Superdotação, transtorno de déficit de atenção/hiperatividade e dupla excepcionalidade: um estudo de indicadores e habilidades sociais
Procedimentos de análise de dados
2. Aplicação dos instrumentos junto aos participantes.
Primeiramente, foi solicitado que os pais/responsáveis respondessem aos instrumentos autoaplicáveis, sem especificar de que fenômeno se tratava cada um deles.
A pesquisadora esteve presente no ambiente de aplicação, de maneira discreta, durante esse tempo, para sanar possíveis dúvidas. Caso fosse detectada alguma dificuldade, era dada assistência individual, na qual era lido cada item e indicado onde e como o respondente deveria anotar sua resposta.
Em um segundo momento, a pesquisadora retirava um deles da sala, para proceder à coleta dos dados, com a entrevista, enquanto uma psicóloga auxiliar da pesquisa aplicava o instrumento psicométrico. Após isso, o processo foi realizado inversamente.
A autoavaliação do estudante foi feita depois da avaliação dos pais/responsáveis no G1 e antes no G2.
Procedimentos de análise dos dados
Foram empregados procedimentos quantitativos e qualitativos para a análise.
Os dados do questionário foram apresentados em tabelas e dialogados com base na literatura e nos resultados dos outros instrumentos.
O escore geral obtido por meio do CCAS foi computado e discutido, em função de seus domínios: capacidade intelectual, criatividade e domínio emocional. Quanto maior o escore, mais presentes estão os comportamentos superdotados no estudante (BARBOSA et al., 2008). O resultado é a soma de todos os itens, atribuindo-se um ponto a cada resposta afirmativa e zero pontos a cada resposta negativa.
A nota de corte do instrumento, para este estudo, foi determinada no estudo-piloto do G1 (69,04%), posto que, na literatura, é encontrada variação de 50 a 70%.
Nesse instrumento, foi considerado o escore total dos estudantes, mas não desprezamos o fato de que algum domínio pode apresentar menor número de indicadores que outro e fazer com que o estudante não atinja o critério estabelecido.
Com relação ao instrumento de identificação de indicadores de TDAH (MTA-SNAP IV), seguiremos o proposto por Mattos et al. (2006) e pela APA (2014): a utilização do ponto de corte de seis indicadores de desatenção e/ou seis de hiperatividade-impulsividade, assinalados com bastante ou demais.
Os dados do SSRS foram analisados pela psicóloga, na companhia da pesquisadora, com amparo na amostra normativa do instrumento. Assim, foi possível descrever, avaliar, comparar e correlacionar o repertório de habilidades sociais em cada um dos fenômenos. A análise estatística dos resultados dos grupos foi realizada com auxílio do programa Excel.
Os itens constantes no instrumento não serão divulgados em sua totalidade, conforme as normas da Declaração do International Test Commission (ITC), no uso de testes e outros instrumentos de avaliação para fins de investigação científica (WECHSLER et al., 2014) e no próprio manual (DEL PRETTE et al., 2016).
A escala de avaliação de habilidades sociais por pais/responsáveis possui cinco fatores, e a escala de autoavaliação, quatro. Cada fator contém de quatro a seis itens a serem respondidos.
As classificações do instrumento, a partir dos percentis calculados para a escala de habilidades sociais, são:
1-25: repertório abaixo da média inferior, com indicativo de necessidade de intervenção;
26-35: repertório médio inferior, com resultados abaixo da média e indicativo de necessidade de intervenção; 36-65: bom repertório, com resultados dentro da média; 66-75: repertório elaborado, com resultados acima da média; e 76-100: repertório altamente elaborado, com resultados acima da média.
Na escala de avaliação de problemas de comportamento por pais/responsáveis, são dois os fatores de avaliação, um com dez itens e outro com cinco.
As classificações em função dos percentis para a escala de problemas de comportamento são:
1-25: repertório muito baixo, com resultados abaixo da média; 26-35: repertório baixo, com resultados abaixo da média; 36-65: repertório mediano, com resultados dentro da média e indicativo de atenção preventiva;
66-75: repertório médio, com resultados acima da média e indicativo de necessidade de intervenção; e 76-100: repertório acima da média superior e indicativo de necessidade de intervenção.
Vale ressaltar que a transformação dos dados em percentis é guiada por parâmetros diferenciados para meninos e meninas, sendo atribuídos zero pontos para a resposta “Nunca”, um ponto para “Algumas vezes” e dois pontos para a resposta “Muito frequente”, a fim de, posteriormente, calcular os escores de acordo com o manual e a amostra normativa do instrumento.
Quanto à entrevista, a transcrição das falas foi feita adequando-as às normas ortográficas e, para a montagem do corpus de análise, foram utilizadas as normas elencadas por Marcuschi (1986).
Quadro 9- Resumo explicativo das normas de Marcuschi
CATEGORIA SINAIS
Falas simultâneas [[
Sobreposição de vozes [
Sobreposição localizada [ ]
Pausas e silêncios (+) pausas de até 1.5 segundos
(2,0) pausas com mais de 1.5
segundos, indica-se o tempo.
Truncamentos bruscos /
Ênfase ou acento forte CAIXA ALTA
Alongamento de vogal :::
Comentário do analista (())
Silabação -
Fonte: Marcuschi (1986).
Sinais de entonação ” subida rápida ’
subida leve
, descida leve ou simples
Repetições E e e; ca ca cada
Pausa preenchida, hesitação Eh, ah, oh, ih, ahã
Indicação de transição … ou /…/
parcial ou de eliminação
Fonte: Marcuschi (1986).
Além das normas de Marcuschi (1986), elencadas no Quadro 9, e das normas ortográficas, foi necessário acrescentar o parênteses simples, para indicar uma fala dentro da própria fala do entrevistado e também o texto sublinhado, dando destaque dentro do excerto.
A transcrição das falas foi iniciada no dia seguinte ao da entrevista e retomada uma semana depois de sua finalização, para uma segunda leitura, juntamente com a escuta do áudio e correção do que julgamos necessário. Esse processo deixa a transcrição mais fidedigna e é denominado, na literatura científica, por concordância intrajuízes (DUARTE, 2004).
A análise de conteúdo das entrevistas foi efetuada separadamente, nos dois grupos, levando-se em conta os pressupostos de Bardin (2016). Essa autora torna possível uma técnica de análise, por meio de procedimentos sistemáticos e objetivos. Desse modo, foi permitido ingresso da pesquisadora em questões mais subjetivas presentes nos participantes e inferências, de acordo com os resultados dos instrumentos quantitativos.
Na primeira etapa, distinguida pela autora como pré-análise, foi realizada a “leitura flutuante” (BARDIN, 2016, p. 126) das transcrições das entrevistas e, assim, foi constituído o corpus a ser submetido à análise. Para sua construção, foram respeitadas as regras de exaustividade, representatividade, homogeneidade e pertinência. Assim, buscamos, com várias leituras das transcrições, os elementos necessários para complementar os dados obtidos nos instrumentos quantitativos e responder aos questionamentos da pesquisa.
Na segunda etapa, chamada pela autora de “exploração do material”, foram feitas novas leituras e identificados os temas levantados, com base no roteiro da entrevista e na literatura préexistente.
Foram recortados, como unidade de análise, alguns dos temas previstos no roteiro, mas também os que não haviam sido, porém, surgiram na fala dos entrevistados. Seguindo os pressupostos da autora, essas unidades de análise são agrupadas por critério semântico, ou seja, categorias temáticas, e não em nível linguístico (como palavras ou frases). A autora critica os critérios rigorosos e objetivos de análise, mas argumenta que, em muitos casos, essa correspondência acaba existindo, como “palavra-tema” e “frase e unidade significante” (BARDIN, 2016, p. 134).
A categorização tem como objetivo fornecer uma “[…] representação simplificada dos dados brutos.” (BARDIN, 2016, p. 149). A autora ressalta que essa categorização pode ser realizada de duas maneiras diferentes: uma, na qual essas categorias existem previamente e repartem os elementos, à medida que vão sendo levantados, o chamado “procedimento por caixas”, e outra, na qual o sistema de categorias é feito a posteriori e é resultante da classificação progressiva dos elementos. É denominado “procedimento por acervo”.
Na análise empreendida nesta pesquisa, foi usada uma combinação dos dois processos supracitados, posto que, como já frisado, as unidades de análise foram formadas a partir de alguns dos temas previstos no roteiro, contudo, sem ignorar os que não estavam previstos e surgiram na fala dos entrevistados.
Aqui, utilizaremos também a verificação da presença ou ausência de determinadas categorias em cada grupo.
Para a determinação das categorias, foram consideradas a exclusão mútua, homogeneidade, pertinência, objetividade, fidelidade e produtividade, respeitando-se os pressupostos de Bardin (2016).
Embora tenhamos objetivado contemplar todos os entrevistados em pelo menos um excerto, o número de categorias e o número de excertos por participante acabam refletindo aspectos como número de indicadores presente no estudante, vocabulário, fluência verbal, predisposição para compartilhar as informações e tempo de duração da entrevista.
Vale ressaltar que, ao adotar a técnica da análise de conteúdo, muitas vezes não se tem relação do dado levantado e analisado com o questionamento que incita a fala do entrevistado.
Procedemos, assim, à terceira etapa, de tratamento e interpretação dos resultados obtidos. Os quadros de análise foram montados separadamente, nos dois grupos (Quadros 11 e 12).
Pelas análises efetuadas em cada instrumento, foram traçadas interpretações e inferências baseadas nas pesquisas anteriores na área, com vistas à realização da triangulação dos resultados.
No capítulo seguinte, são apresentados e discutidos os resultados obtidos com os procedimentos descritos anteriormente.