Superdotação, transtorno de déficit de atenção/hiperatividade e dupla excepcionalidade: um estudo de indicadores e habilidades sociais

Percurso metodológico do estudo empírico

Percurso metodológico do

 

estudo empírico

 

Esta pesquisa será abordada de maneira quanti-qualitativa, avaliativa e comparativa.

A pesquisa quanti-qualitativa é necessária, nesse caso, pois a escolha de uma única abordagem (quanti ou quali) seria insuficiente para compreender a realidade estudada, portanto, essas serão vistas como complementares e, juntas, nos auxiliam a vislumbrar as peculiaridades dos fenômenos investigados (SOUZA; KERBAUY, 2017). A opção pelo termo quanti- qualitativa é justificada pelo fato de que, primeiramente, os dados precisam ser quantificados, para ser, em seguida, qualificados.

É considerada uma pesquisa avaliativa, porque foram realizadas análises dos objetos de estudo, preservando-se o caráter unitário de cada sujeito e de cada fenômeno. Segundo Silva (2010, p. 40), “[…] na avaliação, compara-se uma medida com um padrão e é emitido um julgamento sobre essa comparação. Ou seja, a avaliação inclui o uso da medida, mas não se limita a ela.”

As variáveis dependentes avaliadas foram: déficit de atenção, hiperatividade/impulsividade, indicadores de Superdotação, habilidades sociais e percepção dos pais/responsáveis.

As variáveis descritivas selecionadas foram gênero, idade, escolaridade, posição do estudante na família e o uso de medicamentos.

 

Participantes

 

Nesta pesquisa, estudaremos, de forma individual e coletiva, uma amostra de conveniência de doze estudantes de seis a 13 anos, a fim de investigar os fenômenos da Superdotação e do TDAH, à luz da dupla excepcionalidade. Esses serão divididos em dois grupos:

G1 - Seis estudantes precoces com comportamento superdotado, participantes do Programa de Atenção ao Aluno Precoce com Comportamento Superdotado (PAPCS) e seus respectivos pais/responsáveis.

G2 - Seis estudantes com a hipótese diagnóstica de TDAH, frequentadores do Centro de Atenção Psicossocial Infantil

(CAPSi11), e seus respectivos pais/responsáveis.

 

Quadro 8 - Quantidade de

participantes do estudo

G1 G2

Estudantes (E) 6 6

Pais (P) 6 3

Mães (M) 6 6

Avós (A) - 3

Total 18 18

Fonte: Elaboração própria.

 

Os critérios iniciais de inclusão no estudo foram: o estudante ter entre 6 e 13 anos, não ter comorbidades associadas ao diagnóstico e contar com dois familiares que aceitassem participar da pesquisa.

Assim, foi providenciado o contato com os participantes do PAPCS que atendiam aos critérios de inclusão, convidando-os a participar da pesquisa.

Em seguida, fez-se o contato com o CAPSi de Marília, para o levantamento dos estudantes com a hipótese diagnóstica de TDAH.

Foram indicadas, pela coordenadora da unidade, 24 estudantes, em tratamento psicoterápico. As idades variaram de quatro a 15 anos. A partir desse levantamento, foi efetuada a triagem dos participantes que atendiam aos critérios de inclusão da pesquisa. Nesse caso, demos prioridade à participação da mãe e do pai do estudante, mas, diante da impossibilidade da participação de algum deles, avós que coabitam e são corresponsáveis na criação dos netos também foram admitidos.

Coelho e Dias (2017) ressaltam que, na atualidade, ampliouse o número de lares em que várias gerações convivem juntas, como os avós e netos, que podem criá-los integralmente ou não, sendo diversas as situações e motivações que levam os avós a participarem ativamente na vida dos netos, assumindo assim papel de relevância. As autoras alegam que são motivos frequentes o divórcio dos pais, a gravidez na adolescência, pais que trabalham fora ou são incapazes.

De posse da definição dos possíveis participantes, foi feito um contato inicial com os mesmos, a fim de convidá-los a participar da pesquisa, explicar a finalidade e relevância da mesma, e ressaltar a importância de sua colaboração.

As Tabelas 1 e 2 apresentam a caracterização dos sujeitos da

pesquisa. Para a elaboração da Tabela 1, que traz a caracterização dos estudantes, as variáveis descritivas determinadas a priori foram: gênero, idade, escolaridade, posição na família e uso de medicamento.

 

Tabela 1 - Caracterização dos estudantes

Variáveis G1 G2

Gênero

Feminino 1 2

Masculino 5 4

Idade

6 - 1

7 - 3

8 2 1

9 1 -

10 - 1

11 3 -

Escolaridade

1° - 1

2° - 1

3" 2 2

4° - 1

 

Fonte: Elaboração própria.

Variáveis G1 G2

5° 1 -

6° 2 1

7° 1 -

Posição na família

Primogênito 4 1

Unigênito 1 3

Caçula 1 2

Uso de medicamento

 

Já foi indicado, mas não chegou a ser 3 3 administrado.

Está em tratamento farmacológico. 1 2

Já foi administrado, mas não faz uso. - 1

Não. 2 -

Fonte: Elaboração própria.

 

Como observado na Tabela 1, a maior parte dos estudantes participantes é do gênero masculino, havendo somente uma menina, no G1, e duas, no G2.

Quanto à identificação de estudantes meninas com comportamento superdotado, Ogeda, Pedro e Chacon (2017) enfatizam que, embora não exista razão biológica e esse fenômeno possa se manifestar em ambos os gêneros, as pesquisas demonstram que o número de meninos identificados é bastante superior ao de meninas. Isso se deve muito provavelmente a variáveis sociais e culturais, as quais agem como barreiras na identificação.

No que diz respeito a esses fatores, que se configuram como barreiras na identificação de meninas, esses podem ser divididos como de ordem interna e externa. Como exemplos de barreiras de ordem externa temos a falta de disponibilidade de modelos bem-sucedidos de mulheres com comportamento superdotado, estereótipos de gênero, expectativas sobre o desempenho dos papéis femininos, conflito família/trabalho e divisão não igualitária dos afazeres domésticos. As barreiras de ordem interna são os estereótipos que, muitas vezes, são internalizados e passam a atravancar a expressão do potencial dessas meninas. Como exemplos, temos vários conjuntos de comportamentos, as chamadas Síndrome do medo do sucesso, por receio de ser considerada menos feminina; Síndrome do impostor, por dificuldade de internalizar seus próprios feitos; e a Síndrome da abelha rainha, na qual a mulher desenvolve sobrecarga psíquica, em decorrência da busca pela perfeição, em todos seus âmbitos (COLMENARES, 1997; REIS, 2008; PRADO; FLEITH; GONÇALVES, 2011; PÉREZ; FREITAS, 2012).

Quanto ao maior número de meninos também no grupo dos estudantes com hipótese diagnóstica de TDAH, está de acordo com os dados da APA (2014), para os quais há uma prevalência de 2:1; a despeito de termos encontrado na literatura considerável variação, a grande maioria das investigações relata maior quantidade de meninos (BARKLEY, 2002; ROHDE; MATTOS, 2003).

Acerca da idade, o G1 é composto por estudantes de oito a 11 anos, sendo que metade da amostra tem 11 anos. Já o G2 é composto por estudantes de seis a 10 anos, metade da amostra com sete anos.

Quanto à escolaridade, no G1, temos estudantes do terceiro ao sétimo ano, exceto no quarto, sendo que um dos estudantes foi acelerado um ano na idade/série. No G2, temos estudantes do primeiro ao sexto ano, exceto no quinto.

A literatura ressalta que, muitas vezes, os estudantes com comportamento superdotado são iniciados no processo de identificação logo na Educação Infantil, quando os indicadores de precocidade começam a ficar evidentes (PEDRO, 2016). No caso do TDAH, esses comportamentos aparecem desde a infância, principalmente os de hiperatividade, mas são mais fortemente identificados nos anos iniciais do Ensino Fundamental, quando a atenção focada e o controle motor são imprescindíveis (ROHDE; MATTOS, 2003; APA, 2014).

No G1, quatro dos estudantes são filhos primogênitos, um deles é unigênito e um é o filho caçula. Esse fato corrobora uma das generalizações de Winner (1998), segundo a qual esses estudantes são geralmente os primogênitos ou unigênitos. Para ela, os primogênitos desfrutam de uma posição privilegiada na família, que deixa de existir quando o irmão nasce, o que faz com que se sintam estimulados a recuperar a posição perdida.

O fato de esse grupo também ser composto por muitos filhos únicos é justificado pela autora com o pressuposto de que esse estudante, apesar de não ter perdido sua posição privilegiada, convive mais tempo com adultos, porque os filhos primogênitos e unigênitos recebem mais estímulos que os irmãos mais novos, conduzindo-os a alguma vantagem cognitiva.

No G2, três dos seis estudantes são unigênitos e três são os filhos caçulas. Dos unigênitos, duas mães estavam gestantes, no momento da coleta. Como na Superdotação, alguns pesquisadores atestam que os estudantes com TDAH também são geralmente os primogênitos ou unigênitos (PREKOP; SHWEIZER; 2005).

Portanto, nesta investigação, constata-se, nos dois grupos, a prevalência de estudantes primogênitos ou unigênitos, aspecto que está de acordo com os achados de pesquisa de Ourofino e Fleith (2005).

Quanto à variável uso de medicamento, verifica-se que, para a metade dos estudantes, já foi indicado algum tipo de medicamento para controle de comportamento, porém, este não chegou a ser administrado. Até a data da coleta de dados, um estudante, no G1, encontrava-se em tratamento farmacológico e dois estudantes, no G2, faziam uso de algum tipo de fármaco para controle de comportamento, o que aponta para um baixo número de estudantes medicados, embora essa sugestão tenha sido frequente nos dois grupos.

Segundo a literatura, o medicamento é bastante eficaz para os estudantes com TDAH (DESIDÉRIO; MIYAZAKI, 2007; FONSECA; MUSZKAT; RIZUTTI, 2012), porém, quando versamos sobre a dupla excepcionalidade, algumas pesquisas indicam (MOON, 2002; NEIHART, 2003; OUROFINO, 2006) que isso deve ser questionado e é imperioso focalizar mais em estimular as potencialidades que remediar as características do transtorno. Cramond (1995), Baum, Olenchak e Owen (1998) e Baum e Olenchack (2002) entendem que a medicação controla os comportamentos disruptivos, mas inibe o processo criativo dos estudantes.

Quanto à Superdotação, sabe-se que as intervenções devem ser pedagógicas e não medicamentosas, havendo autores que alertam para o fato de que os medicamentos não auxiliam no desenvolvimento do potencial do estudante e, pior que isso, podem ser prejudiciais em longo prazo (BAUM; OLENCHAK; OWEN, 1998; CHAE; KIM; NOH, 2003; MASSUDA; MANI, 2015; MASSUDA, 2019).

Na Tabela 2, temos a caracterização dos pais/responsáveis. Nessa tabela, as variáveis descritivas foram gênero, grau de parentesco, idade, escolaridade e renda familiar.

 

Tabela 2 - Caracterização dos pais/responsáveis

Variáveis G1 G2

Gênero

Feminino 6 8

Masculino 6 4

Parentesco

Mãe 6 6

Pai 6 3

Avós - 3

Idade

20-30 - 3

30-40 6 3

40-50 4 4

50-60 2 2

Escolaridade

Ensino Fundamental Incompleto - 4

Ensino Médio Incompleto - 1

Ensino Médio 4 4

Ensino Superior Incompleto 2 -

Ensino Superior 5 3

Pós-Graduação 1 -

Renda familiar

 

Fonte: Elaboração própria.

Variáveis G1 G2

Até R$ 1.500,00 - 2

R$ 1.500,00 a R$3.000,00 1 3

R$ 3.000,00 a R$ 6.000,00 4 -

RS 6.000,00 a R$ 12.000,00 1 -

Acima de R$ 12.000,00 - 1

Fonte: Elaboração própria.

 

A amostra do G1 foi formada por mães e pais, enquanto a amostra do G2 foi constituída por mães, pais e também avós.

No G1, seis participantes têm entre 30 e 40 anos, ao passo que, no G2, quatro desses têm entre 40 e 50 anos.

Com respeito à escolarização, no G1, todos os participantes têm Ensino Médio ou Ensino Superior, enquanto, no G2, nove têm o Ensino Fundamental Incompleto ou o Ensino Médio; apenas três participantes nesse grupo possuem Ensino Superior.

A renda mensal de quatro das famílias no G1 está entre R$ 3.000,00 e R$ 6.000,00, sendo que a de metade das famílias no G2, está entre R$ 1.500,00 e R$ 3.000,00.

Conforme Delou (2007), em todos os ambientes familiares é possível encontrar estudantes com comportamento superdotado, inclusive famílias com baixa renda e baixa escolaridade. Apesar de não ser empecilho para a existência desse estudante, a situação econômica pode interferir na manifestação dos indicadores (RENZULLI, 1986) e, como ressalta Winner (1998), a Superdotação pode se desenvolver em famílias de baixa renda, contanto que essas valorizem a educação.

A situação socioeconômica não é uma causa do TDAH, mas, devido ao fato de se interligar aos fatores sociais, pode gerar desajustes no ambiente, como situação de vulnerabilidade, não atendimento às necessidades, desemprego e insegurança, o que pode potencializar os indicadores (BARKLEY, 2002; ROHDE; MATTOS, 2003).

A respeito do estado civil, todos os participantes no G1 são casados formalmente e, no G2, temos dois casados formalmente, um está em uma união estável e três dessas mães são separadas. Das avós, duas são viúvas e uma é casada formalmente.

Nesta pesquisa, foi adotada uma concepção sistêmica de família, do ponto de vista do desenvolvimento. Para Dessen (1997, 2007), a necessidade de se adotar essa perspectiva começa a ser amplamente difundida em meados de 1980 e implica considerar que o sistema familiar é composto por vários subsistemas e as relações desenvolvidas entre eles são únicas.

Os valores, crenças, estilos e práticas parentais influenciam a dinâmica familiar e na distribuição de recursos, como tempo, atenção, dinheiro e oportunidades.

Nessa perspectiva, esses subsistemas são interdependentes e, para compreendê-los, vale ter em vista todos os subsistemas, porque as transições no desenvolvimento de qualquer membro da família constituem desafio para o sistema inteiro. Por certo, a família não pode ser vista como um sistema de díades separadas, nem seu processo de desenvolvimento ser concebido como a aquisição de padrões sociais do ambiente externo. Isso requer dar foco a como o sistema familiar acomoda a criança e como afeta e altera o sistema como um todo (DESSEN, 1997).

Essa mesma autora assinala que foi somente nos anos 1980 que os pesquisadores começaram a incluir, nas pesquisas, outros subsistemas, além da díade mãe-criança, expandindo o conhecimento nesse sentido, todavia, ainda há prevalência de estudos sobre as interações mãe- criança, pai-criança e criança-irmão como subsistemas separados (DESSEN, 1997, 2007).

Concordamos com Delou (2007, p. 131), quando assevera:

 

Embora a hereditariedade seja um importante fator para a constituição biológica e psicológica do ser humano, é na família, aqui entendida como o conjunto de sujeitos que vivem e convivem com a criança no dia-a-dia, provendo-lhes as necessidades básicas de manutenção e sobrevivência, servindo-lhe de modelo de imitação e inspiração, que acontecerão as primeiras relações sociais. É na família que se inicia a construção da nova personalidade, calcada em parâmetros éticos-morais subjetivos, base das subjetividades que as crianças mostrarão quando passarem a atores sociais.