sobre o da patologia. O que importava agora para a psicodinâmica do trabalho era compreender como os trabalhadores alcançavam a manutenção de um certo equilíbrio psíquico, mesmo estando submetidos a condições desestruturantes (Dejours, 1993). O autor propõe-se a estudar o espaço que separa um comportamento livre de um outro estereotipado – referindo-se a palavra livre, aqui, ao modelo comportamental que faz intervir uma tentativa visando a transformar a realidade que o circunda, conforme os desejos do sujeito, no sentido do prazer. O objetivo principal do procedimento de pesquisa seria localizar o processo de anulação desse comportamento livre (Merlo, 1999).
Dejours (1987b) define o campo da psicodinâmica do trabalho como aquele do sofrimento e do conteúdo, da significação e das formas desse sofrimento, e situa sua investigação no campo do infrapatológico ou do pré-patológico. Segundo essa concepção, o sofrimento é um espaço clínico intermediário que marca a evolução de uma luta entre funcionamento psíquico e mecanismo de defesa, por um lado, e pressões organizacionais desestabilizantes, por outro, com o objetivo de evitar a descompensação e conservar um equilíbrio possível, mesmo se ele ocorre às custas de um sofrimento, desde que preserve o conformismo aparente do comportamento e satisfaça aos critérios sociais de normalidade.
Outra característica importante da psicodinâmica do trabalho é que ela visa à coletividade de trabalho e não aos indivíduos isoladamente. Após diagnosticar o sofrimento psíquico em situações de trabalho, ela não busca atos terapêuticos individuais, mas intervenções voltadas para a organização do trabalho à qual os indivíduos estejam submetidos. Uma de suas vertentes fundamentais são as categorias da psicanálise. Assim, compreende que, ante uma situação de agressão ao ego, o indivíduo defende-se, primeiramente, pela produção de fantasmas, que lhe permitem construir uma ligação entre a realidade difícil de suportar, o desejo e a possibilidade de sublimação. Para Dejours (1987b), a situação de trabalho taylorizada está bloqueada entre o ego e a realidade, pois o conteúdo da tarefa, seu modo operatório e sua cadência são decididos pela direção da empresa. Nessas condições, o fantasma não serve a nada.
Para Daniellou e colaboradores (1983), existe sempre uma separação entre trabalho prescrito e real, consequente à separação entre concepção e execução. Assim, a psicodinâmica do trabalho terá, também, por referência fundamental, esse conceito ergonômico de trabalho prescrito e de trabalho real, e será no espaço entre os dois que poderão ocorrer, ou não, a sublimação e a construção da identidade.
A principal crítica que a disciplina vai dirigir ao taylorismo é a de que ele impede a conquista da identidade no trabalho, a qual ocorre, precisamente, no espaço entre trabalho prescrito e real. A organização científica do trabalho não se limitaria apenas à desapropriação do saber; ela proibiria, também, toda a liberdade de organização, de reorganização e de adaptação ao trabalho, pois tal adaptação exigiria uma atividade intelectual e cognitiva não esperada pelo taylorismo (Dejours, 1993).
A psicodinâmica do trabalho vai utilizar, também, o conceito de sublimação, que tem sua origem na teoria de Sigmund Freud sobre o desenvolvimento da sexualidade, segundo a qual, após o nascimento, os órgãos sensoriais (pele, olhos, orelhas etc.) ‘solicitam satisfação por sua própria conta’, dentro de um mosaico primitivo em que apenas intervém o corpo e no qual não existe aparelho psíquico para controlar essas operações (Merlo, 2002). É o momento da indiferenciação somatopsíquica. Para chegar a uma sexualidade adulta, é necessário que a criança passe por um estágio no qual ela unifique esse mosaico. Tal unificação faz-se por meio do olhar do outro e, em primeiro lugar, da mãe no momento dos cuidados com o corpo do bebê. Porém, pulsões parciais fogem a essa unificação.
A sublimação é, portanto, o processo graças ao qual essas pulsões parciais – cuja satisfação é, originalmente, de natureza sexual – encontram uma saída substitutiva em uma atividade socialmente valorizada. A ideia subjacente é a de que essas pulsões do sujeito, que deveriam desembocar em relações sexuais, são redirigidas ao trabalho, supondo-se que ocorra, preliminarmente, uma dessexualização e, também, uma atividade de substituição socialmente valorizada. No entanto, esse processo não é simples, pois implica manterem-se juntos os aspectos semelhantes e os aspectos diferentes e, dessa forma, fazêlos interagir. Por sua vez, o trabalho repetitivo elimina toda possibilidade de sublimação e leva, por meio da repressão, tanto a doenças somáticas como a descompensações mentais (psiconeuróticas).
Para que a sublimação possa ocorrer na atividade de trabalho, é necessário que certas condições sejam preenchidas. Desenvolveremos apenas algumas delas, devido aos limites definidos para este texto, e remetemos o leitor para Merlo (2002), onde pode ser encontrado maior detalhamento da metodologia: condições psíquicas, condições ontogenéticas e condições organizacionais.
O espaço em que pode ocorrer a epistemofilia é o mesmo em que se desenvolve o processo de sublimação, o qual não acontecerá se esse espaço for muito estreito. A organização do trabalho deverá, portanto, responder a certas características para que tal mecanismo possa funcionar. Assim, devem-se nela encontrar:
1) Um espaço entre organização do trabalho prescrita e organização do trabalho real.
2) Um espaço que permita assumirem-se responsabilidades, isto é, algum tipo de atividade de concepção.
3) Uma correspondência entre a situação de trabalho e o estado interno do sujeito. Trata-se de se estabelecer uma relação entre duas cenas, a do teatro psíquico interno – que dá forma à curiosidade – e a do teatro do trabalho, e de se passar de um teatro a outro. Essa relação – a ressonância simbólica – só poderá operar se existir uma analogia, uma semelhança, entre os dois teatros, sendo o do trabalho que irá retomar, de forma controversa, o teatro psíquico interno. As diferenças são aqui tão importantes como as coincidências, na medida em que são elas que vão permitir estimular-se novamente a curiosidade do sujeito e transformá-lo.
4) Condições éticas – a relação que existe entre a organização real e a prescrita do trabalho é sempre conflitante: o sujeito opõe-se, invariavelmente, à segunda. As atitudes inventivas e as tentativas de se realizarem experiências novas no trabalho implicam um sofrimento que se apresenta muito custoso no plano psicológico e para a saúde globalmente. Como retorno à contribuição dada pelo trabalhador à organização do trabalho, ele deve receber uma ‘retribuição’ que não se resume à simples atribuição de um salário ou de um prêmio por produtividade. Ela necessita ter, antes de mais nada, um caráter moral, devendo, normalmente, tomar a forma de um ‘reconhecimento’, o que significa que os interlocutores do trabalhador devem reconhecer que as atitudes deste último contribuíram para a realização do trabalho. Esse reconhecimento precisa acompanhar-se de um julgamento de utilidade, o que quer dizer que a atividade fornecida pelo empregado deve receber a gratidão dos superiores hierárquicos na empresa, como alguma coisa que tenha utilidade do ponto de vista econômico, técnico etc.
5) Condições sociais da sublimação – para que a sublimação possa produzirse, o trabalhador deverá constituir um conjunto de pares a quem dará a contribuição. A valorização da atividade do trabalhador pelos seus próprios colegas reveste-se de muita importância na medida em que não é mais a hierarquia que a faz. Dejours (1987a) chama-a de “julgamento de beleza”, porque ela se baseia em critérios que são, ao mesmo tempo, estéticos e econômicos (no sentido de economia do corpo) quanto à realização do trabalho. Porém, esse julgamento, por sua vez, é baseado em critérios estritos: para ser bom juiz, é necessário pertencer ao métier e respeitar suas regras. Porém, outro critério intervém nesse julgamento: a elegância e a leveza no trabalho. Na medida em que as regras são estritamente respeitadas, elas não mais são vistas.
O julgamento de beleza é, assim, feito pelos pares, ou seja, pelo coletivo de trabalho, que é a equipe ou a comunidade à qual a pessoa pertence, e esse julgamento é necessário para que se construa a identidade no trabalho. É ele que vai abrir um espaço ao individual, ou seja, permitir a cada um fazer parte do coletivo, conservando alguma coisa a mais, uma característica particular.
Outra peculiaridade importante é que o julgamento deve referir-se ao trabalho e não à pessoa, para permitir a construção da identidade.
O julgamento de beleza refere-se às regras do métier, construídas por subversão e transgressão daquelas prescritas. Trata-se, nesse caso, de realizar a ‘burla’ das regras. É necessário, no entanto, em dado momento, haver um acordo mútuo quanto à maneira de transgredi-las: é preciso tornarem-se públicas as burlas do métier, para que se possa merecer o julgamento de beleza, o reconhecimento dos outros.
Assim, os trabalhadores são levados a criar espaços públicos, que são espaços comuns no trabalho, nos quais possam decidir a melhor maneira de realizar uma determinada tarefa. Essa atividade deve contar com a participação de todos, para que essas novas normas possam resultar de um consenso que as legitime. Porém, não existem apenas critérios técnicos que entram na definição desse consenso, pois a realização da burla depende da história pessoal de cada um e do seu conhecimento e experiência anteriores.
Sem negar a importância dos cerceamentos psíquicos ligados ao trabalho na geração do sofrimento, Dejours (1993) chama a atenção para o fato de que é, principalmente, a falta de possibilidades para se mudarem, ou mesmo aliviarem esses cerceamentos, a origem dos problemas de saúde.
O sofrimento pode, assim, ter dois destinos diferentes: de um lado, a sublimação, como no exemplo dado por Dejours (1993) da atividade dos pilotos de caça, para os quais a defesa é a sublimação que permite aberturas novas; de outro, os trabalhadores submetidos à execução de tarefas repetitivas, para quem as defesas contra o sofrimento são a repressão pulsional, a autoaceleração ou a ideologia defensiva de profissão que expulsam o sujeito de seu desejo e favorecem a lógica da alienação na vontade do outro (Dejours, 1987c).
O sofrimento pode tornar-se o instrumento de uma modificação na organização do trabalho ou gerar um processo de alienação e de conservadorismo. Este segundo caminho explica-se pelo fato de que, após terem-se desenvolvido mecanismos de defesa contra a organização do trabalho, torna-se penoso tentar uma modificação nessa situação.
É com base no estudo das ideologias defensivas que se irá construir a investigação proposta pela psicodinâmica do trabalho (Dejours, 1987b).
Outra contribuição da psicodinâmica do trabalho é a sua abordagem da relação com o prazer que pode existir entre o trabalhador e seu trabalho. Na realidade concreta e na vivência individual do trabalho, não se encontram apenas sofrimento, mutilação e morte. A compreensão da maneira como se elaboram as duas facetas da organização do trabalho, isto é, aquelas que são, respectivamente, fonte de sofrimento e de prazer, é indispensável para se tentar uma interpretação mais global dos laços entre trabalho e saúde e, também, para se procurarem alternativas satisfatórias.
Se essa compreensão encontra sua origem na psicanálise, que é voltada para o estudo e o tratamento terapêutico dos indivíduos na sua relação com uma história singular, a psicodinâmica do trabalho termina por romper, de forma importante, com essa fonte de inspiração, ainda que sem abandonar seus conceitos essenciais. Ela constrói uma nova abordagem, na qual o trabalho não mais é percebido, unicamente, como uma terapêutica universal para remediar ‘desequilíbrios mentais’, vistos como o resultado exclusivo da história singular do trabalhador, que se manifestariam em um indivíduo imaginário quase insensível aos ambientes e à organização do trabalho na qual está inserido. A psicodinâmica do trabalho incorpora conceitos sociológicos para caracterizar e detalhar a organização taylorista, conceitos ergonômicos para identificar o espaço existente entre trabalho real e trabalho prescrito e, também, conceitos psicanalíticos, tais como os de sublimação, para apreender o indivíduo que entra no universo do trabalho como portador de uma história singular que foi construída desde sua infância.
Méritos e limitações
O principal mérito da psicodinâmica do trabalho é, sem dúvida, ter exposto as possibilidades de agressão mental originadas na organização do trabalho e identificáveis ainda em uma etapa pré-patológica. Na medida em que não é possível falar-se, na imensa maioria das situações, de patologia que possa ser associada a uma situação específica de trabalho, o desvendamento do sofrimento psíquico desde o estado pré-patológico permite progredir-se na identificação das consequências da organização do trabalho sobre o aparelho psíquico dos indivíduos e pensar-se em uma intervenção terapêutica precoce.
Ela é uma metodologia ainda muito jovem e em construção – e isso é dito sem nenhum demérito ao enorme esforço que vem sendo feito para construí-la –, que poderá (deverá) sofrer um processo de amadurecimento, o qual lhe permitirá fornecer respostas mais completas sobre as relações entre saúde mental e trabalho e definir, de forma mais nítida, suas fronteiras com as outras disciplinas com as quais tem interface.
A metodologia nas realidades de pesquisa do
Brasil
A psicodinâmica do trabalho tem sido utilizada no Brasil de duas maneiras principais:
1) Um modo que poderia chamar-se de lato sensu. Trata-se da utilização de apenas suas categorias para tentar compreender as realidades de trabalho, buscando uma superação dos limites impostos por outros métodos existentes até aquele momento. Nessa situação, encontra-se a grande maioria de dissertações, teses e artigos que indicam a bibliografia dessa metodologia.
2) Um modo stricto sensu. Alguns pesquisadores têm buscado, nos últimos anos, reproduzir e adaptar a metodologia para as realidades de trabalho brasileiras estudadas, utilizando-a em consonância com o que é proposto originalmente (não apenas como categoria teórica) e seguindo todas as etapas da investigação. Alguns conceitos da
metodologia, como sofrimento psíquico no trabalho,2 só permitem seu desvendamento mediante uma utilização estrita do método proposto, com o seguimento de suas etapas (pré-pesquisa, pesquisa, devolução e validação dos resultados etc.), aí incluídos os grupos de discussão com trabalhadores (dentro dos moldes propostos pelo método) e a identificação dos mecanismos de defesa constituídos por esses trabalhadores, individual ou coletivamente.
No grupo que faz uso stricto sensu da metodologia estão vários pesquisadores brasileiros. As temáticas estudadas foram as mais variadas e ultrapassaram as primeiras pesquisas voltadas, preferencialmente, para as atividades taylorizadas/ fordizadas tradicionais. Pensamos que todas as metodologias devem ser vistas como instrumentos de trabalho para a pesquisa em permanente construção – e por isso dinâmicas –, que precisam ser adequadas às realidades nas quais são empregadas e seus horizontes de utilização podem e devem ser muito ampliados. Com a psicodinâmica do trabalho não ocorre diferentemente. Para que haja um avanço e enriquecimento do método, no entanto, é necessário que se faça seu uso dentro do que prevê o método originalmente, buscando complementá-lo e enriquecê-lo.
Algumas pesquisas em psicodinâmica do
trabalho no Rio Grande do Sul
Os resultados que apresentaremos a seguir têm por objetivo exemplificar o uso desse método e são fruto de investigações nossas, feitas com alunos(as) do Programa de Pós-Graduação em Psicologia Social da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (PPGPSI-UFRGS); outros foram produzidos com base em estudos com pacientes do Ambulatório de Doenças do Trabalho do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (ADT-HCPA), dentro das atividades da residência em Medicina do Trabalho.
Merlo (1999), em estudo sobre a saúde dos analistas em informática de uma grande empresa estatal de processamento de dados, constatou que, embora essa atividade se beneficie de um espaço de criatividade que não poderia ser comparado com o que é oferecido em outras funções, está muito longe da imagem que é feita, habitualmente, do analista como um ‘gênio criador’, que desenvolve seu trabalho em completa liberdade e cuja única limitação seria aquela imposta por sua própria imaginação. Essa situação de trabalho ideal, se algum dia existiu, não corresponde, em absoluto, à dos analistas de hoje. Na verdade, esses profissionais estão submetidos a importantes pressões vindas da direção da empresa para que se respeitem os prazos de produção, pela necessidade de terem de gerenciar as relações com os clientes, das exigências produzidas pelas rápidas mudanças que intervêm no conhecimento e nos produtos informáticos e que nem sempre podem ser controladas etc. Porém, se o sofrimento psíquico do qual podem ser vítimas é muito importante, ele não aparece nos dados do serviço médico da empresa na medida em que se situa, na maior parte do tempo, em um nível infrapatológico. Mesmo quando manifestações somáticas ou psíquicas são reveladas, elas são, totalmente, inespecíficas e não permitem estabelecer qualquer relação com a atividade.
Em estudo realizado com caixas-executivos de um grande banco estatal brasileiro em processo de reestruturação produtiva, Barbarini e Merlo (2002) constataram que a mobilização psíquica provocada pelas mudanças realizadas era intensa, manifestada em sentimentos de insegurança, estranhamento, desorientação e impotência diante das incertezas das propostas da empresa, sendo a perda do contato com o cliente uma das maiores fontes de sofrimento para o grupo. Havia um forte sentimento de desvalorização, presente nas queixas sobre o achatamento salarial, na perda do status que a função proporcionava e na desestruturação de um saber acumulado ao longo dos anos de exercício da função. O sofrimento psíquico desses caixas-executivos, provocado pelas reestruturações no trabalho, atingia níveis preocupantes, pois as novas formas de organização do trabalho haviam destruído a imagem do caixa como um profissional e reduzido a possibilidade de ele ser reconhecido pelo exercício de sua atividade.
Merlo e colaboradores (2003), em pesquisa realizada no ADT-HCPA, tendo como principal objetivo determinar as relações das LER/Dort com o processo produtivo e suas consequências sobre a saúde física e mental dos trabalhadores estudados, evidenciaram um sofrimento associado à dor física, mas não só a ela. Além dos aspectos fisiopatológicos da doença, percebeu-se que existe uma complexa relação que vinculava a dor às vivências subjetivas e à identidade social desses trabalhadores. Assim, se por um lado o trabalho era lembrado como fonte de prazer e produzia o lastro para o reconhecimento e para a identidade, por outro era fonte de sofrimento, pois além de lidarem com as pressões e exigências no cotidiano de trabalho, essas pessoas tiveram a doença como ‘saldo’ de seu engajamento no trabalho, que agora lhes trazia não só dor física, mas também uma série de consequências emocionais e sociais que transformaram radicalmente suas vidas.
Spode e Merlo (2006) estudaram o trabalho e a saúde mental dos capitães da Polícia Militar do Rio Grande do Sul a partir dos aspectos deste ofício que geram prazer e sofrimento. Os resultados da pesquisa revelaram que, apesar da excessiva carga de trabalho administrativo e dos perigos inerentes à profissão, havia prazer no trabalho e este estava relacionado ao exercício de atividades de gestão, as quais proporcionavam espaços de criação. Porém, as pressões impostas pelos mecanismos disciplinares de vigilância e de controle, característicos da organização desse tipo de atividade, não deixavam de se constituir como fonte de sofrimento, pois engendravam divisões entre os trabalhadores e colocavam barreiras para a criação dos vínculos de confiança e cooperação, aspectos de suma importância se considerarmos a própria natureza do trabalho, permeada por riscos.
Barfknecht e Merlo (2006) estudaram as vinculações entre prazer, sofrimento e a organização do trabalho no cotidiano dos trabalhadores de uma cooperativa inserida no movimento da economia solidária. Como proposta do estudo, articulou-se uma interpretação macrossocial do contexto socioeconômico com uma análise microssocial baseada na perspectiva da psicodinâmica do trabalho. Foram analisadas, em conjunto com os trabalhadores, as atividades de corte, costura e serigrafia desenvolvidas em um empreendimento solidário de Porto Alegre (RS). Os resultados mostraram uma identificação dos trabalhadores com o cooperativismo e com a possibilidade da criação de relações solidárias e do gerenciamento compartilhado, transformando o sofrimento em prazer, favorecendo a saúde mental por meio da rediscussão constante da organização do trabalho e da criação de novos modos de viver o trabalho.
Silva e Merlo (2007) problematizaram as vivências de psicólogos que trabalhavam em empresas privadas, discutindo suas práticas profissionais, experiências associadas ao prazer e ao sofrimento em seu cotidiano e concepções teóricas que embasam seu trabalho. Os resultados indicaram que os profissionais tinham como atividades prioritárias as ligadas à psicologia organizacional. Suas falas sugeriram que esses psicólogos tinham estilos dinâmicos de trabalho, revelaram ‘apaixonamento’ por ele, acreditando na sua atuação e apreciando as atividades ligadas ao desenvolvimento de pessoas na organização. Mostraram-se satisfeitos com o reconhecimento dado por outros colegas e por terem espaço para atuar conforme acreditam. As principais fontes de sofrimento foram a carga excessiva de trabalho, os possíveis conf litos entre os valores da empresa e os pessoais, os cerceamentos da organização, a falta de reconhecimento e a percepção de que pertencem a uma categoria profissional desprovida de força.
Traesel e Merlo (2009) apresentaram os resultados de um estudo da psicodinâmica do reconhecimento no contexto dos trabalhadores da enfermagem em um hospital de Santa Maria (RS), que teve o intuito de analisar a eficácia das formas de reconhecimento conferido a essa profissão na preservação da saúde mental desses trabalhadores. A forma de reconhecimento considerada mais importante foi a manifestada pelo paciente, que traz, subjacente, um conflito, pelo fato de esses profissionais não conseguirem prestar a atenção devida que gostariam, em razão dos múltiplos papéis e responsabilidades da profissão.
As principais estratégias defensivas identificadas na pesquisa foram: a atitude de vitimização diante dos problemas, aliada ao sentimento depreciativo em relação às suas capacidades de mudança da realidade; o individualismo, associado a uma busca de dar conta de tudo sozinho, na ilusão de que ‘reconhecer-se a si mesmo’ é a saída para se manter bem no trabalho; o bloqueio de seus sentimentos e emoções e a naturalização da dor e do sofrimento, alimentando uma visão falsa de si mesmo, como alguém que não fica doente, que é sempre forte e que não sofre no que diz respeito às perdas vividas pelo seu paciente, como se estivesse ‘imunizado’ a isso. Foi observado que algumas dessas estratégias impediam o enfrentamento de situações importantes, o que levava ao sofrimento e à morbidade, limitando, significativamente, o investimento da criatividade e da engenhosidade desses trabalhadores e, consequentemente, o reconhecimento de sua contribuição à organização de trabalho.
Baierle e Merlo (2008) buscaram compreender as implicações da reestruturação do trabalho da Guarda Municipal de Porto Alegre (RS) na produção de subjetividade de seus servidores e o impacto sobre a dinâmica saúde/sofrimento mental deles. O grupo de servidores envolvidos na pesquisa foi o que se encontrava mais exposto às mudanças que estavam ocorrendo na instituição, assumindo funções de maior visibilidade, risco e exposição. Essa instituição viveu um período de transição – quando a Guarda recebeu armamento e passou a ser vista pela população da cidade como um corpo policial igual ao das polícias militares –, o que interferiu diretamente na organização do trabalho, na subjetividade e na saúde mental de seus servidores. O sofrimento provocado pelo trabalho passou a ser amortecido pela cooperação mútua, pelo reconhecimento advindo de uma atuação com maior visibilidade e possibilidade do uso da inteligência astuciosa.
Em estudo sobre o trabalho de gerentes de nível intermediário de grandes empresas, Almeida e Merlo (2008) demonstraram que essa atividade surge como um vasto campo a ser explorado, à medida que esses profissionais transitam pelo cenário contemporâneo do trabalho e vivenciam as contradições de uma posição que lhes permite mandar e lhes exige obedecer. Os resultados mostraram uma atividade em que o tema do prazer e do sofrimento psíquico estava presente no trabalho da categoria, despindo o cargo de gerente do glamour que reveste as posições de comando e dando-lhe voz para falar sobre o conteúdo do seu trabalho, sobre as relações que atravessam a rotina profissional e sobre o papel que o trabalho desempenha em suas vidas. Constataram também uma grande demanda por autonomia e reconhecimento, o ressentimento pelo tempo em demasia dedicado ao trabalho e o consequente desequilíbrio entre vida pessoal e vida profissional. O estudo chamou a atenção, ainda, para a importância das relações interpessoais no trabalho, como um fator capaz de fazê-lo pender para uma vivência positiva ou negativa.
Comentários finais
Como assinalamos, algumas grandes questões estão desafiando os profissionais que atuam nessa área, e gostaríamos de citar duas delas para, no final deste capítulo, apontar para as necessárias e urgentes discussões que devemos realizar, para começarmos a buscar alguns caminhos.
A primeira (e talvez a mais importante delas) diz respeito às dificuldades atuais para que tenhamos referências e instrumentos, minimamente confiáveis e consensuais, para o estabelecimento do nexo causal entre trabalho e saúde mental e que possam ser implementados no nível dos serviços que atendem a saúde dos trabalhadores (Cerests, ambulatórios especializados de hospitais universitários, unidades básicas de saúde etc.).
A segunda refere-se ao tipo de atendimento que devemos e podemos propor para lidar com as demandas que chegam aos serviços de atenção à saúde do trabalhador – principalmente quando pensamos em situações complexas e pouco reconhecidas pelas práticas de saúde atuais em suas diversas áreas de conhecimento (médica, de enfermagem, de psicologia, de terapia ocupacional, de fisioterapia etc.), como são os casos da atual epidemia de LER/Dort, que vem, quase sempre, associada a quadros de depressão e de sofrimento psíquico importante. O que se observa, na grande maioria das situações, são queixas de trabalhadores desses serviços especializados em saúde do trabalhador, que se sentem impotentes e completamente despreparados para atender quadros clínicos em que há pouca ou nenhuma referência na literatura especializada, seja no nível da investigação, seja no do diagnóstico, muito menos no da intervenção terapêutica, entendida em seu aspecto mais amplo e não apenas medicamentosa.
Caso tenhamos conseguido indicar alguns caminhos para tratar das questões levantadas aqui, já teremos dado um importante passo para criarmos – e trata-se, exatamente, da necessidade de criação de novos conhecimentos e instrumentos, pois os que existem, atualmente, mostraram-se completamente insuficientes – novas formas de se lidar com os novos agravos à saúde que se apresentam em saúde do trabalhador no Brasil e construirmos formas de tratar o sofrimento dos que hoje estão expostos às duras realidades de trabalho.
Referências
ALMEIDA, L. L. & MERLO, A. R. C. Trabalho de gerência: manda quem pode, obedece quem tem juízo – prazer e sofrimento psíquico em cargos de gerência. Cadernos de Psicologia Social do Trabalho, 11(1): 139-157. 2008.
BAIERLE, T. & MERLO, A. R. C. Saúde mental e subjetividade no trabalho de uma guarda municipal: estudo em psicodinâmica do trabalho. Cadernos de Psicologia Social do Trabalho, 11(1): 69-81, 2008.
BARBARINI, N. & MERLO, A. R. C. Reestruturação produtiva no setor bancário brasileiro e sofrimento dos caixas executivos. Psicologia e Sociedade, 14: 103-122, 2002.
BARFKNECHT, K. S. & MERLO, A. R. C. Saúde mental e economia solidária: análise das relações de trabalho em uma cooperativa de confecção de Porto Alegre. Psicologia e Sociedade, 18: 54-61, 2006.
DANIELLOU, F. et al. Fiction et réalité du travail ouvrier. Cahiers Français, 209: 39-45, 1983.
DEJOURS, C. Travail: usure mentale – essai de psychopathologie du travail. Paris: Le Centurion, 1980.
DEJOURS, C. A Loucura do Trabalho: estudo de psicopatologia do trabalho. São Paulo: Oboré, 1987a.
DEJOURS, C. La méthodologie en psychopathologie du travail. In: DEJOURS, C. (Org.) Plaisir et Souffrance dans le Travail. Tome I. Paris: AOCIP, 1987b.
DEJOURS, C. Souffrance et plaisir au travail: approche par la psychopathologie du travail. In: DEJOURS, C. (Org.) Plaisir et Souffrance dans le Travail. Tome I. Paris: AOCIP, 1987c.
DEJOURS, C. Travail: usure mentale – de la psychopatologie à la psychodynamique du travail. Paris: Bayard, 1993.
LE GUILLANT, L. Quelle Psychiatrie pour notre Temps? Paris: Èrés, 1984.
MERLO, A. R. C. A Informática no Brasil: prazer e sofrimento no trabalho. Porto Alegre: Ed. da UFRGS, 1999.
MERLO, A. R. C. Psicodinâmica do trabalho. In: JACQUES, M. G. & CODO, W. (Orgs.) Saúde Mental e Trabalho: leituras. Petrópolis: Vozes, 2002.
MERLO, A. R. C. et al. O trabalho entre prazer, sofrimento e adoecimento: a realidade dos portadores de lesões por esforços repetitivos. Psicologia e Sociedade, 15: 117-136, 2003. SILVA, P. C. da & MERLO, A. R. C. Prazer e sofrimento de psicólogos no trabalho em empresas privadas. Psicologia: ciência e profissão, 27: 132-147, 2007.
SPODE, C. B. & MERLO, A. R. C. Trabalho policial e saúde mental: uma pesquisa junto aos Capitães da Polícia Militar. Psicologia: reflexão e crítica, 19: 362-370, 2006.
TRAESEL, E. & MERLO, A. R. C. A psicodinâmica do reconhecimento no trabalho de enfermagem. Psico, 40(1): 02-109, jan./mar. 2009.
1 Os regimes políticos ditos de ‘socialismo real’, passados ou contemporâneos, também foram (e são) geradores de muito sofrimento e agressão à saúde dos trabalhadores. As condições de trabalho nos países do antigo bloco soviético, China etc. não deixaram nada a desejar, em termos de precariedade e contaminação (dos trabalhadores e do meio ambiente), ao que ocorre nos atuais países capitalistas da periferia.
2 Para essa metodologia, o sofrimento psíquico no trabalho só pode apreendido a partir do uso estrito do método, na medida em que ele, na sua subjetividade, não se manifesta de forma explícita e, na maior parte das vezes, encontra-se ‘escondido’ atrás dos mecanismos de defesa.